17 de julho de 2016

Erdoğan está usando o golpe fracassado para se livrar dos últimos vestígios da Turquia secular

A tentativa de golpe está servindo como uma desculpa para uma enorme mudança dos membros do judiciário e oficiais do exército, muito maior do que qualquer coisa vista na Turquia há anos

Patrick Cockburn

The Independet

É provável que a limpa de soldados e oficiais logo após o golpe fracassado na Turquia seja conduzida com vigor extra porque alguns associados próximos ao presidente Recep Tayyip Erdoğan estão entre os 265 mortos. O número de pessoas detidas até então está em 6,000, incluindo soldados, e cerca de 3,000 juízes e oficiais legais que, provavelmente, não serão conectados à tentativa de tomada militar.

No domingo, Erdoğan foi ao funeral do irmão mais velho de seu conselheiro chefe, Mustafa Varank. O irmão mais velho de Varank, Dr. Ilhan Varank, estudou na Universidade de Ohio e foi presidente do Departamento de Educação em Computação e Tecnologia na Universidade Técnica Yildiz de Istambul, de acordo com a Agência Anadolu (AA). Alega-se que o homem de 45 anos de idade foi baleado e morto enquanto protestava em frente ao prédio da prefeitura de Istambul na noite do golpe, 15 de julho.

Outro nome próximo de Erdoğan, Erol Olcak, foi baleado e morto com seu filho de 16 anos de idade na ponte do Bósforo, segundo relatos da mídia local. Tendo conhecido o presidente muitos anos atrás quando ambos participavam do mesmo partido islâmico conhecido como Partido da Prosperidade, Olcak se tornou um nome proeminente nas campanhas de mídia e publicidade do AKP desde a fundação do partido em 2001. Olcak e seu filho estavam na ponte do Bósforo para protestar contra a tentativa de golpe quando foram baleados por soldados.

Os planejadores do golpe viram claramente a importância de deter ou eliminar Erdoğan, mas não foram capazes de encontrá-lo no resort de férias de Marmaris, no sudoeste da Turquia, onde ele estava e que pode ser visto pelas filmagens lá. Também tentaram mirar em seus assessores mais importantes levando-os sob custódia. Seu secretário, Fahri Kasirga, foi detido por soldados rebeldes, de acordo com seu filho, que tuitou na noite do golpe que “eles queriam forçar o meu pai a ficar na casa dele, mas quando ele resistiu, os traidores levaram-no a uma ambulância e foram embora”. A história é confirmada pelo próprio Erdogan que disse, ao se encaminhar para o aeroporto, que “eles pegaram meu secretário. O que irão fazer com ele?”

O golpe fracassado está servindo de desculpa para uma repaginação massiva dos membros do judiciário e oficiais do exército, bem maior do que qualquer coisa já vista na Turquia há anos, e é presumivelmente uma proposta para assegurar a participação de Erdoğan no Estado. Tantos são os detidos que está sendo usado um estádio para acomodá-los, um processo que tem similaridades com prisões em massa nos golpes da América do Sul no último século. 140 de 387 juízes da Corte de Apelação foram detidos junto com 48 de 156 do Conselho do Estado.

Pode ser que Erdoğan esteja usando o golpe para eliminar os oficiais mais poderosos vistos como leais ao secularismo de Estado turco.

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