23 de setembro de 2016

O golpe foi longe demais

Rob Urie

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Um dos aspectos politicamente mais frustrantes da última década no Ocidente é a falta de vontade dos poderes-de-fato para abordar a disfunção radical que é a base da economia política ocidental. De fato, como microcosmo e metáfora, o "escândalo" do banco Wells Fargo criando milhões de contas falsas, cobrando dos seus clientes pelo privilégio e depois mandando às favas os chamados reguladores, é apropriado. Em 2011, quando se diz que o banco teria iniciado essa prática, o Wells Fargo ainda estava sendo ativamente socorrido, medidas "extraordinárias" estavam sendo tomadas para reviver as fortunas dos ricos e bem relacionados, e ainda não havia se tornado totalmente claro que "a mudança que você pode acreditar" significava a completa revitalização do sistema que criou as crises recorrentes das últimas décadas.

A incessante propaganda da recuperação econômica isolou "a economia" do sistema mais amplo de controle político e econômico e impôs um ciclo ascendente fortemente projetado como um novo estado de coisas permanente. Ela também colocou os fatos, tal como vivido por centenas de milhões de pessoas, contra a insistência por parte dos governos e bancos centrais dos EUA, da União Europeia e da Grã-Bretanha de que a recreação das circunstâncias que produziram as anteriores três crises de algum modo produziriam resultados amplamente compartilhados e benevolentes desta vez. O que o "escândalo" Wells Fargo tornou evidente é que o que foi recuperado foi o sistema de finanças predatório que existe com capitalistas institucionalizados colocando-se a serviço de uma pequena mas poderosa plutocracia.


Gráfico: O golpe de Estado capitalista que começou nos anos 1970 foi uma resposta a uma crise real, exposta como taxa de lucro decrescente e/ou declinante controle plutocrático sobre a economia política ocidental. A financeirização alterou o equilíbrio de poder, fazendo-o pender na direção do capital através do sistema monetário. Bancos criam dinheiro contra passivos separáveis [separable liabilities]. Analogia grosseira mas clara é você poder legalmente tomar um empréstimo, dando como garantia a casa de seu vizinho: você (os capitalistas conectados) fica com o dinheiro; e a casa de seu vizinho é tomada pelo credor quando você não pagar o empréstimo. O resultado eventual é que as demandas sobre a produção econômica vão-se concentrando cada vez mais, conforme o sistema econômico torne-se instável. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

A luta de classes visível na atual temporada política foi lançada "de cima" nos anos 1970 por capitalistas conectados – riqueza herdada com apoio de uma classe gerencial comprometida, com o objetivo de retomar o poder e o controle sobre a economia política ocidental. A promessa, feita contra os resultados reais de vários séculos de história imperial ocidental, era de prosperidade amplamente partilhada obtido através da auto-realização restrita da democracia capitalista. O resultado real é uma circunstância econômica fortemente declinante para muitas pessoas; uma rala prosperidade para os gerentes burgueses do apoio; e uma nova Era Dourada para a classe que se autoenriquece, executivos das grandes empresas, os que herdam patrimônio e os predadores financeiros.

Aqui, novamente o caso do banco Wells Fargo serve como microcosmo exemplar – um porão de trabalho escravo financeiro para trabalhadores de baixa qualificação, comandado por executivos dedicados ao autoenriquecimento (e "acionistas") cujo modelo de negócio implica usar poder social assimétrico para roubar todos que eles consigam roubar. Inicialmente, só o banco Wells Fargo sabia que o golpe de abrir contas fraudulentas para cobrar taxas ilícitas era sistêmico. Sem saber do que estava acontecendo, clientes individuais acreditavam, de boa fé, que contas abertas fraudulentamente eram erros; tomados um a um, o dinheiro roubado de correntistas era muito pouco e não justificaria contratar advogados com o objetivo de reavê-lo; e em 2011, quando a fraude foi afinal notificada e supõe-se que teria começado, Wall Street já havia conquistado o 'direito', que o governo de Barack Obama garantiu-lhe, de criar documentos falsos e cobrar taxas ilícitas para despejar fraudulentamente milhões de tomadores de empréstimos garantidos por hipotecas.

Apesar de a promessa de prosperidade partilhada ser ainda tida em alta conta e repetida por capitalistas, ecapitalistas, executivos de empresas e seus "idiotas úteis" na academia quando o golpe capitalista foi lançado nos anos 1970, à altura de 2008, as provas já se acumulavam a ponto de já se terem tornado irrefutáveis: o capitalismo, o imperialismo econômico, apresentado como de 'livre escolha', é modo de organização social que existe para gerar catástrofe,  e só beneficia uma ínfima minoria, à custa de todos os cidadãos do planeta. Se se consideram os termos de que se servem os explicadores de academia do capitalismo (economistas), o sistema existente só é plausível durante os breves períodos de respiro entre crises recorrentes. A grande tendência do declínio da economia sugere que o torvelinho e a agitação social só aumentarão, até que se encontre outra solução. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

A atual temporada de campanha política mostra duas alas da tungocracia [griftocracy] que disputam uma mesma carcaça. Hillary Clinton e Donald Trump são renomados gerentes da ralé', a saber, dos eleitores, sempre ativos a favor da riqueza e do poder como os temos hoje. O banco Wells Fargo foi empoderado para fraudar e roubar clientes, primeiro pelos Clintons com as leis de desregulação, na sequência por Barack Obama mediante os resgates sem qualquer consequência e os programas para falso alívio da tragédia das famílias despejadas. John Stumpf, presidente do Wells, gerencia seu banco mais ou menos como Donald Trump administra seus negócios, servindo-se sempre do poder econômico assimétrico disfarçado como relações de mercado. Fazendo pose de capitalistas supostos bem-sucedidos, os dois assaltam o dinheiro público que chega até eles sob a forma de resgates, privilégios, redução de impostos, tribunais especiais e, mais importante, mediante o sistema de "livre" empresa, onde defraudar trabalhadores e clientes é uma prática comercial normal.

Esse último ponto foi exposto e defendido com alarido e sem descanso durante os primeiros dias do governo Obama, quando os arquitetos da catástrofe econômica – Timothy Geithner, Larry Summers, Ben Bernanke e sortimento variado de apparatchiks do capitalismo financeiro estavam sendo escalados para enterrar os mortos e arquitetar uma "recuperação" econômica que, não se entende como, talvez por milagre, não viu os que realmente careciam de tudo, e só recuperou o sistema de finanças predatório que os pôs no comando e deu-lhes emprego e poder. Só esse sistema foi recuperado, e tornou os atores específicos em larga medida supérfluos. As diferenças mais notáveis entre Hillary Clinton e Donald Trump aparecem nas respectivas políticas externas. As diferenças mais notáveis ​​entre Hillary Clinton e Donald Trump aparecem através das políticas estrangeiras. É por isso que a história de Hillary como sociopata-pelo-império é tão preocupante. Ambos incorporam o ethos da classe auto-enriquecida por fraudes onde emergem banqueiros como Wells Fargo.

Gráfico: o golpe de Estado capitalista, que começou na década de 1970, usou financiamento como mecanismo de concentração de créditos sobre a produção econômica em poucas mãos. A taxa declinante da produção econômica no ocidente desenvolvido (parte média do gráfico) coincide com crises de magnitude crescente, ligadas à jogatina financeira. Habitação, como arte e outros "ativos" tangíveis, foram financeirizados e comercializados [commodified] para facilitar a propriedade, agora concentrada, de todos esses ativos. A fungibilidade dos ativos é uma função da "liquidez", o aspecto pelo qual as demandas sobre a produção econômica são realizadas socialmente. É o que dá conteúdo político às políticas do Federal Reserve que economistas de academia pretendem que seriam neutras. Método: Ln (h) + Ln (s) = Ln (h*s) = Soma de Todas as Bolhas. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

Como ficou claro depois da última crise, a economia política recuperada funciona mediante o emprego do poder social para esmagar trabalhadores e fraudar consumidores. Acrescentem-se colonialismo e neocolonialismo, e temos o imperialismo ocidental dos últimos vários séculos. Nenhum dos candidatos dos grandes partidos americanos cuidarão de modo significativo da questão do aquecimento global, nem de reduzir as armas nucleares nem de reconstruir o poder do trabalho. Só promoverão os interesses dos grandes capitalistas interconectados, sob a máscara de que estariam cuidando do interesse público. O "escândalo" Wells Fargo é bom para uma ou duas rodadas de postura política insípid, para assegurar que o resultado seja o apoio contínuo ao sistema que produziu. Que Marx e Lenin bem identificaram essas disfunções do capitalismo mais de um século atrás sugere o poder dos quadros analíticos que estão disponíveis para ser aplicados quando necessário.

Finalmente, e é relevante para qualquer economista que tenha lido até aqui, bolhas financeiras tem consequências distribucionais (Gráfico 1) e também são economicamente desestabilizantes. O modelo de "fundos aplicáveis" que relaciona empréstimos bancários aos depósitos mediante taxas de juros perdeu o poder descritivo-explicativo em relação à financeirização da economia dos anos 1970 em diante. (Nunca foi mecanicamente preciso) O paradoxo criado por juros baixos na era atual é que eles motivam uma alavancagem financeira sempre crescente, que amplia a instabilidade econômica. Pode implementar uma gestão keynesiana da demanda mediante políticas fiscais, sem a necessidade de juros perpetuamente baixos. Como o golpe do banco Wells Fargo sugere, como ponta visível do iceberg, o sistema hoje existente de capitalismo de finanças tem de ser posto abaixo, para que a reconciliação social seja possível.

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