17 de junho de 2016

Diplomatas com morte cerebral: Por que 51 funcionários americanos do departamento de Estado "discordam" de Obama e pedem para bombardear a Síria?

Um telegrama interno preocupante assinado por uma série de diplomatas dos EUA acusam Obama por não ter atacado a Síria antes.

por Vijay Prashad

AlterNet

Tradução / Perto de meio milhão de pessoas morreram na Síria, com o país caíndo mais e mais no esquecimento. Os dados sobre o sofrimento dos sírios é desconcertante, mas mais surpreendente é que a expectativa de vida da Síria diminuiu em mais de 15 anos desde que a guerra civil começou. Por um lado, o ISIS detém territórios, enquanto do outro uma guerra fratricida coloca o governo Assad contra um grupo heterogêneo de rebeldes que vão desde pequenos bolsões de socialistas a vastas legiões de extremistas apoiados pela Al Qaeda. Nenhuma saída fácil para esta situação parece possível. A confiança é escassa. O processo de paz é frágil. A brutalidade é o ânimo.

O que a América deve fazer? Aos olhos de 51 diplomatas americanos que ainda não compreenderam os resultados negativos das guerras desastrosas lançadas desde 2002, a solução é bombardear o mundo em imagem da América. Em um telegrama de dissidência interna dirigida a Barack Obama, diplomatas experientes pediram ataques aéreos sobre o governo de Bashar al-Assad na Síria.

Chas Freeman, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo, disse que o telegrama lhe pareceu "não usual" em pelo menos dois aspectos.

Primeiro, o telegrama leva várias assinaturas. A maioria dos que assinam o telegrama, disse um funcionário do departamento de Estado, são diplomatas "da casa" – como um vice embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford; e um secretário do Gabinete de Oriente Próximo. Todos têm boa compreensão da situação atual naquela região.

A segunda razão pela qual o telegrama é "não usual", aos olhos do embaixador Freeman, é que "os signatários argumentam a favor, não contra, o uso de força." Ao longo dos últimos 40 anos, diplomatas usaram várias vezes o "canal da discordância" para trabalhar contra uma ou outra avançada de guerra. Agora, aqueles diplomatas exigem intensificação da guerra.

Apertar Obama, elevar Clinton

Por que os diplomatas manifestam sua discordância agora e por que o telegrama foi vazado para a imprensa? Um ex-embaixador, com experiência no Oriente Médio, disse que vazar aquele telegrama foi erro.

"Alguém decidiu vazar" – disse-me ele –, "por algum motivo irracional. Ação tão escancaradamente errada como essa é com toda a certeza politicamente e diplomaticamente contraproducente".

Por que é contraproducente? O telegrama não produzirá o resultado ao qual visam aqueles diplomatas. Mas mesmo assim o telegrama serve para trazer a política dos EUA para o domínio dos procedimentos diplomáticos.

Os diplomatas talvez esperassem que o presidente Obama leria o telegrama e correria a disparar bombas contra as quais ele sempre se posicionou? Ninguém assume que Obama imediatamente despacharia jatos para bombardear Damasco. Até aqui Obama sempre foi cauteloso, porque parece compreender que os efeitos de tais intervenções podem ser piores que qualquer resultado que possa pesar a favor delas. Hoje já é bem sabido que, em 2011, Obama opôs-se à entrada dos EUA no conflito líbio. Os franceses eram os mais ansiosamente dispostos a mergulhar naquela guerra – e quem levou a mensagem dos franceses para Obama foi a secretária de Estado Hillary Clinton. Ela – com a Embaixatriz dos EUA na ONU, Samantha Power – convenceram Obama a apoiar o movimento da OTAN na Líbia. Há pouca indicação de que Obama quer expandir o caos na Síria por bombardeio do Exército Árabe da Síria e as instituições do Estado em Damasco..

Será que os diplomatas – muitos dos quais são fieis a Hillary Clinton, como me disse um ex-embaixador – vazaram o telegrama para reforçar a narrativa de Clinton, de que quer ataque mais robusto contra Damasco, já desde 2012? Será campanha de publicidade para Clinton, e preparação para o que será a provável política para o Oriente Médio, no caso de ela chegar ao poder em 2017? Clinton com certeza advogou ação militar muito mais dura na Síria. Uniu-se a David Petraeus, que dirigia a CIA para pressionar na direção de que se criasse um exército rebelde sustentado pelos EUA, em 2012; e falava a favor de ataques aéreos, quando ninguém mais na Casa Branca sentia qualquer inclinação nessa direção. No ano passado, Clinton queria que se criasse uma "zona aérea de exclusão", expressão aparentemente inócua, que serviria como pretexto para a Síria atacasse aviões dos EUA ou da Turquia, e o conflito, assim, assumisse afinal proporções de guerra em grande escala. Se alguém carrega a tocha para esses diplomatas, é Hillary Clinton. Sua sensibilidade em relação à mudança de regime parece compartilhada por essas pessoas. Guerra, para eles, não é o colapso da diplomacia; é um instrumento de diplomacia.

Multipolaridade

O embaixador Freeman diz que os diplomatas, naquele telegrama, "abraçam o uso da força sem a conectar a qualquer estratégia diplomática, e aceitam o pressuposto, tantas vezes desmentido, de que a mudança de regime produzirá paz, não complexidades políticas ainda maiores, ou anarquia." É a parte mais estranha do telegrama: ele não inclui nenhuma previsão detalhada do que aconteceria depois de Assad.

Onde estão os liberais sírios – instrumento preferido da mudança de regime à moda EUA? Não aparecem no quadro. A Fraternidade Muçulmana e os agentes apoiados pelos sauditas dominam a liderança da oposição síria em Istanbul. Qatar, Arábia Saudita e Turquia os sustentam integralmente. Não são seduzíveis pelos confortos e luxos do liberalismo norte-americano. Os mais ferozes combatentes rebeldes na Síria obedecem à al-Qaeda e a seus muitos subgrupos e divisões. Os rebeldes apoiados pelos EUA são fracos; mas os curdos apoiados pelas Forças Democráticas Sírias são menos comprometidos com os EUA do que com seus próprios interesses curdos. É ingenuidade crer que pequenos bandos de combatentes de vilas como Kafran conseguiriam controlar a dinâmica local depois de ataques aéreos dos EUA contra Damasco. Os beneficiários desses ataques seriam, com muito maior probabilidade, as foças terroristas mais selvagens que militam no campo rebelde.

O mais surpreendente naquele telegrama é que ele interpreta derivas objetivas nas relações geopolíticas, como se fossem erros subjetivos. É erro elementar, para observadores de relações internacionais.

O telegrama culpa Obama por não ter atacado antes a Síria, e exige que o presidente ataque agora. Mas Obama não atacou a Síria em 2013, porque reconheceu – corretamente – que russos, chineses e a grande maioria do Sul Global (inclusive a Índia) opunham-se profundamente a mudança de regime pela força.

Os russos afinal intervieram diretamente em 2015 precisamente para pôr fim a qualquer consideração a favor de mudança de regime pela força. O deslocamento para lá dos mísseis terra-ar S-400 dos russos poria qualquer ataque dos bombardeiros americanos em confronto direto com os russos. Essa situação é extremamente perigosa. Os velhos hábitos da unipolaridade dos americanos, desenvolvidos desde a Guerra do Golfo 1, em 1990, já não se aplicam a mundo, hoje, cada dia mais multipolar.

Não foi alguma timidez de Obama que levou ao fracasso o bombardeio aéreo contra a Síria, como argumentam os diplomatas, mas a crescente confiança de algumas potências mundiais, que começam a levantar a cabeça para confrontar a preponderância dos EUA. Que os diplomatas não vejam essa evidência sugere que ainda tenham compreensão insuficiente do mundo contemporâneo.

O embaixador Freeman sugere que os diplomatas estejam fazendo um gesto moral, que estão simplesmente lavando as mãos, tirando o corpo, do fiasco dos EUA na Síria. Talvez estejam querendo dizer: não somos responsáveis pela destruição da Síria; e se você tivesse bombardeado a Síria antes, a situação hoje não seria tão difícil. Dado que os diplomatas "não oferecem qualquer argumento no sentido de explicar que resultado visam a alcançar com o gesto deles" – diz o embaixador Freeman –, é difícil levá-los a sério. Não há nada de errado num clamor que brote da alma... mas é perigoso fazer política baseado exclusivamente em ira e frustração.

O canal da discordância

A mais importante crítica interna contra a política dos EUA apareceu em 1971, em Dhaka, quando o cônsul-geral dos EUA, Archer Blood, enviou telegrama a Washington no qual criticava o apoio que os EUA estavam dando ao Paquistão, para os massacres que aconteciam no (então) Paquistão Oriental. "Nosso governo manifestou o que muitos considerariam bancarrota moral" – escreveu Blood em nome de 19 outros diplomatas, no que adiante ficaria conhecido como o Telegrama Blood. Era clara condenação do poder dos EUA. O Telegrama Blood sugeria que o apoio dos EUA ao Paquistão dava ao Paquistão confiança para prosseguir com os massacres na província oriental. Conclamou os EUA a pressionarem o Paquistão para que não agissem como estavam agindo. O secretário de Estado Henry Kissinger ficou furioso. Blood foi chamado de volta a Washington e silenciado. Era mais importante cultivar o Paquistão como porta aberta para a China – como aconteceu em 1972. Todos os que morreram em Bengala Oriental tinham de ser sacrificados por um objetivo maior: a reaproximação entre EUA e China, contra a União Soviética.

Blood compreendeu que o governo dos EUA tinha ascendência sobre o Paquistão. A 7ª Frota dos EUA navegava pelo Golfo de Bengala para pressionar a Índia – apoiada pelos soviéticos – a não intervir (eu era menino em Calcutá, e cobríamos as janelas com papel preto – para o caso de os navios dos EUA se aproximarem). Mesmo assim, a Índia interveio e ajudou a pôr fim aos massacres. Blood acertara – como ele mesmo me disse ao telefone, com melancolia, de sua casa em Fort Collins, Colorado, um ano e pouco antes de morrer (telefonei para falar com ele sobre a iminente Guerra do Iraque). Foi em resposta ao Telegrama Blood, que o Departamento de Estado criou o "canal da discordância" (não em resposta à Guerra do Vietnã, como Mark Landler diz no New York Times).

O "canal da discordância", disse o ex-embaixador que trabalhou no Oriente Médio, deve servir como "um canal interno para apresentar ideias e opiniões à liderança." Mas essa ação – com o movimento para a publicidade – não ajudará os objetivos da diplomacia dos EUA. Nem ajudará o povo sírio.

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