1 de setembro de 2016

Alan Kurdi simboliza um exército de crianças mortas. Nós o ignoramos por nossa própria conta e risco

Um ano depois, o mundo tem aprendido a lição do menino de três anos de idade afogado em uma praia turca?

Robert Fisk

The Independent

O corpo de Aylan Kurdi foi além do 'icónico'. O facto de ser pequeno e de estar vestido como um menino europeu, e de ser branco em vez de ter pele escura, e com o seu próprio nome postumamente e subtilmente a ser convertido para o inglês 'Alan', o filho da família de refugiados curdos que fugiu, através do Mediterrâneo, da Turquia para a Europa tornou-se 'nosso' filho. No momento em que o seu pequeno corpo deu à costa numa praia perto de Bodrum e apareceu nas primeiras páginas dos jornais em todo o mundo, o racismo camuflado dos nossos políticos foi temporariamente silenciado. Que coração de pedra poderia condenar este menino como parte de uma 'praga', uma palavra usada por um ex-primeiro-ministro britânico para definir os ocupantes do acampamento de Calais?

Mas a imagem de Alan Kurdi ofuscou uma série de lições que ignorámos - e continuamos a desconsiderar - por nossa conta e risco. Em primeiro lugar, é claro, ele era um mero representante dos milhares de outros “Alans”, cujos restos repousam hoje no leito marinho do Mediterrâneo, para sempre sem registo e sem imagens. Alan foi um símbolo, talvez até mesmo um representante, deste exército de crianças mortas. Mas também se tornou num sacrificado de três anos de idade, lançado pelas ondas como um "mártir", em vez de uma vítima de violência política e traição, enquanto o agente da polícia turca com luvas de borracha a pegar delicadamente no seu corpo a partir da areia tornou-se numa espécie da versão masculina do Pietà. Mas se a dor foi descrita assim por Michaelangelo há meio milénio atrás, foi, no entanto, estranho que tenhamos encarado a criança curda síria como a vítima de um novo fenómeno assustador.

O refugiado, o temível emigrante - que logo se tornou, para nós, no imigrante ameaçador - foi retratado como um fardo exclusivo do século 21 ou, no máximo, também do século 20. Poderíamos olhar para trás para os milhões de "pessoas deslocadas" da Europa do pós-guerra de 1945, até mesmo para os refugiados arménios sobreviventes do genocídio de 1915 ou para as vítimas da revolução bolchevique, mas aí a história foi sendo apagada. Sendo formado em Clássicas - em latim, não grego - fiquei impressionado esta semana, depois de os italianos resgatarem esses 10.000 migrantes do mar, pela forma como a história da família de Alan Kurdi e de um milhão de outras famílias é realmente central na história e na cultura do Mediterrâneo.

Podemos ler, por exemplo, a história épica de uma família de refugiados que lançou o seu barco igualmente instável no Mediterrâneo apenas a algumas centenas de milhas da mesma costa de Anatolian a partir da qual a família Kurdi zarpou tão tragicamente no ano passado. Um filho regista como ele e o seu pai "navegaram em mar aberto, atirados para o exílio com o meu povo", deixando para trás apenas cadáveres e uma paisagem queimada. E, depois de terem deixado o que é hoje a Turquia, chegaram finalmente, depois de uma última travessia tortuosa do Mediterrâneo a partir do do que é agora a Tunísia – como a história se repete no tempo - no santuário da Itália.

Contudo, neste texto antigo, o refugiado não é um 'migrante' que irá sobrecarregar os serviços sociais da UE - e a consciência -, mas o primeiro herói de Roma, filho de Anquises e familiar do rei Príamo, antepassado de Rómulo e Remo. A 'Eneida' de Virgílio - e eu estava a citar a tradução gloriosa de Robert Fitzgerald - não se refere a Eneias como um migrante. Ele é no original em latim um 'exsul '- um exilado, uma pessoa banida – ou 'fato profugus', um 'fugitivo pelo destino' ou pelo 'fado'. Hoje, podemos chamar Eneias e o seu pai 'autoexilados'. O latim para refugiado teria sido 'fugitivus', mas isso implicaria um criminoso em fuga da justiça - que pode ser como Donald Trump vê os mexicanos, mas dificilmente se aplica a troianos ou curdos sírios.

O que ambos também têm em comum é a guerra que os levou a abandonar as costas da Anatólia. Onde se lê Troia a arder, leia-se Aleppo a arder. Onde se lê destruição da antiga cidade do rei Príamo, pense-se na pulverização da Grande Mesquita e das medinas da maior cidade da Síria, e a matança dos seus povos. Fogo e espada, bombas e projéteis. Os troianos e os povos do Médio Oriente hoje estão a fugir para salvar as suas vidas. E assim chegamos ao outro lado desta tragédia. Não é a história do passado, mas a história do futuro. Na era da internet, deixámos de pensar sobre isso. Raramente a questão é "como é que isto aconteceu?", mas sim "o que devemos fazer agora?”. Não perguntem por que razão 19 homens que alegaram ser muçulmanos cometeram os crimes internacionais contra a humanidade de 11 de setembro. Invadam o Afeganistão! Não questionem como Saddam chegou ao poder no Iraque. Invadam o Iraque!

Quer as guerras de Troia tenham sido ou não um mito grego (e mais tarde romano) ou a superfície de um verdadeiro conflito do século 12 A.C., a história - quer se trate de Ulisses de Homero ou Eneias de Virgílio - é tão contemporânea quanto a presente tragédia árabe no Médio Oriente. Muçulmanos e cristãos deixam as suas mesquitas e igrejas para trás. Juntamente com o seu pai e amigos, Eneias podia levar com ele somente os seus deuses do lar, os seus “penates”. Todos estavam a fugir da loucura de reis e senhores da guerra, de líderes das milícias e ditadores. O que nos leva às próximas vagas ainda mais vastas de refugiados que sairão das suas terras nas próximas décadas, vítimas de ferozes autocratas semelhantes a Saddam e de déspotas que atualmente apoiamos em alguma região do mundo muçulmano. Estou a falar aqui dos pequenos imperadores - com guardas pretorianas, estátuas e status de presidente vitalício – em todos os “Estões” entre o Afeganistão, o Paquistão, a Rússia e o Irão.

Daniel McLaughlin, que está entre os melhores correspondentes na Europa Central e Oriental, chamou a atenção para os perigos inerentes nos estados asiáticos muçulmanos que surgiram a partir das ruínas da União Soviética há um quarto de século atrás. Numa região rica em petróleo e gás e de importância estratégica, os seus líderes, cortejados tanto por Moscovo como Washington, são culpados de terríveis crimes contra os direitos humanos, massacres e tortura do seu próprio povo na sua guerra - adivinhou - contra o Estado Islâmico (Daesh) e os talibãs.

Assim como a brutalidade e a corrupção dos ditadores árabes, que largamente armámos e financiámos, gerou o culto islâmico dos "Califados" do Médio Oriente - o cavalo de Troia do nosso tempo - também Islam Karimov, Nursultan Nazarbayev, Imomali Rakhmon e os restantes estão todos a lutar contra o mesmo inimigo escuro, nebuloso e purista nos “Estões”. No Uzbequistão, o brutal Karimov, cujos polícias se especializaram em tortura - cozer vítimas vivas é um dos seus métodos favoritos - sofreu um acidente vascular cerebral. Alguns dizem que está morto, o que será uma boa notícia para o Movimento Islâmico do Uzbequistão, aliado tanto do Daesh como dos talibãs.

No Tajiquistão, onde uma guerra civil na década de 1990 causou - com estatísticas tão selvagens quanto a Síria - 100.000 mortos, um milhar de cidadãos Rakhmon juntaram-se ao Daesh, juntamente com Gulmurud Khalimov, o ex-comandante da polícia Tajik. Khalimov, que, devo acrescentar, foi treinado nos EUA. Os norte-americanos mantiveram bases aéreas no Uzbequistão e no Quirguistão após os atentados de 11 de setembro. O medonho Nazarbayev do Cazaquistão, uma criatura cujas câmaras de tortura e abuso dos direitos civis estão perto dos padrões de Karimov, paga milhões ao seu conselheiro que trabalha arduamente e é um pretenso castigador de ditadores, Tony Blair. Percebem a ideia.

E quando esses Ruritanias terríveis explodirem, os refugiados virão novamente, 'exilados pelo destino' "e 'fugitivos do destino'; a população do Uzbequistão de 30 milhões é quase um terço maior do que a Síria. Vão andar à deriva através das suas fronteiras, e muitos virão até nós, juntamente com mais afegãos, sírios e árabes. E então não vamos perguntar 'porquê?', não 'como chegámos aqui? ", mas “o que fazemos agora?'. E vai ser tarde demais novamente. Qual era o nome daquele pequeno rapaz na praia, vamos perguntar. Aylan, não era? Ou Alan? E por detrás desses refugiados estarão as cidades em chamas da antiga Rota da Seda, tão certo como arde hoje Aleppo, e Troia ardia há muito tempo.

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