29 de agosto de 2016

Bernie Sanders “OR” Revolução: uma declaração ou uma questão?

Jack Rasmus

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Apoiadores da campanha para as eleições presidenciais de Bernie Sanders deram a conhecer na quarta-feira o que disseram ser a próxima fase do movimento político progressista nos Estados Unidos.

Mais de 2.600 “observadores do partido” reuniram-se por todo o país para ouvir o discurso de Bernie, que anunciava a próxima fase de uma nova campanha para desafiar os potentados econômicos americanos e desmanchar o nó do dinheiro que estrangula a democracia nos EUA e se aperta a cada ciclo eleitoral, pelo menos desde os anos 90. Declaradamente, mais de 200.000 pessoas em todo o país também ouviram e viram Bernie através da comunicação social. O evento, e o novo movimento, foi oficialmente chamado “OR” de “Our Revolution”.

Sanders dirige-se aos 2.600 participantes 

Na sua declaração em vídeo, Sanders comprometeu-se a que a sua campanha presidencial recentemente terminada continuasse a lutar até ao fundo por mudanças na política dos EUA – incluindo a reforma do financiamento das campanhas, a legislação para um serviço universal de saúde, justiça racial e ambiental, direitos dos trabalhadores e direitos de gênero. Sanders declarou que o novo movimento iria trabalhar para eleger imediatamente 100 novos candidatos progressistas em todos os níveis – desde os conselhos de gestão das escolas de cada cidade e o governo estadual até ao Senado dos EUA – e apoiar eventualmente muitas outras centenas. E não apenas trabalho eleitoral. Segundo Bernie, o novo movimento “OR” lutará pela justiça, através de ações de rua e referendos, protestos contra a opressão policial, lutas pelos direitos dos imigrantes e outras atividades políticas não eleitorais.

Os propósitos e objetivos que Sanders atribuiu ao novo movimento são admiráveis – do mesmo modo que promoveu as suas admiráveis posições políticas durante a recente campanha para a nomeação do candidato do Partido Democrático às eleições presidenciais.

Mas nobres e sonoros objetivos, sozinhos, não fazem um movimento. Um movimento progressista e a sua política é tanto mais uma questão de estratégia e organização quanto o são os seus propósitos e objetivos. Os objetivos revolucionários – e o novo movimento “A nossa Revolução” diz querer alcançar objetivos revolucionários – requer uma estratégia revolucionária e uma organização revolucionária. Mas que raio é isso?

Bem, o que é uma estratégia e uma organização revolucionárias nos EUA, em 2016, é problema que se pode discutir. Mas o que uma estratégia e uma organização revolucionária NÃO são, isso já não é tão discutível. Não são o regresso ao Partido Democrático controlado pelos monopólios.

A estratégia do “ interior” versus a estratégia do “exterior” 

Sanders deixou claro desde o início da sua campanha para a nomeação do Partido Democrático que, se não fosse nomeado candidato presidencial do partido, apoiaria o candidato que fosse escolhido pelo partido. Esse nomeado foi claramente engendrado pelas elites partidárias para que fosse Hillary Clinton. Sanders, fiel à sua declaração, tornou público o seu apoio a Hillary até à recente convenção do Partido Democrático. Sanders foi desde sempre um defensor da estratégia do ‘interior’.

A corrida de Sanders nas primárias do Partido Democrático e a sua declaração de que apoiaria o candidato que fosse nomeado pelo partido representa o que é por vezes chamado uma estratégia do ‘interior’ – i. é, conseguir uma mudança progressista através de reformas do Partido Democrático. Outras pessoas progressistas rejeitaram repetidamente a estratégia partidária do ‘interior’ e insistiram na estratégia do ‘exterior’ e da ação política, defendendo que era o único caminho para provocar mudanças progressistas reais e permanentes.

Este debate ‘interior-exterior’ dominou os círculos progressistas nos EUA durante anos. Contudo, a história mostra que o ‘interior’ se revelou repetidamente inútil e uma perda de tempo. Sempre que, mesmo que remotamente, qualquer alternativa tentasse pôr em causa os candidatos nomeados pelo partido, “escolhidos a dedo” entre os defensores dos monopólios, ela foi rapidamente esmagada pelos mesmos dirigentes do partido. Howard Dean, Dennis Kucinich, Jesse Jackson são apenas os exemplos mais notórios.

A própria recente campanha de Sanders é também um bom exemplo da inutilidade do ‘interior’. Olhando para trás, fica agora claro que a sua candidatura estava condenada desde o princípio, uma vez que a estrutura partidária de super-delegados funciona como uma válvula de segurança – dadas as manobras tendenciosas dessas mesmas elites contra Sanders, na pessoa da mercenária Debbie Wasserman-Schultz, durante o processo de nomeação. E, mais recentemente, o controle que exerceram sobre a convenção do Partido Democrático, em que houve protestos dos delegados de Sanders contra a linha política do partido.

Depois de ter perdido a nomeação, não abandonou a sua estratégia do ‘interior’. O passo seguinte na sua estratégia do ‘interior’ foi dizer aos apoiadores que fossem à convenção do Partido Democrático e mudassem o programa. Isso seria um primeiro passo necessário para reformar o partido, disse ele. Mas o ‘interior’ também falhou na convenção – porque a elite assegurou que a sua linha política do livre comércio ficasse intacta, incluindo o recente TPP (Trans Pacific Partnership) e confirmaram que a proposta dos apoiantes de Sanders para um serviço nacional de saúde também seria rejeitada como posição do partido. Nenhuma reforma realmente significativa do programa do partido foi conseguida na convenção.  Os apoiadores de Sanders já deviam ter aprendido que “a mudança do programa do partido” era tão inútil – dado o controle das elites sobre as comissões da convenção (regulamentos, credenciais, etc.) – como lutar contra um grupo organizado de superdelegados e não ser vítima das manobras dos Wasserman-Schultz que montaram o espetáculo político das eleições primárias.

Alguns dos apoiadores de Sanders, aparentemente, começaram a aprender, pois vaiaram o aval de Bernie ao discurso de Hillary na convenção e foram-se embora. Os que saíram e outros, corajosamente determinados a continuar a luta por políticas independentes e progressistas no seguimento da convenção, começaram a organizar as bases, cidade a cidade, construindo uma proto-organização com o objetivo de elaborar um rumo de verdadeiras políticas no ‘exterior’ do Partido Democrático. A declaração da nova organização progressista foi vista como tendo saído do “grupo observador” da OR que se tinha manifestado na quarta-feira.

Mas, assim que os 2 600 “Observadores” entraram em ação, metade das pessoas que organizaram a OR demitiu-se e foi-se embora. A justificação que apresentaram era que a estratégia do ‘interior’ ainda estava muito presente e viva entre os políticos profissionais de Sanders que agora estão a tomar o controlo da OR.

As demissões do pessoal da OR e o regime de Weaver-Cohen

O abandono da sessão e as demissões verificaram-se após a nomeação para diretor de campanha, aparentemente por Sanders, no último minuto, de Jeffrey Weaver, seu confidente de longa data. Weaver desagradou especialmente a muitos jovens da organização e do staff envolvidos na campanha de Bernie para as primárias, que se tinham mobilizado para construir a OR. Weaver tinha sido e continua a ser um advogado com capacidade de angariar dinheiro de doadores ricos, sempre que tem ocasião. Ele, e outros como ele na organização de Sanders, é também um dos que defendem a reforma do Partido Democrático a partir do ‘interior’ como o principal impulso estratégico da nova OR.

A perspetiva de Weavers é tornar a OR no que ele chama um angariador de fundos 501c4, que aceita o dinheiro dos bilionários. O 501c4 é uma estrutura legal nos EUA que proíbe o envolvimento direto nas eleições. Por lei, não pode sequer discutir, falar ou coordenar a intervenção com os candidatos que financia.

Segundo os apoiantes que se demitiram do OR, sendo ele um 501c4 não pode, como afirma Weaver, apoiar Tim Canova, um candidato progressista que se propõe derrotar Wasserman-Schultz, a autora das manobras sujas no partido, no decurso das recentes eleições primárias. Por outras palavras, sendo a OR um 501c4 torna-se uma estrutura legal bastante conveniente para evitar que a OR apoie os candidatos progressistas para destituir os candidatos do Partido Democrata. E não se pode reformar o Partido Democrata pelo ‘interior’ se se deixar mal dispostas as elites do partido que tentam defender os seus candidatos democratas de alto nível social, escolhidos a dedo, concorrendo para os cargos agora, pois não?

A entrada de Weavers para o recém-formado OR, aparentemente pela mão de Sanders, também mostra precisamente o tipo de organização que os políticos de topo pretendem que a OR seja. Os seus apoiadores deviam perguntar a si mesmos por que é que não houve qualquer espécie de processo democrático para escolher quem vai liderar a OR. E o que se passa com os cerca de 100 “membros do Conselho” da OR? Como foi “escolhido” o Conselho e por quem? Por que não foram eleitos? Ou quem indigitou Larry Cohen, antigo líder sindical dos Trabalhadores das Comunicações, para ‘presidente’ do Conselho?

Torna-se cada vez mais claro que Weaver-Cohen quer que a OR se posicione estrategicamente para reformar o Partido Democrático a partir do ‘interior’. Sim, haverá atividade não eleitoral das bases. Manter as tropas no campo mobilizadas e ocupadas enquanto novos candidatos progressistas concorrem no ‘interior’ e reformam o partido mais uma vez. Mas como vão ser selecionados para receber o apoio da OR estes progressistas que concorrem ao futuro cargo?

Ser OR não ser – Eis a questão

Estas são questões organizativas que, por sua vez, determinam a natureza da estratégia a ser adotada. O OR pode ser “revolucionário” nos seus objetivos, mas não a este ponto na sua estratégia, certamente – e ainda menos em termos da sua estrutura organizativa. A definição de uma estratégia contrarrevolucionária para reformar o Partido Democrático pelo ‘interior’ – com os já referidos dirigentes como Weaver e presidentes escolhidos como Cohen numa estrutura organizativa invertida – não será a “Our Revolution”. Mas continuará a “ser” a deles.

O famoso personagem de William Shakespeare, Hamlet, criou a sua famosa frase: “ser ou não ser, eis a questão”. Tomando de empréstimo esta frase, o que será o OR agora que as suas estruturas estão a aparecer e já se estão a partir – isto é, uma organização com fins progressistas louváveis mas com uma estratégia de reforma pelo “interior” de um Partido Democrático irreformável, contrarrevolucionário, controlado pelos monopólios e financiado pelos bilionários? Ou construir a sua própria organização independente no ‘exterior’ do Partido Democrático e desafiá-lo diretamente, em vez de tentar a mudança no ‘interior’?

Esta é a questão! Em resumo, o OR está a atravessar o seu momento “Hamlet”.

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