7 de outubro de 2016

O capitalismo real: turbulento e antagônico, mas não imperfeito

Uma resenha de Capitalismo: competição, conflito, crise (Oxford University Press, 2016), de Anwar Shaik

International Socialism

Tradução / Anwar Shaikh é um dos economistas mais importantes do mundo inspirados em Karl Marx e nos economistas clássicos (“economia política”, se você preferir). Ele lecionou na New School for Social Research de Nova Iorque por mais de 30 anos, e escreveu três livros e sessenta artigos.[1] Essa é a sua obra mais ambiciosa. Como Shaik diz, é uma tentativa de derivar a teoria econômica do mundo real e então aplicá-la aos problemas reais. Ele aplica as categorias e a teoria dos economistas clássicos a todas as grandes questões econômicas, incluindo as que supostamente fazem parte da economia mainstream, como oferta e procura, preços relativos de bens e serviços, taxas de juros, preços de ativos financeiros e mudança tecnológica.

Uma abordagem clássica

Shaikh diz que a sua abordagem “é muito diferente tanto da economia ortodoxa quanto da tradição heterodoxa dominante”[2]. É a abordagem clássica, em contraste com a neoclássica. Em outras palavras, ele rejeita a abordagem que parte de “empresas perfeitas, indivíduos perfeitos, conhecimento perfeito, comportamento egoísta perfeito, expectativas racionais etc”, e então “várias imperfeições são introduzidas na história para justificar padrões individuais observados”, mesmo que “não possa haver uma teoria geral das imperfeições”. Em vez disso, Shaikh parte do comportamento humano real, em vez do do assim chamado “homem econômico”, e do conceito de “competição real”, em vez da “competição perfeita”. Isso é enfatizado nos capítulos 3, 7 e 8 em particular.

Entretanto, diferente do esforço recente de Ben Fine e Ourania Dimakou na sua obra de dois volumes Microeconomics e Macroeconomics, Shaikh não realiza uma crítica da economia mainstream como tal[3]. Em vez disso, ele tem como objetivo apresentar uma abordagem econômica completamente alternativa, que ele chama de “clássica”, seguindo a tradição dos primeiros economistas políticos do capitalismo industrial, Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx.

O livro é o produto de 15 anos de trabalho, então levou mais tempo para ser gestado do que o que Marx levou, de 1855 a 1867, para terminar o volume I do Capital. Mas ele cobre muito terreno. Toda a teoria é comparada com dados reais em cada capítulo, e também com os argumentos neoclássicos e keynesianos/pós-keynesianos. Shaikh desenvolve uma teoria da “competição real” e a aplica para explicar os preços relativos empíricos, as margens e taxas de lucro, taxas de juros, preços de títulos e ações, taxas de câmbio e balanças comerciais. Ele mostra que a oferta e a procura dependem da lucratividade, e interagem de uma forma que não é nem a Lei de Say nem keynesiana, e sim baseada na teoria clássica do valor. Uma teoria clássica da inflação é desenvolvida e aplicada a vários países. Uma teoria das crises é desenvolvida e integrada à macrodinâmica.

É um monte de coisas. Mas os leitores podem seguir detalhadamente os argumentos de Shaikh através de uma série de 21 palestras em vídeo que cobrem todos os capítulos do livro.[4] Eles podem ser muito técnicos em alguns pontos, mas o esforço de concentração vale a pena. Veja a Palestra 15 em particular, com o resumo geral de Shaikh sobre o capitalismo. Também existem entrevistas curtas de Shaikh sobre a mensagem principal do seu livro, tudo satisfatoriamente compilado por Shaikh no seu site.[5]

Existem dois pivôs básicos na sua abordagem “clássica”. Primeiro, o motivo do lucro, e não fazer as coisas ou prestar serviços, é visto como o motor do capitalismo: “O capital é uma forma social particular da riqueza orientada pelo motivo do lucro. Com esse incentivo, vem o correspondente impulso para a expansão, para a conversão de capital em mais capital, de lucro em mais lucro”.[6]

Segundo, a economia capitalista não deve ser vista como uma economia de mercado “perfeita”, acompanhada de “imperfeições”, e sim como capitais individuais em competição para ganhar lucro e participação no mercado. O monopólio não deve ser contraposto à competição, como os economistas neoclássicos, ortodoxos, e até mesmo alguns marxistas fazem. A competição real é uma luta para baixar os custos por unidade do produto, a fim de ganhar mais lucro e participação no mercado. No mundo real, existem capitais com vários graus de poder de monopólio competindo e mudando continuamente, porque o poder de monopólio se perde como novos capitais entrando no mercado e nova tecnologia que corta os custos. A competição real é uma luta sem fim por poder de monopólio (participação dominante no mercado) que nunca acaba totalmente ou para sempre: “cada capital individual opera sob esse imperativo... que é a competição real, antagônica por natureza e de operação turbulenta. É tão diferente da assim chamada competição perfeita quanto a guerra é do balé”.[7]

Uma teoria do valor clássica ou marxista?

A obra de Shaikh, com a sua análise das crises no capitalismo e o seu apoio declarado à teoria do valor de Marx, tem sido comumente considerada parte da tradição marxista. Mas não é por acidente que Shaikh não quer ser chamado de economista marxista ou que o seu livro Capitalismo seja visto como uma crítica marxista moderna seguindo a obra de Marx de título semelhante (mesmo que Marx nunca tenha usado a palavra “capitalismo”, só “capital”). Em vez disso, Shaikh subsume a teoria marxista na teoria clássica, e tenta preencher a lacuna entre a análise econômica marxista e a do grande economista clássico do capitalismo moderno, David Ricardo[8], junto com as teorias de Piero Sraffa, o “neorricardiano” do século XX.

O objetivo de Sraffa era semelhante ao de Shaikh: trabalhar sobre e reconciliar os constructos teóricos de Ricardo com os de Marx. Mas a realidade é que Sraffa abandonou uma teoria do valor (quanto as coisas valem e qual o seu preço) que era baseada no tempo de trabalho envolvido na sua produção, e regrediu para medir as coisas (e os serviços?) através da quantidade física de mercadorias e componentes que formam um novo produto. Assim, a obra principal de Sraffa não por acaso se chama Produção de Mercadorias através de Mercadorias9.

Sraffa rompe completamente com a teoria do valor de Marx e, como resultado, é realmente incapaz de explicar a natureza da produção capitalista como um processo de exploração por lucro, iniciado com o gasto de capital-dinheiro para empregar trabalho para produzir mercadorias que fazem mais dinheiro. Para Marx, o processo de produção capitalista é D-M-P-M'-D' (onde “D' é dinheiro, “M” é mercadoria e “P” é produção, onde o trabalho é executado).Assim, o dinheiro faz mais dinheiro (valor), mas somente por causa do trabalho despendido para criar mais valor. O processo de Sraffa é M-M'. Para Sraffa, o papel do trabalho desaparece – ele é apenas mais uma “mercadoria”.

Marx valorizava muito a obra de Smith e Ricardo, por causa do seu reconhecimento objetivo de que só o trabalho cria valor. Mas ele era altamente crítico do seu fracasso em sistematizar essa visão. Smith é ilógico. Por um lado, ele reconhece que o trabalho cria o valor mas, quando ele vai calcular o valor na economia nacional, ele afirma que o valor tem que ser formado por salário do trabalho, lucro do capital e renda da terra. E a fonte subjacente do valor é subsumida, e ao mesmo tempo o capital acumulado em ativos fixos e matérias-primas é ignorado.

Marx expôs o fracasso de Ricardo em explicar por que os preços das mercadorias individuais diferem do tempo de trabalho contido neles. A resposta de Sraffa e dos neorricardianos foi abandonar a teoria do valor-trabalho; a solução de Marx foi mostrar que os valores das mercadorias se transformam em preços de produção através da equalização das taxas de lucros através da economia, pela competição entre capitais individuais. Assim, o valor total numa economia seria igual aos preços totais, mas os valores individuais divergiriam dos preços individuais, dependendo do tamanho e da composição do capital investido e da taxa média de lucro.

Shaikh sabe disso e é muito assertivo na sua análise teórica e empírica no livro em mostrar que a solução de Marx está certa e fornece a melhor compreensão do movimento dos preços numa economia capitalista. Mas ele também adota uma versão do processo de produção sraffiano que não pode ser conciliada com Marx e, mais importante, que falha em fornecer uma explicação lógica da produção capitalista.

Fred Moseley, no seu excelente novo livro, Money and Totality, fornece uma análise da lógica de Marx em O Capital e o seu método de transformar o valor contido nas mercadorias em preços de produção no mercado10. Moseley aborda a contradição da posição de Shaikh. Em obras anteriores, Shaikh argumentou que, através de um processo “iterativo” de várias etapas (que ele afirma que Marx também usou), o valor total pode ser finalmente igualado aos preços totais, embora a mais-valia total em uma economia não vá se igualar ao lucro total (ao contrário de Marx), a menos que se adicione o lucro poupado pelas famílias capitalistas fora do processo de produção. Então, Shaikh parte da abordagem de Sraffa sobre o lucro como “produto excedente” e tenta efetuar a transformação marxista dos valores em preços – sem sucesso, do ponto de vista de Moseley.

É interessante notar que em Capitalismo, de Shaikh, a “solução iterativa” foi substituída por outra, baseada em outro economista clássico , James Steuart11, e em outra “nova interpretação” revisionista proposta pelos economistas marxistas Gerard Duménil e Duncan Foley12 que, do ponto de vista de Moseley (e do de Andrew Kliman13) também falha em interpretar Marx corretamente. Shaikh, desnecessariamente, do meu ponto de vista, adota o “insight crucial” de Steuart, de que existem “duas fontes do lucro agregado, lucro na produção e lucro na transferência”. Isso é claramente contraditório com a transformação de valores em lucro de Marx, em que só existe uma fonte de lucro: a mais-valia na produção.

Tudo isso parece complicado – o que importa se Shaikh tenta conciliar a teoria do valor de Marx com a de Steuart e a do neorricardiano Sraffa? Bem, sim e não. A obra empírica prodigiosa de Shaikh em muitos capítulos de Capitalismo parece seguir as categorias marxistas e fornece apoio convincente para a análise econômica marxista do capitalismo, em relação à abordagem mainstream. Por exemplo, Shaikh fornece evidência empírica em apoio à sua teoria de que a competição real leva a uma equalização das taxas de lucro através dos setores, como Marx argumentou, através de ciclos de “anos de vacas gordas e magras”14. Isso leva a uma crítica não só da economia mainstream à la Paul Samuelson15, segundo a qual as taxas de lucro vão subir com novas tecnologias, como também da teoria neorricardiana de Nobuo Okishio16 e de Sraffa17.

Por outro lado, se a teoria marxista do valor é superada pela teoria clássica ou “corrigida” pelos neorricardianos, isso abre a porta para uma rejeição da exploração por lucros como o motor subjacente do capitalismo (que Shaikh sustenta, mas que Smith, Ricardo e Sraffa, não), e compromete a teoria de Marx sobre as crises, baseada na sua lei da queda tendencial da taxa de lucro. Na verdade, a lei de Marx não é nem mencionada nas 759 páginas de Capitalismo. E o termo “composição orgânica do capital” nunca é usado para explicar como a lucratividade se movimenta no capitalismo. Então, ficamos com uma sugestão interessante, mesmo que ambígua, de que a a taxa de lucro empiricamente cadente pode ser explicada “em termos neoclássicos, como uma queda da produtividade média do capital”, em termos marxistas como se devendo à “relação crescente entre a razão em dinheiro entre capital constante e trabalho vivo”, e em termos sraffianos como redução da taxa máxima de lucros (produto excedente)18. Mas qual é a explicação certa?

Base empírica

Além disso, Shaikh tenta verificar empiricamente o argumento ricardiano de que os preços das mercadorias individuais são iguais aos valores em tempo de trabalho, mostrando que, empiricamente, eles quase o fazem; a discrepância é de apenas 7%.19 Essa é uma observação importante, que tem sido atacada por outros20. Tentar reconciliar a transformação dos preços sraffiana com a de Marx de valores em preços leva a uma tentativa empírica de dizer que os lucros totais são "quase" iguais ao valor total (a diferença é só de 1,6%).21 Assim, de acordo com Shaikh, “a real diferença entre os preços de Marx e Sraffa é [só - MR] de grau de exatidão”22.

Mesmo assim, Shaikh está preparado para medir a lucratividade do capital à la Marx, porque ele reconhece que ela é essencial para a compreensão dos booms e recessões (e das ondas longas) no capitalismo. Então, ele mede o lucro e o capital (nos Estados Unidos) com cuidado e precisão23. Ele faz alguns ajustes importantes nos dados oficiais (do Departamento de Comércio dos Estados Unidos), adicionando os juros ao lucro corporativo e ampliando a definição de capital para incluir inventários e ajustando mais refinadamente a depreciação. O resultado é que Shaikh confirma o que muitos outros antes (incluindo ele) mostraram - a lucratividade do capital corporativo nos EUA está em declínio secular desde o fim da Segunda Guerra Mundial, somente com uma estabilização moderada ou recuperação do começo dos anos 1980, na assim chamada era neoliberal24.

De acordo com a melhor prática moderna, como Thomas Piketty no seu livro de título semelhante (mas com um objetivo e um método inteiramente diferentes), Capital no Século XXI, Shaikh fornece on-line todos os dados usados e trabalhados no livro para que outros possam seguir e/ou replicar25. Eu testei os dados de Shaikh para a taxa de lucro dos EUA contra os meus próprios cálculos (que usam pressupostos diferentes, o porquê da taxa de lucro no final ser diferente) - veja a figura 1. Shaikh usa as medidas de custo correntes do capital fixo, contra a visão de Kliman (e minha), que usamos os custos históricos26. Mas, de qualquer maneira, a história é a mesma; existe um declínio secular na lucratividade dos EUA pós-Segunda Guerra, com uma recuperação limitada a partir dos anos 1980. Então, talvez se possa argumentar que o obscuro debate sobre a teoria do valor se torna menos importante, quando confrontado com os dados e resultados reais.


Expondo os neoclássicos e heterodoxos

Shaikh aborda cada aspecto do processo capitalista e, ao fazer isso, dá respostas marxistas (perdão, clássicas) para as confusões e falhas da economia mainstream. Por exemplo, a sua crítica da teoria das vantagens comparativas de Ricardo como justificativa para o “livre comércio” que beneficiaria a todos, apesar das óbvias evidências contrárias, é incrível. Nos EUA, os maiores perdedores da onda atual da globalização foram os trabalhadores, como Branko Milanovic, da City University of New York, detalha no seu novo livro, Global Inequality27. Os empregos vão embora, quando as economias mais eficientes roubam participação de mercado das menos eficientes, e com a abertura de mercados (sem tarifas e restrições especiais ou cotas).

Mas a ideia de que o “livre comércio” é benéfico para todos os países e para todas as classes é sagrada na economia mainstream. No capítulo 11, Shaikh analisa em detalhes a proposição falaciosa de que, se cada país se concentrar em produzir bens ou serviços para os quais tem “vantagens comparativas” sobre os outros, (e, portanto, “custos comparativos” menores), então todos se beneficiam. O comércio entre países se equilibraria e os salários e os empregos seriam maximizados. Shaikh mostra que isso não só é demonstravelmente uma inverdade (os países têm grandes déficits ou superávits comerciais por longos períodos, têm crises monetárias recorrentes, e os trabalhadores perdem empregos para a concorrência no exterior sem conseguir novos nos setores mais competitivos). Shaikh também explica que não são as vantagens ou custos comparativos que orientam o comércio, e sim os custos absolutos. Se os custos trabalhistas chineses forem bem menores que os das empresas americanas, então a China vai ganhar participação de mercado, mesmo que os EUA tenham alguma assim chamada “vantagem comparativa”. O que realmente decide é o nível de produtividade e de crescimento de uma economia e o custo da força de trabalho: “o livre comércio vai levar a superávits comerciais persistentes nos países que têm capitais com custos mais baixos e déficits comerciais persistentes nos países que têm capitais com custos maiores”28.

Embora Capitalismo, de Shaikh, não seja uma crítica da teoria econômica heterodoxa, em vários lugares ele faz ataques pesados não só à teoria neoclássica, mas também às análises heterodoxas e marxistas que começam aceitando a visão neoclássica de “competição perfeita” como “adequada a algum estágio anterior do capitalismo” e “ponto de partida necessário” para “uma lista sempre crescente de desvios do mundo real”, e então buscam corrigi-la.

Em particular, as críticas de Shaikh à economia pós-keynesiana, atualmente a visão dominante da esquerda no movimento operário internacionalmente, e da escola da Monthly Review do “capitalismo monopolista” são persuasivas29. Ele nota que a escola da MR considera a competição equivalente à “competição perfeita”, assim excluindo que o capitalismo seja competitivo e nos deixando com o capitalismo monopolista. É como se houvesse “uma era de ouro imaginária de competição perfeita, que em algum momento se metamorfoseou de alguma forma na era monopolista, quando é bem claro que a competição perfeita em nenhum momento foi mais real do que é hoje”30.

Como Shaikh responde, o modelo da escola da MR “não é verdadeiro”31. “A visão sobre a competição a que a escola marxista do capitalismo monopolista adere nunca foi válida, nem no passado nem agora.. e esse fato parece ter lhes escapado totalmente”. No mundo imaginário da competição perfeita, os preços são estabelecidos para as empresas; e no oposto igualmente imaginário, as empresas estabelecem os preços”32 e existe uma “equalização turbulenta das taxas de retorno a longo prazo das líderes de preços”33. Assim, “ desordem é a sua ordem”34.

Semelhantemente, a economia pós-keynesiana parece depender desde o começo de um modelo imaginário de “competição perfeita”. Os preços são os custos mais ummark-up e esse mark-up depende do grau de monopolização35. Assim, os autores pós-keynesianos argumentam que os preços administrados são um sintoma de poder de monopólio. Shaikh contrapõe isso à competição real, em que as empresas “sempre administram os preços”36. Então, o capitalismo não mudou; o inimigo não é o poder de monopólio como tal, e sim o capitalismo, que ainda é o mesmo animal.

Shaikh argumenta que, pelo fato da teoria heterodoxa, em vez de começar pela competição real, meramente tentar contrapor competição perfeita e monopólio, isso a leva também a uma política macroeconômica errada: “o que a economia neoclássica promete através da mão invisível do mercado, a economia keynesiana e pós-keynesiana promete através da mão visível do Estado”37.

Na frente macroeconômica, Shaikh descarta de forma consumada o argumento pós-keynesiano de que é a mudança na participação dos salários e lucros que importa nas crises, e não a produção de lucro. E ele descarta a visão pós-keynesiana de que o investimento depende das “expectativas” dos empresários ou da expectativa de lucros futuros, e não da lucratividade quando o investimento foi feito, ou até em um período anterior: “o presente não é independente do passado, assim como o futuro não é independente do presente”38. Na verdade, Shaikh afirma que a lucratividade é “o fundamento apropriado para a teoria de Keynes” - um argumento forçado, do meu ponto de vista39.

Shaikh demonstra simpatia pela teoria da “reflexividade” de George Soros, que assume que a expectativa de lucro pode afetar o lucro real, porque o investimento é feito esperando um certo retorno, até que a expectativa “baixe até o chão”, de forma que a taxa de lucro esperada “flutua de uma maneira turbulenta em torno de um centro de gravidade construído mutuamente”40.

Shaikh também dá o seu veredito sobre o livro rival de Thomas Piketty sobre o capitalismo: “a medida da taxa de lucro de Piketty é inconsistente logicamente.” Ele exclui os ganhos de capital da sua medida do lucro, mas adiciona as propriedades residenciais no seu capital fixo. Isso faz com que a sua taxa de lucro seja muito baixa e “altamente suscetível às flutuações do valor de mercado dos ativos”41. Isso é semelhante à crítica apresentada por mim e por outros, de que a assim chamada taxa estável de retorno de Piketty na verdade é um retorno dos ativos financeiros e não dos produtivos42.

Lucratividade e ciclos

Para mim, o livro de Shaikh deslancha quando ele fala da natureza do atual estágio econômico pelo qual o capitalismo está passado. Shaikh afirma que, na superfície, a última crise – a Grande Recessão – pode parecer uma crise de financeirização excessiva. Mas isso falha em identificar a verdadeira causa da crise. Os keynesianos e pós-keynesianos argumentam que a causa da crise atual é o aumento da desigualdade e a queda dos salários, então é necessário manter uma participação estável dos salários e usar as políticas fiscal e monetária para manter o pleno emprego. Mas Shaikh argumenta que essas políticas não funcionariam porque, pelo menos nos EUA, os pós-keynesianos entenderam errado as causas da crise. A causa real é o movimento da lucratividade – o fator dominante no capitalismo.

A crise foi precedida por uma longa queda da taxa de lucro. O ataque neoliberal sobre os trabalhadores a partir dos anos 1980 suprimiu o aumento dos salários e reduziu a participação dos salários para estabilizar a taxa de lucro. E a enorme queda da taxa de juros nos anos 1980 que alimentou a expansão do crédito e a massiva dívida financeira também serviu para aumentar a taxa de lucro líquida (ou empresarial). Então, a política fiscal keynesiana por si só pode aumentar os empregos, mas não vai restaurar o crescimento. Para isso, é necessário aumentar a taxa de lucro líquida – e as taxas de juros já estão em uma baixa histórica (e até negativas).

Shaikh enfatiza que, no capitalismo, é o lucro que orienta o crescimento. Há flutuações cíclicas na lucratividade que se expressam nos ciclos de negócios e de capital fixo inerentes à produção capitalista. A história dos sistemas de mercado revela padrões recorrentes de booms e bolhas através dos séculos, emanando precisamente do mundo desenvolvido – as crises são normais no capitalismo. As crises-chave no capitalismo são as “depressões”, como a dos anos 1840, a “longa depressão” de 1873-1893, a “grande depressão” dos anos 1930, as “crises de estagflação” dos anos 1970, e a grande crise global agora.

Shaikh revive o conceito de ondas longas na produção capitalista, algo identificado pela primeira vez pelo economista russo Nikolai Kondratieff, e que Shaikh citou pela primeira vez num artigo de 1992.43 Naquele artigo, de acordo com Shaikh, o argumento principal de Kondratieff é que os ciclos de negócios são recorrentes e “organicamente inerentes” ao sistema capitalista. Eles também são inerentemente não-lineares e turbulentos: “o processo da dinâmica real é um só. Mas ele não é linear: ele não toma a forma de uma linha simples, ascendente. Ao contrário, o seu movimento é irregular, com rompantes e flutuações.”

Kondratieff acreditava que as depressões eram ligadas às ondas longas: “durante o período de ondas longas descendentes no ciclo longo, os anos de depressão predominam; enquanto no período de ondas ascendentes de um ciclo longo, são os anos de crescimento que predominam”. Num artigo que Shaikh apresentou em 2014, ele atualizou a sua análise sobre isso, que também é desenvolvida em Capitalismo44.

Shaikh afirma que as ondas longas de Kondratieff continuam a operar, e que isso é claro se for medido pelo preço do dólar-ouro, a principal medida de valor no capitalismo moderno. Ele afirma que os preços das commodities se tornaram um indicador ruim para os ciclos de Kondratieff no período pós-guerra do século XX, e agora olha para o preço do ouro. Shaikh apresenta um gráfico dessas ondas, medidas pelo preço em ouro das commodities45.

Na minha análise, primeiro esboçada no meu livro The Great Recession, eu descobri que o movimento das taxas de juros também fornece um bom indicador relativo das ondas de Kondratieff, porque ele segue o movimento dos preços de produção. As ondas de Kondratieff também podem ser sincronizadas com as ondas de lucros, como na tabela 1.46

Tabela 1: Ciclos de Kondratieff e ciclos de lucro 

Fonte: Roberts, 2016c.

Então, a posição de Shaikh é semelhante à minha quanto às causas das crises capitalistas, a natureza e a existência das depressões, e o papel dos ciclos de Kondratieff e de lucros47. Não é por acidente que nós dois fizemos previsões precoces razoáveis (e independentes) da grande recessão de 2008-9. Shaikh fez a sua já em 2003; eu fiz em 2005, quando eu disse:

Não houve tal coincidência de ciclos desde 1991.E, dessa vez (diferente de 1991), ela será acompanhada pela queda da lucratividade dentro de uma onda descendente no ciclo de preços de Kondratieff. Está tudo no fundo do poço em 2009-2010! Isso sugere que podemos esperar uma recessão econômica muito severa, de um grau não visto desde 1980-82 ou mais48.

Do “Capital” ao Capitalismo

Shaikh resume assim o seu tema principal “que é o de que a teoria é importante para uma compreensão da economia49. Ele diz que tomou um “caminho diferente” da economia neoclássica mainstream moderna e de alternativas heterodoxas como o pós-keynesianismo. Eles partem da competição perfeição como modelo e então chegam à realidade “jogando um punhado de areia na engrenagem” da maquinaria do modelo. Shaikh diz que parte de uma teoria da “competição real”, e a usa como base das teorias da demanda agregada e do desemprego permanente, com a lucratividade desempenhando o papel dominante. Ele apoiou a sua análise com “evidências empíricas revelantes”, para focar nos padrões reais deste “sistema turbulento e dinâmico” que é o capitalismo. Essa abordagem é louvável, mesmo que a teoria de Shaikh possa ter algumas áreas frágeis.

Capitalismo é um livro para economistas e ativistas corajosos que querem ter uma compreensão maior sobre os processos subjacentes do capitalismo. É um livro monstro (mais ainda que o de Piketty), não é fácil de ler (até O Capital de Marx é mais fácil, na minha opinião) e pode ser muito técnico. O livro cobre muito terreno em teoria econômica e análise empírica, talvez com repetição demais às vezes (e existem alguns erros de edição e de dados – compreensíveis num livro tão grande e com tantos detalhes). Mas os leitores que encararem a tarefa vão ser recompensados com novos insights sobre o processo capitalista e críticas inteligentes de argumentosmainstream e heterodoxos. Se você não puder “viajar” pelo livro todo, pelo menos leia a introdução de abertura para abrir o seu apetite e o resumo abrangente e as conclusões50.

Ano que vem vai ser o 200° aniversário da principal obra de economia política de David Ricardo, que estabeleceu os fundamentos teóricos da tradição clássica a que Shaikh adere em Capitalismo. Mas também vão ser 150 anos desde que Karl Marx publicou o volume um do seu O Capital: crítica da economia política. Ano passado, tivemos a obra de Thomas Piketty, que virou um bestseller e substituiu Uma Breve História do Tempo de Stephen Hawking como o livro mais comprado e menos lido de todos os tempos.51 Esse ano, Capitalismo, de Anwar Shaikh vai ter menos elogios da mídia, mas vai ser mais lido que o de Piketty, mesmo que O Capital de Marx continue como a mais presciente análise do modo de produção capitalista.

Notas

1. Ver The New School.
2. Shaikh, 2016, p4.
3. Fine, 2016; Fine e Dimakou, 2016. Ver também Roberts, 2016a, e a minha crítica dos dois livros a ser publicada em International Socialist Review, fall 2016.
4. Ver Henry George School of Social Science
5. Ver Anwar Shaikh.
6. Shaikh, 2016, p259.
7. Shaikh, 2016, p259.
8. Ricardo, 2004.
9. Sraffa, 1960.
10. Moseley, 2015. Ver também Roberts, 2016b.
11. Shaikh, 2016, pp221-224. Steuart também foi discutido por Marx na parte I das Teorias da Mais-Valia - Marx, 1863.
12. Foley, 1982; Moseley, 2015.
13. Kliman, 2006.
14. Shaikh, 2016, pp301-313.
15. Samuelson, 1957.
16. Okishio, 1961.
17. Shaikh, 2016, p320, nota 36.
18. Shaikh, 2016, p251.
19. Shaikh, 2016, pp413-416.
20. See Kliman, 2006.
21. Shaikh, 2016, p433.
22. Shaikh, 2016, p437, nota 18.
23. Shaikh, 2016, pp243-256.
24. Ver Roberts, 2015a.
25. Ver Anwar Shaikh.
26.Ver Roberts, 2011, e Basu, 2012.
27. Milanovic, 2016; ver também o site de Milanovic Global Inequality
28. Shaikh, 2016, p514.
29. Shaikh, 2016, p355.
30. Schumpeter, 1947, p40.
31. Shaikh, 2016, p356.
32. Shaikh, 2016, p363.
33. Shaikh, 2016, p363.
34. Marx, 1847.
35. Shaikh, 2016, p360.
36. Shaikh, 2016, p363.
37. Shaikh, 2016, p235.
38. Shaikh, 2016, p594-595.
39. Shaikh, 2016, p745, e Roberts, 2013a.
40. Shaikh, 2016, p608.
41. Shaikh, 2016, p759.
42. Roberts, 2015b.
43. Shaikh, 1992.
44. Shaikh, 2014; Shaikh, 2016, pp724-745.
45. Shaikh, 2016, p727, figura 16.1.
46. Roberts, 2009.
47. Roberts, 2013b.
48. Roberts, 2009.
49. Shaikh, 2016, p745.
50. Shaikh, 2016, pp3-56 e pp746-759.
51. Roland, 2014.

Referências

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