10 de setembro de 2016

Proxies dos EUA e rivalidades regionais

James Petras

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Tradução / A construção do império dos EUA depende de apoio dos regimes regionais, especialmente no Oriente Médio, Ásia e América Latina. Estes regimes de procuração desempenham funções militares valiosas para assegurar o controle sobre as regiões vizinhas, populações e território.

Nos últimos tempos, porém, testemunhamos os mesmos procuradores desenvolver a sua própria tendência para políticas expansionistas - em busca de seus próprios mini-impérios.

Regimes clientes dos EUA, com ambições locais ou regionais apresentam a Washington sempre novos pontos de disputa. Num momento em que o império dos EUA viu-se forçado a retroceder ou retirar-se, dadas as prolongadas e repetidas perdas militares que vem sofrendo, emergiram inúmeros importantes novos conflitos. As zonas de guerra pós-imperiais são o novo foco Com frequência, regimes clientes do império tomam a iniciativa e confrontam, eles mesmos seus adversários regionais. Em outros casos, prepostos separados entre eles por velhas rixas, dispensam a 'orientação' de 'mentores' norte-americanos e passam a cuidar, eles mesmos, de fazer avançar as próprias ambições territoriais.

A dissolução no império dominado pelos EUA, longe de pôr fim a guerras e conflitos, quase com certeza levará a muitas outras guerras locais sob o pretexto de alguma 'autodeterminação' ou 'autodefesa' ou para proteger o grupo étnico de um ou outro – como a repentina preocupação de Ankara com os turcomenos na Síria.

Vamos examinar alguns dos estudos de caso mais óbvios.

O Oriente Médio: Conflito turco-curdo-sírio

Ao longo dos últimos anos, o regime turco tem estado na linha de frente da guerra para derrubar o governo secular e nacionalista de Bashar al-Assad na Síria.

Os turcos agiram como procuradores dos EUA – garantindo bases militares, suprimentos, treinamento e proteção, além de uma porta de entrada para a Síria para terroristas mercenários islamistas a serviço das ambições imperiais de Washington.

Com a ameaça islamista 'independente' (ISIS) ganhando território e atacando interesses dos EUA, Washington cada vez mais buscou seus aliados, principalmente seculares, combatentes curdos. Os procuradores curdos de Washington ganharam território tanto contra islamistas anti-EUA como contra o governo nacional sírio – como parte da própria antiga agenda etnonacionalista dos curdos.

A Turquia viu as vitórias curdas no norte da Síria como ponto de atração que concentraria forças curdas autonomistas também dentro da Turquia. O presidente Erdogan interveio militarmente – enviou tanques, aviões e dezenas de milhares de soldados para a Síria, onde iniciou uma guerra de extermínio contra os sírios curdos procuradores dos EUA! A invasão turca avançou, tomando território sírio, sob o falso pretexto de que estaria combatendo algum ‘ISIS’. De fato, a Turquia criou uma ampla 'zona protegida' colonial para controlar os curdos.

O governo Obama em Washington reclamou, mas absolutamente não queria intervir, nem quando os turcos arrastaram os curdos para fora de seus lares tradicionais no norte da Síria no que foi uma massiva campanha de limpeza étnica. Assim eclodiu a guerra turcos-curdos-sírios, e os termos, as condições e os resultados já ultrapassavam em muito qualquer possibilidade de os EUA controlarem qualquer coisa.

Fracassou completamente a luta dos EUA para implantar um regime fantoche na Síria: em vez de regime fantoche, a Turquia roubou terra síria, os curdos resistiram contra os turcos em nome de defender sua autodeterminação nacional, em vez de expulsarem mercenários islamistas; e Damasco enfrenta hoje mais uma ameaça contra sua soberania nacional.

Essa brutal guerra regional, iniciada quase totalmente por EUA e Arábia Saudita, está deixando à vista a extensão do fracasso do Império EUA-Oriente Médio.

Ásia: conflito Japão, Vietnã, Filipinas e China

O Império EUA-Ásia tem assistido à criação e destruição dos procuradores dos EUA. Depois da II Guerra Mundial, os EUA incorporaram Japão, Paquistão, Coreia do Sul, Taiwan, as Filipinas, Austrália e Nova Zelândia como seus procuradores, no esforço para estrangular e conquistar China, Coreia do Norte e Vietnã.

Mais recentemente, Índia, Vietnã e Myanmar aderiram ao novo esquema militarista dos EUA para cercar a China.

Elemento crucial para o 'Pivô para a Ásia' de Obama-Clinton é a Parceria Trans-Pacífico [Pacific Partnership (TPP)], um singular esforço para 'unificar' as nações asiáticas controladas pelos EUA, com o objetivo de isolar a China e reduzir seu papel na Ásia.

Os prepostos originais dos EUA de depois da II Guerra Mundial, Coreia do Sul, Filipinas e Japão garantiram bases militares, tropas, apoio material e logístico. Vietnã, o mais novo preposto 'no quarteirão', recebe armas do Pentágono apontadas contra a China – apesar dos milhões de vietnamitas mortos durante a guerra dos EUA na Indochina.

Por mais que os prepostos dos EUA na Ásia continuem a discursar a favor da 'agenda sinofóbica' de Washington, muitos deles o fazem nos seus próprios termos: não querem provocar a ira econômica da China ante a política de confrontação direta de Washington.

Durante a recente Conferência da Associação de Nações do Sudeste da Ásia [ASEAN, na sigla em inglês] no Laos (2016), vários países resistiram à pressão de Washington para que denunciassem a posição da China (que não considera o que uma 'corte internacional' teria 'decidido' sobre as reivindicações de Pequim sobre o Mar do Sul da China). Mas a capacidade dos EUA para influenciar eventos mediante 'sentenças' de seus 'tribunais internacionais' operantes na Europa parece ter evanescido.

O governo dos EUA tampouco consegue implementar sua estratégia de 'bloqueio' econômico trans-pacífico (TPP), por causa de forte resistência tanto dentro dos EUA como nos países alvos. Contudo, novos procuradores começaram a emergir.

Os procuradores-patetas em Tóquio enfrentam o povo japonês, que cada dia mais claramente se opõe à condição subalterna do Japão, reduzido a procuradores dos EUA; ao Japão reduzido ao papel de base aérea dos EUA. Efeito disso tudo é que Tóquio segue atentamente sua própria estratégia nacional anti-China, construindo laços econômicos mais profundos com estados procuradores dos EUA, mas mais recentes ou de menor expressão na Indochina: as Filipinas e Myanmar. Ao tempo em que desenvolve relações mais sólidas com esses regimes procuradores mais fracos, o Japão, de fato, está lançando as bases para políticas econômicas e militares autônomas, independentes dos EUA.

Notavelmente, o novo governo do presidente Duterte nas Filipinas está trabalhando para pacificar as relações de seu país com a China, por mais que as velhas relações neocoloniais das Filipinas como estado procurador dos EUA ainda se mantenham. O carnaval que a mídia ocidental tem tentado criar em torno da linguagem 'estranha' e de políticas 'criativas' a favor dos direitos humanos do presidente Duterte serve exclusivamente para mascarar o desconforto e a desaprovação imperial, por Washington, ante a política externa independente e pró-China, de Duterte.

Quanto à Índia, ao mesmo tempo em que tece laços mais próximos com os EUA, e até oferece cooperação militar com o Pentágono, Modi assina acordos ainda maiores com os chineses, de investimentos e comércio – ansiosos que estão os empresários indianos, para entrar no enorme mercado da China.

Em outras palavras, os procuradores de Washington na Ásia (1) ou ampliaram eles mesmos as respectivas próprias áreas de influência nacional; ou (2) definiram esferas autônomas de ação ou (3) rebaixaram o peso relativo dos EUA para impor acordos comerciais.

Sintomático da decadência do "poder procurador" dos EUA é a "relutância" entre os clientes de Washington para expressar hostilidade aberta a Pequim. Em frustração, os porta-vozes financeiros de Washington-Nova Iorque (New York Times, Washington Post, Wall Street Journal) fornecem púlpitos de intimidação para os personagens mais obscuros, marginais, incluindo um político menor de Hong Kong, um exilado tibetano 'homem santo' Tibetan decrépito e uma bando de terroristas uigures!

Procuradores efémeros de Washington na América Latina

Um dos aspectos mais marcantes da construção do império norte-americano é a facilidade com a qual garantiu procuradores na América Latina... e a rapidez com que são prejudicados!

Ao longo das últimas três décadas os EUA apoiaram regimes militares de procuradores, que foram derrubados e substituídos por governos independentes na última década. Estes estão atualmente sendo substituídos por uma nova onda de procuradores neo-liberais - uma coleção heterogênea de bandidos corruptos e palhaços da elite incapazes de estabelecer uma região imperial centrada sustentável.

Um império baseado em procuradores é uma contradição em termos. Os procuradores latino-americanos dos EUA dependem de apoio externo, não conseguem criar raízes internas nem têm a indispensável popularidade local. As próprias políticas neoliberais deles são fracas e incapazes de realmente estimular o desenvolvimento industrial sem o qual não há desenvolvimento possível. Os procuradores latino-americanos dos EUA são meros predadores, sem as indispensáveis competências históricas para empreender japonesas e da disciplinada ideologia nacionalista dos turcos.

Nesse sentido, os procuradores latino-americanos com que os EUA são obrigados a contar parecem-se mais com a oligarquia reinante nas Filipinas: pregam a submissão e alimentam a subversão. Por todos os lados o que se vê é instabilidade crescente e mudança políticas que emergem como forças poderosas a desafiar o império dos EUA – sejam os chineses na Ásia ou conflitos internos nacionais - como o fenômeno Trump nos EUA.

Conclusão

As guerras imperiais continuam... mas também continuam a sempre crescente instabilidade dentro dos EUA, a rejeição em massa às políticas imperiais, os conflitos regionais e as guerras nacionais. O declínio do império ameaça abrir as portas para uma era de guerra entre os procuradores dos EUA – múltiplos conflitos que podem beneficiar o império, mas também podem agravar o quadro. A guerra dos poucos contra os muitos está se transformando em guerra de muitos contra muitos. Mas quais as escolhas, ante essas mudanças históricas?

Só o surgimento de movimentos de massa organizados verdadeiramente com consciência de classe podem oferecer uma resposta positiva para a vinda do dilúvio.

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