16 de julho de 2016

O golpe na Turquia pode ter fracassado - mas a história mostra que não demorará muito antes de outro bem-sucedido

Erdoğan demorou para perceber o custo do papel que ele escolheu para o país - quando você não pode mais confiar em seu exército, existem problemas graves que precisam ser abordados

Robert Fisk



Créditos: Murad Sezer / Reuters

Recep Tayyip Erdoğan teve o que merecia. O exército turco não ia manter sua obediência enquanto o homem que queria recriar o Império Otomano convertia seus vizinhos em inimigos e seu país em uma paródia de si mesmo. Mas seria um grave erro supor duas coisas: que o sufocamento de um golpe militar é uma questão momentânea, após o qual o exército turco permanecerá obediente ao seu sultão; e considerar as, pelo menos, 161 mortes e mais de 2.839 detidos como algo isolado do colapso dos Estados-nação do Oriente Médio.

Os eventos do fim de semana em Istambul e Ancara estão intimamente relacionados com a queda das fronteiras e a credibilidade do Estado - o pressuposto de que as nações do Oriente Médio têm instituições e fronteiras permanentes - que infligiu graves feridas no Iraque, Síria, Egito e outros países do mundo árabe. A instabilidade é agora tão contagiosa quanto a corrupção na região, especialmente entre os seus potentados e ditadores, uma classe de autocratas da qual Erdoğan é membro desde que mudou a constituição para seu próprio benefício e reiniciou seu perverso conflito com os curdos.

É inútil dizer que a primeira reação de Washington foi instrutiva. os turcos devem apoiar o seu "governo democraticamente eleito". A parte sobre "democracia" foi muito difícil de engolir; ainda mais doloroso, no entanto, foi recordar a reação desse mesmo do governo à derrubada do governo "democraticamente eleito" Mohamed Morsi no Egito, em 2013 - quando Washington definitivamente não pediu às pessoas no Egito para apoiar Morsi e rapidamente deu o seu apoio a um golpe militar muito mais sangrento do que a tentativa de golpe na Turquia. Se o exército turco tivesse sido bem sucedido, com certeza Erdoğan teria sido tratado com desdém, como o infeliz Morsi.

Mas, o que esperar quando as nações ocidentais preferem a estabilidade à liberdade e dignidade? É por isso que estão dispostas a aceitar que as tropas do Irã e as milícias iraquianas leais entrem na batalha contra Daesh - assim como os pobres 700 sunitas que "desapareceram" depois da recaptura de Fallujah - e é por isso que a ladainha "Assad deve sair" foi discretamente deixada de lado. Agora que Bashar al-Assad sobreviveu ao governo de David Cameron - e quase certamente irá durar mais que a presidência de Obama - o regime de Damasco vai observar com assombro os eventos na Turquia neste fim de semana.

As potências vitoriosas na Primeira Guerra Mundial destruíram o Império Otomano - que era um dos propósitos do conflito 1914-18, depois que a Sublime Porta cometeu o erro fatal de se aliar com a Alemanha - e as ruínas desse império foram despedaçadas pelos Aliados e entregues a reis brutais, coronéis sanguinários e um monte de ditadores. Erdogan e o grosso do exército que decidiu mantê-lo no poder - por enquanto - se encaixam nesta mesma matriz de estados destroçado.

Os sinais de alerta estavam lá para Erdoğan - e o Ocidente - ver, se tivesse recordado a experiência do Paquistão. Descaradamente usado pelos americanos para canalizar mísseis, armas e dinheiro para os "Mujahidin" que lutavam contra os russos, o Paquistão - outro pedaço arrancado de um império (o indiano) transformou-se em um estado fracassado, suas cidades foram devastadas com enormes bombas, seu corrupto exército e seu serviço de inteligência colaboraram com os inimigos da Rússia - incluindo o Talibã - e então foram infiltrados por islamistas que acabariam por ameaçar o próprio Estado.

Quando a Turquia começou a desempenhar o mesmo papel para os EUA na Síria - o envio de armas aos insurgentes, o seu corrupto serviço de inteligência cooperando com os islâmicos para combater o poder do Estado na Síria -, também tomou o caminho de um Estado fracassado, com suas cidades devastadas por enormes bombas e seu território infiltrado por islâmicos. A única diferença é que a Turquia também relançou uma guerra contra os curdos no sudeste do país, onde as partes do Diarbaquir estão agora tão devastadas como grandes áreas de Homs ou Aleppo. Erdogan percebeu tarde demais o custo do papel que ele escolheu para seu país. Uma coisa é desculpar-se com Putin e remendar as relações com Benjamin Netanyahu; mas quando você não pode mais confiar em seu exército, há assuntos mais sérios para se concentrar.

Duas mil ou mais detenções dão ideia da seriedade do golpe para Erdogan - muito maior, na verdade, do que o golpe que o exército planejava para ele. Mas eles devem ser apenas alguns dos milhares de homens no corpo de oficiais turcos que acreditam que o sultão de Istambul está destruindo o seu país. Não se trata apenas de considerar o grau de horror que a OTAN e a UE sentiram por estes acontecimentos. A verdadeira questão será o grau em que seu (momentâneo) sucesso vai encorajar Erdoğan a realizar mais julgamentos, prender mais jornalistas, fechar mais jornais, matar mais curdos e, neste caso, continuar negando o genocídio armênio de 1915.

Para os de fora, às vezes é difícil entender o grau de medo e aversão quase racista com o qual a Turquia considera qualquer forma de militância curda; América, Rússia, Europa - o Ocidente em geral - privaram a palavra "terrorista" de conteúdo a tal ponto que não conseguimos compreender em que medida os turcos chamam os curdos de "terroristas" e os veem como um perigo para a própria existência do Estado turco; assim como eles viam os armênios na Primeira Guerra Mundial. Mustafa Kemal Atatürk pode ter sido uma boa autocrata secular, admirado até mesmo por Adolf Hitler, mas sua luta para unificar a Turquia foi causada pelos mesmos fatores que sempre assombraram o coração turco - junto com as suspeitas sombrias (e racionais) de um complô das potências ocidentais contra o Estado.

Em suma, então, uma série muito mais dramática de acontecimentos tiveram lugar na Turquia neste fim de semana do que poderiam parecer à primeira vista. A partir da fronteira da UE, através da Turquia, Síria e Iraque e grandes partes da península egípcia do Sinai e até à Líbia e - nos atreveremos a mencionar isso depois de Nice? - Tunísia, existe agora um rastro de anarquia e Estados falidos. Sir Mark Sykes e François Georges-Picot começaram o desmembramento do Império Otomano - com a ajuda de Arthur Balfour - mas este continua até hoje.

É neste quadro histórico sombrio que devemos ver o golpe que-não-foi em Ancara. Preparem-se para outro nos meses ou anos vindouros.

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