10 de novembro de 2016

Não é Donald Trump quem importa agora no Oriente Médio - É Putin

É fácil dizer que os árabes estão consternados que um islamofóbico ganhou a Casa Branca. Mas eles pensaram que Obama ou qualquer de seus predecessores - Democrata ou Republicano - tivesse alguma preocupação especial para com o Islã? Claro que não

Robert Fisk

Independent

Tradução / Ideias absurdas e previsíveis estão sendo pronunciadas sobre Trump e o Oriente Médio. Como o mundo muçulmano pode lidar com um homem que é islamofóbico? Porque isso é realmente o que ele é. Ele é uma desgraça ao seu país e ao seu povo – que elegeu o camarada.

Mas cá está um pensamento tranquilizante. O prestígio dos EUA na região caiu tanto, a crença do mundo árabe (e provavelmente a crença do mundo israelense) no poder americano está tão desgastada pela estupidez e inapetência de Washington que eu prefiro suspeitar que será dada pouca atenção para Donald Trump.

Não estou muito certo quando o respeito pela governança dos EUA começou a colapsar. Foi certamente no momento em que Eisenhower disse aos britânicos, franceses e israelenses para saírem do Canal de Suez em 1956. Talvez Ronald Reagan misturando as falas do teleprompter e iniciando o mandato no estágio inicial do Alzheimer tiveram efeitos maiores do que pensamos. Eu conheci uma vez um diplomata norueguês que conversou com Reagan sobre Israel e Palestina e o ouviu citando um artigo sobre a economia americana. A “paz” de Bill Clinton para o Oriente Médio não poderia ter ajudado.

Acho que foi George W. Bush que decidiu atacar o Afeganistão mesmo sem nenhum afegão tendo atacado os EUA, e quem criou um estado muçulmano xiita no Iraque dentro de um estado muçulmano sunita – para o desgosto da Arábia Saudita – e que fez mais mal do que a maioria dos presidentes dos EUA. Os Sauditas (da onde vieram 15 dos 19 assassinos envolvidos no 11/9) se lançaram no Iêmen com quase nada de preocupação com os EUA.

E Obama parece ter brincado no Oriente Médio. Seu “aperto de mão” ao Islã no Cairo, seu Prêmio Nobel (por falar em público), sua “linha vermelha” na Síria – que desapareceu na areia no momento que foi resgatado pelos Russkis – melhor esquecermos. São os Sukhois e Migs de Vladimir Putin que estão estabelecendo o ritmo na terrível guerra da Síria. E nas terras onde os direitos humanos não contam para a maioria dos ditadores regionais, não se ouve quase lamúrias sobre o Kremlin. Putin até foi levado para a ópera no Cairo pelo presidente marechal al-Sisi.

E esse é o ponto. Putin fala e faz. Na realidade, ele não é terrivelmente eloquente, mais homem de negócios do que político. Trump fala. Mas ele consegue agir? Coloquemos de lado a relação estranha que Trump acha que tem com Putin. É Trump que precisará de uma tradução das palavras de Putin, não ao contrário. De fato, os árabes e os israelenses, eu acho, gastarão muito mais tempo ouvindo Putin durante a presidência Trump. Pois de fato os americanos se mostraram inconstantes e desonestos no Oriente Médio igual à Grã-Bretanha em 1930.

Mesmo a blitz dos EUA ao EI não avançou até que Putin enviou seus próprios soldado para a Síria – até o ponto que muitos árabes estavam se perguntando porque Washington não conseguiu destruir a seita. Volte às revoluções árabes – ou “primavera” como americanos pateticamente chamam – e verá Obama e sua secretária de Estado (sim, Hillary) brincando de novo, falhando em reconhecer que esse movimento massivo no mundo árabe era real e que os ditadores iriam cair (pelo menos a maioria deles). Em 2011 no Cairo, quase a única decisão tomada por Obama foi a de evacuar os cidadãos americanos da capital egípcia.

É fácil dizer que os árabes estão chocados que um islamofóbico ganhou a Casa Branca. Mas eles achavam que Obama ou qualquer um de seus antecessores – Democratas ou Republicanos – tinham alguma preocupação especial com o Islã? A política externa dos EUA no Oriente Médio foi uma série espetacular de guerras e conflitos aéreos e recuos. A política russa – na guerra do Iêmen durante a era Nasser e no Afeganistão – foi destrutiva o suficiente, mas o estado pós-soviético pareceu guardar suas garras até que Putin enviou seus homens para a Síria.

Sem dúvida veremos Trump aparecer no Oriente Médio, para fazer festa com os israelenses e repetir o apoio dos EUA ao estado de Israel, e garantir a estabilidade dos autocratas ricos do Golfo. O que ele dirá sobre a Síria, é claro, será fascinante, dada suas opiniões sobre Putin. Mas talvez, ele deixará a região para seus minions, aos secretários de estado e vice-presidentes que terão que adivinhar o que o cara pensa. E é aí, é claro, onde estamos agora. O que Trump pensa? Ou até mais... ele pensa?

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