7 de julho de 2016

A guerra no Iraque não foi um engano ou um erro. Foi um crime

Tony Blair diz que ele não sabia que a ação militar seria desastrosa. Na verdade, ele foi avisado muitas vezes

Owen Jones

The Guardian

Tradução / Tony Blair está condenado. Assistimos a branqueamentos por parte do establishment no passado: do Domingo Sangrento a Hillsborough, as autoridades têm conspirado repetidamente para esconder a verdade em interesse dos poderosos. Mas desta vez não. O inquérito Chilcot estava a converter-se em alvo de sátira ao demorar um tempo ridiculamente longo para executar uma tarefa; mas Sir John passará sem dúvida à história por ditar o veredito mais devastador e exaustivo sobre um primeiro ministro moderno.

Nós, que nos manifestamos contra a calamidade do Iraque, não podemos sentir-nos satisfeitos, só tristes por não termos conseguido evitar uma calamidade que roubou centenas de milhares de vidas, entre elas as de 179 soldados britânicos, e que feriu, traumatizou e deslocou milhões de pessoas, numa catástrofe que cultivou extremismo a um nível catastrófico.

Um legado de Chilcot deveria ser encorajar-nos a sermos mais ousados no desafio à autoridade, a sermos céticos com as afirmações oficiais, a permanecermos firmes contra uma agenda agressiva promovida pela mídia. "Há que aprender as lições", declararão agora os defensores da guerra. Não os deixemos ficar impunes. As lições foram óbvias para muitos de nós antes das bombas começarem a cair.

O que Chilcot fez foi comprovar que as afirmações do movimento anti-guerra não eram teorias da conspiração, ou, afirmações rebuscadas e radicais. "Cada vez mais, parece que temos um governo que está à procura de um pretexto para a guerra e não para a sua prevenção", declarou o deputado anti-guerra do Partido Trabalhista Alan Simpson antes da invasão. E, de fato, como Chilcot revela, Blair disse a George W Bush, em julho de 2002: "Estarei consigo, aconteça o que acontecer”.

Em causa não estava, como Chilcot assinala, uma guerra de "último recurso": esta foi uma guerra de escolha, desencadeada "antes de se terem esgotado as opções pacíficas para o desarmamento". Simpson disse: "Parece que produzimos dossiers de fraude em massa, cujas afirmações são consideradas ridículas quase imediatamente após a sua publicação”. E agora Chilcot concorda que a guerra foi, na verdade, baseada em "informações e avaliações falsas" que não foram "contestadas e que deveriam ter sido". Nelson Mandela estava entre aqueles que, na fase que antecedeu a guerra, acusou Blair e Bush de desautorizarem as Nações Unidas. Chilcot veio dar razão a Mandela: "Consideramos que o Reino Unido estava a... minar a autoridade do Conselho de Segurança”.

Tantos avisos. Um mês antes da invasão, o senador norte americano Gary Hart disse que a guerra iria aumentar o risco de terrorismo. "Vamos atacar um ninho de vespas, e não estamos preparados neste país", alertou.

Um mês antes do conflito, o site anti guerra Dissident Voice escrevia: "Um ataque dos EUA e subsequente ocupação do Iraque irá proporcionar uma nova inspiração - e nova base de recrutamento - para a Al-Qaeda ou outros grupos terroristas, e irá estimular um aumento do risco de terrorismo a longo prazo, seja em solo americano ou contra cidadãos americanos no exterior". Não é desvalorizar os autores assinalar que essa era uma afirmação do óbvio, a não ser para os responsáveis pela guerra e seus apoiadores. Então leia Chilcot: "Blair foi avisado de que uma invasão iria aumentar a ameaça terrorista da Al-Qaeda e outros grupos".

O ex-primeiro-ministro afirmou que o terrível rescaldo foi apenas evidente em retrospectiva, mas a ONG Christian Aid alertou [em fevereiro de 2003] para o "caos significativo e sofrimento no Iraque muito tempo após os ataques militares terminarem". Uma agência humanitária tinha uma muito melhor previsão do que o alto cargo militar, que – numa conversa informal a que assisti na universidade - afirmou que 99% da população do Iraque iria lançar flores aos soldados invasores. Como Chilcot coloca, o governo "não conseguiu ter em conta a magnitude da tarefa de estabilizar, administrar e reconstruir o Iraque".

A alegação risível de Blair está errada: como Chilcot aponta, "as conclusões alcançadas por Blair após a invasão não exigiam uma análise retrospetiva". As ameaças de tudo desde a ingerência iraniana à atividade da al-Qaida "foram explicitamente identificadas antes da invasão". Quando Robin Cook renunciou antes da invasão, declarou que "o Iraque provavelmente não tem armas de destruição em massa no sentido comum do termo". Chilcot condena agora os serviços secretos por acreditarem no contrário.

A Campanha para o Desarmamento Nuclear ameaçou avançar com um processo contra o governo, em 2002, caso fosse para a guerra sem uma segunda resolução do Conselho de Segurança. Vários advogados e Kofi Annan, o então secretário-geral da ONU, estão entre aqueles que, desde então, descreveram a invasão como ilegal.

O parecer original do procurador-geral do Reino Unido, Lord Goldsmith, era, de fato, de que uma guerra sem uma segunda resolução seria ilegal, mas Chilcot destaca que, em declarações posteriores, Goldsmith parece ter, misteriosamente, mudado de opinião.

Apurar a legalidade da guerra pode não fazer parte do mandato do Chilcot. Mas, mesmo assim, Chilcot avança que o processo através do qual o governo obteve a sua base jurídica "não foi satisfatório". Certamente a legalidade desta guerra calamitosa deve agora ser contestada em um tribunal de direito.

Sempre alegamos que a guerra do Iraque foi baseada em mentiras. Ler artigos anteriores à guerra, como “The lies we are told about Iraq” no Los Angeles Times, é realmente instrutivo. O relatório Chilcot não acusou Blair de mentir. Mas é colocado muita ênfase sobre esta questão. Blair estava à partida claramente determinado a ir para a guerra. Baseava-se em provas duvidosas para fazer o seu caso, provas que outros no momento sabiam ser questionáveis. Enganou-se a si mesmo, ou ao público, ou só o conduzia a virtude de um complexo messiânico? Promoveu uma guerra com um plano duvidoso que muitos na época - incluindo 139 deputados trabalhistas - sabiam que iria resultar em desastre. E isso é suficientemente condenável.

Elogiemos o relatório Chilcot por oficializar as verdades que sempre conhecemos, mas estejamos cientes de que isso é tudo o que a investigação alcançou. As verdades que expôs já lá estavam, muito antes de as portas do inferno terem sido abertas - como o secretário-geral da Liga Árabe advertiu que aconteceria, antes da invasão.

Foi a evidência do que ia acontecer que criou o maior movimento anti-guerra da história. Foi um movimento desprezado, sobretudo pela mídia que, em grande parte, apoiaram a corrida para a guerra. Foi tão perverso que aqueles que se opuseram ou criticaram a guerra - dos políticos aos diretores da BBC - perderam os seus empregos, enquanto Blair, desde então, exerceu a sua carreira lucrativa trabalhando para ditadores.

Muitos acólitos desta grande catástrofe ainda mostram pouco remorso ou arrependimento. Alguns até vaiaram o líder trabalhista - que fez campanha tanto contra o apoio britânico a Saddam Hussein quando gazeou os curdos na década de 1980, como contra a invasão de 2003 – quando Corbyn interveio no parlamento esta quarta feira sobre Chilcot.

E o horror continua, os 250 iraquianos mortos por carros-bomba neste fim de semana são um lembrete devastador do caos pelo qual Blair deve assumir responsabilidade. Não foi um engano, não foi um erro ou um lapso: seja o que for que a lei decida, este foi - a partir de qualquer ponto de vista moral - um dos mais graves crimes do nosso tempo. Os responsáveis serão para sempre condenados. Depois de hoje, podemos apontá-los e chamá-los pelo nome.

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