19 de novembro de 2016

Economia: a ciência da pilhagem

Murray Dobbin

counterpunch: Tell the Facts and Name the Names

Tudo para nós, e nada para os outros parece ser, em todas as fases do mundo, a vil máxima dos mestres da humanidade. 
– Adam Smith, A Riqueza das Nações

Tradução / Em tempos de estagnação econômica, miséria, insegurança, bolhas imobiliárias e crescente precarização, parece apropriado especular sobre o que Shakespeare escreveria hoje se criasse uma versão moderna de Henrique VI. Seu personagem expressava apoio a Jack Cade, cuja visão revolucionária representava os advogados como parasitas a embaralhar papéis e arruinar a vida das pessoas comuns. Nos últimos vinte e cinco anos, esse papel sórdido foi usurpado pelos economistas. Eu gostava mais deles quando a economia era chamada de ciência sombria – agora, a profissão é simplesmente uma vaidosa apologia da pilhagem da riqueza da sociedade pelo ganancioso e implacável 1% do topo da pirâmide – os "mestres da humanidade".

A economia não é mais uma ciência, se é que um dia já foi. É uma religião cujos sacerdotes não poupam esforços para tornar o dogma do neoliberalismo impermeável a seus resultados desastrosos. Se fosse uma ciência, os fatos já teriam sido levados em consideração faz tempo, desmascarando a ideologia da classe dominante.

Em vez disso, são publicados, semanalmente, artigos sobre a carga surpreendente das dívidas dos canadenses, e a única tentativa de explicação é a chamada "natureza humana", ou algo como: "nossa, as pessoas simplesmente parecem não se preocupar – estão ignorando os avisos". E há o engenhoso conceito de"viés de recência", desenvolvido por alguém no campo das "finanças comportamentais" (quem poderia adivinhar?). O viés de recência é, segundo Rob Carrick, do Globe, "quando alguém observa eventos recentes e os projeta para o futuro, indefinidamente".

Então essa é a melhor explicação que a economia pode dar para a catástrofe de endividamento dos canadenses? Trata-se, simplesmente, de comportamento humano, escrito na pedra – então, podemos apenas sentar e observar o colapso no conforto de nosso estilo de vida de economista de classe média.

Mas é exatamente isso que deveriam estar examinando: a determinação da população em viver em um estilo de vida de classe média em que toda a nossa cultura se baseia, e que a sofisticada máquina de propaganda diz que devemos ter – ou seremos perdedores. Eles precisam se debruçar sobre este clássico engodo comercial: as pessoas são estimuladas a comprar e, em seguida, suprimem os rendimentos para que não seja possível realizar a compra.

O artigo de Carrick dá detalhes da seriedade do problema – repetindo números citados incontáveis vezes: mais de 700 mil pessoas estariam em situação de estresse financeiro se as taxas de juros subissem apenas 0,25%. Se o aumento fosse de 1%, um milhão enfrentariam a situação. A Associação Canadian Payroll acompanha regularmente o estresse financeiro da população e seu levantamento recente revelou que 48% das pessoas disseram que "seria difícil cumprir suas obrigações financeiras se o pagamento atrasasse uma semana. Quase um quarto duvidou que pudesse conseguir dois mil dólares se surgisse uma despesa de emergência no mês seguinte."

Desculpem-me, mas isso é uma loucura em um país que gera tanta riqueza quanto o Canadá. Mas não espere que "a profissão" lance alguma luz sobre a situação. Por quê? Porque os economistas sofrem de Viés de Interesse Próprio, uma condição enraizada em seu papel elitista na sociedade. Na verdade, não é muito diferente do "viés de recência" – eles têm tido grande êxito nos últimos 25 anos em racionalizar essa loucura para simplesmente projetar este sucesso "... para o futuro, indefinidamente".

Só que ainda há um problema: as políticas econômicas que eles continuam a endossar são um desastre para a população, exceto para alguns poucos. A classe média só pode sustentar seu padrão de vida através de um endividamento crescente; a grande maioria da nova riqueza criada a cada ano (tal como é) vai para os 5% do topo; a classe trabalhadora tem sido relegada a empregos na área de serviços (perdemos 540.000 empregos industriais desde 2000 – números do Canadá) com péssimo salário, sem segurança, sem benefícios e – cada vez mais – em meio período. Não há um único salário mínimo no país que chegue perto de um salário digno. A distância entre ricos e pobres é hoje a mesma de 1928. Diplomas universitários são hoje escandalosamente caros e muitas vezes inúteis.

E quase todas as pequenas e médias empresas estão em dificuldades porque a obsessão do governo com o comércio exterior as deixa sozinhas com a realidade da estagnação dos rendimentos dos clientes (mais de 90% delas não exportam nada). E o que os economistas dizem de tudo isso? Não muito. Observam e seguem em frente, esperando o próximo lote de estatísticas para provar, mais uma vez, que o novo mundo de mercados livres e o poder corporativo desregulado não podem e não vão entregar o que prometeram. Naturalmente, se fossem honestos, reconheceriam que isso nunca ia acontecer: esses resultados foram previstos desde o início por punhado de economistas hereges que optaram não se juntar aos cortesões dos mestres da humanidade.

Para nos distrair do nosso presente já sombrio e do futuro ainda pior, os sacerdotes falam sem parar sobre a taxa de juros do Banco do Canadá, como se uma mudança pudesse realmente melhorar a vida das pessoas. Mas o Banco do Canadá pode fazer apenas duas coisas: nada (mantendo taxas abaixo de 1%) ou um desastre (aumentando as taxas e estourando a bolha imobiliária).

O fato é que quem caiu na armadilha das políticas neoliberais não tem ideia do que fazer.

Mas todo mundo sabe que vai piorar. A qualidade dos postos de trabalho no Canadá continua a cair, com empregos mal remunerados constituindo uma proporção crescente do total (já estamos em segundo lugar na OCDE), com os que ganham menos do que o salário médio tendendo a ter seus ganhos diminuir ainda mais. É a continuação de uma tendência de doze anos. 61% dos trabalhadores canadenses viram sua diferença salarial aumentar. Estas são as conclusões de um recente relatório da CIBC, que concluiu que apenas 15% das pessoas com idades entre 15 e 24 anos podem ser definidas como realmente "empregadas".

Se os economistas e os políticos (New Democrats, por favor tomem nota) – realmente quiserem mudar a situação antes que se atinja a distopia completa, eles devem, como um relatório da ONU recomendou recentemente, "... descartar a ideologia neoliberal". Isso incluiria uma longa lista de políticas, mas vamos apenas falar de uma: "flexibilidade das leis trabalhistas". Desigualdade, rendimentos estagnados, desequilíbrio vida-trabalho e dívida insustentável podem ser, em grande parte, atribuídos à adoção desta política pelo governo. Apenas revertê-la já daria início a uma recuperação. Significaria tornar o Seguro Emprego (Employment Insurance) de novo um verdadeiro programa de seguro; restabelecer o Plano de Assistência do Canadá, que oferecia financiamento a taxas fixas (ou seja, humanamente aceitáveis) para as províncias implantarem programas de bem-estar social; aumentar o salário mínimo para níveis compatíveis com o custo de vida; reforçar e melhorar os padrões de trabalho e sua execução; e facilitar, em vez de dificultar, a organização sindical.

Mas não espere contar com o apoio dos economistas.

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