20 de setembro de 2016

Celebrando o um por cento: A desigualdade é realmente boa para a economia?

Michael Hudson

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Parafraseando Mark Twain, todo mundo reclama da desigualdade, mas ninguém faz nada em relação a ela.

A única coisa que se vê é gente que usa "desigualdade" como ponto de partida para projetar seus próprios pontos de vista sobre como tornar a sociedade mais próspera e, ao mesmo tempo, mais igual. Essas visões dependem de como cada um vê o 1%: como inovador, esperto e criativo, gente que enriqueceu de tanto que todos eles ajudaram a sociedade. Ou, se o veem, como escreveram os grandes economistas clássicos, como o estrato mais rico da população, constituído de rentistas, que extraem dos 99% a própria renda e a própria riqueza, vivendo como latifundiários ociosos ou banqueiros monopolistas e predadores.

Estatísticas econômicas mostram que a desigualdade prospera praticamente em todo o mundo. Depois de um pico nos anos 1920, as reformas da Grande Depressão ajudaram a tornar mais equitativa e estável a distribuição de renda desde 1980.¹ Depois, no nascimento do thatcherismo na Grã-Bretanha e da reaganomics nos EUA, a desigualdade realmente decolou. E decolou, em grande parte, com o setor financeiro (especialmente quando as taxas de juros encolheram dos 20% em 1980, criando o maior boom no mercado de ações de toda a história). A propriedade imobiliária e a indústria foram financeirizadas, quer dizer, alavancadas com dívidas.

A desigualdade aumentou sem parar até o crash financeiro global de 2008. Desde então, porque banqueiros e grandes acionistas foram salvos, eles, não a economia, o 1% do topo passou a tocar ainda mais furiosamente adiante o resto da economia. Enquanto isso, os 25% do patamar mais baixo da economia viam deteriorar o próprio patrimônio líquido e a própria renda relativa.

Desnecessário dizer, os ricos têm seus próprios agentes de relações públicas, apoiados pela usual falange de idiotas professores de academia úteis. Na verdade, já há um século a economia mainstream converteu-se em celebração da classe rentista rica. E, com a desigualdade cada vez maior e crescendo, os celebradores do 1% descobriram a premente necessidade dos serviços daquela falange.

Caso em destaque é o economista escocês Angus Deaton, autor de Fugindo do Inferno: Saúde, Riqueza e as Origens da Desigualdade (2013). Eleito presidente da AEA em 2010, em 2015 recebeu o Prêmio Nobel de Economia por analisar tendências de consumo, distribuição de renda, pobreza e bem-estar em termos que de modo algum ofendesse os ricos; de fato, tratou os tatus quo de desigualdade crescente como perfeitamente natural, com um tipo próprio, especial, de equilíbrio matemático (esse tipo de raciocínio matemático em círculos é, hoje em dia, o critério para aferir boa política econômica).

O livro dele toma o filme Fugindo do Inferno como metáfora. Em tom sarcástico destaca que ninguém jamais teria dado ao filme o título de "Os prisioneiros esquecidos lá atrás". Fala dos fugitivos como inovadores brilhantes, assume que o 1% mais rico, como aqueles homens, teriam sido espertos e criativos o suficiente para romper os elos do pensamento da caixa e inovar. Os fundadores de Apple, Microsoft e outras empresas de TI têm lugar especial, porque existem para tornar mais rica a vida do restante da humanidade. E a economia em geral conheceu ascensão mais ou menos regular até o topo, sobretudo com a indústria da saúde que ampliou a expectativa de vida, descobriu a cura de doenças e com a inovação na indústria farmacêutica.

Recentemente, partilhei com o professor Deaton o mesmo cenário, em Berlin, ao lado do meu amigo David Graeber. Nós três tivemos livros traduzidos ao alemão, que serão lançados nesse outono, pelo maravilhoso editor Klett-Cotta, que organizou o evento na Feira de Literatura de Berlin em meados de setembro.

Em certo sentido, a analogia de Deaton com o filme Fugindo do Inferno é até adequada. Os ricos escaparam. Mas a questão importante é de onde fugiram. Fugiram das leis reguladoras, de ter de pagar impostos (graças aos enclaves bancários offshore e ao trabalho de reescrever as leis para transferir toda a carga fiscal para as costas do trabalho e da indústria). Principalmente, os banqueiros de Wall Street escaparam de ser processados criminalmente. Não há necessidade de escapar da prisão se você pode evitar ser capturado e condenado, em primeiro lugar!

Um grande número de livros recentes – ecoados semanalmente na página editorial de Wall Street Journal – atribuem ao 1% mais rico o pressuposto de que eles têm necessariamente de ser mais espertos que a maioria das pessoas. Pelo menos, suficientemente mais espertos para frequentar as mais caras escolas de administração de empresas e conseguir MBAs que lhe ensinam a financeirizar as corporações com zaitech ou outro tipo de alavancamento por dívidas, e recolher (na verdade, para fazer por merecer e conquistar) gordos bônus.

O fato é que ninguém precisa ser inteligente para fazer muito dinheiro. Só precisa cobiçar muito. E isso não se aprende em escolas de gestão. De fato, quando fui trabalhar como analista de balanço de pagamentos no Chase Manhattan em 1964, disseram-me que os melhores corretores de moeda saíam das favelas do Brooklyn ou de Hong Kong. Toda a vida deles era devotada a fazer dinheiro, para ascender até a classe dos proverbiais Babbitts do nosso tempo: nouveau riches sem qualquer cultura real e/ou qualquer curiosidade intelectual.

Claro que, para banqueiros que se aventurem a "esticar o envelope" [stretch the envelope] (eufemismo usado pelos fraudadores para "infringir a lei", como fez o Citigroup em 1999 quando se fundiu com Travelers’ Insurance, antes de o governo Clinton cancelar a Lei Glass-Steagall), é indispensável ter advogados sabidos. Mas também nesse caso, Donald Trump já explicou o segredinho que aprendeu Roy Cohn, advogado com especialização em gangsteres: a lei nem é tão importante; importante é o juiz que você consiga. E as cortes dos EUA foram privatizadas mediante o processo de eleger juízes cujos doadores de campanha e de fundos em geral apoiam desreguladores e não-procuradores. Assim, os ricos nunca têm de responder a lei alguma. E os tribunais norte-americanos foram privatizadas pelos juízes eleitos cujas contribuidores de campanhas volta desreguladores e não-promotores. Então, os ricos escapam de estar sujeitos à lei.

Embora nenhum frequentador de cinemas quisesse ver os heróis de Fugindo do Inferno capturados e devolvidos ao campo de prisioneiros, muita gente há que gostaria de ver na cadeia os escroques de Wall Street (do Citigroup, Bank of America e outros fraudadores de hipotecas podres) junto com Angelo Mazilo do Countrywide Financial. Ninguém ama os lobbyistas políticos desses sujeitos, como Alan Greenspan, o advogado geral Eric Holder, Lanny Breuer e seus paus mandados que se recusaram a processar fraudes financeiras.

Deaton realmente cita "rentistas" [rent seekers] – mas no sentido em que falava seu predecessor no catálogo dos Prêmios Nobel, Buchanan, para quem "rentistas" seriam sempre o estado e o governo, não os exploradores de propriedade imobiliária, monopólios como o farmacêutico e o da tecnologia da informação, seguros-saúde, companhias de televisão a cabo e alta finança. Quer dizer, a culpa pela pobreza é ou do Estado e governo, ou de quem não paga as contas, nem o aluguel ou prestações da casa, dos desempregados e malnascidos que são as principais vítimas da economia rentista de hoje.

Fugindo do Inferno de Deaton vê alguns problemas, mas não são problemas do próprio sistema econômico – não há problema algum nas dívidas, no monopólio, na crise das hipotecas podres ou na fraude nas finanças. Fala do aquecimento global como problema principal, mas não do problema político da indústria do petróleo. Para ele a questão é a educação que se deve dar aos 99% para que não poluam, mas sem falar do empréstimo para pagar os estudos, dos aleijões que são as universidades privadas que vendem educação, mas continuam a ser mantidas com empréstimos de dinheiro público.

Ele mede a grande melhoria no bem-estar pelo PIB (Produto Interno Bruto). Lloyd Blankfein, do Goldman Sachs descreveu notoriamente gestores e parceiros de seu banco de investimento como os indivíduos mais produtivos nos Estados Unidos por ganharem US $ 20 milhões por ano (não incluindo bônus) –, tudo registrado como parte da contribuição do setor financeiro para o PIB. Não há nem ideia, aí, de que tudo isso é o que os economistas chamam de atividade de soma-zero – quer dizer, que os salários de Goldman Sachs podem ser improdutivos, parasitários, predatórios.

Esses pensamentos não ocorrem nas visões cor-de-rosa promovidas pelo 1%. O hino com que Deaton homenageia as elites pressupõe que todos ganhem exatamente o que valem, desde que tenham função produtiva, não extrativa.

Uma negação ainda mais flagrante do rentismo é um novo livro de um dos fundadores da Bain Capital (empresa de Mitt Romney), Edward Conard, O Lado Bom da Desigualdade, que ataca os "demagogos" e "propagandistas" que afirmam que os ganhos do um por cento são em grande parte inapropriados. Curiosamente não inclui Adam Smith, David Ricardo ou John Stuart Mill entre esses "propagandistas". E são autores clássicos do pensamento da economia de livre mercado: libertar as economias das garras da renda injusta e dos aumentos do preço da terra que os proprietários promovem "enquanto dormem", na expressão de John Stuart Mill. Esse livro de propaganda, pois, distorce o programa que os fundadores da economia tanto trabalharam para promover: a propriedade pública ou coletiva da renda da terra, dos recursos naturais e operação púbica de monopólios naturais, encabeçados pelo setor financeiro.

Para Conard, o que faz crescer alucinadamente a riqueza do 1% não é alguma causa financeira, exploração da propriedade imobiliária ou outras vias para extrair renda de monopólios, mas as maravilhas da economia da informação. É a "destruição criativa" de Josef Schumpeter da tecnologia menos produtiva, pelo trabalho duro e dedicado de inovadores, cuja criatividade faz aumentar o nível de riqueza de todos. Assim sendo, a riqueza do 1% é medida da marcha de toda a sociedade rumo ao futuro, não um excesso predatório extraído de toda a economia.

A conclusão política de Conard é que regulações e impostos atravancam a marcha das economias rumo à prosperidade liderada pelo 1%. Nos termos em que uma resenha laudatória que o Wall Street Journal oferece desse livro resume essa mensagem: "redistribuição - seja obtida através da tributação, restrições regulamentares ou normas sociais, parece", ele afirma, "ter grandes efeitos prejudiciais sobre a tomada de riscos, inovação, produtividade e crescimento a longo prazo, especialmente em uma economia em que a inovação produzida pela assunção de riscos empresarial por talentos devidamente treinados impulsiona cada vez mais o crescimento."² Sua solução é baixar os impostos sobre os ricos!

Meu amigo Dave Kelley assinala a mensagem política que está sendo repetida ad nauseum nos dias de hoje: a afirmação de que "movimentos progressistas como tributação acabam prejudicando a economia ao invés de ajudá-la". Este 'eu gostaria de alimentá-lo, mas você pode tornar-se dependente disso' é central para mostrar como sociedades de consumo como a nossa estão voltando rapidamente a distribuições de riqueza feudais." Essa parece ser exatamente a proposta política dos três principais candidatos à presidência dos EUA – na moderna sociedade norte-americana pós-Citizens United, na qual se compram eleições, praticamente do mesmo modo como os cônsules compravam seus consulados nos dias finais da República Romana.

Notas

¹ Anthony B. Atkinson, autor de Desigualdade: O que pode ser feito? cunhou a frase "a vez da desigualdade" para descrever quando a desigualdade econômica começou a aumentar por volta de 1980. Ele foi mentor de Thomas Piketty, e juntos eles trabalharam com Saez para criar uma base de dados históricos sobre top rendimentos.

² Richard Epstein, "A necessidade dos ricos", Wall Street Journal, 15 de setembro de 2016. A única crítica do revisor libertário é hilariante: "Mr. Conard desconsidera um vasto número de reformas possíveis. Ele nunca discute, por exemplo, o enfraquecimento da lei de patentes (um inibidor real da inovação), ou a cultura árdua de cumprimento que cresceu na esteira da Dodd-Frank e ObamaCare, ou como leis de zoneamento, estabilização do aluguel e habitação acessível estrangulam o mercado imobiliário. Ao ignorar a ameaça que a regulamentação impõe cada vez mais para a economia, a sua defesa das vantagens da desigualdade é muito mais frágil do que deveria ser."

Nenhum comentário:

Postar um comentário