14 de novembro de 2016

É a classe, estúpido, não a raça

Marshall Auerback

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Durante a campanha presidencial de 1988, o Reverendo Jesse Jackson foi perguntado: "Como você vai obter o apoio do metalúrgico branco?" Ele respondeu: "Ao fazer ele saber que ele tem mais em comum com os trabalhadores siderúrgicos negros por ser um trabalhador, do que com o patrão por ser branco." Jackson também falou de reviver uma "coligação arco-íris", mas apesar de estar associado com o radicalismo negro por grande parte do país, ele foi capaz de obter quase 50 por cento dos delegados democratas na convenção de Atlanta, através de um apelo explícito que transcendeu a raça, invocando a classe. O próprio Jackson não é o provável futuro líder do Partido Democrata, mas seu modelo é um que seria bom considerar se os democratas quiserem recuperar a maior parte do país que perderam na eleição da semana passada.

Em grande medida, Bernie Sanders compreendeu e avaliou esse aspecto, embora, como hoje sabemos, os doadores de Wall Street/Vale do Silício, o bloco que doou dinheiro ao Comitê Nacional Democrata, assustaram-se com isso e puseram-se a operar ativamente para sabotar a campanha de Sanders. Quando afinal chegamos à eleição geral, a mensagem do partido já estava diluída e turva, em algumas disputas focadas exclusivamente em questões de gênero e ataque à falta de "adequação" de Trump ao cargo.

Não há dúvidas de que Donald Trump fez forte apelo a racistas, homofóbicos e misóginos, e por mais que seus colegas Republicanos tenham manifestado cenográfica indignação, tampouco há dúvidas de que Trump só fez tornar explícito o que os Republicanos fazem há décadas – desde os dias de Nixon em 1968. O apito de cão foi apenas foi substituído por um berrante de touro.

Mas só isso não explica o sucesso de Trump. Como escrevi em artigo anterior, "Trump phenomenon", ele se tornou a voz de número crescente de norte-americanos, que se veem com os que mais perderam por conta da globalização e do livre comércio. Na maioria das eleições, os políticos dos EUA de ambos os partidos fingem estar preocupados com seus problemas e, em seguida, convenientemente os ignoram quando chegam ao poder e implementam políticas do mesmo Consenso de Washington que tem dominado os últimos 40 anos. Por isso tantos norte-americanos simplesmente pararam de votar (2016 não foi diferente: apenas 57,9% dos que podem votar e ser votados compareceram às urnas). É possível que Trump não passe de populista demagogo interesseiro, que usa as iscas e as táticas certas, mas fato é que a sua campanha foi explicitamente dirigida aos que foram marginalizados pelas políticas neoliberais dominantes nos dois partidos.

A diferença dessa vez é que, depois que o senador Bernie Sanders perdeu a indicação nas primárias, os Democratas pouco se esforçaram para reconquistar seus seguidores. Isso, em grande parte, porque a indicação do partido recaiu sobre a própria encarnação das mesmas políticas do establishment que criaram tanta miséria para aqueles cidadãos, e Hillary Clinton nada tinha a dizer aos milhões que vivem no que a imprensa condescendentemente chamou de "país a ser sobrevoado" [flyover country]. Esses eleitores então se encaminharam na direção do candidato da mudança, ainda que a plataforma dele não tivesse toda a coerência do, digamos, programa de Sanders; e em muitos sentidos possa tornar ainda pior a posição dos miseráveis. Mas se você vive em Youngstown, Ohio, ou Scranton, Pennsylvania, e virtualmente não tem nenhum interesse investido no sistema existente, absolutamente não surpreende que você escolha pôr suas fichas num agitador bombástico.

Nem se discute que exista hoje uma espécie de pessimismo generalizado que transcende o econômico. Além da crescente desigualdade e concomitante estagnação dos salários para a classe trabalhadora e os estratos médios da sociedade, o 11 de setembro e o que veio depois com certeza também contribuiu para aquele pessimismo, fazendo as pessoas sonhar com os Anos Dourados do Capitalismo Gerencialista do pós-Segunda Guerra Mundial, que foi um período dinâmico de grandes conquistas econômicas e da Pax Americana. Destilado tudo isso em filmes (versão norte-americana de critério de avaliação), a visão de época dos norte-americanos hoje é um estranho misto de Bladerunner, Mad Max e Reality TV – com os personagens sonhando com Ozzie e Harriet Nelson, muito improvável receita para trazer esperança de futuro positivo.

E se o Partido Democrata for honesto, terá de conceder que até o incompetente e popular atual presidente muito contribuiu para aumentar e aprofundar o desespero que levou a maioria dos norte-americanos a eleger um radical como Trump. O governo Obama rapidamente rompeu com suas "Esperança" e "Mudança em que você pode acreditar", no instante em que nomeou para cargos de conselheiros econômicos mais próximos alguns dos arquitetos da crise de 2008, os quais, por sua vez, deram a Wall Street resgate amigável dos bancos, o qual efetivamente restaurou o status quo ante (e recusou-se a prender banqueiros, um, que fosse, por mais que muitos estivessem envolvidos em atividade explicitamente criminosa). Depois disso, foi o resgate da indústria dos seguros privados de saúde sob o disfarce da legislação da chamada "reforma da atenção à saúde", a Lei do Cuidado "que se pode pagar". (Essa lei nada dizia ou fazia sobre conter o custo dos oligopólios dos seguros-saúde, porque a "opinião pública" marginal foi excluída do texto final, cortesia dos lobbyistas convidados a elaborar as leis). Todos os Rubinites foram trazidos de volta para comandar a economia. Wall Street e a bolsa de valores tiveram seu boom, mas os salários continuaram em estagnação, e a vasta maioria de todos os ganhos foi diretamente para o 1% dos mais ricos. Todos os demais norte-americanos foram deixados para trás.

Assim se deu força à ideia de que o governo não passava de um ninho de víboras cheio de capitalistas cúmplices uns dos outros, o qual por sua vez ajudou a desencadear a demagogia populista de direita (com a esquerda ou marginalizada ou cooptada pelos seus doadores de Wall Street/Vale do Silício). Assim ganhamos Trump. Acrescentem-se os baixos instintos da política externa neoconservadora de Hillary, que poderiam nos colocar em guerra contra a Rússia, e, afinal, os norte-americanos podem não ter errado tanto quanto talvez pareça. Os eleitores norte-americanos leram os odiosos e-mails de Podesta, como todos poderiam ler. (De fato, independente da fonte dos vazamentos, todos devemos ser gratos por esses e-mails hackeados, que nos permitiram descobrir que a mídia de nosso país opera diretamente com um dos grandes partidos políticos dos EUA, para distribuir noticiário manipulado sobre quem seja o candidato deles e o candidato adversário, induzindo simpatia e votos para o escolhido.)

Obama é pessoalmente agradável, mas realmente nos deu qualquer coisa grande e duradoura como recebemos de FDR nos anos 1930? A lei da Saúde que se pode pagar foi, de fato, RomneyCare (com problema comparável, de que não há nenhum meio para controlar os custos dos seguros privados de saúde, fato que foi cruelmente revelado a todos os cidadãos poucos dias antes da eleição, quando foi anunciado aumento de 25% no preço dos planos de saúde). Assim também, a lei Dodd-Frank não passou de piada em termos de reforma financeira, sobretudo se se compara com a legislação que emergiu da Grande Depressão (e que permaneceu inalterada por mais de 40 anos). A Comissão Pecora (estabelecida imediatamente depois da Grande Depressão) teve carta relativamente branca para investigar as causas da crise e para punir a fraude. Grande número de falências e bancarrotas varreram boa parte da dívida do setor privado. O setor financeiro foi reduzido e permaneceu várias décadas relativamente em posição de pouca importância.

O establishment, especialmente o do Partido Democrata, mantém a insistência no que divide as pessoas ao invés do que une as pessoas ao adotar a política de identidade e ignorar a classe. Sim, uma grande maioria de mulheres ficaram ofendidas pela "conversa de vestiário" de Trump, mas uma grande parte ainda votou nele, e um maior número de hispânicos votaram em Trump do que em Romney. Isso não sugere que a política de identidade tenha atingido algum tipo de limite? Por que não encontrar um terreno comum sobre a questão da classe? Como o ex-assessor de Jackson, Vicente Navarro escreveu: "O objetivo da 'classe bilionária' é co-optar afro-americanos e mulheres no sistema para que eles fiquem mais próximos e mais alinhados com a classe dominante. O fato de que tão pouco é falado sobre a classe nos EUA é porque a classe bilionária não quer que as pessoas falem ou pensem em termos de classe." É também o caso que é difícil conseguir um homem capaz de entender seus próprios interesses depois que ele engoliu um punhado de Oxycontins e foi derrubado com meio quarto de Wild Turkey. Mas enfatizar políticas baseadas em classe, ao invés de soluções baseadas em gênero ou raça, alcançará uma gama mais ampla de eleitores, que rejeitaram de forma abrangente a política de identidade "neoliberal" oferecida pelos democratas desta vez. É verdade que este processo é susceptível de ser obstruído pela classe dos doadores e pode muito bem haver outra crise financeira antes de seu poder ser totalmente destruído. Os eleitores anseiam por uma ação eficaz para reverter o declínio econômico de longo prazo e a desigualdade econômica fora de controle, mas nada na escala exigida será oferecido a eles por qualquer um dos principais partidos econômicos norte-americanos. Isto provavelmente somente vai servir para acelerar a desintegração do sistema político e do sistema econômico até que o elefante na sala - classe - seja tratado honesta e detalhadamente.

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