21 de agosto de 2016

O que significa quando os falcões de guerra dizem: "Trump Nunca"?

Os inimigos do meu inimigo podem ser criminosos de guerra

Rebecca Gordon

TomDispatch.com

Tradução / Não é todo dia que Republicanos publicam carta aberta para informar aos eleitores que o candidato deles à presidência dos EUA não pode chegar à Casa Branca. Seja como for, esse tipo de coisa tem acontecido cada vez mais frequentemente. O mais recente é o caso de 50 representantes do aparelho de segurança, homens – e umas poucas mulheres – que trabalharam nos governos Republicanos de Ronald Reagan a George W. Bush. Todos muito preocupados com Donald Trump.

Eles acham que devemos ser alertados para o fato de que o porta-bandeiras republicano "não tem o caráter, valores e experiência para ser presidente."

Provavelmente é verdade, mas vindo de quem vem, pode ser ainda pior. Entre os signatários estão, além de outros, o homem que serviu como consultor jurídico no gabinete de Condoleezza Rice quando ela dirigiu o Conselho de Segurança Nacional (John Bellinger III); um dos diretores da CIA de George W. Bush, que também presidiu a Agência de Segurança Nacional (Michael Hayden); um embaixador do governo Bush à ONU e ao Iraque (John Negroponte); um arquiteto da política neocon para o Oriente Médio adotada no governo Bush e que levou à invasão do Iraque, o qual, desde então, trabalha como presidente do Banco Mundial (Robert Zoellick). Em resumo, dada a história da "guerra global ao terror", aí está lista de criminosos de guerra potenciais, que ainda detêm muito poder.

A carta continua: "Ele enfraquece a autoridade moral dos EUA como o líder do mundo livre."

Aí está uma frase que se tem de desembrulhar atentamente.

O que é o "mundo livre"?

Comecemos pelo final: "líder do mundo livre". Era como muitos jornalistas chamavam o presidente dos EUA e, não raras vezes, o país como tal, durante a Guerra Fria. Entre o fim da II Guerra Mundial e o colapso da União Soviética, o "mundo livre" incluía todos os países anglófonos fora da África e algumas ditaduras latino-americanas, além da Europa Ocidental, a América do Norte e nações como Filipinas, que tiveram relacionamento colonial com os EUA.

A URSS liderava o que, por essa lógica, seria o mundo não livre, onde se reuniam os países do Pacto de Varsóvia na Europa Oriental, as nações "cativas" do Báltico, Lituânia, Latvia e Estônia, a República Popular da China (durante parte do período), a Coreia do Norte e, claro, Cuba. Americanos que cresceram nesses anos sabiam que as pessoas que viviam atrás da "Cortina de Ferro" não eram livres. Viam-se cartazes em ônibus e anúncios dos serviços públicos pela TV pedindo doações para a Radio Free Europe [Rádio Europa Livre], às vezes ilustrados com filmes nos quais se via um adolescente pálido, com uma coroa de correntes de ferro.

Não tenho absolutamente nenhuma dúvida de que ele e seus compatriotas da Europa Oriental estavam longe de ser livres. Interrogo-me, no entanto, quão livre seus homólogos brasileiros, argentinos, chilenos, filipinos das ditaduras apoiadas pelos americanos se sentiam.

Os dois grandes adversários, com os países de suas respectivas esferas de influência, eram frequentemente chamados Primeiro Mundo e Segundo Mundo. Os governantes desses mundos tratavam o resto do planeta – o Terceiro Mundo – como tabuleiro de xadrez sobre o qual moviam seus exércitos à distância, exércitos com poder delegado e sobre os quais às vezes miravam os respectivos mísseis. Alguns países no Terceiro Mundo recusaram-se a servir de peões no jogo das superpotências e criaram um Movimento dos Não Alinhados (MNA), que tentaram tecer uma via entre Cila e Caribdis – naquele momento, EUA e União Soviética.

Entre os seus fundadores haviam alguns dos grandes nacionalistas do Terceiro Mundo: Sukarno da Indonésia, Jawaharlal Nehru da Índia, Kwame Nkrumah de Gana, e Gamal Abdel Nasser do Egito, além do presidente da Iugoslávia, Josip Broz Tito.

Outros países não tiveram a mesma boa sorte. Quando os EUA tomaram da França o (malsucedido) projeto de derrotar a luta anticolonial do Vietnã, o povo foi informado de que a guerra que se seguiu, com bombardeios massivos, muito napalm e Agente [desfolhante] Laranja contra uma sociedade de camponeses significaria o avanço da liberdade contra as forças da escravidão comunista. A América Central também serviu de campo de batalha da Guerra Fria, com Washington comandando guerras à distância durante a década de 1980 na Guatemala, El Salvador e Nicarágua, onde camponeses pobres insistiram que tinham direito de ser tratados como seres humanos, e foram muito frequentemente assassinados brutalmente para que não criassem problemas. Além disso, os EUA financiaram, treinaram e armaram uma ditadura militar em Honduras, onde John Negroponte – um dos signatários da carta anti-Trump – serviu como embaixador dos EUA de 1981 a 1985.

A União Soviética, sabe-se, já se foi há muito tempo, mas o "mundo livre", parece, continua, e é por isso que funcionários dos EUA não raras vezes ainda se referem a todos nós como líder dele – expressão que só faz sentido, claro, no contexto de dois mundos divididos entre si e em duelo. Mas em planeta pós-soviético, é difícil saber que configuração geográfica corresponde(ria) hoje ao "mundo não livre". Serão (como Donald Trump diria) todos os que vivem sob regimes muçulmanos ou árabes? Ou será tudo que se reúna sob esse fenômeno amorfo que chamamos de "terrorismo" ou de "terrorismo islamista", que pode às vezes chegar até o "mundo livre" e massacrar inocentes em San Bernardino, Califórnia, Orlando, Florida, ou em Nice, França? Ou será alguma velha União Soviética, que voltaria reencarnada na Rússia de Vladimir Putin ou, talvez, numa China capitalista controlada por Partido Comunista?

Confrontados com a perda de um antagonista primário e a confusão em que o planeta mergulhou, George W. Bush foi forçado a reduzir o "império do mal" (a União Soviética), como dizia Reagan, a três "estados párias", Iraque, Irã e República Popular Democrática da Coreia ("Coreia do Norte"), os quais, em discurso memorável ao Congresso, ele reuniu num só "eixo do mal." A primeira dessas mentiras já está praticamente em ruínas; com a segunda, sentamos recentemente e assinamos um tratado nuclear; e a terceira parece incapaz até de alimentar a própria população. Para felicidade de todo o "mundo livre", o governo Bush ainda tinha inimigos de reserva aos quais recorrer. Em 2002, John Bolton, então subsecretário de Estado (e mais tarde embaixador dos EUA na ONU), acrescentou outro grupo "além do eixo do mal" – Líbia, Síria e Cuba. Dos três, só Cuba e Síria ainda são nações operantes.

É preciso destacar que os 50 representantes Republicanos e estrelas da máquina de segurança dos EUA que denunciaram Donald Trump em termos da Guerra Fria estão, eles mesmos, em extraordinária companhia... do próprio Donald Trump (o qual, recentemente, num discurso, invocou práticas norte-americanas da Guerra Fria como base de sua própria política externa, caso seja eleito).

"Ele enfraquece a autoridade moral dos EUA..."

Depois de suas guerras de século 21, de seus "pontos negros" e de Guantánamo, dentre outros desenvolvimentos da atualidade, é difícil imaginar "autoridade moral" mais fraca do que a que resta hoje aos EUA. Primeiro, demos ao mundo oito anos de invasões e ocupações ilegais por ordem de George W. Bush, no Afeganistão e no Iraque, além dos pontos negros de tortura da CIA, das técnicas de tortura chamadas "de interrogatório estimulado", e de um programa absolutamente ilegal de sequestros globais de suspeitos de terror (alguns dos quais comprovadamente inocentes). Sob governo do presidente Obama, trocamos as técnicas de interrogatório estimulado pelo uso "estimulado" de assassinatos por drone (outra vez à margem de qualquer lei, da guerra ou outra, e aprovados exclusivamente nos termos de documentos formalmente legais que o Departamento de Justiça dos EUA produziu para legalizar aqueles crimes).

Quando Barack Obama assumiu o poder em janeiro de 2009, sua primeira ordem executiva extinguiu o programa de torturas da CIA e fechou os "pontos negros" da mesma agência espalhados pelo mundo. Muitos tiveram a impressão de que a fibra moral dos EUA poderia estar-se fortalecendo. Mas quando se tratou de levar os torturadores aos tribunais... Obama surgiu com a ideia de que o país deveria "olhar para a frente, não para trás". E o Departamento de Justiça desistiu de processar os torturadores. É difícil para um país manter a própria autoridade moral no mundo, se se recusa a aplicar a própria autoridade moral dentro de casa.

Dois dos signatários da carta em que manifestam tanta preocupação com o efeito Trump sobre a autoridade moral dos EUA são, eles mesmos, atores protagonistas do "enfraquecimento" da autoridade moral dos EUA, consequência de seu envolvimento no programa de torturas da CIA: John Bellinger III e Michael Hayden.

O dia 26 de junho é o Dia Internacional da ONU de Apoio a Vítimas de Tortura. Para marcar esse dia em 2003, o presidente Bush emitiu a seguinte declaração: "Tortura, onde quer que ocorra, é uma afronta à dignidade humana. Os EUA comprometem-se com a eliminação mundial da tortura, e lideramos essa luta com nosso exemplo."

A matéria publicada no Washington Post sobre o discurso do presidente trazia também uma citação do vice-secretário de Imprensa da Casa Branca Scott McClellan, que assegurava que todos os prisioneiros do governo dos EUA estariam sendo tratados "com humanidade". John Rizzo, que trabalhava então como vice-conselheiro geral da CIA, telefonou a John Bellinger, assessor jurídico de Condoleezza Rice, para manifestar sua preocupação com o que o presidente e McClellan haviam dito.

O problema estava em que – como Rizzo e seu chefe, o diretor George Tenet da CIA, sabiam muito bem – muitos detidos (alguns clandestinamente) pela CIA não estavam de modo algum sendo tratados com humanidade. Estavam sendo torturados e, de vários modos, estavam sendo submetidos a maus tratos. A CIA queria ter certeza de que ainda contava com apoio e aprovação da Casa Branca para seu programa de "interrogatórios reforçados", porque não queria que seus agentes fossem apanhados com a arma do crime, caso a verdade viesse à tona. Queriam também que a Casa Branca acabasse com aquela conversa sobre tratamento humano a prisioneiros.

De acordo com um memorando interno da CIA, George Tenet marcou uma reunião no dia 29 de julho de 2003 no gabinete de Condoleezza Rice, para receber a indispensável garantia de que a CIA teria cobertura no caso de a verdade das torturas vir à tona. Nessa reunião, Bellinger desculpou-se em nome de todo o governo; explicou que o secretário da Casa Branca "fugira do script", que retomara inadvertidamente "velhos itens de declarações públicas". Também "prometeu que cuidaria para que o gabinete de imprensa da Casa Branca não voltaria a fazer declarações sobre aquele assunto; que se limitaria a repetir que os EUA cumprem seus deveres em estrita obediência à lei norte-americana."

Na mesma reunião, o conselheiro-chefe de Tenet, Scott Muller, distribuiu pacotes de prints de slides de PowerPoint mostrando em detalhes as técnicas de interrogatório reforçado, inclusive a simulação de afogamento, para que todos os presentes, Bellinger e também Rice, compreendessem perfeitamente o que ele estava encarregado de ocultar.

Isso, como amostra da "autoridade moral" de John Bellinger III.

Quanto a Michael Hayden (que ocupou vários cargos no aparelho de segurança nacional), um dos seus primeiros atos como diretor da CIA foi aprovar em 2005 a destruição de videoteipes das sessões, na agência, de simulação de afogamento. Numa carta a empregados da CIA, Haydeb escreveu que as fitas só foram destruídas "depois de confirmado que não mais interessavam à inteligência nem teriam qualquer serventia em inquéritos internos, legislativos ou policiais."

Claro, destruir as fitas também significava que elas nunca estariam disponíveis para qualquer futura consulta legislativa ou judicial. A carta continua,

"À parte já não terem qualquer valor para a inteligência... as fitas representavam grave risco de segurança. Caso algum dia vazassem, permitiriam identificar seus colegas da CIA que trabalharam no programa, expondo-os, e suas famílias, à retaliação pela al-Qaeda e simpatizantes."

Difícil é saber se Hayden temia mais a al-Qaeda ou a lei norte-americana. Pelo sim, pelo não, deu cabo de todas as provas e privou a opinião pública – e algum investigador futuro – de provas crucialmente decisivas de mais de um crime.

Hayden também perpetuou a mentira segundo a qual a primeira vítima da CIA, de simulação de afogamento, Abu Zubaydah – submetido à tortura por simulação de afogamento escandalosas 83 vezes – seria agente crucial da al-Qaeda e que teria fornecido toda a informação que a CIA reuniu de fontes humanas, sobre a al-Qaeda. Mentira. Zubaydah na verdade jamais foi membro da al-Qaeda. Nos anos 1980, comandou um campo no Afeganistão para os mujahedin, a força que os EUA apoiavam contra a ocupação do país pelos soviéticos: era, isso sim, um dos "combatentes da liberdade" de Reagan.

Bellinger fez mais, adiante, mantendo viva a mentira sobre Abu Zubaydah, ao argumentar em 2007 em nome da sua chefa, Condoleezza Rice, que Guantánamo devia ser mantida em funcionamento. Aquela prisão, disse ele, "serve a objetivo muito importante, para deter e prender indivíduos extremamente perigosos [como] Abu Zubaydah, gente que participou do planejamento do 11/9."

"Ele parece carecer de conhecimentos básicos sobre e crença na Constituição dos EUA, nas leis norte-americanas e nas instituições dos EUA ..."

Essa é a linha seguinte da carta aberta das autoridades dos Republicanos, e talvez seja avaliação correta de Donald Trump. Mas é mais do que simples ironia que a carta tenha sido assinada por Michael Hayden, homem que, além de apoiar o projeto de tortura da CIA, supervisionou o programa de vigilância secreta da Agência de Segurança Nacional pós 11/9. Por aquele programa, o governo dos EUA gravou telefonemas, textos e comunicações por internet de número desconhecido de pessoas, dentro e fora dos EUA – sempre sem mandato judicial.

Talvez Hayden acredite na Constituição, mas, na melhor das hipóteses, será fé bem seletiva. Afinal, a incômoda 4ª Emenda, por exemplo, protege

"o direito das pessoas à segurança, no corpo, no lar, em documentos, em papéis e efeitos, contra revistas e confiscos ilegais, que não será violado; e não se emitirão mandados, senão com causa provável bem definida, apoiada em juramento, ou em afirmação e, especificamente, que descreva o local a ser revistado e a pessoa ou bens a serem recolhidos."

Hayden tampouco dá qualquer sinal de crer nas leis e instituições dos EUA, no mínimo no que tenha a ver com a [lei] Foreign Intelligence Surveillance Act de 1978, que estabelece que as cortes secretas devem emitir o mesmo tipo de mandado que o programa de Hayden jamais cuidou de obter.

John Negroponte é outro dos signatários que têm longa história de infringir leis norte-americanas e desobedecer ao Congresso que as aprova. Quando foi embaixador em Honduras, Negroponte ajudou a desenvolver um exército assassino chamado "contra", que os EUA armaram e treinaram para derrubar o governo da vizinha Nicarágua. Durante aqueles anos, ajudar os contras era prática ilegal, nos termos da lei norte-americana. Era explicitamente proibido, pelas chamadas Emendas Boland, mas não importa. "A segurança nacional" estava em jogo.

Por falar em Constituição, é útil passar os olhos pelo Artigo 6, que determina que "todos os tratados feitos ou que venham a ser feitos, sob a autoridade dos EUA, devem ser a lei suprema da terra." Entre esses tratados está, por exemplo, o pacto Kellogg-Briand de 1928, de não agressão (e cuja violação foi a primeira acusação feita contra os oficiais nazistas julgados em Nuremberg). E o Artigo 51 da Carta da ONU, que só admite ação militar "se ocorrer ataque armado contra país membro da ONU."

Em 1998, Robert Zoellick, outro daqueles 50 Republicanos que estão abertamente denunciando Trump, assinou uma outra carta, bem diferente, na qual advoga a favor do fim daqueles tratados. Como associado ao Projeto para um Novo Século Americano, Zoellick foi um dos que exigia que o então presidente Bill Clinton ordenasse "complemento total de esforços diplomáticos, políticos e militares" para "remover Saddam Hussein do poder." Seria apenas o primeiro passo de campanha mais ampla para criar uma Pax Americana no Oriente Médio. Na carta de 1998, insistia em que Clinton não perdesse tempo com tentar obter uma Resolução do Conselho de Segurança, porque "a política norte-americana não pode continuar esmagada por uma insistência nefasta em obter unanimidade no Conselho de Segurança da ONU."

"Ele é incapaz ou não tem vontade de separar a verdade da mentira..."

É o que se lê na carta que, mais uma vez, oferece caracterização de Trump que parece bem justa, uma vez que o candidato tem dito com frequência que o presidente Obama jamais provou ser nascido nos EUA, e que mais de uma vez repetiu a história já há muito tempo desmentida de que na Morro Rebellion, 1899-1913, nas Filipinas, o general John J. Pershing teria usado balas molhadas em sangue de porco para executar insurgentes muçulmanos. (E isso só para arranhar levemente a superfície da espantosa pouca disposição que Trump manifesta para separar verdade e mentiras.) Mas... O que dizer sobre separar verdade e mentiras, no passado dos signatários da carta contra Trump?

Clinton nunca acreditou muito na proposta do Projeto do Novo Século Americano, mas poucos anos depois dele, George W. Bush abraçou a ideia. E os funcionários de seu governo imediatamente desencadearam sua campanha de mentiras sobre as armas de destruição em massa de Saddam, sobre o bolo amarelo de urânio do Niger, sobre "armas fumegantes" que se poderia vir a descobrir que seriam "nuvens em forma de cogumelo" (presumivelmente sobre cidades norte-americanas), e todos esses itens viriam a servir como pretexto para a invasão ilegal do Iraque, obra daquele governo Bush.

O governo Bush não se limitou a mentir ao povo norte-americano. O embaixador dos EUA à ONU, John Negroponte, foi mandado mentir também ao Conselho de Segurança. A Resolução n. 1441 do Conselho de Segurança foi a última de várias que exigiam que o Iraque aceitasse as inspeções pela United Nations Monitoring, Verification, and Inspection Commission (UNMOVIC) e pela Agência Internacional de Energia Atômica. Alguns membros do Conselho de Segurança, especialmente Rússia e França, não estavam convencidas de que a Resolução 1441 devesse ser aprovada, temendo que os EUA a interpretassem como licença para invadir. Então, nas discussões antes da votação, Negroponte garantiu ao Conselho de Segurança que "a resolução não contém 'gatilhos ocultos' nem qualquer 'automaticidade' relacionada ao uso de força. Se houver outra quebra de confiança no Iraque, reportada ao Conselho pela UNMOVIC, a Agência Internacional de Energia Atômica ou por qualquer estado-membro, o assunto retornará ao Conselho para ser discutido." O embaixador britânico usou palavras quase idênticas a essas para garantir que, antes de atacarem o Iraque, EUA e Grã-Bretanha voltariam a pedir a bênção do Conselho de Segurança.

Absolutamente nada disso aconteceu desse modo. Em 24 de fevereiro de 2003, Washington e London levaram ao Conselho de Segurança uma resolução para guerra. Quando ficou claro que dois dos membros permanentes França e Rússia vetariam a resolução se chegasse a ser votada, Bush (em ação combinada com o primeiro-ministro britânico Tony Blair) decidiu retirar a resolução. "Todos nós concordamos", escreveu ele em suas memórias, que "o caminho diplomático tinha chegado ao fim."

Assim os EUA avançaram na trilha predefinida rumo à guerra e ao desastre no Iraque, caminho que depois de muitas idas e vindas, muitos fracassos, muita destruição, levaria a Donald Trump.

E é o que basta, em matéria de cumprir promessas e separar "a verdade da mentira."

Os inimigos do meu inimigo

Tenham em mente que o que aqui se examinou é apenas uma pitada do curriculum vitae de 50 Republicanos luminares da política exterior e da segurança nacional que decidiram comprar a briga com The Donald.

Com alguma sorte, entre a conclamação indireta para que sua adversária seja assassinada, e as recentes notícias sobre seu sombrias conexões na Ucrânia do seu diretor de campanha Paul Manafort, alcançamos o Peak Trump. Com apoiadores desertando por todos os lados, é possível que não tenhamos Trump para chutar por aí por muito tempo.

Mas não devemos esquecer que o partido que tornou Trump possível é também o lar dos trapaceiros, mentirosos e criminosos de guerra agora ansiosos para deserdá-lo. Os inimigos de nosso inimigo não são nossos - ou do mundo - amigos.

Mas não podemos esquecer que o partido que tornou possível o Trump de hoje, também é valhacouto de escroques, mentirosos e criminosos de guerra hoje ansiosos por livrar-se dele. Os inimigos do nosso inimigo não são nossos amigos – nem são amigos do mundo.

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