12 de setembro de 2016

Aqui está o porquê os americanos estão loucos de raiva com Wall Street e Washington

Pam Martens e Russ Martens

Wall Street on Parade

Pete Souza / Official White House Photo

Tradução / Ontem publicamos nosso 1.007º artigo no blog Wall Street On Parade sobre o insidiosamente corrupto sistema financeiro nos EUA conhecido como Wall Street. Trata-se de sistema que já opera como mecanismo institucionalizado de transferência de riqueza que está destruindo os meios de sobrevivência da classe média nos EUA e condenando a viver na miséria uma de cada cinco crianças norte-americanas, ao mesmo tempo em que canaliza o que saqueia dos cidadãos para 1/10 do 1% mais ricos.

Dezenas de milhões de americanos compreendem claramente que um sistema de corrupção tão profundamente entrincheirado como esse, perpetuado por uma porta giratória que conecta Wall Street e Washington, e furiosamente defendido por um sistema de financiamento de campanhas eleitorais que recicla parte do que saqueia para garantir que saqueadores ainda maiores cheguem e permaneçam no poder, inevitavelmente deixará em ruínas a economia da nação – mais uma vez. Isso porque a corrupção sistêmica e propina legalizada dentro das artérias financeiras da nação só pode criar resultados econômicos grosseiramente perversos.

O real papel de Wall Street é alocar capital de forma equânime e eficiente para maximizar os resultados positivos para a nação. Sob o modelo atual, Wall Street está focada exclusivamente em maximizar lucros de todos os modos possíveis, inclusive fraude e colusão, para maximizar o enriquecimento pessoal de alguns poucos. Quando o senador Bernie Sanders dizia em comícios e num debate presidencial que "o modelo de negócio de Wall Street é uma fraude" – havia, como há, um longo e consistente arquivo de fatos que comprovam aquelas palavras.

Considerem-se as práticas intensivamente corruptas dos analistas de pesquisas de Wall Street que levaram ao crash da Nasdaq no início do século 21. Escrevendo no New York Times no dia 5 de março de 2001, Ron Chernow disse-o com absoluta precisão: "Sejamos bem claros sobre a magnitude do colapso da Nasdaq. A queda foi tão violenta e tão sangrenta – quantia próxima de $4 trilhões em valor de mercado foi apagada do mundo em um único ano –, que equivale a quase quatro vezes a carnificina registrada no crash de outubro de 1987." Chernow comparou o mercado de ações Nasdaq, recheado de empresas infladas pelo sistema deliberadamente corrupto das pesquisas de Wall Street, a uma "torre lunática de controle que dirigisse todos os aviões que chegassem para uma mesma pista de pouso, pequena e congestionada conhecida como "Nova Economia", enquanto outra pista, a "Velha Economia" definhava, deserta, até a estagnação total. O mercado funcionou como um vasto e errático mecanismo para alocar mal todos os capitais que circulavam nos EUA", disse Chernow.

A recompensa financeira por esse modelo corrompido fluiu para os analistas de pesquisas nas maiores firmas de Wall Street e seus presidentes e 'boards' que passaram a mão em bônus gerados pelos 'lucros' gigantescos. O garoto-propaganda daquele tempo era Jack Grubman, analista de Salomon Smith Barney, um dos braços do Cxxxxxxx, de corruptos seriais. Grubman foi acusado pela Securities and Exchange Commission (SEC), de fraudar pesquisas. Jamais foi julgado nem criminalmente acusado. Simplesmente pagou multa de $15 milhões, perdeu a licença para operar na indústria e saiu de circulação, milionário. Segundo a SEC, o ganho pessoal de Grubman na empresa Salomon Smith Barney "superou $67,5 milhões, incluído o pacote de indenização." Vejam bem: você é expulso e impedido de trabalhar na indústria onde sempre trabalhou, acusado de corrupção; e recebe pacote gigante de 'indenização'. Não há prova mais cabal e perfeita de que a fraude já é vista e aceita como (i) modelo de negócio; e (ii) geradora de lucros muito significativos, em Wall Street.

Depois do colapso de Nasdaq em 2001, nada foi feito para alterar materialmente o modelo da corrupção sistêmica. De fato, a corrupção até se ampliou, aceleradamente. Em vez de alocar capitais para construir novas indústrias e novos empregos e preservar o futuro dos EUA, Wall Street alocava capitais para derivativos pouco sólidos e emprestadores sem condições mínimas para saldar as dívidas (subprime borrowers), condição conhecida e comprovada pelas próprias pesquisas e avaliações internas das próprias financeiras. Wall Street então 'terceirizou' os derivativos de risco para AIG e chantageou Freddie Mac e Fannie Mae para que adquirissem a dívida tóxica impagável e incobrável. As três empresas colapsaram sob o peso dessa ação de Wall Street, ação perfeitamente corrupta; mas as três, somadas, receberam mais de $367 bilhões de dinheiro dos contribuintes a título de 'resgate'.

Em nosso relatório exclusivo do dia 20 de maio de 2016, explicamos como o governo dos EUA em anos recentes continuava silenciosamente a pagar bilhões de dólares a bancos de Wall Street a favor de Freddie Mac e Fannie Mae por derivativos que ainda pesam sobre aquelas empresas. Os cidadãos continuam à espera de qualquer explicação que faça sentido, sobre o que se passa, até hoje, com aqueles derivativos.

Os resgates em Wall Street dos quais a opinião pública foi informada durante a quebradeira de 2008 e imediatamente depois, foram dinheiro de bolso, se comparados aos $13 trilhões de empréstimos cumulativos que o Federal Reserve estava repassando secretamente para seus camaradas banqueiros de Wall Street a taxas de juros muito inferiores às do mercado. Enquanto o Citigroup cobrava de seus desgraçados consumidores, no auge da crise que o grupo ajudou a construir, mais de 15% nos cartões de crédito, o grupo estava recebendo secretamente transfusão de mais de $2 trilhões em empréstimos cumulativos desde 2007 até, no mínimo, 2010, que lhe vinha do banco central nacional dos EUA, grande parte da qual com juros de menos de 1%.

A quebradeira cataclísmica de 2008 resultou em promessas feitas pelo governo Obama, de que a legislação financeira Dodd-Frank reformaria para sempre o saque oficializado praticado por Wall Street. Não apenas Wall Street não foi reformada como passou a agir com arrogância ainda mais irrestrita. Vejam o seguinte:

Em 16 de fevereiro desse ano, esse blog noticiou que "o board da AIG acaba de nomear o titã dos fundos hedge, John Paulson de Paulson & Company, para a diretoria da empresa – apesar de o nome de Paulson aparecer em denúncia da SEC como partícipe ativo e informado do desgraçado negócio de Goldman Sachs concebido para tungar investidores, ao mesmo tempo em que enchia os bolsos de Paulson e Goldman Sachs. Embora Paulson não tenha sido processado pela SEC, a denúncia demonstra e comprova que ele teve papel protagonista no negócio e lucrou muito, em detrimento dos investidores fraudados."

Sheila Bair presidia a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), a agência federal dos EUA que protege os depósitos de nossos bancos nacionais, durante o crash financeiro de 2008. Depois que deixou o cargo, Bair escreveu o livro-documento definitivo sobre a crise, Bull by the Horns. No livro, Bair expôs a tramoia oficial, comandada pelo governo, que blindou o Citigroup durante a crise:

"Em novembro, o supostamente solvente Citigroup estava outra vez nas cordas, outra vez precisando de novo repasse. O mercado não comprou a estratégia do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) e do Fed de New York de fazer parecer que o Citigroup gozava de tão boa saúde quanto os demais bancos comerciais. O Citigroup não tinha trimestre com lucros desde o segundo trimestre de 2007. As perdas não eram explicáveis por 'condições incontroláveis de mercado'; só eram explicáveis por administração de péssima qualidade, altos níveis de alavancagem e aceitação de riscos excessivos. Sofreu novas grandes perdas pela alta exposição a uma lista 'das 10 mais' modalidades de empréstimos de alto risco, hipotecas a tomadores sem condições de pagá-las (subprime mortgages), hipotecas ‘Alt-A’, cartões de crédito 'dirigidos', empréstimos alavancados e poorly underwritten commercial real estate. Estava carregado de exotic CDOs and auction-rate securities. Estava perdendo no crédito default swaps celebrados com contrapartes fracos, e contava com o financiamento volátil instável - um monte de empréstimos de curto prazo e depósitos estrangeiros. Quem queira fazer uma lista definitiva de todas as más práticas que levaram à crise precisa apenas copiar a relação das práticas financeiras do Citigroup (...) Além disso, praticamente nenhuma medida significativa de supervisão foi adotada contra o banco, nem pelo [gabinete] OCC nem pelo Fed de NY (...) Ainda pior: o OCC e o Fed NY ativamente se distanciaram, enquanto aquele banco doente continuava a pagar altos dividendos e a fingir que gozava de perfeita saúde."

Considerem o que está acontecendo hoje no Citigroup, que continua sem qualquer supervisão pelos incontáveis serviços federais de regulação. Hoje o Citigroup está inchado com mais de $2 trilhões de dólares (face amount) dos mais arriscados derivativos, credit default swaps, dos mesmos que derrubaram AIG e ajudaram a fazer do Citigroup objeto do maior resgate pago com dinheiro dos contribuintes, de toda a história dos EUA.

Considerados esses fatos em campo, mais um(a) presidente(a) dos EUA que decida não mexer com Wall Street ao mesmo tempo em que encha o próprio gabinete com prepostos de Wall Street, estará condenando nossa nação a estado terminal de aleijão financeiro.

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