5 de setembro de 2016

Em outra canção inédita, Woody Guthrie continua seu ataque ao “Velho Trump”

por Will Kaufman

The Conversation

Tradução / No início deste ano escrevi sobre uma série de escritos amargos de Woody Guthrie que eu havia descoberto enquanto fazia pesquisa para um livro sobre o compositor de baladas.

Os ataques eram dirigidos contra um homem que Guthrie havia apelidado de seu “pior inimigo”: Fred C. Trump, o senhorio do complexo de apartamentos Beach Haven no Brooklyn, onde a família Guthrie morou de 1950 a 1952. Guthrie abominava particularmente a linha de cor (referência à linha imaginária delimitando espaços para pretos e brancos nos EUA) de facto do projeto habitacional. (“Beach Haven se parece com o céu/ Onde nenhum negro vem vagar!/ Não, não, não! Velho Trump!/ O velho Beach Haven não é meu lar!”).

Neste verão, Judy Bell - a infatigável guardiã das canções de Guthrie na gravadora independente TRO-Essex - contou-me que havia encontrado em seus arquivos uma folha datilografada com a letra de uma canção de Guthrie. Embora seja outra praga lançada ao pai de Donald Trump, a descoberta chega no momento em que um recente artigo de fôlego do New York Times detalha a “longa história de preconceito racial” nas propriedades construídas e possuídas pelo Império Trump.

“Trump me transformou num vagabundo”
Como tantas outras canções folk memoráveis, a diatribe de sete versos de Guthrie é desavergonhadamente simples, repetitiva e formulada. Descreve o ultraje do compositor acerca dos aluguéis cobrados de forma exploradora num projeto habitacional feito com dinheiro público, destinado a veteranos de guerra como ele próprio:

“O Sr. Trump me transformou num vagabundo
O Sr. Trump me transformou num vagabundo
Paguei ele com tudo que é título e poupança para me mudar para o Beach Haven
Sim, Trump me transformou num vagabundo.”

Guthrie foi certeiro quanto à exploração de Fred Trump. Ele pode ter sido tímido sobre os detalhes: os milhões que Trump ganhava dos pagamentos de aluguel; os 5% embolsados do custo da empreitada de Beach Haven; o valor de US$ 3,7 milhões em fundos federais para edificação tomados de empréstimo, desnecessários, que foram destinados à construção. Mas Guthrie sabia por instinto que um negócio sujo estava se desenrolando em Beach Haven.

Sua canção reflete, também, o que o estudioso de música popular Edward Comentale chamou de “filão divagante, engraçado”, de Guthrie: uma retórica constrangida e estilizada em alto grau, caracterizada por “uma aceitação da pobreza e até do desamparo, em oposição às estruturas de orgulho e poder”.

“Ora, ora, Trump, você me transformou num vagabundo
Ora, ora, Trump, você me transformou num vagabundo
Você me cobra tanto que isso simplesmente não é humano, Vou tentar morar com o presidente Truman;
Ééé, Trump, você me transformou num vagabundo.”

Em última análise, tudo isso demonstra algo muito mais grave. Oferece um vislumbre da mente de um homem que recebera um diagnóstico desalentador dos médicos do Hospital Estadual do Brooklyn, em 3 de setembro de 1952, enquanto ainda vivia em Beach Haven: “PSICOSE ASSOCIADA A ALTERAÇÕES NO SISTEMA NERVOSO COM CORÉIA DE HUNTINGTON”.

Por fim havia uma explicação para o que fora um padrão de comportamento alarmante e desorientador para Guthrie: tontura constante, que ele e outros tomavam por alcoolismo; acessos súbitos, fora do comum, de violência verbal e física; uma desinibição sexual elevada, com frequência embaraçosa; e a deformidade e aberração gradual de seus escritos - o que seu biógrafo Joe Klein chama “anarquia linguística”, e que “se estendeu até ao seu endereço (Beach Haven, em New York City, tornou-se ‘Bitch Haven’ em ‘New Jerk Titty’)”.

O período em Beach Haven, que se mostrara tão auspicioso no seu princípio (com mais espaço de convivência para a família, alguns royalties modestos pelas composições de Guthrie, e uma oportunidade para que sua esposa Marjorie abrisse uma escola de dança moderna), acabou após dois anos, com o fim do casamento de Guthrie e episódios alternados de hospitalização, encarceramento e vagabundagem.

Beach Haven: uma cidade segregacionista

É claro que não foi Fred Trump que “transformou” Guthrie num “vagabundo”. No entanto, é igualmente claro que Guthrie veio a associar o nome “Trump” à sua decadência.

Mesmo que estivesse sendo despojado de suas próprias faculdades neurológicas e expressivas, ele escreveu de “Witchy Haven” (“Refúgio das Bruxas”) ao seu amigo íntimo, ativista e infiltrado na Ku Klux Klan, Stetson Kennedy, sobre o “Velho Sr. Trump” e “sua cambadinha de puxa-sacos” que o impediam de fazer “um centímetro sequer de trabalho para pregar ou montar ou consertar a espelunca”.

E escreveu sobre algo ainda pior: a “linha de cor” de Fred Trump.

“Além de não ser capaz de desfrutar um dia sequer de vida normal ou natural aqui no projeto de edifícios do Sr. Trump por conta de cerca de 99 cláusulas no seu velho maldito contrato de inquilino, descubro que estou residindo no centro insuportável de uma cidade segregacionista para onde nenhuma família negroide tem ainda permissão de se mudar e viver livremente”.

Guthrie lamentava que ele e a esposa fossem forçados a criar seus filhos “sujeitos ao fedor e ranço de caveira e ossos do ódio racial”.

Daí o derradeiro tiro de Guthrie em seu senhorio:

“Hum, hum, Trump, você me transformou num vagabundo
Hum, hum, Trump, você me transformou num vagabundo
Você roubou minha mulher e roubou minhas crianças, Me fez ficar bêbado e desandar
Sim, senhor, Trump, você me transformou num vagabundo.”

No fim de setembro de 1952, Guthrie caiu na estrada sozinho, rumo à Califórnia, em parte para ajustar-se à realidade do seu diagnóstico. Marjorie ficou para que se dirigisse ao escritório de Trump com uma solicitação de suspensão do contrato. Depois de não receber resposta, escreveu ao agente de Trump em Beach Haven em 4 de dezembro de 1952:

“Meu marido, após meses de hospitalização e exames, foi declarado incurável e está sofrendo de uma doença fatal conhecida como Coréia de Huntington. Temos três crianças pequenas e, como agora sei que somente eu serei responsável por elas, acho que seria impossível para mim continuar morando em meu apartamento, cujo aluguel agora se tornará um sacrifício e tanto... Creio que devo sair dentro de uma semana”.

Até esta data, os arquivos não mostram qualquer evidência de uma resposta, favorável ou não. Em seguida, Marjorie e suas três crianças - Arlo, Joady e Nora - deixaram Beach Haven e mudaram-se para Howard Beach, Queens.

As letras de Guthrie repercutem hoje

Não é surpreendente que os escritos de Beach Haven de Guthrie tivessem atraído tanta atenção na corrida eleitoral à presidência em 2016. Um esclarecimento histórico precisa ser feito. O jornalista David Cay Johnston, por exemplo, escreve em seu novo livro, The Making of Donald Trump, que Guthrie “pensava em colocar as políticas de aluguel de Trump em uma canção que intitulou Old Man Trump“.

Na verdade, Guthrie nunca escreveu uma canção chamada Old Man Trump. Johnston usou o título porque foi uma condição da licença de direito autoral concedida pela família Guthrie. Neste meio tempo, a canção com esse nome recentemente gravada e divulgada por Ryan Harvey, Tom Morello e Ani DiFranco, é uma mistura feita por Harvey com fragmentos de versos tirados de três fontes de arquivos separados (publicados pela primeira vez em The Conversation em janeiro de 2016). Guthrie tampouco usou a expressão “Trump’s tower” (“Torre de Trump”), como Harvey e seus colegas cantam; Harvey explicou que foi decisão sua “inserir uma referência do tempo presente”.

Os escritos de Beach Haven de Guthrie vieram a público em uma hora em que sua gravadora, TRO-Essex, em parceria com o espólio de Woody Guthrie, está travando uma batalha quanto aos direitos autorais do hino mais celebrado de Guthrie, This Land Is Our Land.

Como explicou Nora Guthrie: “nosso controle desta canção não tem nada a ver com ganho financeiro... Tem a ver com protegê-la de Donald Trump, protegê-la da Ku Klux Klan, protegê-la de todas as forças malignas lá fora”.

Trump possui um considerável histórico de se apropriar sem autorização de canções para a sua campanha, para grande indignação dos seus compositores. Mas, olhando mais além da campanha presidencial: ainda que os escritos de Beach Haven passassem batidos, e ouvíssemos, de qualquer maneira, This Land Is Our Land sendo tocada dentro dos elevadores da Trump Tower ou nas sedes dos clubes de campos de golfe de Trump, não existiria um instrumento científico que pudesse medir a velocidade com que Woody Guthrie se reviraria no túmulo.

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