3 de junho de 2016

Palmiro Togliatti e a luta pela paz ontem e hoje

Com o relatório de Domenico Losurdo - filósofo, presidente da revista Marx XXI, membro do Comitê Científico da revista "Marxism Today" - começamos a publicação de materiais relacionados com o Congresso “Palmiro Togliatti, a via italiana: passado e futuro do comunismo”, organizado pela Escola de Formação Política “Gramsci-Togliatti” e realizado próximo à sede da Escola, em Campoleone (Roma), em 28 de maio de 2016. Além dos textos dos relatórios, também iremos postar o vídeo completo dos trabalhos do congresso, que pretende ser um contributo para a regeneração de uma cultura política, a do comunismo italiano, que constitui uma base essencial do processo de reconstrução do Partido Comunista em nosso país.

Domenico Losurdo

Partito Comunista d'Italia

“Uma das principais qualidades dos bolcheviques (...), um dos pontos fundamentais da nossa estratégia revolucionária é a capacidade de compreender a todo momento qual é o inimigo principal e de saber concentrar todas as forças contra esse inimigo” (Relatório ao VII Congresso da Internacional Comunista)

1. Democracia ou paz?

Tradução / Convém iniciar pela Guerra Fria. Para esclarecer de que momentos se trataria limito-me a alguns particulares. Em janeiro de 1952, para superar a situação de impasse nas operações militares na Coreia, o presidente estadunidense Harry S. Truman acalentava uma ideia tão radical que até registrou em uma anotação de diário: podia-se dar um ultimato à União Soviética e à República Popular da China, esclarecendo antecipadamente que a não obediência “significava que Moscou, São Petersburgo, Mukden, Vladivostok, Pequim, Xangai, Port Arthur, Dalian, Odessa, Stalingrado e toda instalação industrial na China e na União Soviética tinham sido destruídos” (SHERRY, 1995, p. 182). Não se tratava de um sonho, horripilante como se queria, e sem contato com a realidade: naqueles anos a arma atômica era agitada contra a China que estava empenhada em concluir a revolução anticolonial e a obter a independência nacional e a integridade territorial. A ameaça se tornava muito mais crível por causa da lembrança, ainda viva e terrível, de Hiroshima e Nagasaki: as duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão agonizante, mas também, ou em primeiro lugar, com o olhar voltado – em relação a isso concordam respeitáveis historiadores estadunidenses (ALPEROVITZ, 1995) – para a União Soviética. De resto, estavam sendo ameaçados não apenas a União Soviética e a República Popular da China. Em 7 de maio de 1954, em Dien Bien Phu, no Vietnã, um exército popular orientado pelo partido comunista derrotou as tropas de ocupação da França colonialista. Às vésperas da batalha, o secretário de Estado estadunidense, Foster Dulles, disse ao primeiro-ministro francês Georges Bidault: “E se lhes déssemos duas bombas atômicas?” (para usar, claro, imediatamente contra o Vietnã) (FONTAINE, 1968, vol. 2, p. 118).

Embora não tenham recuado nem mesmo diante da perspectiva de um holocausto nuclear para conter a revolução anticolonial (fundamental elemento integrante da revolução democrática), apesar de tudo isso, naqueles anos os Estados Unidos e os seus aliados divulgavam a OTAN, por eles fundada, como uma contribuição à causa da democracia e da paz. É nesse contexto que está inserido o discurso de março de 1949, pronunciado por Togliatti na Câmara dos Deputados, por ocasião do debate sobre a adesão da Itália à Aliança Atlântica:

“A principal das suas teses é de que as democracias, como vocês as chamam, não fazem as guerras. Mas, senhores, por quem nos tomam? Acreditam verdadeiramente que não temos um mínimo de cultura política ou histórica? Não é verdade que as democracias não fazem guerras: todas as guerras coloniais dos séculos XIX e XX foram feitas por regimes que se qualificavam como democráticos. Assim os Estados Unidos fizeram uma guerra de agressão contra a Espanha para estabelecer o seu domínio em uma parte do mundo que lhes interessava; fizeram uma guerra contra o México para conquistar determinadas regiões onde havia importantes fontes de matérias-primas; fizeram a guerra ao longo de algumas décadas contra tribos indígenas peles-vermelhas para destruí-las, dando um dos primeiros exemplos daquele crime de genocídio hoje juridicamente qualificado, e deveria no futuro ser punido legalmente”.

Não se devia nem mesmo esquecer “a ‘cruzada das 19 nações’, como foi chamada então por Churchill” contra a Rússia soviética, e, aliás, estava à vista de todos a guerra da França contra o Vietnã, naquele momento em pleno desenvolvimento (TO, 5; 496-497).

Portanto, bem longe de serem sinônimo de paz, as democracias burguesas se tornavam, e ainda continuaram, responsáveis por guerras não poucas vezes de caráter genocida. Em todo caso, aos olhos do dirigente do comunismo italiano, acreditar na tese segundo a qual a democracia burguesa estaria livre de impulsos bélicos significaria não possuir “cultura política ou histórica”. Mas tal cultura realmente desapareceria algumas décadas depois. No momento da eclosão da primeira guerra contra o Iraque, enquanto o Partido Comunista italiano começava a se desfazer, um seu ilustre filósofo (Giacomo Marramao) declarou ao L’Unità em 25 de janeiro de 1991:

“Na história, nunca aconteceu de um Estado democrático fazer guerra contra outro Estado democrático”.

O tom de tal declaração não admite réplicas ou dúvidas. No entanto, me permito citar Henry Kissinger, em relação ao qual muitas coisas podem ser criticadas, mas não a falta de “cultura política ou histórica”:

“Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, na Europa a maior parte dos países (inclusive Grã-Bretanha, França e Alemanha) era governada por instituições essencialmente democráticas. No entanto, a Primeira Guerra Mundial – uma catástrofe da qual a Europa nunca se recuperou totalmente – foi entusiasticamente aprovada por todos os parlamentos (democraticamente eleitos)” (KISSINGER, 2011, p. 425-426).

Na realidade, a guerra não poupou nem mesmo aquelas que gostam de se autoelogiarem como as mais antigas democracias do mundo. Grã-Bretanha e Estados Unidos ficaram em guerra de 1812 até 1815. E nessa ocasião, até mesmo um dos Pais fundadores da República norte-americana, isto é Thomas Jefferson, bradou contra a Grã-Bretanha uma “guerra eterna” e total, uma guerra que só poderia chegar ao fim com o “extermínio (extermination) de uma das partes”. Não se trata apenas de um fato já antigo. Mesmo entre as duas guerras mundiais, por algum tempo os Estados Unidos continuaram a considerar a Grã-Bretanha como o inimigo mais provável. O plano de guerra por eles preparado em 1930 e assinado pelo general Douglas MacArthur considerou inclusive o uso de armas químicas¹.

2. As guerras coloniais

Retomemos a declaração de Marramao, de 1991: ela considera inexistentes (erradamente) as guerras entre as democracias e ainda ignora conscientemente as guerras coloniais das quais são protagonistas as assim chamadas democracias. São guerras as guerras coloniais? Para absolver as democracias, pelas guerras coloniais devemos responsabilizar os povos coloniais, acusados de serem atrasados e bárbaros?

A partir de 1935, Togliatti foi chamado a enfrentar o ataque da Itália fascista à Etiópia (ou Abissínia). Mussolini declarou pretender contribuir para a difusão da civilização europeia: foi necessário eliminá-la com uma “escravidão milenar” e com o “pseudoEstado bárbaro e negreiro”, isto é, escravista, liderado por “Negus dos negreiros”, pelo líder dos escravistas (MUSSOLINI, 1979, p. 292-296). A propaganda do regime não se cansava de insistir: não podiam ser tolerados os “horrores da escravidão”; em Milão, o cardeal Schuster abençoava e consagrava a iniciativa que “ao preço de sangue abre as portas da Etiópia à fé católica e à civilização romana” e, abolindo “a escravidão ilumina as trevas da barbárie” (SALVATORELLI; MIRA, 1972, vol. 2, p. 254 e 294).

Embora fosse conduzida por meio do uso maciço de gás mostarda e de gás venenoso, e do massacre em larga escala da população civil, a guerra foi enaltecida como uma operação civilizadora e humanitária e não desprovida de elementos democráticos, dado que aboliu a escravidão. Somos levados a pensar nas supostas operações humanitárias dos dias atuais.

Como Togliatti reagiu a tal campanha? Em agosto de 1935, em seu Relatório (A luta contra a guerra) do VII Congresso da Internacional Comunista, ele observou:

“Durante décadas inteiras, os indígenas da África foram submetidos a um regime não apenas de exploração e de escravidão, mas do verdadeiro extermínio físico. Com os anos de crise foram acrescentados os horrores do regime colonial instaurado pelos europeus no imenso continente negro. De outra parte, os fascistas, na guerra conduzida na Líbia de 1924 a 1929, mostraram de uma maneira inequívoca quais são os métodos fascistas de colonização. Ainda neste assunto, o fascismo demonstrou ser a forma mais bárbara de domínio da burguesia. A guerra da Itália na Líbia foi conduzida, do início ao fim, como uma guerra de extermínio das populações indígenas” (TO, 3.2; 760).

Desde sempre tendenciosamente genocidas, mesmo quando desencadeadas por países com sistema liberal e democrático, as guerras coloniais se tornam, com o fascismo, total e conscientemente genocidas.

Por outro lado, Togliatti reconheceu que “a Abissínia é um país econômica e politicamente atrasado”. É verdade, “ainda não se encontra lá nenhum traço de movimento nacional revolucionário e nem mesmo de um simples movimento democrático”; estava ainda amplamente presente o “regime feudal”. Era preciso então apoiar ou pelo menos não se contrapor à pretensa intervenção civilizatória e humanitária? Nada disso. Togliatti, ao contrário, declarou-se “pronto a apoiar a luta de libertação do povo abissínio contra os bandidos fascistas” (TO, 3.2; p. 761-762); e isso em consideração não apenas às infâmias próprias do expansionismo e do domínio colonial mas também ao fato de que, seja como for, a luta anticolonialista, mesmo que conduzida por países e povos ainda muito aquém da modernidade, é parte integrante do processo revolucionário mundial que coloca em dificuldades o imperialismo (e o capitalismo).

Infelizmente, também essa lição de Togliatti se perdeu. Em 2011, a OTAN interveio maciçamente contra a Líbia de Gaddafi. Para dizer isso com as palavras de um filósofo respeitável, bem longe do comunismo: “Hoje sabemos que a guerra fez pelo menos 30 mil mortos, contra as 300 vítimas da repressão inicial” reprovada pelo regime que o Ocidente estava decidido a derrubar (TODOROV, 2012). Susanna Camusso, secretária-geral da CGIL, e Rossana Rossanda, figura histórica do “diário comunista” italiano Il Manifesto, respectivamente, pediram ou confirmaram a intervenção nessa guerra, também definida como neocolonial por inúmeros estudiosos, jornalistas e órgãos de imprensa (cf. LOSURDO, 2014, cap. 1, § 10).

3. Uma visão “barroca” da luta anti-imperialista

Como é conhecido, Togliatti foi um dos grandes protagonistas da viragem que, em 1935, levou a Internacional Comunista a reconhecer o nazi-fascismo como o principal inimigo e a promover contra ele a política de Frente Única e de Frente Popular. Não foi fácil para os comunistas assumirem esta posição. A propaganda trotskista não se cansava de denunciá-la como traição ao anticolonialismo pelo fato de que [essa posição] estabelecia os dois maiores impérios coloniais da época (o britânico e o francês) como inimigos secundários e inclusive como potenciais aliados da União Soviética.

Também havia resistências à nova linha política proveniente de outras orientações. Vamos pegar Carlo Rosselli. Nos últimos anos de sua vida, antes de ser assassinado por agentes de Mussolini, em junho de 1937, o líder do liberal-socialismo não era muito distante dos comunistas, olhava com simpatia para a “gigantesca experiência russa” de “revolução socialista” e de “organização socialista da produção” (ROSSELLI, 1988, p. 381). Que seja dito entre parênteses, mas com absoluta clareza: o liberal-socialismo de Carlo Rosselli era bem diferente do liberal-socialismo que em seguida caracterizou Norberto Bobbio!

No entanto, pelo menos no início Rosselli manifestou reservas em relação à viragem da Internacional Comunista, e as manifestava em nome da ortodoxia revolucionária: “A tese marxista tradicional foi deixada de lado e resvalou cada vez mais para o lado da tese da ‘guerra democrática’. O atual conflito não seria mais o resultado de um conflito imperial, mas de um conflito entre Estados pacifistas (o Estado proletário) e o fascismo, sobretudo o fascismo alemão”. Os partidos comunistas, pelo menos “nos países aliados da Rússia, serão transformados em union sacrée (união sagrada)” (ROSSELLI, 1989-1992, vol. 2, p. 328-329). Ou seja, agitando a bandeira da união antifascista, os comunistas adotavam como suas as palavras de ordem patrioteiras por eles condenadas por ocasião da Primeira Guerra Mundial.

Esse modo de argumentar perdia de vista, ou não compreendia, as drásticas notícias que irromperam no quadro internacional. O mesmo expoente liberal-socialista escreveu, em 9 de novembro de 1934, que “a queda do regime soviético constituiria uma tremenda fatalidade que devemos ajudar a evitar” (ROSSELLI, 1988, p. 304). Em relação a 1914, surgiu uma nova contradição: entre capitalismo e socialismo. E este era apenas um aspecto. Vinte anos antes, depois de ter definido a Primeira Guerra Mundial como uma “guerra entre os donos de escravos, para a consolidação e fortalecimento da escravidão” colonial, Lênin acrescentou: “A originalidade da situação reside no fato de que, nesta guerra, os destinos das colônias são decididos pela luta armada no continente” (LO, 21; 275 e 277): tiveram a iniciativa apenas os “donos de escravos”, as grandes potências colonialistas e imperialistas. Isso já não era mais verdade às vésperas, e por ocasião, da Segunda Guerra Mundial: fomentada pela Revolução de Outubro, já havia sido iniciada a revolução anticolonialista mundial; os escravos coloniais tinham deixado para trás a condição de passividade e resignação. Isto é, ao lado da contradição interimperialista, característica da Primeira Guerra Mundial, agiam tanto a contradição entre capitalismo e socialismo quanto a contradição entre as grandes potências colonialistas, por um lado, e os escravos coloniais em revolta, por outro. E esta última contradição se tornou muito mais aguda devido à pretensão das potências imperialistas (Alemanha hitleriana, imperialismo japonês e Itália fascista) da ofensiva de retomar e radicalizar a tradição colonial, submetendo e escravizando até mesmo povos de antiga civilização (como Rússia e China). Até mesmo um país como a França lançou-se à dominação colonial. Lênin de algum modo previu isso. Em 1916, enquanto o exército de Guilherme II estava às portas de Paris, o grande revolucionário russo, por um lado, confirmou o caráter imperialista do conflito mundial então em curso e, por outro, chamou a atenção para uma possível viragem: se o gigantesco confronto tivesse terminado “com vitórias de tipo napoleônico e com a sujeição de toda uma série de Estados nacionais capazes de vida autônoma (...), então seria possível na Europa uma grande guerra nacional” (LO, 22; 308). É o cenário que se verificou em boa parte do mundo entre 1939 e 1945: as vitórias de tipo napoleônico obtidas por Hitler na Europa e pelo Japão na Ásia em ambos os casos acabaram provocando guerras de libertação nacional.

Ignorando a multiplicidade de contradições e o seu emaranhamento, em outubro de 1934, Rosselli definiu a “fase histórica que atravessamos” como “a fase do fascismo, das guerras imperialistas e da decadência capitalista” (ROSSELLI, 1988, p. 301). Se na referência à “decadência capitalista” talvez esteja implícita uma alusão ao surgimento da Rússia soviética, em todo caso o quadro aqui traçado ignora totalmente a revolução anticolonial e as guerras de resistência e de libertação nacional.

Talvez não somente a dificuldade de compreender as notícias que irromperam na situação internacional explique as resistências à viragem de 1935. Justamente porque, caracterizado pela ambição de fornecer uma leitura unificada da totalidade social e histórica, o marxismo algumas vezes é lido (e distorcido) como uma chave de leitura que simplifica e nivela a complexidade dos processos históricos e sociais. Gramsci (1975, p. 1442) chamou a atenção para o “desvio infantil da filosofia da práxis” que, ignorando o papel das ideias e das ideologias, alimenta a “convicção barroca segundo a qual quanto mais se recorre a objetos ‘materiais’ tanto mais se é ortodoxo” e fiel seguidor do materialismo histórico. É uma célebre passagem mesmo no plano estilístico, além do filosófico: os pretensos defensores da ortodoxia são ridicularizados como seguidores de uma “convicção barroca”! Esta, infelizmente, pode se manifestar mesmo em um nível diferente: na análise das relações internacionais não faltam aqueles que se consideram como defensores muito mais consequentes do anti-imperialismo quanto maior for a lista por eles emitida dos países imperialistas, e todos colocados num mesmo plano!

Obviamente que essa visão barroca era totalmente alheia a Lênin. Este, em 1916, ao distinguir o colonialismo clássico do neocolonialismo, faz notar que este último se funda não sobre a “anexação política”, mas sim sobre “a econômica” e com tal propósito dá como exemplo, além da Argentina, também Portugal, o qual “é de fato um ‘vassalo’ da Inglaterra” (LO, 23; 41-42). O grande revolucionário não desconhecia certamente o fato de que Portugal também era detentor de um império colonial (contra o qual, obviamente, a luta devia continuar); no entanto, o principal aspecto (para nunca perder de vista) era a sujeição neocolonial de Portugal, que de algum modo começou a fazer parte – em todo caso, no plano econômico – do Império britânico. De outra parte, vimos que Lênin em 1916 pressupôs a sujeição neocolonial imposta pela Alemanha de Guilherme II a um país como a França que também, por sua vez, mantinha um enorme império colonial.

É esta lição de Lênin que Toglilatti tinha como referencial quando criticava aquela que poderia ser definida como a visão barroca do anti-imperialismo:

“Uma das qualidades fundamentais dos bolcheviques (...), um dos pontos essenciais da nossa estratégia revolucionária é a capacidade de compreender a todo momento qual é o principal inimigo e de saber concentrar todas as forças contra esse inimigo” (TO, 3.2; 747).

Rapidamente acrescento que não se trata de uma afirmação isolada, embora de extraordinária eficácia. É preciso ter presente que no momento em que Togliatti anunciou a viragem de Salerno, na Itália ainda era chefe de governo Pietro Badoglio, que não por acaso tinha o título, dentre outros, de duque de Addis Abeba: participou dos delírios e dos crimes imperiais do fascismo. No entanto, este infame capítulo da história passou para segundo plano em comparação com a urgência da luta de libertação nacional contra o regime de ocupação na Itália imposto pelo Terceiro Reich com a cumplicidade de Mussolini.

4. Togliatti, Stálin e a Guerra Fria

Agora somos capazes de compreender a atitude assumida por Togliatti depois da eclosão da Guerra Fria. Talvez o ano mais embaraçoso para ele tenha sido 1952. Foi o ano em que foram emitidas duas declarações de Stálin entre si dificilmente compatíveis. Ao intervir brevemente no XIX Congresso do PCUS e denunciar a subserviência dos aliados ou vassalos europeus e ocidentais de Washington, o dirigente soviético chamou os partidos comunistas a levantarem a bandeira da independência nacional e das liberdades democráticas “jogada ao mar” pela burguesia de seus países. Em termos sensivelmente diferentes Stálin se expressou, ainda um ano antes de sua morte, ao escrever Problemas econômicos do socialismo na URSS (§ 6): ao invés de resignar-se à incontestável hegemonia exercida pelos Estados Unidos, as outras potências capitalistas a desafiaram; mais agudas do que a própria contradição entre capitalismo e socialismo, as contradições interimperialistas cedo ou tarde provocariam uma nova guerra mundial, como ocorreu em 1914 e em 1939; e tudo isso para confirmar a inevitabilidade da guerra no capitalismo.

Como se sabe, as coisas ocorreram de modo exatamente oposto em relação às previsões formuladas em Problemas econômicos do socialismo na URSS: desestabilizou-se não o campo imperialista, mas sim o socialista; o risco mais forte de guerra mundial se verificou não em consequência da disputa por hegemonia entre as grandes potências capitalistas, mas da pretensão dos Estados Unidos de conter e fazer retroceder o processo do socialismo e da revolução anticolonial (pensando na crise de 1962 que não por acaso tem Cuba como epicentro); o controle exercido por Washington sobre os seus aliados e vassalos não se esgotou, ao contrário se fortaleceu subsequentemente, como demonstram o fim nada glorioso da aventura anglo-francesa de 1956 em Suez (com a extensão do domínio estadunidense para o Oriente Médio também) e a indefinição do desafio gaullista na França. É evidente o erro lógico contido em Problemas econômicos do socialismo na URSS: da premissa da inevitabilidade da guerra no capitalismo não deriva, de modo algum, a conclusão segundo a qual o conflito entre as potências imperialistas seja sempre a ordem do dia, quase como se tal conflito nunca contenha em si, ou contenha apenas por um breve período, a distinção entre vencedores e vencidos. Por exemplo, depois da derrota do que Lênin define como o “imperialismo napoleônico” (LO, 22; 308), durante quase um século o imperialismo britânico permaneceu praticamente sem rivais. E com grande razão, sem sérios rivais no campo imperialista ficaram os EUA depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com a derrota de Alemanha, Japão e Itália, mas também com a degradação e o enfraquecimento, de modo profundo, de Grã-Bretanha e França.

Resta o fato de que em 1952 Stálin traçou dois cenários contrapostos: o primeiro, com os olhos voltados para a Europa de então, acusou a burguesia por sua capitulação em relação à política de guerra e de dominação perseguida por Washington; com os olhos voltados principalmente para o futuro, o segundo cenário denunciava a natureza particularmente belicista das diversas burguesias, todas colocadas no mesmo plano.

Em seu Relatório de 10 de novembro de 1952 ao Comitê Central do PCI, Togliatti pedia para que não fossem tiradas “conclusões errôneas” em relação à tese da inevitabilidade de guerra (reforçada por Stálin em Problemas econômicos do socialismo na URSS) e que não se perdesse de vista a tarefa imediata e concreta da luta para salvar a paz naquele momento ameaçada pela política agressiva posta em ação pelos Estados Unidos contra o campo socialista e contra a revolução anticolonial (TO, 5; 707). É por isso que o dirigente do comunismo italiano fez referência, em primeiro lugar e quase exclusivamente, a outro discurso de Stálin, no qual convida os comunistas a defenderem a independência nacional e a própria democracia política colocadas em risco pela onda macarthista que ameaçava ultrapassar o Atlântico e também investir sobre a Itália e a Europa Ocidental.

Para dizer a verdade, Togliatti já tinha começado a elaborar essa linha política antes do pronunciamento de Stálin no XIX Congresso do PCUS. Em seu Relatório do VII Congresso do PCI, que ocorreu de 3 a 8 de abril de 1951, ele tinha denunciado o imperialismo estadunidense por “conturbar todo o processo de desenvolvimento e transformação de uma democracia italiana” e reivindicado uma política de “independência da Itália, de independência da nossa pátria de qualquer um que queira submeter a nossa economia e a nossa vida política a seus interesses e aos de um imperialismo estrangeiro” (TO, 5; 591 e 601). Inúmeros indícios levam a considerar que Togliatti tenha influenciado Stálin que, da tribuna do XIX Congresso, pedia aos comunistas ocidentais que levantassem a bandeira da democracia e da independência nacional lançada por terra pela burguesia. Por certo, sucessivamente no Relatório ao Comitê Central do PCI, de 10 de novembro de 1952, Togliatti insistiu ainda com mais força, com o dedo em riste contra os “reacionários das nossas regiões”, contra os reacionários italianos e europeus: “O camarada Stálin arrancou a máscara deles, esclareceu como eles tinham lançado ao mar tudo o que ali podia ter acontecido no passado na ação dos grupos burgueses liberais e democratas, lançaram ao mar a bandeira da liberdade e da independência dos povos e, portanto, nos colocado a tarefa de acolher essas bandeiras e levá-las adiante, de sermos os patriotas do nosso país e neste nos tornar a força dirigente da nação” (TO, 5; 705).

À luz das considerações já desenvolvidas, pode-se dizer, no entanto, que, citando Stálin, Togliatti também citava, e talvez em primeiro lugar, a si mesmo. A linha que surgiu era clara mas não nova: era preciso primeiro lutar contra aqueles que tencionavam “dilapidar a liberdade e vender a independência do país”, que estavam prontos a permitir a transformação da Itália “em uma colônia subserviente a um imperialismo estrangeiro”; era preciso golpear e neutralizar os “grupos dirigentes dos países dominados pelos Estados Unidos da América” (TO, 5; 705-706). O objetivo perseguido por este último país foi assim definido: “a conquista do domínio sobre o mundo todo (...); a dominação econômica, política e militar, depois de toda uma série de países que até recentemente eram independentes e também de capitalismo avançado, como a França e a Itália; a preparação de um ataque contra a União Soviética, contra a China, contra os países de democracia popular. Concretamente, para preparar as forças necessárias a esse ataque, e concretizar os seus objetivos, o imperialismo americano estabeleceu bases militares no mundo inteiro, envia as próprias tropas e as faz se instalarem em países que até recentemente eram independentes e que nunca teriam permitido a ocupação de tropas estrangeiras” (TO, 5; 708).

Seria um grave erro ler este texto como um discurso banal de propaganda. Ao contrário, estamos diante de uma reflexão teórica e política: o que define o imperialismo não é apenas a hostilidade para com o campo socialista e a revolução anticolonial; justamente porque o que o caracteriza é também a disputa pela hegemonia, o imperialismo pode requerer a dominação, colonial ou semicolonial, de “países independentes e também de capitalismo avançado, como a França e a Itália”, e inclusive de um país como a França (que em 1952 tinha à sua disposição um amplo império colonial). A contradição entre países “de capitalismo avançado” não é necessária e exclusivamente uma contradição interimperialista, pode até ser a contradição entre um imperialismo particularmente poderoso e agressivo e uma possível colônia ou semicolônia. Seria uma compostura inadmissível do imperialismo pensar que isso evitaria a priori a transformação de um país “de capitalismo avançado” em colônia ou semicolônia. Togliatti conhecia bem a polêmica de Lênin contra Kautsky: “é característica do imperialismo (...) o seu frenesi não apenas por conquistar territórios agrícolas [como pretendia Kautsky], mas também de pôr as mãos sobre países fortemente industriais”, mesmo porque isso pode enfraquecer o “adversário” (LO, 22, 268).

Com base em um preciso balanço histórico e teórico, com o fim de evitar o risco de que a Itália fosse arrastada pelo imperialismo estadunidense a uma guerra contra a União Soviética ou contra a China popular, Togliatti apelou para a mobilização a mais ampla possível: “O movimento do qual a Itália tem necessidade deve ser um movimento das grandes massas do povo que pertençam a qualquer partido, a qualquer grupo social, para a salvação da paz. Até os cidadãos hoje mais distantes de nós podem e devem ser atraídos ao trabalho por essa causa”. E, portanto: “Cabe a nós, partido da classe operária, neste e nos momentos mais difíceis do passado, reconhecer e defender os interesses de toda a nação” (TO, 5; 602 e 578). Era a renúncia à luta de classe? Pronta era a resposta a essa possível contestação: “Não, não existe contraste entre uma política nacional e uma política de classe do Partido Comunista” (TO, 5; 590). Togliatti conhecia muito bem Que fazer? para se abater por uma leitura trade-unionista da luta de classe. Principalmente na União Soviética ele pôde acompanhar diretamente a épica resistência de Moscou, Leningrado, Stalingrado contra a tentativa do Terceiro Reich de renovar e radicalizar a tradição colonial na Europa oriental, submetendo todo o povo soviético à condição de escravos a serviço da pretensa raça dos senhores. Togliatti compreendeu muito bem que a grande guerra patriótica foi uma das maiores lutas de classe não apenas do século XX, mas também da história mundial.

Vale a pena notar que em novembro de 1938, no momento em que o imperialismo japonês procurava submeter a um bárbaro domínio colonial e escravizar o povo chinês em seu conjunto, Mao Tse-tung teorizava, nessas circunstâncias, sobre a “identidade entre a luta nacional e a luta de classe”. Da mesma forma que a grande guerra patriótica também a guerra de resistência contra o imperialismo japonês deve ser incluída entre as maiores lutas de classe não apenas do século XX como também da história mundial (LOSURDO, 2013, cap. VI, §§ 7-8). É quase certo que Togliatti desconhecia o texto acima citado do líder comunista chinês; muito mais significativo é o fato de que ele tenha chegado às mesmas conclusões a partir da análise concreta da situação concreta.

5. O imperialismo dos EUA e os crescentes riscos de guerra

Que fique claro: não se trata de entregar-se a um jogo de analogias. Mesmo para compreender o quadro político dos dias atuais devemos proceder a uma análise concreta da situação concreta. É uma tarefa que em grande parte ainda precisa ser cumprida. No entanto, já podemos definir alguns pontos essenciais.

Obviamente que não devemos nos cansar de denunciar o papel infame de países como a Alemanha e a Itália na fragmentação e na guerra contra a Iugoslávia, ou o papel infame da Itália na guerra contra a Líbia e da Alemanha no golpe de Estado na Ucrânia; para não falar do papel infame da França, primeiro de Sarkozy e depois de Hollande, na guerra contra a Líbia e contra a Síria. Mas todas essas infâmias neocoloniais e ainda outras foram tornadas possíveis pela superpotência militar e pelo papel hegemônico dos EUA, que muitas vezes as promoveram de modo mais ou menos direto. No entanto, ao olhar para o risco de guerra em larga escala que se esboça no horizonte não podemos deixar de levar em consideração as profundas mudanças ocorridas em comparação com o passado.

Às vésperas da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais havia duas coalizões militares contrapostas; nos dias atuais há basicamente uma única gigantesca coalizão militar (a OTAN) que se expande cada vez mais e continua sob ferrenho controle estadunidense. Às vésperas da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais os principais países capitalistas acusavam-se mutuamente de desencadear a corrida armamentista; nos dias atuais, ao contrário, os Estados Unidos criticam os seus aliados por não aplicarem maiores recursos ao orçamento militar, por não acelerarem suficientemente a política de rearmamento. Claramente, a guerra sobre a qual se pensa em Washington não é a guerra contra a Alemanha, a França ou a Itália, mas a guerra contra a China (país proveniente da maior revolução anticolonial e conduzido por um experiente Partido Comunista) e/ou contra a Rússia (que, com Putin, cometeu o erro, do ponto de vista da Casa Branca, de ter se livrado do controle neocolonial, ao qual Iéltsin havia se submetido ou se adaptado). E essa guerra em larga escala, que poderia inclusive cruzar o limite nuclear, os Estados Unidos esperam, se necessário, poder conduzi-la com a participação subalterna, ao seu lado e às suas ordens, de Alemanha, França, Itália e outros países da OTAN.

É, portanto, contra o risco de uma guerra desencadeada pela superpotência que, única no mundo, continua considerando-se como a “nação escolhida por Deus”, pela superpotência que há algum tempo aspira a garantir a si própria “a possibilidade de um primeiro ataque [nuclear] impune” (ROMANO, 2014, p. 29), pela superpotência que instalou até mesmo em nosso país bases militares e armas nucleares direta ou indiretamente controladas por Washington, é contra esse risco de guerra concreto que somos chamados a lutar. E podemos enfrentar esse crescente risco com muito maior eficácia quanto mais soubermos levar em consideração, adaptando-a obviamente à situação atual, a grande lição de Palmito Togliatti.

Nota:

¹ Para uma documentação mais abrangente em relação aos problemas tratados neste parágrafo (e em geral neste ensaio), remeto ao livro lançado por estes dias: LOSURDO, D. Um mundo sem guerras. A ideia de paz desde as promessas do passado às tragédias do presente. Roma: Carocci, 2016. Ver principalmente o cap. 10 (Democracia universall e “paz definitiva”?).

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