18 de outubro de 2016

Mosul se prepara para o próximo capítulo sangrento após ter sido devastada por 13 anos de guerra

Apesar da provável derrota do Daesh, ódios sectários e étnicos são profundas e as pessoas da cidade enfrentam um futuro assustador e incerto

Patrick Cockburn

The Independent

Tradução / Mossul é um lugar perigoso desde a invasão liderada pelos Estados Unidos de 2003. É a maior cidade árabe sunita do Iraque, durante uma época em que os sunitas perderam a sua antiga predominância e têm lutado contra os governos dominados pelos xiitas em Bagdá e governantes curdos vizinhos no Curdistão iraquiano.

É uma batalha que ainda está em curso, com o exército iraquiano e paramilitares xiitas avançando pelo sul, enquanto os peshmerga curdos vêm do leste. O caminho está aberto em ambas as direções pelos ataques aéreos, predominantemente pela força aérea dos Estados Unidos, que atacam combatentes do Daesh entrincheirados em povoados em ruínas escondidos em túneis profundos.

Se as forças anti-Daesh, em última análise, tiverem sucesso em recapturar Mossul, será a quinta vez que a cidade muda de mãos ao longo de 13 anos de guerra. A primeira vez foi em abril de 2003, quando o exército iraquiano dispersou e rendeu-se e os Peshmerga curdos irromperam na cidade. Houve saques numa escala massiva, que os árabes atribuíram aos curdos e vice-versa, mas, na verdade, ambos participaram. Vi multidões saquearem a mansão do governador, o Banco Central e a universidade.

Os árabes, três quartos da população da cidade de dois milhões, ficaram horrorizados com a incursão curda. Eu visitei o maior hospital de Mossul, onde o diretor Dr. Ayad Ramadani me disse que "as milícias curdas estão saqueando a cidade. Hoje, a principal proteção é de civis organizados pelas mesquitas”. Pela entrada para o hospital, uma família estava carregando o corpo de um parente falecido na parte traseira de um caminhão, quando se fez sentir uma rajada de metralhadora. Isso assustou o motorista de caminhão que fugiu deixando o corpo para trás e a família com raiva agitando os punhos atrás dele.

As relações entre árabes e curdos não ficou muito melhor ao longo dos anos seguintes. O Governo Regional do Curdistão (KRG) reivindicou partes da província de Nineveh ao redor de Mossul que reclamou ter uma maioria curda ou que historicamente pertencia aos curdos. Mossul fica no coração de um mosaico étnico e sectário fascinante mas confuso, composto por árabes, curdos, Shabak, Yazidis e cristãos de diferentes dominações. Poucas dessas comunidades tinha qualquer simpatia pelas outras.

A incursão curda foi seguida pelos americanos e, durante os restantes meses de 2003, o General David Petraeus comandou a 101ª Divisão Aerotransportada na cidade. Ele apercebeu-se como a campanha de "desbaathificação" mandatada pelas autoridades dos EUA em Bagdá estava afastando ex-oficiais do Exército iraquiano e oficiais que estavam agora sem trabalho. Uma grande proporção do corpo de oficiais do exército sempre tinha vindo de Mossul e, de acordo com esta tradição militar, o ministro da Defesa no governo de Saddam Hussein era da cidade. Petraeus emitiu certificados de "desbaathificação" com a sua própria autoridade, para que esses oficiais desempregados fossem, pelo menos, elegíveis para um emprego.

Não foi suficiente. Com a sua excessiva confiança, os norte americanos reduziram as suas tropas e, em seguida, retiraram o restante para participar na recaptura de Fallujah. Em novembro de 2004, combatentes armados da oposição iraquiana correram para a cidade, o exército iraquiano recém-reformado fugiu e os rebeldes capturaram arsenais de armas. Retiraram-se depois de alguns dias e Bagdá, apoiado pelos EUA, recuperou um controle instável.

Mas o governo de Bagdá sempre foi contestado entre 2004 e 2014. Registaram-se sucessivos ataques da guerrilha. Eu viajei de Irbil em KRG para visitar o vice-governador curdo cujo escritório bem fortificado estava do outro lado do rio Tigre. Mas ora tivemos de conduzir muito rápido ou ir mais devagar em comboios defendidos por tropas e veículos blindados.

A Al-Qaeda no Iraque não perdeu totalmente a sua influência em Mossul, mesmo quando estava no seu ponto mais baixo no pré 2011. As empresas locais tinham que pagar dinheiro por proteção, fechar ou enfrentar o assassinato. Um empresário turco com vários contratos de construção de grande dimensão em Mossul recordou mais tarde que teve que pagar 500.000 dólares por mês e, quando este valor foi aumentado e se recusou a pagar, um dos seus funcionários foi morto. Ele parou de trabalhar, retirou a sua equipe para a Turquia e queixou-se ao governo em Bagdá. Mas a única proposta foi que ele pagasse o dinheiro de proteção e adicionasse essa soma ao seu preço de contrato.

O governo reunia muita antipatia em Mossul, mas, ainda assim, a captura do Daesh da cidade em junho 2014 foi uma vitória surpreendente de alguns milhares de combatentes contra uma guarnição que era suposto ter 60.000 e pode ter chegado a cerca de 20.000 soldados e policias. A diferença entre os dois números devia-se aos "soldados fantasmas" que não existiam ou que nunca chegaram a ir para os quarteis, mas cujos salários eram apreendidos por oficiais. Muitos outros soldados tinham simplesmente ido em licença para Bagdá e nunca mais voltaram, à medida que a situação de segurança se deteriorou. Quando o Daesh atacou, o exército e a polícia dissolveram-se.

O Daesh nunca foi popular em Mossul, mas reprimiu ferozmente todos os dissidentes. Expulsaram os cristãos e assassinaram e escravizaram os yazidis. Explodiram monumentos emblemáticos como o túmulo de Jonas. A população podia não gostar do Daesh, mas não havia muito que pudesse fazer.

O Daesh também beneficiou-se do medo entre os sunitas na cidade sobre o que aconteceria se o exército iraquiano e as milícias xiitas paramilitares voltassem. Eles sabem que a população árabe sunita do Iraque, de cinco ou seis milhões, um quinto da população de 33 milhões, está sob ameaça e cerca de um terço foi deslocado. Na guerra sectária em Bagdá, em 2006-7, os sunitas no Iraque tinham sido expulsos em vários enclaves, principalmente no lado oeste da cidade, que diplomatas dos EUA descreveram como "ilhas de medo". Isso está agora acontecendo no resto do Iraque. Outros iraquianos podem vê-los como cúmplices de crimes do Daesh e reivindicar vingança. Quaisquer que sejam as declarações conciliatórias de líderes iraquianos, os ódios sectários e étnicos são profundos e a população da cidade enfrenta um futuro assustador e incerto.

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