25 de junho de 2016

Israel deve ser profundamente perturbado pelo voto Brexit

Jonathan Cook

Mondoweiss

Tradução / Saberes correntes dizem, depois de anunciado o resultado do referendo na Grã-Bretanha na sexta-feira, que a diferença pequena a favor de o país deixar a União Europeia – dito Brexit– é prova de que parte da Europa estaria re-afundando no nacionalismo e no isolacionismo. São saberes errados ou, no mínimo, muito simplistas.

O resultado, que surpreendeu muitos observadores, atesta a natureza profundamente viciosa da campanha que precedeu o referendum. Isso, por sua vez, refletiu uma falha chave da política moderna, não só na Grã-Bretanha, mas em quase todo o mundo desenvolvido: a reemergência de uma classe política absolutamente opaca, sem transparência, da qual não se exige que preste contas de coisa alguma, a ninguém.

O traço mais claro da campanha foi a ausência de campo de batalha ideológica identificável. Não se discutiram visões de mundo em confronto, valores ou sequer argumentos de qualquer tipo. O que se viu foi um concurso para ver quem metia mais medo no adversário, mais efetivamente.

O comando da ala Brexit adotou a pose familiar do Little Englander: a União Europeia não controla as fronteiras; o influxo, para a Grã-Bretanha, de emigrados do leste-europeu, que fogem dos baixos salários, e a ameaça de milhões de refugiados saídos de zonas em crise como a Síria estariam criando uma mistura tóxica que teria completamente esvaziado de sentido o status do Reino Unido como ilha com trono e cetro.

O comando do campo "Permanece" [Remain] negociou uma espécie diferente de medo. Brexit levaria os capitais a fugirem do Reino Unido e com os capitais lá se iria também a elite econômica a ele associada. O colapso da libra quebraria o país e esvaziaria as pensões e aposentadorias. A Grã-Bretanha deixaria de ser um player na moderna economia global.

Além disso, os que defendem a União Europeia tinham outra carta na manga. Acusaram apoiadores do Brexit de serem racistas e xenófobos que preferem culpar imigrantes a admitir que a desgraça econômica deles é efeito de fracassos e erros também deles.

Caixa de Pandora

Estabelecido isto – e é difícil superestimar o quão simplista o confronto os argumentos de ambos os lados foram – é mais fácil entender por que o campo do Brexit ganhou.

O referendo na União Europeia abriu uma bolsa de Pandora de divisões enraizadas nas classes, que muitos esperavam que tivesse sido fechada para sempre no período do pós-guerra, com o avanço temporário do estado do bem-estar e de políticas social-democratas.

Embora inadvertidamente, os líderes do "Permanecer" puseram-se a defender a causa de uma elite rica que incluía banqueiros e gerentes de fundos de investimentos que até recentemente haviam sido publicamente vilipendiados pelo papel que desempenharam no crash financeiro de 2008.

Foi uma bofetada na cara da classe trabalhadora, e também da classe média que pagou o preço pelas temeridades da elite econômica e pelos desperdícios interessados e pelas subsequentes exigências de resgates gargantuescos.

Os favoráveis à União Europeia – que tipicamente sofreram menos por causa do crash de 2008 – só fizeram acrescentar insulto à injúria, ao rotular suas vítimas de "racistas" por exigirem garantias de que os políticos eleitos trabalhariam para defendê-las, não para defender uma elite econômica.

Pilhagem econômica

Pode-se dizer, sim, que a União Europeia nem é a principal responsável pelos problemas que os trabalhadores britânicos enfrentam. Desde a ascensão Margaret Thatcher no final dos anos 1970, figuras britânicas de todo o espectro político cresceram profundamente escrava de um agenda neoliberal que mutilou direitos que os trabalhadores muito lutaram para alcançar.

É revelador que alguns dos super-ricos – inclusive magnatas da mídia – tenham trabalhado a favor de a Grã-Bretanha separar-se da UE. Bem visivelmente, acreditam que, fora da UE, terão condições para pilhar a economia britânica em velocidade ainda mais alta, sem serem contidos pelas regras da UE.

Mas a UE passou a ser o bode expiatório para o ressentimento popular contra o consenso neoliberal – e por bons motivos.

A UE é vista, corretamente, como uma das instituições transnacionais chaves que facilitam o enriquecimento de uma elite global. E tornou-se um enorme obstáculo para os Estados membros reformassem suas economias por vias que não implicassem austeridade, como os gregos dolorosamente logo descobriram.

Essa é a causa profunda da alienação experimentada por partidários ordinários do Brexit. Mas infelizmente ninguém na liderança nem dos pró-"Permanecer" [Remain] nem dos pró-"Brexit" articulou com seriedade aquela frustração e aquela ira, ou ofereceu soluções que visassem àquelas ansiedades. Os pró-"Permanecer" rejeitaram arrogantemente os medos do outro lado, que chamaram de "racismo".

Serviu muito bem à liderança dos pró-"Brexit", que reunia figuras da extrema direita no partido Conservador, como Boris Johnson e Michael Gove, além de Nigel Farage dos "independentes", perfeitamente acabada versão britânica de Sarah Palin.

Esse clube de milionários, claro, não estava interessada nas agruras pelas quais passa o novo precariado da Grã-Bretanha – uma classe trabalhadora permanentemente aprisionada nas garras da economia precária. Só queriam os votos dessa gente. Alimentar o medo contra os migrantes foi a via mais fácil para conseguir os votos – e desviar a atenção do fato de que os milionários sempre foram os reais culpados por trás do empobrecimento das pessoas comuns.

Ninguém ama a União Europeia

O apoio ao Brexit foi ainda mais reforçado pelo pálido desempenho dos cérebros do campo pró-"Permanecer". A verdade é que os líderes dos dois principais partidos, investidos da tarefa de defender a União Europeia, quase não estavam convencidos nos méritos das respectivas próprias causas.

O primeiro-ministro David Cameron é eurocético de longa data, que privadamente distribui praticamente a mesma desconfiança contra a UE, de Johnson e Gove.

E o recentemente eleito líder da oposição Trabalhista, Jeremy Corbyn, tampouco é amante da UE, embora por razões muito diferentes das razões da direita.

Corbyn é parte da velha guarda do partido Labour – relíquia de uma ala socialista democrática do Labour do pós-guerra que foi quase toda expurgada no período de liderança de Tony Blair. O Labour sob Blair converteu-se em versão "light" do partido Conservador.

E aqui chegamos ao cerne do problema com a campanha do referendo.

Há argumentos fortes e sérios, pela esquerda, à favor de Brexit, baseados em princípios social-democráticos e internacionalistas, que Corbyn teve medo de abraçar em público, temendo que essa decisão rachasse seu partido ao meio. Assim, deixou desguarnecido o campo para a liderança de direita pró-"Brexit" e aquela repugnante campanha de gerar medos.

O argumento da esquerda pelo Brexit

O argumento da esquerda contra a União Europeia foi várias vezes exposto por Tony Benn, ministro do Labour nos anos 1960 e 1970. Em um debate em Oxford Union em 2013, um ano antes de morrer, Benn observou: "O modo como a Europa se desenvolveu só tem a ver com banqueiros e corporações multinacionais que obtiveram posições de muito poder e, se você chega sob os termos deles, eles dirão o que você pode e o que não pode fazer – e isso é inaceitável.

A minha visão sobre a União Europeia sempre foi esta, não que seu seja hostil a estrangeiros, mas sou a favor da democracia. ... Eu acho que eles estão construindo um império lá."

Quase 40 anos antes, em 1975, durante um referendo semelhante sobre deixar o que então se chamava Comunidade Econômica Europeia, Benn apontou que o que estava em jogo era a democracia parlamentar britânica. E que só ela "nos ofereceu possibilidade de mudança pacífica; reduziu o risco de conflitos sociais; e nos manteve juntos, criando um contexto nacional de consentimento por todas as leis sob as quais somos governados."

Aquele alerta sobre "conflitos sociais" soa hoje assustadoramente profético: a campanha do referendo afundou-se no mais feio divisionismo político público de que se tem notícia.

Para os bennistas e a esquerda progressista, o internacionalismo é componente vital da luta coletiva pelos direitos dos trabalhadores e dos pobres. Quanto mais fortes forem os trabalhadores em todo o mundo, menos facilmente serão explorados pelas políticas de dividir para governar, dos ricos.

Mas a globalização, por seu lado, tem por premissa um internacionalismo muito diferente e muito estreito: internacionalismo que demanda livre trânsito do trabalho, porque assim protege os direitos dos super-ricos, de reduzir sempre salários e direitos dos trabalhadores; internacionalismo que, além disso, dá plena liberdade à mesma elite econômica para esconder os próprios lucros em remotos paraísos fiscais.

A globalização, em outras palavras, trocou o campo em que se trava a luta de classes, do estado-nação, para todo o globo. Permitiu que a elite econômica transnacional se movimente pelo mundo, explorando a favor dela mesma qualquer buraco que consiga encontrar nas nações mais frágeis, e forçando outras nações a fazer o mesmo. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora e a classe média viram-se sem defesas, quase completamente sitiadas em seus guetos nacional e regional, e jogadas uma contra a outra, no livre mercado global.

Corbyn não quis correr riscos

Corbyn não podia dizer nada disso, porque o partido parlamentar Labour ainda está cheio de blairistas que fervorosamente apoiam a UE e estão desesperados para derrubá-lo. Se ele tivesse saído em defesa do Brexit, eles teriam tido a desculpa perfeita para lançar um golpe. (Agora, paradoxalmente, os blairistas finalmente encontraram um pretexto para apunhalá-lo pelas costas porque o campo Permanecer fracassou.)

Em vez disso Corbyn optou pela via que ele pensava ser a mais segura, o meio-termo: o Reino Unido deve permanecer na UE, mas tentar reformá-la de dentro.

Isso foi um erro duplamente trágico.

Primeiro, ela significava que não havia nenhuma figura proeminente fazendo uma defesa progressista do Brexit. Muitos eleitores comuns sabem no fundo de seus corações que há algo de profundamente errado com o consenso neoliberal e a ordem econômica mundial, mas foi deixado para a extrema-direita oferecer-lhes uma lente através da qual interpretar sua experiência vivida. Pisando de lado, Corbyn e a esquerda verdadeira permitiram a Johnson e Farage forjar o argumento da pequena Inglaterra em defesa do Brexit.

Em segundo lugar, os eleitores estão cada vez mais desconfiados dos políticos. Nem Cameron nem Corbyn souberam expor suas verdadeiras ideias sobre a Europa; e esse fracasso reforça as razões para pressupor o pior, em todos os casos, contra todos os políticos. Obrigados a escolher entre a posição desconfortável e superficial dos líderes do "Permanecer", e a convicção da direita de Johnson e Farage, as pessoas preferiram o fervor.

Política comprometida 

Este é um fenômeno muito mais amplo. A concessão que Corbyn fez aos blairistas é mais um exemplo da mesma política sem convicção alguma, feita só de conformismo ante o mal-menor que hoje exige que Bernie Sanders diga a seus seguidores que votem em Hillary Clinton, belicista em chefe do complexo militar-industrial, para impedir que um bilionário vândalo de boca suja, Donald Trump, chegue à presidência.

Cada vez mais, as pessoas sentem-se enojadas diante de tantas concessões, que perpetuam e intensificam a desigualdade e a injustiça, em vez de liquidá-las. Os eleitores em geral simplesmente já não sabem quais alavancas ainda restam ao alcance deles para mudar a horrível realidade que veem  diante dos olhos.

O resultado disso é uma política cada vez mais febril, frenética e polarizada. Os resultados são cada dia mais incertos, seja Corbyn conseguir chegar à liderança do partido Labour, seja Sanders conseguir deslocar Clinton já à entrada da convenção dos Democratas, seja Trump, que ainda têm chances impressionantes de vir a ser presidente dos EUA.

A velha ordem cai aos pedaços, porque já caiu em completo descrédito, e os que a comandam – uma elite política e econômica – são desprezados mais do que nunca, e nunca tão poucos acreditaram realmente neles. A União Europeia é, em muitos sentidos, parte da velha ordem.

Há uma questão genuína, de se, fora da União Europeia, será possível fazer os reparos de que a Grã-Bretanha carece. O sistema eleitoral britânico é tão pouco representativo, que não se sabe se, ainda que a maioria dos eleitores escolha alguma nova política, ela realmente alcançará maioria de votos dos deputados e representantes.

Mas o que é bem claro para muitos eleitores é que dentro da UE será ainda mais difícil consertar o Reino Unido. A união só faz acrescentar mais uma camada de burocratas e lobbyistas opacos, transparência-zero, que falam por bilionários sem rosto, e que existem para distanciar ainda mais o povo comum, dos centros de poder.
Tendência preocupante para Israel

Por fim, vale a pena registrar que as tendências que subjazem à votação pró Brexit provavelmente perturbarão o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, como já estão perturbando a classe política na Europa e nos EUA.

Como a UE, Israel também é um dos pilares vitais que sustentam a velha ordem global. Um "lar judeu" emergiu para o mundo sob proteção dos britânicos, quando ainda comandavam um império e viam o Oriente Médio como playground deles.

Depois que as potências coloniais europeias foram penduradas, depois da II Guerra Mundial, o papel de patrão foi transferido para o novo hegemon global em Washington. Os EUA são infinitamente indulgentes com Israel, fazem-se de guarda-costas de Israel na ONU e subsidiam pesadamente as poderosas indústrias militares de Israel.

Assim como os EUA promoveram Israel diplomaticamente e militarmente, a UE é avalista do sucesso econômico de Israel. A UE violou a própria Constituição para dar a Israel status especial de comércio, e assim fez da Europa o principal mercado exportador de Israel. Foram décadas antes de a Europa pelo menos reconhecer – de remediar e corrigir, ainda não se fala – que negocia também com os assentamentos ilegais na Cisjordânia.

Se a UE começa a se esfacelar, e a hegemonia neoliberal dos EUA enfraquecer, Israel terá problemas. Ficará na posição de precisar desesperadamente de outro avalista-guardião, disposto a apoiar um país que pesquisas mostram repetidas vezes que absolutamente não goza da confiança do mundo.

Mas mais imediatamente, Israel deve temer o novo clima de política polarizada, imprevisível, que vai virando norma.

Nos EUA, especialmente, um consenso suprapartidário sobre Israel está gradualmente rachando. Preocupações sobre interesses locais – do tipo que se viram mobilizadas pelos pró-Brexit – estão ganhando tração também nos EUA, como se viu ano passado, nos ecos do impasse que se criou entre Israel e a Casa Branca em torno do acordo dos norte-americanos com o Irã.

A desconfiança contra a classe política só faz crescer dia a dia, e Israel é um ponto no qual os políticos norte-americanos são supremamente vulneráveis. É a cada dia mais difícil defender, como se tivesse algo a ver com interesses realmente norte-americanos, o apoio monolítico histórico que o Congresso sempre deu a Israel.

Num mundo de recursos que se vão esgotando rapidamente, onde se exige cada dia mais da classe média que aperte o cinto, questões sobre por que os EUA planejam aumentar dramaticamente a ajuda que dão a Israel – uma das poucas economias em todo o mundo que se tem dado bem depois do crash de 2008 – provavelmente será cada vez mais desconcertante.

No longo prazo, nada disso é um bom presságio para Israel. Brexit é simplesmente a sirene de alerta

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