7 de outubro de 2016

Pentágono começa guerra furtiva na Síria

por Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

"Quarta-feira passada, numa reunião de Comitê de Deputados na Casa Branca, responsáveis do Departamento de Estado, da CIA e da Joint Chiefs of Staff discutiram ataques militares limitados contra o regime [de Assad]... Um caminho proposto para contornar a antiga objeção da Casa Branca a atacar o regime de Assad sem uma resolução do Conselho de Segurança da ONU seria executar ataques encobertos e sem reconhecimento público." 
– Josh Rogin, The Washington Post

Tradução / Chame-se a isto guerra furtiva, chame-se espicaçar o urso, chame-se o que quer que se queira. O fato é que a guerra síria está a entrar numa fase nova e mais perigosa aumentando as probabilidades de uma confrontação catastrófica entre os EUA e a Rússia. 

Este novo capítulo do conflito é a invenção do senhor da guerra do Pentágono, Ash Carter, cujo ataque a um posto avançado sírio em Deir Ezzor matou 62 soldados regulares sírios pondo um fim rápido ao frágil acordo de cessar-fogo. Carter e seus generais opuseram-se ao acordo de cessar-fogo Kerry-Lavrov porque ele teria exigido "cooperação militar e de inteligência com os russos". Por outras palavras, os EUA teriam precisado de obter o sinal verde de Moscou para os alvos dos seus bombardeamentos, o que teria minado sua capacidade para apoiar seus combatentes jihadistas no terreno. Para o Pentágono este foi o motivo real para romper o acordo. Mas o bombardeamento de Deir Ezzor consertou tudo isso. Ele tirou o Pentágono da enrascada, torpedeou o cessar-fogo e permitiu a Carter lançar o seu próprio tiroteio sem autorização presidencial. Missão cumprida. 

Mas a espécie de escalada que Carter tem em mente, afinal de contas, é uma confrontação direta entre os Estados Unidos e a Rússia que a maior parte dos analistas assume levar a uma guerra nuclear. Estará ele realmente desejoso de assumir esse risco? 

Claro que não, mas nem todos concordam em que mais violência levará a um intercâmbio nuclear. Carter, por exemplo, parece pensar que pode elevar as apostas consideravelmente sem qualquer perigo real, razão pela qual pretende conduzir uma guerra furtiva de baixa intensidade principalmente sobre ativos sírios que forçarão Putin a aumentar o compromisso militar da Rússia. Quanto maior o compromisso militar da Rússia, maior a probabilidade de um atoleiro, o qual é o objetivo primário do Plano C, também conhecido como Plano Carter. Dê uma olhadela a este recorte de um artigo do Washington Post de terça-feira, o qual ajuda a explicar o que está a acontecer:

"Ataques militares contra o regime Assad estarão outra vez sobre a mesa quarta-feira na Casa Branca, quando responsáveis de topo da segurança nacional na administração Obama vão discutir opções quanto ao caminho a seguir na Síria... 
No interior das agências de segurança nacional, reuniões têm estado a decorrer durante semanas a fim de considerar novas opções a recomendar ao presidente para tratar da crise em curso em Alepo... Uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, a qual poderia incluir o presidente, poderia acontecer logo neste fim de semana. 
Na quarta-feira passada, numa reunião do Comitê de Deputados na Casa Branca, responsáveis do Departamento de Estado, da CIA e da Joint Chiefs of Staff discutiram ataques militares limitados contra o regime... 
As opções sob consideração... incluem bombardeamento de pistas da Força Aérea Síria utilizando mísseis de cruzeiro e outras armas de longo alcance disparadas de aviões e navios da coligação... Um meio proposto de contornar a consagrada objeção da Casa Branca a atacar o regime Assad sem uma resolução do Conselho de Segurança da ONU seria executar os ataques encobertamente e sem reconhecimento público, disse o responsável". (Josh Rogin, Obama administration considering strikes on Assad, again, The Washington Post)

Você não acha que The Washington Post teria mencionado o sórdido pequeno empreendimento de Carter se ele já não estivesse a caminho?

Considere o bombardeamento de Deir Ezzor, por exemplo. Será que ele não cumpre o padrão do The  Washington Post de "ataques militares dos EUA contra o regime Assad"? 

Certamente que sim. 

E quanto às duas pontes sírias sobre o Eufrates que aviões de guerra dos EUA deitaram abaixo na semana passada? (tornando mais difícil atacar fortalezas do ISIS no quadrante leste do país) Eles não contam? 

Naturalmente que sim. 

E não vamos esquecer o fato de que os amigos jihadistas de Carter sobre o terreno lançaram um ataque de morteiro sobre a embaixada russa em Damasco na terça-feira. Trata-se de outra parte da guerra de baixa intensidade que já está em curso. Assim, todo este lixo acerca de Obama pensar profundamente estas "novas opções" para "ataques militares" são asneiradas completas. O Plano Carter já está em plena atividade, o comboio já deixou a estação. A única coisa que falta é autorização presidencial, a qual provavelmente não é necessário uma vez que o II Duce Carter decidiu que era a sua vez de dirigir o país. 

Agora verifique este recorte de um memorando ao presidente de um grupo de ex-agentes de inteligência dos EUA que se impuseram advertir Obama acerca (entre outras coisas) de "afirmar o controle civil da Casa Branca sobre o Pentágono". Aqui está um excerto:

"Em observações públicas que beiram a insubordinação, oficiais superiores do Pentágono manifestaram extraordinariamente ceticismo aberto quanto a aspectos chaves do acordo Kerry-Lavrov. Podemos assumir que o que Lavrov contou ao seu superior em privado está próximo das palavras incaracteristicamente brusca na NTV russa em 26 de Setembro: 
'Meu bom amigo John Kerry... está sob crítica feroz da máquina militar dos EUA. Apesar do fato de que, como sempre, [eles] dão garantias de que o Comandante em Chefe dos EUA, presidente Barack Obama, o apoiava nos seus contatos com a Rússia... aparentemente os militares realmente não ouvem o Comandante em Chefe.' 
As palavras de Lavrov não são mera retórica... Diferenças políticas entre a Casa Branca e o Pentágono raramente são tão abertamente expressas como o são agora sobre a política na Síria". (Obama Warned to Defuse Tensions with Russia, Consortium News)

Quão chocante será isto? Quando foi a última vez que você leu um memorando de agentes de inteligência reformados a advertir o presidente que o Pentágono estava a usurpar sua autoridade constitucional? Isto soa bastante grave, não é? 

Resultado líquido: O Pentágono está basicamente a processar a sua própria pequena guerra na Síria e então a tagarelar acerca da política com Obama quando eles atuam como querem. Aqui há mais do The Washington Post:

"A CIA e a Joint Chiefs of Staff... manifestou apoio a tais opções "cinéticas", disse o oficial... O que assinalou um aumento do apoio ao ataque a Assad em comparação com a última vez que tais opções foram consideradas". (Josh Rogin, Obama administration considering strikes on Assad, again, The Washington Post)

Naturalmente que querem bombardear Assad. Eles estão a perder! Toda a gente quer bombardear alguém quando está a perder. É da natureza humana. Mas isso não significa que seja uma boa ideia. É uma ideia muito má. Assim como apoiar extremistas sunitas é uma ideia má. Assim como dar mísseis portáteis terra-ar lançados do ombro (MANPADS) a loucos fanáticos é uma má ideia. Quão louco é isso? E quanto tempo demorará antes de um destes religiosos chanfrados utilizarem seus novos brinquedos para deitarem abaixo um avião de carreira israelense ou americano? 

Não muito tempo, aposto. A ideia de reforçar a aposta em maníacos homicidas (proporcionando-lhes mais armas letais) é realmente uma das mais estúpidas de todos os tempos. E ainda assim o Pentágono e a CIA parecem pensar que é estratégia militar excelente. Aqui está uma última pérola do artigo do The Washington Post:

"O vice de Kerry, Antony Blinken, testemunhou na semana passada que a alavancagem dos EUA na Rússia decorre da noção de que esta finalmente ficará esgotada com o custo da sua intervenção militar na Síria. 'A alavancagem é a consequência para a Rússia de estar fincada num atoleiro que está em vias de ter um certo número de efeitos profundamente negativos', contou Blinken ao Comitê de Relações Exteriores do Senado". (Josh Rogin, Obama administration considering strikes on Assad, again, The Washington Post)

Vê? Está a branco e preto: "atoleiro". A estratégia do novo "Plano C" é concebida para criar um atoleiro para Putin ao gradualmente incrementar a violência forçando-o a prolongar sua permanência e aprofundar seu compromisso. É uma armadilha esperta e poderia funcionar. A única dificuldade é que Putin e seus aliados parecem estar a fazer avanços firmes no campo de batalha. O que vai tornar um bocado mais difícil para os inimigos da Síria continuar suas provocações e incitamentos sem disparar retaliações maciças.

Mas talvez Carter ainda não tenha pensado acerca disso.

Nota: A Rússia emitiu advertência ao Pentágono: Aviões hostis que ameacem tropas sírias serão deitados abaixo.

Isto está numa notícia na Sputnik International de quinta-feira:

"O Ministério da Defesa russo disse que 'sistemas de defesa aérea russos S-300 e S-400 instalados na Síria em Hmeymim e Tartus têm amplitudes de combate que podem surpreender quaisquer alvos aéreos não identificados. Operadores dos sistemas de defesa aérea russos não terão tempo para identificar a origem dos ataques aéreos e a resposta será imediata. Quaisquer ilusões acerca de jatos 'invisíveis' [ao radar] inevitavelmente serão esmagadas pela realidade decepcionante'.  
Não mais Deir Ez-Zors 
"Saliento a todas as 'cabeças quentes' que a seguir ao ataque aéreo da coligação ao Exército Sírio, em 17 de setembro, tomamos todas as medidas necessárias para excluir que quaisquer 'acidentes' semelhantes aconteçam a forças russas na Síria", disse Konashenkov. (Intel suggests CIA, Pentagon behind media leaks about US strikes on syrian army, Sputnik)

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