30 de novembro de 2016

A CIA e a imprensa: Quando o Washington Post publicou a rede de propaganda da CIA

Jeffrey St.Clair e Alexander Cockburn

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Na semana passada o Washington Post publicou uma indecente peça, de um até agora obscuro repórter sobre tecnologia chamado Craig Timberg, alegando sem a mais ténue prova que os serviços de informação russos estavam a utilizar mais de 200 sítios noticiosos independentes para pôr em circulação propaganda pró-Putin e anti-Clinton no decurso da campanha eleitoral.

Sob o ofegante título de “Peritos afirmam que esforço de propaganda russo ajudou a difundir ‘falsas notícias’ no decurso da campanha eleitoral”, Timberg congeminou a sua história baseado em alegações oriundas de um vaporoso grupo chamado ProporNot, dirigido por gente anônima de origem desconhecida que Timberg (plagiando o livro de estilo de Bob Woodwardi) aceitou citar como fontes anônimas.

O catálogo ProporNot de entidades supostamente controladas por Putin tresanda às calúnias macartistas da época do “terror vermelho”. A lista negra inclui alguns dos mais estimados sítios noticiosos alternativos na rede, incluindo Anti-war.com, Black Agenda Report, Truthdig, Naked Capitalism, Consortium News, Truthout, Lew Rockwell.com, Global Research, Unz.com, Zero Hedge e, sim, CounterPunch, entre muitos outros. Na minha coluna de sexta-feira terei mais alguma coisa sobre Timberg e ProporNot.

Até lá, fica aqui uma breve resenha histórica de como, no auge da Guerra Fria, a CIA criou o seu próprio elenco de escritores, editores e publicistas (que cresceu a ponto de incluir 3000 indivíduos) que pagava para rabiscarem propaganda da agência no quadro de um programa chamado Operação Mockingbird. Essa rede de desinformação era supervisionada pelo falecido Philip Graham, anterior editor do próprio jornal de Timberg, o Washington Post.

A historieta de Graig Timberg, que tem tanta consistência como os desabafos anônimos garatujados na parede de uma instalação sanitária, justificam a suspeita de que o Post pode ainda jogar o mesmo velho jogo que aperfeiçoou nos anos 50 e prosseguiu nas décadas seguintes, culminando com o brutal ataque de 1996 contra o meu velho amigo Gary Webb e o seu imaculado trabalho de investigação sobre o tráfico de drogas levado a cabo pelos contras apoiados pela CIA nos anos 80. O repugnante ataque do Post contra Webb teve em parte como ponta de lança Walter Pincus, o jornalista sobre serviços de informação do jornal, ele próprio um velho agente da CIA.

Provavelmente para Timberg isto foi apenas mais um dia de trabalho: atirar à parede algumas calúnias vermelhas para ver se alguma pega enquanto não chega informação sobre a próxima novidade tecnológica (possivelmente na base de quaisquer tórridas indicações de um par de adolescentes anônimos em Cupertino) em lantejoulas de software no i-Phone 7.

Para os visados por este jornalismo tipo de jornalismo de atropelamento e fuga, a questão é inteiramente diferente. No caso de Webb, os deploráveis e infundados ataques do Post liquidaram a sua carreira de repórter de investigação e desencadearam uma espiral depressiva que o levou a pôr termo à própria vida. Embora o próprio inspetor-geral da CIA, Frederick Hitz, tivesse mais tarde confirmado a investigação de Webb, o Post nunca se retratou das histórias caluniosas que publicou nem pediu desculpa por ter arruinado a vida de um dos melhores e mais corajosos jornalistas do país.

Parece agora que esse jornal regressa a mais uma volta nessa mesma via.

(Este artigo é adaptado do nosso livro End Times: the Death of the Fourth Estate)

A CIA tem tido jornalistas na sua folha de pagamentos praticamente desde a sua fundação em 1947, facto estridentemente reconhecido pela própria Agência quando em 1976 - altura em que G.H.W. Bush assumiu a sua direcção sucedendo a William Colby – anunciou que “a partir deste momento a CIA não assumirá qualquer relação remunerada ou contratual com qualquer correspondente jornalístico, a tempo parcial ou a tempo inteiro, acreditado em qualquer serviço noticioso dos EUA, jornal, periódico, radio, rede ou estação de televisão”.

Embora esse anuncio destacasse que a CIA continuaria a “acolher com simpatia” a cooperação voluntária, gratuita, de jornalistas, não há qualquer razão para acreditar que a Agência cessou efectivamente os pagamentos por baixo da mesa ao Quarto Poder.

A sua prática anterior a 1976 nesta matéria está de algum modo documentada. Em 1977 Carl Bernstein abordou o tema na Rolling Stone, concluindo que mais de 400 jornalistas tinham mantido algum tipo de associação com a Agência entre 1956 e 1972.

Em 1997 o filho de um conhecido alto responsável da CIA nos seus primeiros tempos afirmou enfaticamente - embora off the record – a um membro de CounterPunch que o poderoso e malévolo colunista Joseph Alsop estava, “evidentemente, na folha de pagamentos”.

A manipulação da imprensa foi sempre uma preocupação emblemática para a CIA, tal como para o Pentágono. No seu Secret History of the CIA publicado em 2001, Joe Trento descreveu como em 1948 o agente da CIA Frank Wisner foi nomeado director do Gabinete de Projectos Especiais, em breve renomeado Gabinete de Coordenação de Políticas (Office of Policy Coordination - OPC). Este tornou-se o ramo de espionagem e contra-informação da CIA, e em primeiro lugar na lista de funções que lhe foram atribuídas estava “propaganda”.

Mais tarde no mesmo ano Wisner montou uma operação com o nome de código “Mockingbird” visando influenciar a imprensa doméstica norte-americana. Recrutou Philip Graham do Washington Post para gerir o projecto a partir do interior dessa indústria. Trento escreve que

“Um dos mais importantes jornalistas sob o controlo da Operação Mockingbird era Joseph Alsop, cujos artigos eram publicados em mais de 300 jornais.” Outros jornalistas dispostos a promover os pontos de vista da CIA incluíam Stewart Alsop (New York Herald Tribune), Ben Bradlee (Newsweek), James Reston (New York Times), Charles Douglas Jackson (Time Magazine), Walter Pincus (Washington Post), William C. Baggs (Miami News), Herb Gold (Miami News) and Charles Bartlett (Chattanooga Times). 
Por alturas de 1953 a Operação Mockingbird tinha influência preponderante sobre 25 jornais e agências de notícias, incluindo New York Times, Time, CBS, Time. As operações de Wisner eram financiadas pela transferência de fundos destinados ao Plano Marshall. Algum deste dinheiro era utilizado para subornar jornalistas e editores.”

No seu livro Mockingbird: The Subversion of the Free Press by the CIA, Alex Constantine escreve que nos anos 50s, “uns 3,000 empregados assalariados ou contratados pela CIA estavam de algum modo empenhados em tarefas de propaganda”.

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