21 de julho de 2016

"Eles olharam para mim como se eu fosse um demônio": Medo e incerteza entre os cidadãos de Istambul após a tentativa de golpe

Como milhares foram removidos de seus empregos, as pessoas estão preocupadas com as consequências da rebelião fracassada incluindo confrontos entre o secular e o religioso, diz Patrick Cockburn

Patrick Cockburn

The Independent

Tradução / "Fui para a Praça Taksim, onde havia uma manifestação contra o golpe", diz Gokse, uma jornalista de 30 anos de idade e fotógrafa. "Estava tão assustada, porque todas as mulheres lá olharam para mim como se eu fosse um demônio. Os homens disseram que "se continuares a vestir-te assim, mereces morrer”. A maioria das pessoas tinha bandeiras turcas vermelhas, mas havia algumas bandeiras pretas com caracteres árabes, como se vê nos vídeos do Daesh".

Em Istambul, há um clima de apreensão na sequência do golpe fracassado, há manifestações exigindo que os golpistas sejam enforcados e foram detidos ou demitidos 60.000 soldados, juízes, professores e funcionários públicos. As pessoas sentem que estão a virar a esquina em direção a um futuro incerto sobre o qual nada sabem, mas suspeitam que será pior do que qualquer coisa que viveram até agora.

"Eu conheci três intervenções militares na minha vida, mas esta é diferente", diz Ayse Bugra, professora de economia política na Universidade Bogazici. A diferença é que desta vez a tentativa de golpe foi contestada e não simplesmente anunciada pela leitura de um comunicado do Alto Comando do exército na rádio, na manhã seguinte a ter ocorrido. "Não ter um exército sólido e estável não é tranquilizador", diz ela.

Por vezes, a tristeza presente e as expectativas de calamidade parecem ir muito além do que é racionalmente previsível, particularmente entre os intelectuais e a classe média educada. "As coisas podem estar mal, mas isto não é Bagdá ou Damasco", disse eu. "Mas isso faz com que seja ainda pior", respondeu a Professora Bugra. "Antes, a maioria sentia que a Turquia era uma ilha de estabilidade". Os turcos simplesmente não estão acostumados ao grau de violência, incerteza e medo a que os iraquianos e sírios se acostumaram ao longo dos últimos 50 anos.

A purga pós-golpe - tão extensa e radical que alguns turcos lhe chamam "contragolpe" - até agora levou à detenção de cerca de 10.000 pessoas, de acordo com o discurso do presidente Recep Tayyip Erdogan na noite de quarta-feira, quando introduziu um estado de emergência por três meses. Mas o número de pessoas afetadas pela repressão é muito maior do que isso, todos os 3,3 milhões de funcionários públicos foram proibidos de tirar férias, presumivelmente para que não estejam ausentes se forem investigados por ligações com o movimento liderado pelo auto-exilado clérigo Fethullah Gulen, alegadamente responsável pela tentativa de golpe. Ninguém sabe quem será implicado.

O Parlamento turco votou a aprovação do estado de emergência nacional na quinta-feira, dando a Erdogan a autoridade para prolongar os tempos de detenção de suspeitos e para publicar decretos que têm a força de uma lei, sem necessitarem de serem aprovados no parlamento, entre outros poderes.

A Turquia suspendeu temporariamente da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, citando como precedente o fato de a França ter feito o mesmo em resposta a atentados terroristas. O objetivo destas ações parece legalizar o que o Estado já está a fazer, enquanto garante ao mundo exterior que a Turquia não se está a transformar-se em mais uma autocracia no Oriente Médio, sem lei ou prestação de contas, e em que qualquer dissidência é castigada como terrorismo. O Conselho da Europa disse que tinha sido informado da decisão da Turquia, e que a convenção ainda se aplica, mas que as exceções individuais serão avaliadas numa base casuística.

O vice Primeiro Ministro Mehmet Simsek, que trabalhou anteriormente em Wall Street, escreveu de forma tranquilizadora no Twitter na quinta-feira que "o estado de emergência na Turquia não irá incluir restrições de movimento, de reunião e liberdade de imprensa, etc. Não é a lei marcial de 1990. Estou confiante que a Turquia vai sair disto com a democracia muito mais forte, uma economia de mercado que funcionará melhor e um clima de investimento reforçado".

Nem todo mundo está tão confiante, porque não se sabe por quanto tempo vai continuar a purga ou quão ampla vai ser. Alguns comparam-na às purgas bolcheviques depois de 1917, embora não às de Stálin na década de 1930. A professora Bugra disse que alguns dos seus colegas diziam brincando que "têm de aprender a fazer compotas e picles", porque não se conseguem concentrar no seu trabalho no clima atual.

Os Gulenistas estiveram certamente no centro da tentativa de golpe, mas podem não ter agido sozinhos, mas eles só romperam com o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) em 2014. O AKP pode agora estar a acusar a Organização Terrorista Fethullah (FETO), mas durante anos foram aliados próximos e o movimento Gulen foi o instrumento escolhido pelo AKP para purgar dos serviços de segurança os seculares, através de detenções e julgamentos alegando a sua participação em conspirações inexistentes. Gulen e os seus apoiadores negam qualquer envolvimento na tentativa de golpe.

Os Gulenistas tiveram todas as oportunidades para introduzir os seus próprios quadros e militantes nas forças armadas, na polícia, na função pública e nas escolas. Alguns observadores turcos compararam o papel do grupo na obtenção de posições de influência para os seus membros com a organização católica Opus Dei, que foi acusada de ter tido ligações semelhantes com os governos de direita, como o do general Franco no Estado espanhol. Além de ter militantes comprometidos com a causa, considerava-se que os Gulenistas dominavam várias associações empresariais, apesar de estas serem frequentemente redes soltas, cujos membros podiam não ter muita ligação ao movimento.

O golpe também trouxe à tona um choque cultural de longa data entre os grupos seculares e o religiosos. Erdogan continua a convocar manifestações nas ruas para capitalizar o seu sucesso por ter derrotado o golpe – talvez seja também um sinal de que seu governo não está confiante de que não haverá mais ação armada contra ele. Essas multidões barulhentas gritando palavras de ordem nacionalistas e religiosas assustam os adversários do AKP. Um exemplo é Sayeste, uma mulher de alto grau de escolaridade, com 40 anos, que organiza os ensaios clínicos para as empresas farmacêuticas e está pensando em deixar o país por causa da islamização crescente da educação e cultura.

Ela diz que se ela tivesse que pensar apenas em si mesma iria ficar, mas está preocupada com sua filha sete anos Mira, que está sendo afetada pelo clima mais religioso e intolerante. Ela explica que Mira vai para uma escola primária "onde ela é a única a fazer música e natação, enquanto as outras meninas vão todas para a mesquita ouvir as leituras do Corão. Ela diz que gostaria de ir com as suas amigas". Sayeste tem medo que Mira fique isolada das outras crianças. Ela teme que seja afetada pelo grau de ódio para os outros expressa pelos diferentes lados, numa sociedade turca profundamente dividida. Por exemplo, ela lembra que há três anos, se juntou aos protestos para manter aberto o parque Gezi no centro de Istambul e que o governo "nos acusou a todos de sermos terroristas".

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