6 de julho de 2016

Eu li o relatório Chilcot enquanto viajava por toda a Síria esta semana e vi por mim mesmo o que as ações de Blair causaram

Qual a diferença entre as armas de destruição em massa iraquianas que não existem, os alertas de 45 minutos que são falsidades, os inexistentes 70 mil sírios "moderados" e a fictícia sorte inesperada de milhões do Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha se o país deixasse a UE?

Robert Fisk


Tradução / Acho que um julgamento em Nuremberg seria melhor local para analisar as minúcias dos crimes Blair-Bush que todos os britânicos cometeram para ir à guerra no Oriente Médio. Causamos a morte de mais de meio milhão de pessoas, a maioria das quais muçulmanos, tão completamente inocentes quanto Blair foi culpado. Uma corte semelhante à de Nuremberg poder-se-ia concentrar mais detidamente no caso das massas árabes vítimas de nossa odiosa expedição criminosa, que na culpa hedionda e na "profunda lástima" – palavras dele, claro – de Lord Blair de Kut al-Amara.

Claro, Blair mentiu quanto à inteligência sobre armas de destruição em massa antes de ir à guerra; mentiu depois novamente quanto aos alertas do Foreign Office sobre o caos que tomaria contra do Iraque; e hoje Blair novamente mente, insistindo que o Relatório Chilcot o teria inocentado, quando, isso sim, o relatório faz exatamente o contrário.

Mas estudo prolongado do relatório, em vez do resumo edulcorado que querem nos meter goela abaixo nas últimas horas, pode produzir linhas do relatório que são muito mais perturbadoras que as conclusões da versão simplificada, mais curta e fácil de regurgitar, que foi passada aos veículos da mídia. Além disso, nossa concentração sobre o iníquo Blair e suas mentiras, embora seja resposta compreensível a Chilcot, oferece preocupante versão da mendacidade que ainda hoje acomete todos os políticos, nossos primeiros-ministros e líderes de partido, e a atitude insultante que todos eles assumem na relação com os que eles dizem representar.

Ouvir as primeiras notícias sobre o épico trabalho de literatura de Sir John Chilcot justamente quando viajava pela Síria, foi para mim uma experiência perturbadora. Não só porque a praga da crueldade terrorista a avançar para fora a partir de Raqqa foi (e não importa que tipo de nonsense Blair diga e repita) resultado direto do inferno iraquiano; mas também porque, em dezembro passado, nosso próprio atual, embora desacreditado, primeiro-ministro usou mais mentiras e falsidades Blairistas para persuadir os deputados do Parlamento a bombardear alvos do ISIS na Síria. Lembram as sandices sobre os 70 mil rebeldes "moderados" que precisavam de nossa ajuda, apesar de nem existirem e de terem sido fabulados pela mesma Comissão Conjunta de Inteligência [Joint Intelligence Committee] na qual Blair confiou integralmente para sua aventura criminosa?

E quando os membros do Parlamento questionaram essa conversa oca, foram desmoralizados pelo general Gordon Messenger, vice-chefe do gabinete da Defesa, que disse que, por razões de segurança as tais unidades rebeldes não podiam ter seus nomes divulgados – por mais que todos conheçamos a identidade dessa ralé de crias da CIA e da incapacidade delas para lutar contra seja o que for. O muito apropriadamente chamado Messenger manteve a fantasia de David Cameron e foi devidamente promovido; como John Scarlett, diretor da Comissão Conjunta de Inteligência [Joint Intelligence Committee (JIC)] que forneceu a Tony Blair toda aquela "inteligência" vagabunda, foi adiante condecorado.

E assim fomos à guerra contra o ISIS na Síria – exceto, claro, quando o ISIS atacasse o governo de Assad, caso em que não fazíamos coisa alguma, apesar de todos os ultrajantes discursos de Hilary Benn sobre fascismo pré-guerra. Condenaremos Blair, o desgraçado, mas não pense que alguma coisa mudou nos seis anos que Sir John levou para escrever seu tomo de proporções bíblicas.

E aí está o problema. Quando Blair pode dizer, como disse no momento em que o Relatório Chilcot foi publicado, que [o relatório] "deveria ter evitado acusações [sic] de má fé, mentiras e calúnias" – sem que o povo se levante nas ruas contra a má fé, as mentiras e calúnias do próprio Blair – nesse caso pode-se ter certeza que seus sucessores continuarão a burlar o povo mais e mais vezes, sem parar. Afinal, qual a diferença entre as Armas de Destruição em Massa (ADMs) iraquianas que não existem; os alertas de 45 minutos, todos falsos; 70 mil "moderados" sírios inexistentes e o fim (inventado) do Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha [National Health Service (NHS)] se o país deixasse a UE?

Há muitas versões – e citações erradas – do que disse aquele mais cínico dos propagandistas nazistas, Joseph ("quanto maior a mentira, melhor") Goebbels, mas é impossível não se sentir tocado por algumas das observações dele. "O segredo essencial da liderança britânica não depende de qualquer inteligência especial" – escreveu Goebbels em 1941. "Depende, isso sim, de notável, impenetrável estupidez. Os britânicos seguem o princípio de que suas mentiras têm de ser sempre mentira gigantesca; e a mentira vale para sempre, ninguém jamais se desmente.  Mantêm-se as suas mentiras, mesmo correndo o risco de parecer ridículo."

O mais assustador dessas palavras não é aquele tempo de guerra passada de que falava Goebbels, nem a evidência de que Churchill (alvo real do comentário do alemão) realmente mentiu. Dada a luta contra o nazismo – e apesar do que disse Churchill, que a verdade, em tempo de guerra, tem de ser protegida por uma escolta de mentiras –, os britânicos mantiveram uma habilidade virtuosa no conflito 1939-45 de dizer a verdade, até quando uma pitada de enganação Blairista teria bastado para encobrir as derrotas britânicas. Não. O mais assustador é que as palavras de Goebbels aplicam-se muito dolorosamente aos políticos britânicos de hoje.

Quem dos nossos conhecidos, depois do relatório, insiste em manter as próprias grandes mentiras, ao risco de se mostrar ridículo? Temo horrivelmente que homens pequenos que se metem a andar em sapatos grandes – que realmente acham que seriam Churchill e levam o país à guerra – estão mentindo as mesmas mentiras das quais seus ancestrais políticos foram, em grande parte, inocentes. Talvez a chave para compreender tudo isso esteja no argumento de Sir John, para quem Blair confiou demais nas próprias "crenças" – seja lá o que se oculte nessa palavra perigosa – e na opinião de outros.

Por isso pode nos dizer – e disse-me, a mim, enquanto eu chegava pelo deserto sírio à cidade de Palmyra e até onde chegaram as práticas vis dos autores do desastre iraquiano que Blair ajudou a criar – que "não creio [que a remoção de Saddam Hussein] seja a causa do terrorismo que vemos hoje no Oriente Médio ou em outros pontos do mundo". Toda essa duplicidade, é claro, é para ser parte do "debate total" que Blair agora ameaça, como resultado do relatório Chilcot.

Blair diz que dará – Deus nos livre e guarde! – "todas as lições que creio que futuro líderes devem aprender de minha experiência". Mas Blair não precisa nos entediar outra vez com suas mentiras. Elas já foram incorporadas por Dave "70 mil moderados" Cameron e os caras do Brexit que agora se autodestroem cercados das próprias mentiras que contam – e que podem afinal conseguir precisamente tudo que Goebbels sempre quis para esse país: o fim do Reino Unido.

Neste contexto, o relatório Chilcot não é tanto uma obra maciça de investigação sobre os pecados que nos levaram à guerra em 2003, mas apenas mais um capítulo na história da nossa incapacidade de controlar um mundo em que os políticos de relações públicas da Grã-Bretanha tratam seus povos com desprezo, matam alguns de seus soldados e matam centenas de milhares de estrangeiros sem nenhum remorso real.

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