15 de julho de 2016

A promessa de Hollande de responder militarmente ao ataque em Nice continua o círculo vicioso de terror e guerra do Ocidente

Em algum momento, nós, no Ocidente, teremos que aprender que, se intervirmos militarmente no Mali, no Iraque, na Líbia, ou na Síria ou interferirmos na Turquia, no Egito, no Golfo, ou no Magrebe - então nós não estaremos seguros "em casa"

Robert Fisk

The Independent

O ato foi obsceno. A descrição do presidente Hollande - "monstruoso" - foi adequada na medida em que o foi, mas fez ressurgir o velho problema. O que acontece quando três ou quatro centenas de inocentes são mortos por um assassino? Ou quinhentos? Isso tornar-se "realmente monstruoso" ou "muito monstruoso de fato"? Mas a reação política a este crime contra a humanidade em Nice foi deste mundo até o ponto da loucura. Hollande - ou "General Hollande", como a imprensa francesa o apelidou quando ele enviou seus legionários para lutar contra os islâmicos no Mali - anunciou que a França iria "reforçar a nossa ação na Síria e no Iraque."

Claro, entendo a mensagem. Se Mohamed Lahouaiej Bouhlel da Tunísia tivesse algo a ver com o Daesh ou al Nusrah (e, quando falou, Hollande não sabia se isso era verdade), então disparar mais mísseis franceses nas areias queimadas da Mesopotâmia ou no deserto ao redor Raqqa, na esperança de atingir o Daesh não teria nenhum efeito além de reforçar o velho "se sentir bem" ao atacar o "terror mundial" de qualquer forma.

A Tunísia, é claro, está a bem mais de mil milhas da Síria, e nem menciono o Iraque, mas um grupo de árabes assassinos é muito parecido um com o outro para nossas chancelarias e se Bouhlel acaba por ter "raízes no Daesh" - não importa que seja só auto-declarada - então quanto maior as bombas melhor.

Todo aquele que se atrever a apontar isso - e os líderes europeus estão sempre ameaçando o Daesh, assim como o Daesh está sempre ameaçando o Ocidente - é imediatamente expulso da sociedade como um "amigo de terroristas". Há, na verdade, todo um vocabulário de insultos para qualquer um que diz que há razões para estes atos de assassinato em massa que precisamos conhecer, por mais disparatadas que sejam. Atualmente, a correspondência de ódio entre o Daesh e o Ocidente é quase idêntica ao Rei Lear: "Eu vou fazer essas coisas... o que são, ainda assim, eu não sei, mas elas serão os terrores da terra..."

Claro, temo que nas próximas horas seremos inundados com repetições dolorosas de atrocidades do passado: parentes que não tinham "nenhuma ideia" de que seu filho / irmão / sobrinho / tio podia ser um assassino violento, vizinhos que irão atestar que o atacante sempre foi um homem tranquilo (provavelmente, "muito reservado", como dizem), os muçulmanos que voltarão a insistir na tranquilidade da sua religião. Além disso, teremos políticos que prometerão acabar com o "terror" e policiais que vão elogiar seus irmãos de armas pela sua coragem (mesmo quando o ataque em Nice não foi exatamente um triunfo para as forças de segurança francesas).

E vamos esquecer a tensa história colonial da França na Argélia e na Tunísia, o 125º aniversário de seu "protetorado" da Tunísia este ano - e o 70º aniversário da independência da Tunísia - e a presença islâmica que tem crescido assustadoramente dentro do corpo político da Tunísia desde a revolução de 2011. Não é bom sustentar esta história dolorosa como algum tipo de desculpa ou "causa raiz" dos assassinatos em massa em Nice. Mas em algum momento, nós, no Ocidente vamos ter que aprender que, se intervirmos militarmente no Mali ou no Iraque ou na Líbia ou na Síria ou interferirmos na Turquia, no Egito, ou no Golfo, ou no Magrebe - então não será seguro "em casa".

É uma história velha agora. No passado, nós poderíamos embarcar em aventuras estrangeiras na Coreia ou no Vietnã sem nos preocupar com que os norte-coreanos explodissem o metrô de Londres ou que um vietcongue atacasse Nova York com aviões. Não mais. Aventuras estrangeiras têm um custo terrível. Alegar que não têm - ou declarar pomposamente que "suas" bombas em Londres ou Paris não tem nada a ver com as "nossas" bombas no Iraque - é desonesto.

Em algum ponto da história - apesar de não sabermos quão longe no futuro, quando tivermos destruído as bases de nossas próprias liberdades com as nossas próprias novas leis - provavelmente teremos que repensar a nossa relação com o Oriente Médio e com a história. Sim, e com a religião.

Não adianta apenas ruminar sobre a natureza imitativa do crime "islâmico": um repórter da BBC traçou paralelos ontem com palestinos que mataram israelenses jogando o carro em cima deles. Mas o último vídeo de celular que eu vi que tinha um paralelo de escala com Nice era uma sequência horrível captada durante a revolução egípcia de 2011, quando um caminhão do exército egípcio foi lançado em velocidade - e desviou descontroladamente - contra uma multidão de manifestantes pacíficos. Por que não lembramos disso depois de Nice? Porque os assassinos nunca foram apanhados? Porque ninguém se lembra de notícias de ontem? Ou porque as vítimas eram árabes envolvidos em uma briga em um país longínquo entre pessoas de quem se sabe - de um modo geral - nada?

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