9 de novembro de 2016

Foi o abraço ao neoliberalismo pelos democratas que deu a vitória a Trump

As pessoas perderam o senso de segurança, status e até mesmo identidade. Este resultado é o grito de uma América desesperada por mudanças radicais

Naomi Klein

The Guardian

Foto: Ruben Sprich / Reuters

Tradução / Eles vão culpar James Comey e o FBI. Vão culpar a purga dos cadernos eleitorais e o racismo. Vão culpar o “Bernie ou Nada” e a misoginia. Vão culpar os pequenos partidos e os candidatos independentes. Vão culpar a mídia dominantes por lhe terem dado palco, as redes sociais por terem sido o seu megafone e o Wikileaks por revelar a roupa suja.

Mas isso deixa de fora a força mais responsável por criar o pesadelo em que nos encontramos agora de olhos bem abertos: o neoliberalismo. Essa visão do mundo – totalmente encarnada por Hillary Clinton e a sua máquina – não está à altura do extremismo à moda de Trump. Foi a decisão de lançar um contra o outro que selou o nosso destino. Se não aprendermos mais nada, podemos ao menos aprender com este erro?

O que temos de entender é o seguinte: há imensa gente em sofrimento. Com as políticas neoliberais de desregulamentação, privatização, austeridade e comércio corporativo, o nível de vida destas pessoas sofreu um declínio vertiginoso. Perderam empregos. Perderam pensões. Perderam muita da rede de segurança que tornava essas perdas menos assustadoras. Veem o futuro dos seus filhos ainda pior do que o seu precário presente.

Ao mesmo tempo, viveram a ascensão da classe de Davos, uma rede hiper-conectada de banqueiros e bilionários da tecnologia, líderes eleitos que são unha com carne com esses interesses e celebridades de Hollywood que fazem tudo aquilo parecer insuportavelmente encantador. Este sucesso é uma festa para a qual não foram convidados, e eles no fundo sabem que esta riqueza e poder em ascensão está de algum modo diretamente ligada ao seu crescente endividamento e impotência.

Para as pessoas que viam a segurança e o status como um direito de nascimento – isto diz respeito sobretudo aos homens brancos – essas perdas são intoleráveis.

Donald Trump falou diretamente a essa dor. A campanha do Bexit falou para essa dor. Tal como os partidos de extrema-direita em ascensão na Europa. A sua resposta é o nacionalismo nostálgico e a raiva às burocracias econômicas distantes – seja Washington, o tratado de comércio livre norte-americano (NAFTA), a Organização Mundial do Comércio ou a União Europeia. Claro que a sua resposta é atacar os imigrantes e as minorias, vilipendiar os muçulmanos e humilhar as mulheres. O neoliberalismo da elite nada tem para oferecer a essa dor, porque foi ele que lançou a classe de Davos. Gente como Hillary e Bill Clinton são o brinde da festa de Davos. Na verdade, são eles que dão a festa.

A mensagem de Trump foi: “Tudo é um inferno”. Clinton respondeu: “Tudo está bem”. Mas não está tudo bem – longe disso.

As respostas neofascistas à insegurança e desigualdade galopantes não vão desaparecer. Mas o que sabemos dos anos 1930 é que o que faz falta para combater o fascismo é uma verdadeira esquerda. Boa parte do apoio de Trump podia ser removido se houvesse em cima da mesa uma verdadeira agenda redistributiva. Uma agenda que tratasse a classe bilionária com mais do que retórica e usasse o dinheiro para um “new deal” verde. Tal plano poderia criar uma onda gigantesca de empregos sindicalizados e bem remunerados, trazer de volta os tão necessários recursos e oportunidades para as comunidades minoritárias e insistir para que os poluidores paguem pela formação dos trabalhadores e a sua completa inclusão neste futuro.

Podia moldar políticas que lutassem ao mesmo tempo contra o racismo institucionalizado, a desigualdade econômica e as alterações climáticas. Podia enfrentar os maus acordos comerciais e a violência policial, e consagrar a população indígena como os primeiros protetores da terra, da água e do ar.

As pessoas têm direito à indignação, e uma agenda de esquerda potente e intersetorial pode dirigir essa indignação para o lugar certo, enquanto luta por soluções globais que voltem a unir uma sociedade fraturada.

Uma coligação destas é possível. No Canadá, começamos a montá-la sob a bandeira de uma agenda popular chamada The Leap Manifesto, apoiada por mais de 220 organizações, do Greenpeace Canadá ao Black Lives Matter Toronto, e alguns dos maiores sindicatos.

A extraordinária campanha de Bernie Sanders foi meio caminho andado para a construção deste tipo de aliança, e mostrou que não falta apetite pelo socialismo democrático. Mas, na sua fase inicial, a campanha falhou na ligação aos eleitores negros e latinos mais idosos, os mais afetados pelo atual modelo econômico. Esse fracasso impediu a campanha de atingir todo o seu potencial. São erros que podem ser corrigidos e há uma coligação audaz e transformadora pronta a ser construída.

Essa é a tarefa à nossa frente. O Partido Democrático tem de ser ou arrancado aos neoliberais pró-corporações, ou abandonado. De Elizabeth Warren a Nina Turner, aos que participaram no Occupy e fizeram a campanha de Bernie, existe hoje um campo mais forte de líderes progressistas capazes de dar corpo a essa aliança do que houve em qualquer altura da minha vida. “Somos todos líderes”, como dizem muitos no movimento Black Lives.

Por isso, vamos lá sair do choque o mais rápido possível e construir o tipo de movimento radical que tem uma verdadeira resposta ao ódio e ao medo representados pelos Trumps deste mundo. Afastemos o que nos está nos separarando e comecemos agora mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário