14 de outubro de 2016

O ódio da classe dominante por Trump é diferente do seu

Paul Street

counterpunch: Tell the Facts, Names the Names

Muito, talvez a maior parte, do institucionalismo empresarial, financeiro e imperialista da nação despreza Donald Trump. Quando foi a última vez que um dos moderadores dos meios de comunicação no debate presidencial argumentou efetivamente com u dos dois maiores concorrentes presidenciais, como fez a jornalista da endinheirada ABC News, Martha Raddatz (enraivecida pela falta de entusiasmo de Trump com um confronto militar entre os Estados Unidos e a Rússia na Síria) no último domingo?

Mais de cinquenta republicanos da “elite” da “segurança nacional” juntaram-se a vários titulares de cargos públicos republicanos de topo, a um grande número de conselhos de redação de jornais tipicamente republicanos e aos editores “liberais” do New York Times na proclamação de Trump como demasiado estúpido, sexista, juvenil, racista, volátil, ignorante e vicioso para lhe serem confiadas as chaves da Casa Branca.

O medo e desprezo da classe dominante por Trump – um dos seus, mais ou menos – pode ser detectado na elite empresarial que normalmente apoia os republicanos. Uma recente reportagem no Wall Street Journal revela que nem um único executivo da Fortune 100 apoiou Trump ou efetuou donativos à sua campanha. Hillary Clinton aceitou fundos de contribuições para a campanha de 11 destes capitães corporativos. Há quatro anos, apenas 5 CEO da Fortune 100 doaram a Obama, pouco a pouco, quase um terço do doado a Mitt Romney.

Em um recente editorial da Times, o executivo da Wall Street, Steve Ratter (o viscoso financeiro que Obama colocou como responsável do seu amigável autorresgate financeiro na Wall Street) sublinhou o “paradoxo” da total impopularidade do superrico magnata Trump nos da sua exclusiva e própria classe:

“Passou toda a sua carreira entre empresários e, ainda assim, estes mandantes estão a votar com muito dinheiro para que ele não seja presidente... não há memória de qualquer esperança presidencial republicana ter sido tão impopular na comunidade empresarial... Em uma reunião de administradores, há duas semanas, conversei separadamente com dois proeminentes proeminentes homens de negócios homens de negócios republicanos. Um, o presidente executivo de uma empresa cotada na Fortune 100, disse que nunca tinha votado num democrata, mas não suporta Trump. O outro, um investidor de capital privado, que havia votado nos democratas apenas uma vez, afirmou que tinha tanto medo de presidência Tru, que doou ‘cada centavo possível’, de acordo com as regras do financiamento das campanhas, a Hillary Clinton” (S. Rattner, “Trump, The Next Big Short”, NYT, 10 de outubro de 2016, A21).

É óbvia, nos dados do financiamento das campanhas, a preferência do grande capital pela neoliberal e republicana moderada Hillary sobre Trump, e também no mercado de ações global. “À medida que se tornou evidente o predomínio da Sr.ª Clinton no primeiro debate presidencial”, afirmou Rattner, “os investidores aplaudiram: os mercados, por todo o mundo, subiram e o dólar fortaleceu-se... [analistas confiáveis estimam] que uma vitória de Trump causaria a perda de 7% nos mercados, enquanto uma vitória de Clinton levaria a um aumento de 4%”.

Também odeias Donald Trump, meu caro amigo de esquerda (eu assumo que este abrangente termo descritivo cobre cerca de 90% das pessoas que leem este ensaio) e por algumas boas razões. Eu não sou exceção. Qualquer pessoa que duvide da minha antipatia por Trump – que não se confunda com admiração ou mesmo tolerância do “mal menor” com Hillary Clinton (devidamente descrita como “fanática de direita” e “belicista neoliberal latente”, mesmo por pensadores de esquerda que apelam ao voto dos progressistas nela, com base no “mal menor”) – podem ler um artigo recente na teleSur English, no qual atribuí a subida de Trump, em grande parte, à “viciosa cultura neoliberal da idiotice massiva”.

Existe, contudo, uma grande diferença entre o nosso desdém por Trump e o desprezo elitista do institucionalismo pelo nomeado presidencial republicano. Provavelmente existem poucos membros da classe dominante dos Estados Unidos que estejam genuinamente ofendidos por alguns ou todos os piores atributos de Trump: racismo, nativismo, sexismo, negação das alterações climáticas e autoritarismo. Ainda assim, a maior parte dos indivíduos das ditaduras não eleitas e interrelacionadas do dinheiro e do império na nação estariam dispostas, certamente, a aguentar as perspetivas de uma presidência cruel de um Trump sexista, racista e classista se não pensassem que seria mesmo mau para o negócio, para o poder global dos EUA e para a legitimação da autoridade americana, domesticamente e no exterior. Não seriam eles as maiores vítimas de uma presidência Trump; apesar de tudo, e é um grande exercício, pensar que alguns, mas um pequeno punhado, poderiam interessar-se por aqueles que mais sofreriam sob uma (improvável) administração americano-Trump.

Ao mesmo tempo, Trump ganhou igual, senão maior desdém, por parte da classe dominante dos bipartidários ricos e da elite do poder, por dizer algumas coisas curiosamente precisas e mesmo sensíveis, com as quais progressistas de esquerda têm razões para concordar. Aqui estão algumas das afirmações em relação às quais Trump não pode ser perdoado por uma superclasse financeira e imperialista que nunca o aceitou como membro, apesar da sua riqueza:


  • O "comércio livre" (direitos globais dos investidores realmente sem entraves), como o Acordo Norte Americano de Comércio Livre (NAFTA), de Bill Clinton e o Tratado Transpacífico (TPP), de Barack Obama custou o sustento de inúmeros americanos da "esquecida" massa da classe trabalhadora, seus meios de subsistência.
  • O sistema político americano está "falido" por interesses específicos do grande capital que enfraquecem e distorcem a democracia - algo que Trump diz conhecer bem por causa da própria história como um grande financiador de políticos, incluindo dos Clinton.
  • A nação está em um estado pavoroso,  sob a governação de corruptos, democratas e republicanos, cheios de dólares do “comércio livre”.  Por exemplo, a maioria das infraestruturas do país está ruindo. A América Negra Urbana está em um estado terrível, seja qual for a cor da pele do atual presidente dos EUA, aqui nascido.
  • Hillary não fez nada, ou quase nada, ao longo de 30 anos de um não tão “serviço público” para proteger os cidadãos ordinários dos EUA contra os tempos duros – precisamente o oposto, de fato.
  • A “malvada Hillary” Clinton é apoiada pelas elites financeiras milionárias que, naturalmente, esperam que ela cumpra as suas ordens, mesmo que enganadoramente afirme querer servir o povo contra a minoria rica.
  • Hillary fala como amiga da classe operária na sua campanha, mas afirma à sua elite apoiadoras em privado que as suas posições políticas atuais e “privadas” são muitas vezes bastante diferentes e amigas do sistema do que as suas posições (caciqueiras) “públicas”.
  • Hillary tem por grande parte da população branca da classe trabalhadora e da classe média da nação um absoluto desprezo aristocrático, chamando a muitas dessas pessoas “deploráveis” e “irremediáveis”.
  • O corrupto Goldman Sachs, apoiador da campanha de Clinton e o Comitê Democrático Nacional usou truques sujos para menorizar e derrotar Bernie Sanders.
  • Hillary liderou um jogo corrupto “uma mão lava a outra” com nações e investidores estrangeiros e multinacionais, através da Fundação Clinton, durante o seu tempo na liderança no Departamento de Estado dos EUA. Hillary “Rainha Caos” Clinton (da liderança do think tank da classe dominante dos EUA, o Conselho das Relações Internacionais) tem sido um desenfreado desastre imperial da política externa, com o seu apoio à desastrosa invasão do Iraque, para mudança do regime, a sua liderança do ataque para uma alteração calamitosa do regime na Líbia, o seu determinado avanço para uma loucura de alteração sangrenta (assim o espera) do regime na Síria, o seu (e de Obama) avanço do Estado Islâmico e a sua desatenta subida da fasquia no confronto geopolítico com a Rússia nuclear na Europa de leste e na Síria.
  • Os políticos que falavam a sério sobre a vontade de derrotar o Estado Islâmico e outros bárbaros radicais jihadistas islâmicos no Oriente Médio recuaram na sua fanfarronice contra a Rússia e a Síria, que estão decididos a “esmagar o EI”.

Para ser certo, as minhas citações das afirmações mais sensíveis e assertivas de Trump soam mais coerentes do que são. Duvido que Trump se incomode na leitura de mais do que uma página do livro indispensável da analista de esquerda da política externa, Diana Johnstone, Queen of Chaos: The Misadventures of Hillary Clinton [Rainha do Caos: as desventuras de Hillary Clinton] (AK Press, 2015). É esperar demasiado de Trump que este inclua as Honduras (ver o capítulo introdutório de Johnston para uma história útil) na lista das nações que Hillary ajudou a arruinar. Ainda assim, os pontos essenciais referidos acima são suficientemente próximos do que realmente disse neste ciclo eleitoral, para os verdadeiros donos da nação (os verdadeiros mestres atrás do teatro de marionetes das políticas eleitorais) o odiarem – isto, por razões diferentes do desdém por Trump dos esquerdistas informados. Mesmo que demonstrem publicamente e de forma politicamente correta os problemas de sexismo, racismo, rudeza e o temperamento de Trump, aquilo que o institucionalismo acha mais repreensível em Trump é o seu pendor imperdoável para contar histórias verdadeiras fora da escola da classe dominante – histórias que muitos de nós, na esquerda, temos vindo a contar em posições menos privilegiadas e sem o veneno nacionalista branco e sexista que sai da boca e da personalidade nociva de Trump. Os terríveis aspectos de Trump que achamos mais horrendos são diferentes daqueles que a classe dominante acha mais indesculpáveis – apesar de ter que se acrescentar que as elites inteligentes entendem que o seu sexismo, racismo, nativismo e bufonaria ameaçam incendiar levantamentos populares e desdém internacional, que não servem a elite empresarial e os interesses imperialistas. Estes últimos são um ponto-chave. Uma presidência Trump poderia bem incendiar rebeliões e resistências que a classe dominante preferiria evitar.

Será que Trump fala a sério quando diz coisas que coincidem com as críticas da esquerda a Hillary Clinton e à ordem doméstica e imperial mais abrangente dos EUA? Não faço ideia do que se passa no cérebro sociopata de “o Donald”. A direita fascizante (e Trump pode mesmo ser em parte neofascista, em determinados níveis) tem uma longa história de mimetizar algumas partes da retórica de esquerda (afinal, os nazistas promoveram o nacional “socialismo”) para ganhar o interesse das massas. Alguma da retórica aparentemente de esquerda de Trump parece-me parte de uma estratégia bem calculada para cativar os fãs descontentes de Bernie, juntamente com os votos da classe operária. Outra fonte poderá ser o rancor pela elite, uma elevada amargura pessoal numa aristocracia da Ivy League, que nunca aceitou verdadeiramente o menino rude Donald Trump nos seus círculos mais íntimos e elevados. Qualquer que seja a motivação por detrás dos seus ataques à elite dominante e às suas políticas imperialistas, uma classe dominante americana que ainda está muito longe de abraçar o fascismo, mesmo de uma forma suave e Trumpesca, não vai perdoar Trump por dar uma voz crua a tais críticas, de dentro do topo dos 1% e num vasto palco público.

Entretanto, Trump – agora 11 pontos atrás da realmente Hillary malvada nas sondagens nacionais e apenas com a hipótese de vitória de 1 para seis – é útil à classe dominante de uma forma curiosa e escura. Quase três meses após a previsível (e prevista) rendição da campanha de Bernie Sanders, de certa forma sinceramente populista e social democratizante, Trump ajuda e instiga o antigo projeto de populismo difamatório da cultura reinante na política e nos meios de comunicação corporativos e o instinto reacionário e atrasado das massas tontas e ignorantes – o “rebanho desorientado”.

Os comentadores de elite adoram gozar e marginalizar o pensamento infantil daqueles que pensam que as pessoas comuns (a “ralé”) deveriam efetivamente ser responsáveis pelos seus assuntos sociais e político-econômicos (imagine-se!) e assim privar as elites do seu suposto direito natural a governar. Ligar tal populismo a cretinos de direita como Donald Trump – um hábito recorrente em locais como o New York Times e a CNN – é uma das formas em que a difamação está mais avançada, ajudando a desbravar caminho para os neoliberais mais politicamente corretos, como Barack Obama e Hillary Clinton, tomarem as rédeas do poder executivo, pelo menos em Washington.

Nenhum comentário:

Postar um comentário