11 de julho de 2016

Economista chefe do Deutsche Bank se une ao presidente do SocGen para fomentar a crise para que Bruxelas, Alemanha, pisque

Yves Smith

Tradução / Considerem o novo mundo do outro lado do espelho das crises bancárias à altura de 2016: banqueiros produzem e estocam medos ativamente, para forçar os governos a resgatar bancos.

Em 2008, bancos periclitantes faziam de tudo, tentando persuadir seus contrapartes e o Srº. Mercado de que todos iam muito bem, que estavam ótimos. Lembram-se quantas vezes, sem qualquer efeito, as [empresas] monolines disseram aos analistas que os seguros de contratos deles eram redigidos de tal modo que não tinham de pós-colateralizar coisa alguma e passariam décadas antes de que tivessem de servir-se das garantias podres [subprimes] para fechar as contas? E quanto ao bebê Lehman dos cartazes da crise, que passou meses insistindo que o short seller David Einhorn estava com as fraldas molhadas? Lehman não apenas entrou, em escala massiva, naquela contabilidade inventada (seu Repo 105 foi o maior item considerado isoladamente, mas já vinham publicando avaliações impossivelmente otimistas das ventures comerciais imobiliárias da California Archstone e SunCal), mas até deu jeito de enfiar goela abaixo de JP Morgan colaterais tão podres que o pessoal do Lehman chamava-as de "goat poo" [cocô de cabra]. E, vejam vocês, mesmo que o Goldman Sachs já estivesse vendendo loucamente AIG pelo máximo de dinheiro que conseguisse arrancar, Lloyd Blankfein absolutamente não dizia aos jornalistas que AIG ou outras grandes firmas financeiras estavam nas cordas.

Bem diferente disso, temos hoje altos executivos de bancos empurrando a história de que bancos italianos (e agora também o economista-chefe do Deutsche Bank) e grandes bancos europeus em geral, estão em más condições. Absolutamente não é novidade para quem estiver prestando atenção. Grandes empresas financeiras europeias entraram na crise com níveis de capitalização mais baixos em média que seus contrapartes norte-americanos. Funcionários europeus também fizeram menos que os norte-americanos para pressionar na direção de mais limpeza (por exemplo, o FDIC forçou o Citigroup a reduzir consideravelmente). Os reguladores norte-americanos foram mais insistentes na direção de forçar os bancos a aumentar seus níveis de capital.

Mais importante que isso, apesar do crescimento dos EUA estar sendo medíocre, a Europa está na corda bamba à beira da contração. Significa ambiente pior para os lucros dos bancos, mesmo antes de haver o impacto de crescimento zero e crescentes taxas de juros negativas. Normalmente, a primeira linha de defesa de uma empresa para melhorar os níveis de liquidez é reter os lucros. Não é fonte promissora para muitos dos bancos europeus.

Tudo isso considerado, por que proeminentes figuras bancárias, ao contrário da tradicional prática de convocar a Confidence Fairy [Fada da Confiança] e mascarar as más notícias, parecem hoje querer espantar os investidores? Isto é o que Bini Smaghi, o presidente do Société Générale, disse na semana passada:

"'A crise bancária da Itália poderia se espalhar para o resto da Europa, e as regras que limitam os auxílios estatais para os credores devem ser reconsideradas para evitar maior turbulência', disse o presidente da Société Générale SA, Lorenzo Bini Smaghi. 
'O mercado bancário inteiro está sob pressão', disse o ex-membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, em entrevista à Bloomberg Television na quarta-feira. "Adotamos regras sobre o dinheiro público; estas regras devem ser avaliadas em um mercado que tem uma crise potencial, para decidir se alguma suspensão deve ser aplicada."

E no fim de semana, o economista-chefe do Deutsche Bank, David Folkerts-Landau, disse ao Die Zeit que a Europa precisava de um programa de resgate ao estilo do TARP para os seus bancos. A versão em português do Google Tradutor (ver original aqui):

"O economista-chefe do Deutsche Bank pede um socorro multibilionário para os bancos europeus. As instituições devem ser equipadas, ao estilo americano, com capital novo. Naquele momento, o governo contribuiu com 475 bilhões de dólares. 'Na Europa, o programa não deve ser tão grande. Com 150 bilhões de euros os bancos europeus podem ser recapitalizados', disse David Folkerts-Landau... 
O declínio nas ações de bancos é apenas o sintoma de um problema muito maior, ou seja, uma combinação fatal de baixo crescimento, dívida elevada e uma perigosa proximidade com a deflação. 'A Europa está seriamente doente e deve abordar muito rapidamente os problemas existentes, ou enfrentar um acidente', disse o economista-chefe."

Preocupações com o Brexit forçaram o que é comumente chamado de um evento de reconhecimento. E a única rota de fuga seria um esquema nunca tentado, de estilo Rube Goldberg para toda a União Europeia, para lidar com bancos doentes: criar uma crise verdadeira, até que as autoridades públicas nacionais sejam obrigadas a quebrar o vidro e fazer alguma coisa, qualquer coisa... como resgates ou nacionalizações. Folkerts-Landau é explícito: não quer bail-ins, que varre igualmente acionistas majoritários e minoritários, do maior ao menor investidor (afinal de contas, essa gente é tida e havida como investidores sofisticados, e não podem ser derrotados por qualquer primeiro capital de risco que tenha aparecido). Na Itália, e também aconteceu em larga escala na Espanha, os depositantes foram persuadidos por funcionários do banco a comprar outros tipos de papéis; no caso das ações italianas, os depositantes foram informados (informação falsa) de que as ações seriam tão seguras quanto os depósitos. Do Financial Times em fevereiro:

"Aumentaram as pressões sobre o banco central em novembro, depois que o resgate de quatro pequenos bancos regionais na Itália Central enfrentou fortes perdas de milhares de investidores de varejo, como resultado de novas exigências da União Europeia para gerir falências de bancos."

E a exposição dos poupadores é grande. Esse artigo (em italiano) estima essa exposição em €60 bilhões, mais portanto que os €40 bilhões estimados do resgate de um banco italiano. Note que também aponta que a maioria destas vendas de títulos eram fraudulentos. E a parte de valor inestimável? O economista italiano Thomas Fazi acredita que este furto dos depositantes começou quando o ex-banqueiro do Goldman Sachs Mario Draghi foi presidente do Banco da Itália.

Não esqueçam que, se os pequenos poupadores levam um banho, a consequência será dano maior na economia italiana... o que levará a mais empréstimos fracassados, o que levará a que mais poupadores sejam forçados a contribuir para bail-ins, o que levará a perdas ainda maiores nos empréstimos.

Não se trata de a condição dos bancos ter piorado repentinamente. Trata-se do medo de que um Brexit corte a maioria das rotas plausíveis de fuga para os bancos, exceto os casos perdidos de bancos italianos, saírem da enrascada, vendendo ações ao público.

Ações de bancos tiveram um grande sucesso desde a votação de Brexit, mas quanto às ações do mais fraco dos megabancos, o Deutsche, veja este gráfico do Visual Capitalist e observe a decadência do final de junho:


Como escrevemos semana passada, a Itália está tentando persuadir funcionários europeus a permitir que se desconsiderem regras para o bail-in que fazem parte do novo regime mais amplo para toda a UE e que entrou em vigência em janeiro. Como já apontamos, os bancos italianos foram, perversamente, em larga medida, vítimas da própria crise, diferente de alguma temeridade pré-crise. Viram crescer empréstimos não pagos como resultado do dano direto causado pela aguda contração da economia e pelo mal-estar prolongado. Tampouco conseguiram entrar com o pé direito na era pós-crise, sem poder elevar os níveis de capital dos bancos com ajuda do Estado ou vendendo ações.

O premier italiano Matteo Renzi, depois de não conseguir, no início do ano, obter qualquer sinal positivo de que a Itália receberia estimados €40 bilhões numa jogada banco bom/banco ruim (o tipo de jogada bem-sucedida nas crises bancárias das savings & loan norte-americanas e da Suécia no inícios dos anos 1990), fez um apelo pessoal a Merkel nos primeiros momentos do levante Brexit e, outra vez, foi rejeitado. Do Financial Times de 27 de junho:

"No passado, Bruxelas tinha alertado a Itália de que não havia sinais de crise que ameaçasse a estabilidade financeira. Disse também que uma injeção de capital estaria em desacordo com as novas regras para bail-in da Bank Recovery and Resolution Directive. 
'Seria um ato insano da Alemanha compartilhar soberania e riscos com um país que se comporta dessa maneira', disse um alto funcionário europeu envolvido na discussão sobre os bancos italianos. O mesmo funcionário classificou como "cínica" a tentativa italiana de explorar a situação Brexit."

Se você ler nas entrelinhas, você pode ver que os eurocratas estão aderindo firmemente à sua cartilha, apesar de muitos especialistas que verem aí um desastre de grandes proporções. Se você ler a sessão que trata dos poderes emergenciais (Artigo 56, na p. 98), você pode ver que apenas permite a sua utilização em circunstâncias muito limitadas. E se você rastrear as referências a outras sessões da Diretiva, você pode ver a insistência de que se esgote todas as opções do setor privado, como bail-ins, antes de mobilizar-se fundos públicos.

Considerado esse background, é ainda mais óbvio o que Bini Smaghi e David Folkerts-Landau estão fazendo. O Deutsche Bank é o próximo da fila, se os bancos italianos começarem a quebrar ou se começar o bail-in. Sexta-feira passada, o Financial Times descreveu por que as ações de bancos (e seus co-co bonds, que serão convertidos em capital se se alcançarem alguns gatilhos) tomaram rumo sul, bem para baixo, de modo notável. Pontos chaves:

"O Deutsche Bank teve 10 dias difíceis. Semana passada, uma de suas empresas nos EUA não passou por um teste de stress do Federal Reserve, pelo segundo ano consecutivo. Há sete dias, o FMI chamou-o de "o mais importante contribuidor para riscos sistêmicos" dentre todos os grandes bancos do mundo. As ações dele chegaram, na sexta-feira – que balançaram violentamente o ano todo – a cair ao ponto mais baixo de todos os tempos... 
Nos últimos dias, o que atraiu mais atenção foi o trading business do Deutsche. Matteo Renzi, primeiro-ministro da Itália disse, na quarta-feira – numa intervenção lida por alguém numa reunião no Deutsche – que os bancos oscilantes da Itália eram problema menor que 'a questão dos derivativos em outros bancos, nos grandes'. 
É frequente que bancos rivais façam repetidamente denúncias desse tipo, aumentando as preocupações quanto ao alto estoque do Deutsche de ações "nível 3", que são tão pouco líquidas que nem podem ser avaliadas por preços de mercado (...) [essas ações] equivalem a cerca de 70% do total de ações comuns do Deutsche – nível mais baixo que no Barclays e Credit Suisse, mas mais alto que rivais norte-americanos do Deutsche, JPMorgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley... 
Por mais que banqueiros rivais foquem nessas ações mais exóticas, analistas e investidores têm dito que os maiores desafios que o banco tem de superar são mais prosaicos. 
'O problema do Deutsche é que tem retornos fracos, há vários processos correndo contra eles, e são fracos em capital', diz um dos 20 maiores investidores do banco."

Tradução: Há pouco aí de que se possa gostar. O artigo diz também que o melhor curso para o Deustche é vender patrimônio. Mas não passa da melhor das piores opções. Em geral, empresas em dificuldade só vendem seus negócios mais fortes quando estão desesperadas; a empresa, depois desse tipo de ação, está ainda mais fraca do que antes. E, dadas as preocupações que já circulam na indústria bancária, nada sugere que o gigante alemão venha a obter bons preços.

Voltemos à tentativa de Folkerts-Landau, para tentar um resgate. O subtítulo da matéria diz: "Credores privados não devem participar." O economista do Deutsche Bank argumenta que bail-ins causarão mais dano que benefício. E ainda que se aceite a premissa de que investidores de boa fé levariam uma surra, diferentes dos depositantes italianos que foram tungados, as regras de tamanho único para todos os bail-ins não admitem essas distinções cirúrgicas.

Mas, tenho certeza de que se Folkerts-Landau for apertado, ele negará que seus alertas sobre a necessidade de resgate mais amplo pelo Banco Europeu se aplicam principalmente ao patrão dele, o Deutsche Bank. Mas mesmo que ele realmente acreditasse em sua própria ação de Relações Públicas, não é difícil ver as implicações do forte aviso que deu.

A visão de Renzi/executivo do banco está a léguas de distância de onde estão Merkel, seu ministro das Finanças Wolfgang Schauble e autoridades bancárias. Parecem não querer sequer considerar que aquele novo e reluzente brinquedo deles, as novas regras para bail-in voarão explodidas pelos ares já logo no primeiro dia de uso, e que o prezado Deutsche Bank pode, muito provavelmente, virar dano colateral. Estão tratando como lamúrias as demandas de Renzi, como linha de ação contrária ao caminho ideal que a nova lei impôs.

Dada a obsessão alemã com regras e a incapacidade de Bruxelas para admitir erros, estamos agora numa espécie de corrida cega. Será que os profissionais do mercado conseguirão gerar a percepção de que é iminente o desastre do Deutsche – banco claramente grande demais para quebrar –, para assim obrigar os eurocratas a dançar pela música deles? Hoje, o preço da ação do Deustche é €11,74; alguns especialistas estimam que, se cair abaixo de €10m, os reguladores entrarão em estado de alerta máximo. Ou os bancos italianos serão forçados a promover bail-ins e a produzir ondas de perturbação em câmara lenta por toda a Europa? Fiquem ligados.

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