5 de junho de 2016

Derrubar as democracias latino-americanas por trás das mentiras da mídia

John McMurtry

Tradução / A primeira reflexão começou como uma carta a um jornal de grande circulação internacional que frequentemente publica o que escrevo. Mas os golpes orquestrados pelos EUA para derrubar governos em toda a América Latina são indizíveis na mídia corporativa. Nenhuma comunicação se publica que ligue os pontos na ação comandada pelos EUA para destruir partidos políticos e quaisquer alternativas democráticas. É assim que se exerce o poder do sistema devorador de vidas, que consegue prosseguir na obra de depredação do mundo, agora dedicado a depredar estados latino-americanos cujas eleições aquele sistema não tenha conseguido controlar.

No artigo de primeira página do Guardian Weekly "Venezuelans angry for reform" (27/5-2/6), a palavra "reforma" só aparece na manchete. Entrevistam-se pessoas que querem "comida" e "bens básicos" numa dita "sociedade socialista" – conversa muito conhecida de tempos passados. Da crise, só falam os que falam contra subsídios e compradores consumistas frustrados.

A campanha geral, em todos os fronts, apoiada pela oligarquia americana, mídia corporativa e gangues de bandidos que operam para manter artificialmente baixo o preço do petróleo por orientação de Wall Street, é como se não existisse. A mesma lógica privada que se vê na cobertura pelos veículos da mídia corporativa governa a versão oficial de todos os golpes que devoram a América Latina contra o que os cidadãos tenham decidido em eleições, do Brasil a Honduras.

Na sequência, depois do artigo que trata da Venezuela, Social policies scaled back in Brazil, lê-se então o que realmente significa a palavra "reforma". Reformar significa, nesse idioma "cortar gastos previstos para atendimento público à saúde", "limitar o sistema de alívio às famílias mais pobres" e outras reformas desse tipo, que só fazem privar os cidadãos mais pobres e a sociedade em geral de alguns bens da vida coletiva que representantes de projetos de atendimento à sociedade são eleitos para prover.

Venezuela e Brasil não estão sozinhos como alvos desse movimento de proporções continentais de atentado às infraestruturas da soberania e da vida pública democráticas. Programas sociais que prosperavam em toda a América Latina estão sendo desmontados, descartando-se as conquistas de mais de 15 anos de eleições justas e desenvolvimentos com vistas ao capital humano e vital. Correspondente avanço financeiro-facista usurpou os estados sociais da Grécia e da Ucrânia, para drenar completamente todos os sistemas de apoio à sociedade e arrancar do próprio povo compensações pelo colapso do sistema de bancos privados. Aqui também desestabilizações e golpes para impor governos sem qualquer legitimidade eleitoral são o modus operandi.

Todas as sociedades estão, de fato, sendo redefinida e devolvidas aos procedimentos de predação financeira da saúde pública, a derradeira carnificina que nenhum veículo, nem da mídia estatal nem da mídia corporativa informa, e que nenhuma eleição jamais legitimou. Esconder o vasto assalto a conquistas dos povos, por trás de vastas mentiras, eis a moral da história de um lado e de outro dos oceanos.

Liquidar serviços públicos e vida social pública, para garantir ganhos financeiros aos mais ricos é a verdade sempre ativa e sempre ocultada de todos os golpes. Venezuela já é alvo de ataques desse tipo desde antes de 1999. Governos progressistas eleitos em Honduras e no Paraguai também foram derrubados por golpes de direita aprovados pelos EUA. O governo da Argentina foi financeiramente estrangulado e assaltado pela histeria dos jornais e jornalistas e por cortes judiciais que apoiavam os fundos abutres.

O governo eleito do Brasil foi derrubado por políticos gangsteres que escapam de serem julgados e condenados por roubo contra o estado, e que se lançam em golpe contra a presidenta eleita democraticamente com 54 milhões de votos – e contra a qual não há nenhuma acusação. Equador e Bolívia entraram agora também na linha de tiro.

Em todos esses casos, a estratégia transnacional é ataque massivo e incansável por jornais e redes de TV e jornalistas, e acusações incansáveis, sem sentenças e sem provas, contra políticos eleitos –, para reverter os avanços sociais, depois de esses projetos regressistas e de direita terem sido derrotados nas urnas, vezes sem conta.

Mas os elos explicativos jamais chegam às conversas de rua. Governos eleitos são acusados, e as privações crescentes que sofrem os mais pobres são desconectadas de suas causas reais: assim trabalham as forças do "partido dinheiro". Essas mesmas forças têm raízes nos esquadrões da morte de ditaduras passadas, sempre excluídos das narrativas oficiais, dentro e fora das sociedades vítimas.

Mesmo depois que até o FMI admite que seus programas de austeridade falharam, prosseguem a propaganda dita jornalística e a destruição das estruturas da sociedade. Assim, as políticas e os governos mais avançados eleitos na América Latina desde as ditaduras que assassinaram em massa nos golpes liderados pelos EUA nos anos 1950 estão sendo hoje revertidas, mediante operações mantidas secretas, longe dos olhos e ouvidos dos cidadãos eleitores. As manchetes ditas jornalísticas são construídas para nos induzir ao erro de crer que os eleitores por alguma razão apoiariam o assalto contra seus estados sociais eleitos. O assalto-golpe, assim como o noticiário, são apoiados por esquemas financeiros amplos, de sabotagem contra a sociedade e as eleições, e em todos os casos apoiados por Washington e Wall Street.

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