27 de setembro de 2016

Assistir o debate de Trump e Clinton sobre o EI da minha casa no Médio Oriente foi tão previsível quanto absurdo

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Assistir aos dois falando sobre o Oriente Médio como um amanhecer florindo por trás das montanhas libanesas acima de Beirut, me fez achar o show Trump-Clinton uma experiência instrutiva. Nos poucos cem quilômetros ao leste e sul do Líbano, centenas estão morrendo toda semana – na Síria, no Iêmen, no Iraque – e ainda assim tinham os gêmeos terríveis brincando de “eu posso combater o EI melhor do que você”. Foi isso mesmo que o mundo Árabe representou para os participantes do reality show no impronunciável campus de uma universidade em Long Island?

O que foi mesmo que Trump disse para Clinton? “Você esteve combatendo o EI sua vida adulta toda!” E o que Clinton disse? “Bom, ao menos eu tenho um plano para combatê-los!” Depois de uma hora, eu estava rezando para que os libaneses tivessem dormido em meio às montanhas. Por favor Deus, permita que haja um corte na eletricidade em Aleppo, Bagdá e Sanaa – somente por esses 90 minutos, você entende – para que as pessoas vivenciando a tragédia no Oriente Médio não testemunhem como o/a próximo/a presidente dos EUA estava usando seu lar como cenário de filme.

“Ele não tem planos de combater o EI”, disse Clinton. Mas alguém tem? É uma pena, por exemplo, que eles não tenham salientando “planos” de justiça, liberdade e dignidade no Oriente Médio e um fim à política de bombardeio, bombardeio, bombardeio, e mais bombardeio que agora parece se igualar à iniciativa política no mundo Árabe. Mas é claro que não o fizeram, pois tudo isso foi encaixado no último pedaço do show da CNN, o clímax que foi entitulado de “segurança americana”.

Houve uma menção muito breve de Trump a “Bibi Netanyahu” que deve ter deixado muitos norte-americanos desconcertados – exceto os apoiadores de Israel a que, é claro, a menção foi endereçada – mas aquilo foi tudo o que ouvimos sobre outro conflito pequeno no Oriente Médio. Esfregaram clichês e banalidades nas caras uns dos outros. Clinton alegou que Obama havia parado aquelas “centrifugadoras que estavam girando para longe” no Irã – não tenho certeza se centrifugadoras giram, Clinton devia estar falando sobre “dervixes que giram” que também moram na região. E depois Trump veio com a questão da torta de maçã.

“O Oriente Médio é uma completa bagunça”, e o Irã seria logo uma “grande potência” - como se o Irã já não fosse uma na região, como tem sido por 3.000 anos. Mas qual “bagunça” em particular ele estava falando? A “bagunça” nos hospitais ao leste de Aleppo? A “bagunça” dos direitos humanos no Egito – mesmo eu suspeitando que a versão do presidente-general-brigadeiro al-Sissi satisfaria Trump – ou a “bagunça” deixada para trás pelo bombardeio do hospital dos Médicos sem Fronteiras no Afeganistão? Ou talvez a “bagunça” da Palestina – outra palavra que não foi citada pela dupla que planeja dominar os EUA? “Bibi” não mencionou isso para Trump? Ou a “bagunça” da OTAN, cujos assassinatos de sérvios (e de alguns muçulmanos de Kosovo) em 1999 foram seguidos pelo apoio da Aliança na guerra afegã mas que, de acordo com Trump, “não foca no terror”?

“Temos que nocautear o EI – e temos que fazer isso rápido”, disse o grande homem ao mundo. Bom, claro, mas não estivemos nocauteando o Afeganistão, Iraque, Iêmen, Síria e até o Líbano, e alcançando o renascimento constante de combatentes cada vez mais viciosos que serão acompanhados por uma prole ainda pior do EI? Trump aparentemente acreditava que o EI não existiria se Obama tivesse deixado 10.000 tropas no Iraque – uma estratégia que o EI certamente teria aplaudido – enquanto Clinton reclamava sobre como o governo iraquiano “não iria proteger tropas norte-americanas”.

E aí é que está, eu suponho. É o trabalho do mundo árabe, “proteger” a América do Norte em suas várias ocupações militares, ou – ao menos – a tarefa dos “nossos amigos no Oriente Médio”. E quem eram eles, eu me pergunto? Aqueles sauditas fantásticos que nos deram 15 dos sequestradores do 11/9? O único absurdo deixado intocado por Trump e Clinton foi o fato de que o EI nasceu fora dos EUA. Lá teriam estado em local seguro. Ou será que não? Pelo o que eu suspeito, há um número crescente de árabes que acreditam que o EI, de fato, é um filho nascido nos EUA.

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