31 de julho de 2016

Por uma internacional progessista

Yanis Varoufakis

Project Syndicate

Tradução / A política nas economias avançadas do Ocidente está passando por um estremecimento político não visto desde 1930. A Grande Deflação que agora está arrebatando os dois lados do Atlântico está revivendo forças políticas que estavam dormentes desde o final da II Guerra Mundial. A paixão está voltando para a política, mas não do jeito que esperávamos.

A direita se animou com um fervor anti-establishment que era, até recentemente, uma reserva da esquerda. Nos Estados Unidos, Donald Trump, o candidato presidencial dos Republicanos, está desafiando sua oponente Democrata, Hillary Clinton, por seus laços com Wall Street, pela vontade de invadir terras estrangeiras e a prontidão em abraçar acordos de livre-comércio que têm prejudicado o padrão de vida de milhões de trabalhadores. No Reino Unido, o Brexit colocou Thatcheristas ardorosos no papel de defensores entusiastas do Serviço Nacional de Saúde.

Essa mudança não é sem precedentes. A direita populista tradicionalmente adotou retóricas quase de esquerda em tempos de deflação. Qualquer um que tenha estômago para aguentar revisitar os discursos de líderes fascistas e nazistas dos anos 1920 e 1930 irá encontrar apelos – os louvores de Benito Mussolini à seguridade social ou as críticas ferinas de Joseph Goebbels ao setor financeiro – que parecem, a uma primeira vista, indissociáveis de objetivos progressistas.

O que estamos vivenciando hoje é a repercussão natural da implosão de políticas centristas, devido a uma crise do capitalismo global na qual um colapso financeiro levou a uma Grande Recessão e à grande deflação de hoje. A direita está simplesmente repetindo seu velho truque de se aproveitar da raiva e frustração das vítimas para avançar com sua agenda repugnante.

Tudo começou com a morte do sistema monetário internacional estabelecido em Bretton Woods em 1944, que forjou um consenso político no período do pós-guerra, baseado em uma economia “mista” que colocava limites à desigualdade, e forte regulação financeira. Essa “era de ouro” se foi com o chamado choque de Nixon em 1971, quando os Estados Unidos deixou de gerar excedentes que, reciclados internacionalmente, mantinham o capitalismo global estável.

Em especial, a hegemonia norte-americana cresceu nessa segunda fase pós-guerra em paralelo com seus déficits do comércio exterior e orçamentário. Mas para continuar financiando esses déficits, os banqueiros tinham que ser libertados de suas restrições do New Deal e de Bretton Woods. Somente então iriam estimular e gerenciar os fluxos de capital para dentro do país, necessários para financiar seus déficits fiscal e da balança de transações correntes.

A financeirização da economia era o objetivo, o neoliberalismo era sua capa ideológica, o aumento das taxas de juros da era Paul Volcker do Federal Reserve eram seu gatilho e o presidente Bill Clinton era o último a fechar essa barganha faustiana. E o timing não poderia ter sido mais agradável: o colapso do império soviético e a abertura da China geraram a aparição de mão-de- obra para o capitalismo global – um bilhão de trabalhadores a mais – que aumentaram os lucros e contiveram os aumentos do salário em todo o Ocidente.

O resultado da extrema financerização foi uma desigualdade enorme e uma vulnerabilidade profunda. Mas ao menos a classe trabalhadora do Ocidente tinha acesso a empréstimos baratos e preços de moradia inflacionados para compensar o impacto dos salários estagnados e das transferências fiscais em declínio.

Então veio a crise de 2008 que, nos EUA e na Europa, produziu um excesso massivo tanto de pessoas como de dinheiro. Enquanto muitos perdiam seu empregos, suas casas e suas esperanças, trilhões de dólares em poupanças esparramavam-se pelos centros financeiros mundiais desde então, por cima de mais trilhões que foram bombeados pelos desesperados bancos centrais ansiosos por substituir o dinheiro tóxico dos financistas. Com as empresas e os atores institucionais muito assustados para investir na economia real, os preços das ações explodiram (os 0,1% do topo não conseguem acreditar em sua sorte), e o resto assiste sem esperanças enquanto as vinhas da ira estão “engrossando e ficando mais pesadas, crescendo pesadas para a colheita.”

E assim essa grande parte da população na América do Norte e na Europa se tornou muito endividada e muito cara para serem qualquer coisa senão descartados – e prontas para serem manipuladas por Trump através da tática do medo, pela xenofobia de Marine Le Pen líder do Front Nacional Francês, ou pela visão dos adeptos do “Brexit” de um Reino Unido que passaram a dominar novamente. Enquanto eles crescem, os partidos políticos tradicionais estão caindo na irrelevância, suplantados pela emergência de dois novos blocos políticos.

Um bloco representa a velha troika da liberalização, globalização e financeirização. Pode ainda estar no poder, mas seu estoque está se esgotando rapidamente, como podem atestar David Cameron, os democratas socialistas da Europa, Hillary Clinton, a Comissão Européia, e até o governo do Syriza pós-capitulação.

Trump, Le Pen, os adeptos do “Brexit” de direita do Reino Unido, os governos iliberais da Polônia e da Hungria e o presidente russo Vladimir Putin estão formando o segundo bloco. O deles é uma internacional nacionalista – uma criatura clássica em períodos deflacionários – unidos por um desprezo à democracia liberal e à capacidade de mobilizar aqueles que poderiam esmaga-la.

O conflito entre esses dois blocos é real e enganoso. Clinton vs. Trump constitui uma batalha genuína, por exemplo, como é a União Européia vs. os adeptos do “Brexit”; mas os dois combatentes são cúmplices, não adversários, em perpetuar um “looping” interminável de fortalecimento mútuo, com cada lado definido pelo que se opõe – e mobilizando seus apoiadores para isso.

O único jeito de sair dessa armadilha política é um internacionalismo progressista, baseado na solidariedade entre as grandes maiorias ao redor do mundo que estão preparadas para reavivar políticas democráticas em uma escala planetária. Se isso soa utópico, é válido enfatizar que a matéria prima já está disponível.

A “revolução política” de Bernie Sanders nos EUA, a liderança de Jeremy Corbyn do Partido dos Trabalhadores no Reino Unido e o DiEm25 (Movimento “Democracia na Europa”) no continente, estes são os prenúncios de um movimento por uma internacional progressista que pode definir o terreno intelectual sobre o qual cada política democrática precisa ser construída. Mas estamos em um estágio inicial e enfrentamos uma reação negativa da troika global: veja-se o tratamento que teve Sanders pelo Comitê Nacional Democrata, a corrida contra Corbyn por um ex-farmacêutico lobista e a tentativa de me condenarem por ter ousado enfrentar os planos da União Européia para a Grécia.

A Grande Deflação coloca uma grande questão: pode a humanidade produzir e implementar uma nova e avançada Bretton Woods “verde” - um sistema que torne o nosso planeta ecológica e economicamente sustentável – sem a dor em massa e destruição que precederam o Bretton Woods original?

Se nós – internacionalistas progressistas – não respondermos essa questão, quem irá? Nenhum dos dois blocos políticos que estão lutando pelo poder no Ocidente nem querem que isso seja posto.

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