31 de julho de 2016

FMI: confessar o pecado, a fim de repetí-lo

Yanis Varoufakis

Thoughts for the post-2008 world

Você leu sobre a mais recente confissão FMI sobre a sua imolação da Grécia. A pergunta é: Será que é um sinal de mudança nas políticas? Não prenda sua respiração! A história recente está a apontar para uma repetição do crime contra a lógica cometido pela primeira vez em 2012 - uma tática do FMI de confessar o pecado, a fim de repeti-lo impunemente!

Em junho de 2015, Olivier Blanchard, então economista-chefe do FMI, publicou um artigo que à primeira vista parecia razoável: os dois lados (a troika e Atenas) deviam fazer concessões, reconhecer que os dois lados tinham responsabilidades na Grande Depressão da Grécia (a troika por não ter promovido nenhum alívio na dívida; e Atenas por não ter feito reformas suficientes). Exame mais detido daquele artigo, porém, revelou que Blanchard servia-se daquela publicação para alertar que o FMI preparava-se para esmagar a Grécia. Outra vez!

Bill Black respondeu a Blanchard com um artigo cortante intitulado "The FMI 'Defense' of it Actions against the Greeks is an Unintended Confession". A essência do argumento de Bill:

"Ainda que acreditasse nos próprios dogmas e nas próprias 'projeções' estupidamente otimistas, o plano de 2012 da troika foi concebido para deixar a Grécia em situação econômica desastrosa. Só depois de ter condenado o povo grego ao purgatório mais sem sentido, de uma década de desastre, a troika consideraria admitir algum alívio na dívida (...). O único 'alívio da dívida' que se dispõem a discutir é um 'longo reescalonamento de pagamentos com juros baixos'. Isso, segundo os próprios dogmas da troika, encarcerará a Grécia numa armadilha-de-dívidas de longo prazo, que reduzirá materialmente o crescimento da Grécia por décadas, e deixará o país constantemente vulnerável a crises financeiras. É receita de desastre para Grécia, Itália e Espanha (coletivamente, 100 milhões de cidadãos) e para a União Europeia. É loucura financeira – e ignora a instabilidade política que causará, e que obrigará uma nação membro da União Europeia a curvar-se até o chão e assim ficar, por 50 anos."

Impressionantemente, essa descrição de Bill Black, do crime-contra-a-lógica que a troika cometeu em 2012, aplica-se perfeitamente hoje, para descrever o terceiro acordo de resgate imposto ao governo grego, poucas semanas depois de Black responder a Blanchard.

Exatamente como em 2012, novamente a troika, com o FMI perfeitamente engajado a bordo, estão implementando um programa que eles sabem que falhará, ao mesmo tempo em que prometem a Atenas que, em 2018, a Grécia receberá a mesma forma de não alívio que lhe foi prometido (mas nunca entregaram) para o final de 2014 (o tal "longo reescalonamento de pagamentos com juros baixos").

As duas únicas diferenças entre 2012 e 2015 são os seguintes: (A) Em 2015/6 a economia grega está cada vez mais frágil do que estava em 2012, o seu povo mais perto da borda do desespero. E (2) Em 2012, "programa" tóxico, ilógico da troika, estava sendo implementadas por um governo que representa o ancien regime oligárquico e corrupto responsável pela crise. Em 2015/6 "novo" "programa" tóxico, ilógico da troika está a ser implementado por um governo de esquerda, negando assim aos gregos a esperança de que as eleições poderiam parar a dor desnecessária.

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