29 de julho de 2016

Obama disse que Hillary continuará seu legado - e, na verdade, ela irá!

Michael Hudson

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Evan El-Amin / Shutterstock

Tradução / Pouco antes da convenção do Partido Democrata na segunda-feira, Hillary escolheu o senador Blue Dog Tim Kaine de Virginia como seu vice-presidente. Logo depois o Wikileaks distribuiu os e-mails que mostram que o Comitê Nacional Democrata trabalhou, na verdade, como agente da campanha de Clinton, ao ponto de usar os mesmos advogados da campanha dela, para boicotar a candidatura de Bernie Sanders.

A resposta de todo o espectro neocon Democrata, de Anne Applebaum no Washington Post ao denuncista-provocador Paul Krugman e os programas de entrevistas da TV no domingo, sugeriam que, por trás da divulgação dos e-mails do Comitê Nacional Democrata haveria uma conspiração russa para ajudar a eleger Trump como agente deles. O ex-embaixador dos EUA na Rússia emprestou a própria reputação em farrapos para declarar que Putin "com certeza" teria patrocinado os hackers que levaram ao conhecimento público os truques sujos, contra Bernie, do Comitê Nacional Democrata.

Evidentemente o ataque contra Trump visava a atingir Sanders. De início, não decolou. Muitos delegados ameaçavam vaiar a presidente do Comitê Nacional Democrata (e lobbyista diarista) Debbie Wasserman Schultz, se se atrevesse a aparecer no palanque da convenção. O escândalo ameaçaria o mote "Todos Unidos", e ela foi obrigada a renunciar. Mas Hillary recompensou aquela fidelidade toda e a nomeou presidenta honorária da própria campanha presidencial! Se você é cúmplice leal, faz jus a gorda indenização. O Comitê Nacional Democrata teria feito o que deveria mesmo fazer. Desnecessária qualquer reforma.

A máquina Democrata orquestrou uma campanha "midiática" para desviar a atenção dos cidadãos, e atribuiu os vazamentos a um complô dos russos para minar a democracia americana (como se os próprios e-mails já não mostrassem suficientemente o quão democraticamente operara o Comitê Nacional Democrata, quando viciara os resultados das primárias). Votar contra Hillary seria votar a favor de Trump – e votar em Trump seria votar a favor de Putin. E, como Hillary ensinara há tempos, Putin = Hitler. A mesma mídia, seus veículos, jornalistas e colunistas cuidaram de "informar" que atacar Wasserman Schultz – e, por extensão, as políticas neoconservadoras de Hillary – equivalia a confessar cumplicidade com a Rússia. Esse tema deu o tom de toda a semana da convenção.

Na noite de segunda-feira, endossando a conversa da necessidade de eleger Hillary, Sanders uniu-se ao coro segundo o qual, em novembro, o Bem disputaria todas as almas dos EUA contra o Mal – ou, nas palavras de Ray McGovern no programa Cross Talk, de RT, no mínimo Netanyahu as disputaria contra Putin. O senador Chuck Schumer de Wall Street foi à TV para ali deixar sair um suspiro de alívio por o partido estar realmente unido.

Muitos apoiadores de Sanders não se sentiram obrigados a respeitar essa "orientação", levantaram-se e saíram depois que ele fechou a relação de pedidos, estado por estado, para que todos apoiassem Clinton. Outros cantaram "metam ela na cadeia".

Vice-presidente Kaine será presidente, se Hillary for indiciada ou declarada inelegível

Os potenciais "Republicanos pró-Hillary", que estão se afastando de Trump – em cujas fileiras alinham-se Mike Bloomberg, a família neocon, Robert e Victoria Nuland, e William Kristol – são muito mais numerosos que os apoiadores de Sanders, que podem ficar em casa ou, se quiserem, que votem Jill Stein da lista do Partido Verde. Hillary vê um número maior de votos (e mais contribuições de campanha e, no futuro, mais "remuneração por palestra") da banda dos Irmãos Koch, George Soros, Wall Street, Arábia Saudita e da corporativa Câmara de Comércio.

Kaine recentemente empenhou-se para "libertar" bancos pequenos e médios do jugo Consumer Financial Protection Agency. Há muito tempo apoia a Parceria Trans-Pacífico, a desregulação de Wall Street e praticamente tudo contra o que Sanders opõe-se. Foi nomeado presidente do CND pelo presidente Obama em 2008, ele desmontou a estratégia dos 50 estados de Howard Dean e nem se incomodou com lutar contra os Republicanos no sul e em outros estados solidamente Republicanos. O movimento dele deixou que aqueles estados elegessem governadores, os quais redesenharam os próprios distritos eleitorais a favor deles mesmos depois do censo de 2010.

O Comitê Nacional Democrata designou esses estados "negligenciados" para realizarem as primeiras primárias presidenciais. Nessas, Hillary venceu. Sanders venceu a maioria dos estados oscilantes e nos que mais provavelmente votam com os Democratas. Assim se tornou o aspirante mais forte dentro do partido à indicação – o que obrigou o Comitê Nacional Democrata a manobrar para tirá-lo da disputa. As críticas de Sanders aos grandes doadores e ao Cidadãos Unidos ameaçam fazer secar a fonte de dinheiro, não só para Hillary, mas para o próprio Comitê Nacional Democrata. Então, saíram à cata do dinheiro – cujos principais provedores são Wall Street, empresários neoliberais e os neoconservadores da Nova Guerra Fria.

A campanha de Bernie tomou por alvo Wall Street e a desregulação do comércio (que é a essência das parcerias Trans-Pacífico e Trans-Atlântico), como chaves para o processo pelo qual o 1% monopoliza a renda e a riqueza desde que Obama optou, depois de 2008, por sacrificar a economia no altar do resgate de bancos e seus acionistas. Por isso a Classe Doadora da Wall Street que controla a máquina do Partido Democrata não tem interesse algum em estimular o alistamento de eleitores e o comparecimento às urnas. O que eles menos querem é grande número de novos eleitores a exigir reforma real. A geração da virada do milênio é mais progressista, nascida de uma geração que já não conseguiu nem emprego nem moradia tão fácil como os pais. Assim sendo, é melhor manter os independentes fora das eleições, favorecendo os eleitores mais velhos, de confirmada lealdade aos Democratas.

Demonizar Trump por dizer o que Bernie Sanders disse todos os dias da campanha

Trump falou sobre Rússia em um evento que, na verdade, foi eloquente e divertida conferência de imprensa. Os jornalistas e veículos tiraram de contexto o que ouviram, para noticiar que Trump teria pedido que os russos se pusessem a hackear nossos e-mails. O que ele realmente disse foi que se Rússia – ou China ou "qualquer um que senta na mesma cama" – realmente leu sobre os negócios do Departamento de Estado de Hillary e da Fundação Clinton, prestaria grande favor ao mundo se distribuísse os e-mails para revelar as negociatas de favorecimento da candidata.

Trump acerta ao dizer que nenhum "Cinturão da Ferrugem" recuperou-se, e que os 99% tampouco melhoraram de vida. Hillary vangloria-se de que a economia neoliberal de Obama teria ajudado os assalariados, apesar da deflação da dívida bloquear qualquer sinal de recuperação. E promete manter as mesmas políticas (apoiadas pelos mesmos doadores da campanha dele e da campanha dela).

Parece estratégia perdedora para a eleição desse ano – a menos que os Democratas consigam controlar as máquinas eletrônicas de votar, especialmente em Ohio. Mas os Republicanos podem decidir dar a eleição a Hillary, que tem a sorte de ter Donald Trump como opositor. Demonizado como "o candidato siberiano" de Putin,  ele tornou-se força unificadora dos democratas: "Hillary não é Trump."

Isso é o que significa eleger "o mal menor". A mensagem de Hillary é: "Apesar de apoiarmos a Parceria Trans-Pacífico e uma Nova Guerra Fria, pelo menos haverá uma mulher na presidência. Seja como for, o outro lado é muito pior!" A lógica dela é que (1) quem critica Hillary, apoia Trump; (2) Trump é o candidato siberiano; logo (3) criticar Hillary, a escalada da Nova Guerra Fria da OTAN ou os tratados anti-trabalho e a desregulação financeira da Parceria Trans-Pacífico é atitude pró-russos e, portanto, anti-americana.

Tudo que os estrategistas a serviço do 1% têm a fazer é garantir o dinheiro necessário para que se construa uma plataforma partidária ainda pior para a direita dos Democratas. Assim, a escolha será entre o Mal A (o mal econômico com tolerância étnica e sexual) e o Mal B (sem essa tolerância).

Não tem de ser assim. Mas Sanders desistiu, porque não se sentiu suficiente para a magnitude da tarefa. Tendo zombado do socialismo de Sanders, Hillary em seguida age como o Joe McCarthy da década de 2010 e mobiliza uma onda de feroz anti-comunismo contra o seu adversário Republicano.

Na manhã de segunda-feira da Convenção, o canal do Partido Democrata MSNBC só fez exibir lado a lado imagens de Trump e de Putin. Criticar a posição neocons de Hillary no apoio ao golpe militar nazista na Ucrânia é apresentado como se fosse apoio à Rússia. – E outros analistas acompanharam o mote do presidente Obama, para quem criticar a Parceria Trans-Pacífico implica transformar a China em nova nação-líder da Ásia. A mensagem é que criticar o aventureirismo da OTAN expõe quem critique ao risco de ser acusado de fantoche soviético, quero dizer, fantoche russo.

Dilema do Bernie - e de outros supostos reformadores do Partido Democrata

Lá atrás, na década de 1950 e 1960, ouvi líderes trabalhistas perguntarem se haveria algum lugar para onde caminhar, que não fosse o Partido Democrata. Praticamente todos que caminharam naquela direção foram cooptados. Em vez de empurrar o Partido Democrata para a esquerda, a máquina da liderança Democrata corrompeu os trabalhistas, e, com o tempo, corrompeu também o movimento antiguerra e os socialistas que se haviam incorporado na esperança de arrastar os Democratas para a esquerda.

Qual, então, é o plano de Bernie, para salvar seus seguidores de serem obrigados a fazer uma concessão depois de outra, sem parar? A máquina do partido demoniza as políticas das quais os neocons de Hillary discordam, e exige apoio à escalada da OTAN e apoio subterrâneo à Parceria Trans-Pacífico de Obama (e de Hillary e Kaine), sob o pretexto de que alguém estaria ajudando, não matando, os trabalhadores. Hillary detonou a medicina socializada de Bernie, que ela declarou utópica (como se Canadá e Eurozona fossem utopias anti-capitalistas).

Enquanto Trump distribui twitter e dá entrevistas sobre o quanto e como Hillary e Debbie ferraram os apoiadores de Bernie, Bernie não fez qualquer tentativa paralela de perguntar por que os Democratas progressistas não aplaudiram as propostas de Trump, de reduzir a animosidade contra a Rússia, de que a OTAN é obsoleta e tem de ser restruturada, e de oposição à Parceria Trans-Pacífico. Bernie não aproveitou a oportunidade para mobilizar o apoio não partidarizado para a crítica que ele construiu contra as políticas econômicas neoliberais. Apostou suas fichas em Hillary – contradizendo o que ele próprio disse nas primárias (que ela não é qualificada para a presidência dos EUA).

Depois que Sanders fechou a noite da segunda-feira, de início da Convenção, declarando apoio a Hillary Clinton, as equipes de reportagem da MSNBC saíram às ruas para entrevistar apoiadores de Sanders. Perguntaram sofregamente à primeira pessoa que encontraram, em que votaria depois de ouvir que Bernie apoiará Hillary. "Em Jill Stein", disse a senhora, explicando que em nenhum caso, de nenhum modo, votaria em Hillary.

A entrevista seguinte produziu resultado similar. "Simplesmente não confio nela", disse o apoiador de Bernie. Mais uma entrevista, e resposta idêntica. O âncora da MSNBC então resolveu resumir que todos os entrevistados daquela vez responderam que votarão em Hillary. Mas soou oco. Desconfio que os telespectadores confiam tanto naquele canal de televisão, quanto em Hillary.

O problema que os rivais de Hillary enfrentam é que ela chega envolta no legado do presidente Obama. Dado que evitam qualquer crítica ao presidente, Sanders e apoiadores facilitam o que pode vir a ser sessão de governo Pato Manco com a lotação esgotada, depois das eleições de novembro. Meu medo é que Obama tente "salvar seu legado", unindo-se aos Republicanos para implantar a Parceria Trans-Pacífico; e também pode escalar a Nova Guerra Fria dele contra Rússia e China, de modo a facilitar a entrada em cena de Hillary, pela trilha já aberta.

Ter escolhido Tim Kaine para seu vice-presidente significa mais do mesmo roteiro neoliberal, pró-TPP. Hillary nunca se opôs à Parceria Trans-Pacífico. Apenas afiou a retórica: disse que "a meta" é elevar salários. O esforço de pouco adiantou, e a maioria dos eleitores provou ser mais espertos do que a candidata previa, o suficiente para saber que o resultado será exatamente o oposto.

Pois com tudo isso, Sanders declarou apoio a ela. Evidentemente conta com manter sua posição na presidência da Comissão da Minoria do Senado, de Orçamento, enquanto simultaneamente tenta promover uma revolução fora do Partido Democrata. Lembrei-me de um provérbio chinês: se o caminho se bifurca, quem tentar seguir pelas duas trilhas cai sentado.

Essa dificuldade pode ter feito Sanders perder sua maior chance de fazer a diferença. Está tentando seguir pelas duas trilhas ao mesmo tempo, continuando a concorrer como senador Independente, ao mesmo tempo em que trabalha nos cáucuses Democratas, sem conseguir bloquear a Parceria Trans-Pacífico e novas concessões a Wall Street e mais favoritismo para o 1% que ele tão eloquentemente denunciou. Revoluções são questão de oportunidade. Como ex-membro da Liga dos Jovens Socialistas, Sanders bem podia lembrar o que aconteceu quando Trotsky evitou compor-se com Stálin depois da morte de Lênin em janeiro de 1924. Pouco depois já era tarde demais, e começou o expurgo dos que se opunham a Stálin. Deixou passar a oportunidade.

Bernie foi efetivo catalisador da campanha eleitoral esse ano. Mas, como na química, o catalisador não é realmente parte da equação. Ele apenas ajuda a coisa a acontecer. Sanders não disse "Graças a Deus que Wilileaks existe. Acertou em cheio e é prova de que o CND tem de passar por reforma radical." Deixou que os apoiadores erguessem os cartazes anti-TPP. Sua nova mensagem foi "confiem em Hillary". Pois nem assim ela perdoará que antes de ser a favor dela, ele foi contra ela. Podem bem acabar marginalizado em 2017.

Eu tinha esperanças de que, na Convenção, Sanders diria que seu objetivo não havia sido apenas eleger um presidente, mas mudar as equipes no Congresso, todos os funcionários. Poderia falar dos que está apoiando, a começar pelo candidato que disputa contra Wasserman Schultz (candidata apoiada por Obama e também por Hillary), na disputa pelo assento na Assembleia Estadual da Flórida.

Os apoiadores de Bernie que deixaram o salão da Convenção na terça-feira radicalizaram o que havia para radicalizar. Mas Bernie, ele mesmo, parece um Alex Tsipras americano. Tsipras supôs que sair da eurozona fosse ainda pior que capitular ante a austeridade; Sanders supõe que afastar-se dos Democratas e apoiar um realinhamento político – talvez mesmo elegendo Trump no período de transição – seria pior que a agenda pró-Wall Street de Hillary, prima-irmã da agenda de Obama.

As coisas não melhoraram quando Bill Clinton ofertou uma biografia hagiográfica de Hillary, enfatizando seu trabalho de assistência jurídica para proteger as crianças, sem mencionar como a reforma do bem-estar de 1994 cortou drasticamente a ajuda a crianças dependentes. Madeline Albright garantiu que Hillary manterá os EUA seguros, sem mencionar o quanto Hillary promoveu a desestabilização da Líbia, e todo o apoio que garantiu à Al-Quaeda contra o governo sírio, o que gerou uma onda de milhões de refugiados para a Europa, todos, como Hillary e Albright, tentando viver sob condições de mais segurança.

Os muitos cartazes contra a Parceria Trans-Pacífico que os delegados de Sanders ergueram na quarta-feira foram testemunhas de que Hillary disse que se oporá à TPP "na versão atualmente redigida". Foi como jogar uma migalha aos trabalhadores e desempregados – um remendo retórico, antes dela repetir que a meta da coisa é elevar os padrões de vida. Mostrou simplesmente mais uma vez o quanto Hillary é cheia de truques, e abriu uma saída da qual, com certeza, muito se servirão ela mesma e Tim Kaine, conhecido pregador a favor da TPP.

A brilhante demagogia de Obama deixou muitos boquiabertos de admiração. Ninguém é melhor em fingir sinceridade, ao mesmo tempo em que mente tão desavergonhadamente, que Obama. Poucos provavelmente captaram a ameaça assustadora que Obama deixou no ar, sobre um plano de Hillary para que as empresas partilhem os lucros com os empregados. Para mim, é o mesmo plano de Pinochet, para privatizar a Seguridade Social entregando-a a Employee Stock Ownership Programs, da mais deslavada exploração. A ideia é reter parte do salário, a ser convertido em ações da empresa – uma aposta, não investimento. No final, os empregados recebem um saco vazio, como aconteceu recentemente com o Tribune de Chicago. Essa parece ser a grande "reforma" para "salvar" a Seguridade Social em que trabalham hoje em Wall Street os patrões de Hillary.

Seria de esperar que os Democratas vissem o governo Obama como uma jiboia a enforcá-los, mais ou menos como Bill Clinton enforcava Al Gore em 2000. Gore não queria que Bill mostrasse a cara em sua campanha. Pois Hillary apresenta-se como continuadora das políticas de Obama, nos "negócios, como sempre", como se a presidência dela viesse a ser um terceiro mandato dele.

Os eleitores sabem que Obama salvou os bancos, não a economia; e que a campanha de Hillary é paga por Wall Street. Esse ano portanto bem poderia ter sido ocasião propícia para iniciar algum processo realmente alternativo. Ninguém confia em Hillary, e a desconfiança já está contagiando também a máquina do Partido Democrata – especialmente depois que os Irmãos Koch e conhecidos apoiadores de candidatos Republicanos derrotados dão sinais de estar vendo a luz nos olhos de Hillary. Um terceiro partido Verde/Socialista poderia ter decolado – se Sanders tivesse contido a tempestade Trump, se tivesse tomado dele a crítica contra a Parceria Trans-Pacífico, contra o livre comércio, contra a OTAN, somada ao dinheiro de Wall Steet e Cidadãos Unidos no financiamento de campanha.

Os debates presidenciais do próximo outono

Hillary e também Bernie garantiram à Convenção Democrata, repetidas vezes, o quanto o presidente Obama deu nova vida à economia, arrancando-a da "confusão" que Bush deixou. Trump, que pode centrar seu desprezo na TPP (mais ou menos como nocauteou Jeb Bush ao dizer que a invasão do Iraque não passou de "grande erro"), pode conseguir outro nocaute, se responder aos "sucessos econômicos de Obama" com uma pergunta simples: "Mas que sucessos? Algum americano realmente se sente "recuperado" do que sofreu em 2008?"

Hillary e outros oradores na Convenção Democrata criticaram Trump por dizer que "as coisas vão mal". Mas segundo pesquisa de 13 de julho, de NBC/WSJ, 73% dos eleitores declaram que "o país está na trilha errada". Se Trump mudar o que diz, deixar aquele simples "Hillary Escroque", por slogan mais nuançado "Wall Street Escroque e sua candidata Hillary Escroque", com certeza melhorará nas pesquisas.

A inflação de dívida e os mercados que só encolherão nos dois próximos anos não dão muita esperança de aumento no salário mínimo – que nem significará, mesmo, grande coisa, se ninguém consegue emprego! Lá por 2018, a estagnação continuada do 99% pode levar a demissão em massa de Democratas nas eleições de meio de mandato (assumindo que Hillary derrote Trump esse ano), catalisando o surgimento de partido alternativo (assumindo que Hillary não exploda o mundo em sua escalada militar neocon para colar-se às fronteiras de Rússia e China).

O problema com Trump não é que não seja confiável; é que ninguém sabe que políticas promoverá. A mídia lhe dá o mesmo tratamento de silêncio sepulcral que deu a Bernie, ao mesmo tempo em que o acusa de estar na gaveta de Putin. Ele já admitiu ter vendido alguns imóveis a cidadãos russos. Talvez esses ganhos alimentem sua campanha eleitoral...

A solução não é salvar o Partido Democrata, mas substituí-lo. O debate me faz lembrar a discussão sobre a União Soviética nos anos 1950: será estado de trabalhadores que degenerou, ou mutação stalinista burocrática, que anda na direção oposta do socialismo real?

Fico pensando quantos anos faltam para Hillary ser vaiada com tanta força, vaia tão alta, que ela terá de se esgueirar dos hotéis e outros locais de palestra pela porta dos fundos, mais ou menos como Lyndon Johnson, presidente, tinha de fugir das vaias dos militantes antiguerra, antes da eleição de 1968.

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