2 de julho de 2016

Observações sobre o apelo de vinte intelectuais eurocríticos para um novo tratado europeu

Annie Lacroix-Riz

Initiative Communiste

Tradução / A visão econômica de longo prazo da União Europeia torna ridícula a esperança de renegociar os tratados europeus, exigência apresentada por "vinte intelectuais eurocríticos".

Porque este processo demonstrou os seus objetivos não "desde pelo menos há três décadas, na base dos tratados marcados pelo cunho do neoliberalismo então triunfante (Ata única, Tratado de Maastricht, Tratado de Lisboa), ou pelo neoliberalismo alemão (Tratado de coesão orçamental, chamado 'TSCG' de 2012)", mas desde as suas origens. Tratou-se, com efeito, de assegurar a tutela máxima sobre esta parte do mundo pelo imperialismo mais poderoso, os Estados Unidos, acompanhado pelo segundo, o imperialismo alemão que, contudo, as rivalidades inter-imperialistas opõem, na época das crises sistêmicas, até à guerra geral. O fenômeno desembocou, entre outras coisas, naquilo que Georges Gastaud qualifica como "protecionismo" rigoroso em proveito exclusivo da Alemanha e dos Estados Unidos. Não tem nenhuma relação com a ideologia, a guerra fria, o sonho da "democracia", etc., e não deixa qualquer hipótese à "reforma" em que parecem acreditar os "vinte intelectuais eurocéticos" que assinaram este manifesto.

A crítica é conduzida aqui estritamente do ponto de vista histórico, que decorre das minhas habilitações. 

1º. Fico estupefacta por alguns destes signatários, que eu julgava muito bem informados da verdadeira história da União Europeia, erigirem como modelo a renegociação da "conferência de Messina" de 1955 que, depois do fracasso da Comunidade europeia de defesa (CED), "[teria] permitido recolocar nos trilhos a construção europeia". 

A citada conferência reuniu-se sob a estrita imposição de Washington, com a colaboração ativa, segundo a tradição, dos seus puros e simples instrumentos, entre os quais Jean Monnet e Paul-Henri Spaak. Criou uma nova etapa da maior importância da constituição da Europa germano-americana, o Mercado Comum, que se seguiu à Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) de que "o pai da Europa" Robert Schuman, se tornou o criador oficial. A realidade é diferente, como o demonstro, designadamente em Aux origines do carcan européen [Nas origens do colete-de-forças europeu], 1900-1960, cuja edição aumentada acaba de ser publicada. 

Este Mercado comum caminhou, sem a "deriva" aqui alegada, para a união-colete de forças de que altos funcionários franceses tinham revelado, com uma precisão formidável desde 1950-1953 (esta última data foi a da construção da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço) todos os aspectos, entre os quais o impiedoso "dumping social". A dita "Europa" já tinha, na época do regresso de de Gaulle ao poder (1958), um aspecto sinistro, marcado pela sobreprodução e as crises recorrentes (testemunhadas pelo encerramento das minas de carvão que começou pelas da França e da Bélgica) que é descrito na mesma obra. 

No XIII e último capítulo de Uma comédia de erros, 1943-1956, Lembranças e reflexões sobre uma etapa da construção europeia, Paris, Plon, 1983, "A sufocação", pp. 499-523, o embaixador da França em Londres, René Massigli, traçou um quadro pavoroso desta sessão. Aparentemente foi dominada pelos peões "europeus" de Washington, já citados, sem esquecer os outros, como Pinay, Hallstein, Adenaur e Beyen; na realidade foi dominada pelo motor Departamento de Estado-CIA, sob a batuta respectiva dos dois irmãos Dulles, John Foster e Allen, parceiros essenciais de Sullivan & Cromwell, o maior gabinete americano de negócios internacionais, ligado à finança alemã desde a virada do século XIX. 

Diga-se, para o caso de haver a tentativa de rotular o interessado de subversão ou de "nacionalismo", que Massigli não foi a bandeira da resistência ao tutor estrangeiro, e que se considerava "europeu". Este antigo campeão do Apaziguamento de entre as duas guerras, obreiro principal dos acordos de Munique, como diretor dos Assuntos políticos do Quai d'Orsay [Ministério dos negócios estrangeiros francês] (ver o índice de Choix de la défaite, Paris, Armand Colin, 2010), tinha acabado de aliar-se a de Gaulle, em 1943. Aliança tardia e muito pressionada: os arquivos americanos mostram-no literalmente ajoelhado perante Washington e quotidianamente disposto, na Argélia, em 1943-1944, a deixar cair de Gaulle, ao qual censura uma resistência excessiva às exigências americanas. Allen Dulles, o patrão do OSS (organização que precedeu a CIA) na Europa, estabelecido desde novembro de 1942 em Berna, já então tinha ganhado, junto de Robert Murphy, delegado de Roosevelt desde dezembro de 1940 no desembarque no Norte de África "francês", os seus galões de mestre e de prestamista de fundos dos "europeus": quer dizer, das "elites" da sociedade, adquiridas à custa do domínio dos Estados Unidos sobre o continente europeu, depois de ter estado, a maior parte das vezes, a partir dos anos 1930, submetido aos alemães (sobre estes nomes, ver o índice da obra Les élites françaises, 1940-1944. De la collaboration avec l’Allemagne à l’alliance américaine [As elites francesas, 1940-1944. Da colaboração com a Alemanha à aliança americana] Paris, Armand Colin, 2016). 

Sobre a origem americana desta mítica "conferência de Messina" não há uma palavra no manifesto dos "vinte intelectuais eurocríticos". Omissão surpreendente que se mantém nos outros dois pontos abordados. 

2º. A sedutora reivindicação da renúncia ao "modelo mercantilista alemão (excedente externo próximo dos 10% do PIB) [...] impossível para os outros países, designadamente os do sul da Europa", equivale, tendo em conta a história real da União Europeia, à reivindicação cortês e oca, dirigida aos Estados Unidos e à Alemanha, de abandonar pura e simplesmente a citada união, criada por eles. O mesmo aconteceria se se pedisse a uma associação bancária que se autotransformasse em uma empresa de obras de caridade, para realizar a famosa "Europa social" de que nos ufanamos todos os dias. Esta reivindicação é tão espantosa como a da realização de uma nova "conferência de Messina", pois o objetivo da União Europeia foi precisamente concretizado: beneficiamos do seu sucesso há já quase sessenta anos, é preciso dizê-lo, com uma intensidade ampliada pela destruição da zona de influência soviética, transformada em zona americana há 25 anos.

"Deriva" - a sério? - em relação à proposta de um alto funcionário do Quai d'Orsay de fevereiro de 1950 (antes do famoso discurso de Robert Schuman, de 9 de maio, portanto), anunciando os efeitos iminentes da "pressão do desemprego sobre o nível dos salários [europeus]. Ora, não pode haver harmonização dos salários e dos encargos sociais [...] senão pelo jogo da oferta e da procura e ela verificar-se-á no nível mais baixo. É essa precisamente uma das razões pelas quais o Conselho nacional do patronato francês defende a liberalização das trocas comerciais e das Uniões regionais: vê nelas uma forma de reduzir as pretensões dos assalariados nas próximas negociações dos contratos coletivos". (Nota do Serviço de Cooperação económica (SCE), em 10 de fevereiro de 1950, CE, 56, arquivos do Ministério dos negócios estrangeiros, mais desenvolvidamente citada em Aux origines do carcan européen [Nas origens do colete-de-forças europeu], pp. 116-117. (O Conselho nacional do patronato francês sucedeu, em 1946, à Confederação geral da produção francesa que, em julho de 1936, se tornou a Confederação geral do patronato francês, e precedeu o MEDEF).

As exigências históricas e atuais dos Estados Unidos a respeito deste enorme mercado unificado e não protegido das suas mercadorias e dos seus capitais, também não foram tomadas em conta neste segundo ponto do manifesto

3º. O "diálogo com a Rússia, país europeu indispensável para o estabelecimento de uma segurança de que todas as nações têm necessidade", etc., é compatível com a manutenção da União Europeia na OTAN, instituição cuja origem se confunde estritamente com a história do cerco à URSS? Aliás, os Estados Unidos combatiam a Rússia desde os começos da era imperialista, mais de vinte anos antes de 1917. Isso foi demonstrado por um dos pais fundadores da corrente historiográfica americana dita "revisionista" (corrente científica sem relação com os "revisionistas" franceses, simples "negacionistas" das câmaras de gás), William Appleman Williams. A sua tese universitária (Ph.D.) American Russian Relations, 1781-1947, New York, Rinehart & C°, 1952, mostrou como o jovem imperialismo americano, sequioso por controlar, entre outros, os destinos da China, tinha considerado insuportável a expansão do seu (bastante débil) rival russo, que reivindicava a participação no controle dos transportes ferroviários da China: "A aliança [russo-americana] fraca e informal [...] quebrou-se com os direitos de passagem das ferrovias [russas] da Manchúria meridional e do leste chinês, entre 1895 e 1912".

Encontram-se muitas referências à velha obsessão antirrussa dos imperialismos americano e alemão e sobre a sua agressividade, incluindo na dimensão militar, para com o império russo e depois com a URSS, nas referências seguintes: "Le débarquement du 6 juin 1944, du mythe d’aujourd’hui à la réalité historique" [O desembarque de 6 de junho de 1944, do mito de hoje à realidade histórica] (junho de 2014), e em «L’apport des “Guerres de Stáline” de Geoffrey Roberts à l’histoire de l’URSS: acquis et débats» [A contribuição das "guerras de Stalin" de Geoffrey Roberts para a história da URSS: fatos estabelecidos e debates], prefácio à obra de Geoffrey Roberts, Les guerres de Stáline, [As guerras de Stalin] Paris, Delga, 2014, p. I-XXXIV. Os que estiverem tentados a pôr de parte as referências fornecidas pela universitária séria que eu sou, poderão constatar que eu utilizo quer os arquivos originais, quer os trabalhos históricos americanos acumulados durante décadas. Este trabalho, digamo-lo, qualifica as práticas da "sovietóloga" de Rennes 2, Cécile Vaissié, que põe em causa a "universitária jubilada e militante do PRCF" Annie Lacroix-Riz em Les réseaux du Kremlin en France [As redes do Kremlin em França]. O leitor poderá comprovar a falta de seriedade da documentação desta obra recente, que recebeu uma enorme repercussão midiática, fenômeno que demonstra a natureza mais do que atual do meu livro de 2012 L’histoire contemporaine toujours sous influence [A história contemporânea sempre influenciada], Paris, Delga-Le temps des cerises.

Uma "União Europeia" com direção germano-americana bem-disposta com a Rússia, a sério? O que aconteceu a alguns, pelo menos, dos "vinte intelectuais eurocríticos" que tínhamos julgado observadores sérios do "colete-de-forças" reservado de longa data aos "europeus" não detentores de lucros monopolistas? Os seus "votos piedosos" traduzirão uma nostalgia pelo "beijo de Lamourette" de julho de 1792?

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