13 de maio de 2014

Piketty e o “espírito do tempo”

Dani Rodrik

Project Syndicate

Ultimamente, onde quer que vá e com quem quer que me encontre, sou invariavelmente abordado com a mesma questão: O que pensa de Thomas Piketty? Na realidade são duas questões numa só: O que pensa de Piketty, o livro, e o que pensa de Piketty, o fenômeno?

É muito mais fácil responder à primeira questão. Por pura sorte, fui um dos primeiros leitores da versão inglesa do Capital in the Twenty-First Century ("Capital no Século XXI"). A editora de Piketty, a Harvard University Press, enviara-me uma pré-publicação do livro, na esperança de que eu contribuísse com uma sinopse para a contracapa. Fi-lo de bom grado, uma vez que considerei o âmbito, a profundidade e a ambição do livro impressionantes.

É claro que eu conhecia o trabalho empírico sobre distribuição dos rendimentos que Piketty realizara em conjunto com Emmanuel Saez, Anthony Atkinson e outros. Este trabalho já havia originado novas conclusões alarmantes sobre o aumento dos rendimentos dos super-ricos. Demonstrara que a desigualdade em muitas economias avançadas tinha atingido níveis não observados desde o início do século XX. Era em si um verdadeiro tour de force.

Mas o livro vai muito além do trabalho empírico e conta uma interessante história de alerta sobre a dinâmica da riqueza no âmbito do capitalismo. Piketty alerta-nos para que não nos deixemos enganar pela aparente estabilidade e prosperidade que constituiu a experiência comum das economias avançadas durante algumas décadas da segunda metade do século XX. Na sua história, são as forças contrárias à igualdade e à estabilidade que podem ser dominantes no seio do capitalismo.

Talvez mais do que o próprio argumento, o que torna O Capital no Século XXI uma excelente leitura é a sensação de testemunharmos o modo como uma mente formidável lida com as grandes questões do nosso tempo. A ênfase que Piketty coloca na natureza política da distribuição de rendimentos; a sua alternância sutil entre as leis gerais do capitalismo e o papel desempenhado pela contingência; e o seu empenho em oferecer soluções audazes (ou mesmo, para muitos, impraticáveis) para salvar o capitalismo de si mesmo são tão animadores quanto raros para um economista.

Assim, teria gostado de afirmar a minha intuição ao prever o enorme sucesso acadêmico e popular que o livro viria a ter quando fosse publicado. Na verdade, a reação ao livro foi uma grande surpresa.

Por um lado, o livro não é de leitura fácil. Tem cerca de 700 páginas (incluindo as notas), e, embora Piketty não se alongue muito em teorias formais, não deixa de incluir uma equação ocasional ou letras gregas ao longo do texto. Os revisores deram grande importância às referências de Piketty a Honoré de Balzac e a Jane Austen; a verdade, porém, é que o leitor encontrará sobretudo mera prosa e estatísticas de um economista, ao passo que as alusões literárias são escassas e distantes entre si.

A resposta dos economistas não foi uniformemente positiva. O argumento do livro gira em torno de uma série de identidades contabilísticas que relacionam poupança, crescimento e rendimento sobre o capital com distribuição da riqueza na sociedade. Piketty é perito em dar vida a estas relações abstratas, sustendo-lhes números reais e traçando a sua evolução ao longo da história. No entanto, estas relações são bem conhecidas dos economistas.

O prognóstico pessimista de Piketty assenta numa pequena extensão deste quadro contabilístico. Com base em pressupostos plausíveis – como, por exemplo, o de que os ricos economizam o suficiente – a proporção de riqueza herdada em relação aos rendimentos (ou remunerações) continua a aumentar enquanto R, a taxa média de rendimento sobre o capital supera G, a taxa de crescimento da economia como um todo. Piketty afirma que este tem sido o padrão histórico, com exceção da conturbada primeira metade do século XX. Se é assim que parece o futuro, encontramo-nos perante uma distopia em que a desigualdade aumentará para níveis nunca antes observados.

Contudo, a extrapolação é perigosa no domínio da economia e as provas que Piketty apresenta para defender o seu argumento são pouco conclusivas. Como muitos têm defendido, o rendimento sobre o capital, R, pode, eventualmente, começar a diminuir caso a economia se torne muito rica em capital em relação ao trabalho e outros recursos e caso a taxa de inovação diminua. Em alternativa, como outros já apontaram, a economia global pode ganhar velocidade, impulsionada pela evolução dos países emergentes e em desenvolvimento. A ideia de Piketty tem de ser levada a sério, mas não é uma lei de ferro.

Talvez a fonte do sucesso do livro deva ser procurada no zeitgeist (al.; “espírito do tempo”). É difícil acreditar que o livro pudesse ter tido o mesmo impacto há dez ou mesmo há cinco anos atrás, logo após a crise financeira global, embora na época fosse possível reunir provas e argumentos idênticos. Desde há muito que nos EUA se tem vindo a formar um sentimento de inquietação relativamente à crescente desigualdade. Os rendimentos da classe média continuaram a estagnar ou a diminuir, apesar da recuperação da economia. Ao que parece, atualmente nos EUA é aceitável referir a desigualdade como a questão central que o país enfrenta. Este fato pode explicar por que razão o livro de Piketty recebeu maior atenção nos EUA do que em França, o seu país de origem.

O Capital no Século XXI reacendeu o interesse dos economistas na dinâmica da riqueza e na sua distribuição - um tema que preocupava economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. Trouxe para o debate público detalhes empíricos cruciais e um quadro analítico simples, mas útil. Quaisquer que sejam as razões para o seu sucesso, já prestou um contributo inegável, tanto para os economistas como para o discurso público.

Dani Rodrik é Professor de Ciência Social no Institute for Advanced Study, Princeton, New Jersey. Ele é autor de One Economics, Many Recipes: Globalization, Institutions, and Economic Growth e, mais recentemente, The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy.

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