9 de novembro de 2016

O cataclismo: Notas sobre o dia da eleição e a política da arrogância

Jeffrey St. Clair

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / - São seis da manhã. O sol já nasceu neste estranho dia de eleição, iluminando uma nação que finalmente tomou uma decisão. Apague isso.

Aqui é o Oregon. O vale de Willamette está completamente coberto esta manhã por uma névoa tão espessa que as pessoas terão dificuldade para encontrar seus locais de votação.

Felizmente, não há locais de votação. Nenhum observador ou polícia eleitoral, ninguém para pedir a identidade, intimidar, repreender ou tentar nos envergonhar. O Oregon tem uma atitude de laissez-faire. Vá com calma, reflita, vote em casa e envie pelo correio. Aqui na parte mais ocidental do continente, sabemos que as eleições nacionais são decididas muito antes do dia da eleição. Ou não?

A maioria de nós no Oregon optou por votar ou não votar há cerca de uma semana, preenchendo nossas cédulas intermináveis na mesa da cozinha – supondo que você tenha a sorte de ter uma mesa na cozinha – com um copo de vinho e um cigarro eletrônico para nublar os sentidos, analisando dezenas de medidas em votação, de um novo imposto sobre empresas até a proibição da venda de partes do corpo de espécies ameaçadas de extinção, do financiamento de parques para cães e de novas trilhas para caminhada até a renovação de redes de esgoto e de postos de bombeiros.

Isso é o mais próximo que chegamos da democracia direta. Ainda assim, a experiência deste ano é amarga. Provavelmente metade dos candidatos na cédula – de juízes estaduais até comissários distritais de solo e água, candidatos a vagas em conselhos escolares até comissários de planejamento – não têm adversários. Mesmo no nível local, mais básico da política, as pessoas parecem estar abrindo mão da participação, reconhecendo a inutilidade de tentar mudar qualquer coisa sob a dinâmica atual.

A experiência eleitoral está ficando cada vez mais distante das questões que importam para a maioria de nós, desde os cuidados de saúde até o clima, trabalho para os sem-teto, dívida do consumidor e assistência à infância. A pele do sistema está afinando, deixando ver as engrenagens, como alguns androides superexplorados no WestWorld. 

- As pesquisas sugerem que será uma grande noite para Hillary. Ela tem 94% de chances de ganhar, ou 84%, ou no mínimo 71% , de acordo com o suposto expert em análises Nate Silver, que se esquivou sobre suas apostas nas últimas duas semanas. Há uma margem de erro de 23% nos principais institutos de pesquisas. Não admira que ganhem muito dinheiro. Eles podem estar errados? Pode apostar.

- Mas a pesquisa mais reveladora é, naturalmente, o mercado de ações, que se recuperou na segunda-feira após James Comey enviar uma obscura carta ao Congresso, sugerindo que a última investigação sobre os e-mails de Hillary provou-se mais um fiasco. Não há indicador melhor de quem Wall Street quer que ganhe esta eleição.

- Sempre achei que esta era uma eleição perdida para Hillary. Ela sempre soube desperdiçar boas chances. Mas o establishment está desesperado para ela ganhar. Seu destino está ligado ao dela. Não é que o sistema seja manipulado – ele é privado. Todos os destinos políticos nos dias de hoje parecem fabricados. É isso também que mantém acesa a chama da raiva nos recônditos esquecidos do país.

Naturalmente, o Sistema se adapta e absorve. Essa é a genialidade maligna do capitalismo tardio. As elites preferem Hillary, mas irão moldar o indomável Trump para servir a seus propósitos. Trump é um narcisista, não um ideólogo. O sistema promove e alimenta o narcisismo.

- Nunca pensei que Trump realmente quisesse ganhar. Na verdade, cada vez que esta probabilidade aumentava, Trump se autodestruía. Trump pode querer pôr seu nome na Casa Branca, mas nos recantos mais sombrios de sua psique sabe que não quer realmente morar naquela antiga casa de três andares construída por escravos.

- Também há pouca alegria em votar nos candidatos independentes. Jill Stein, Gary Johnson, Gloria LaRiva. Gosto de todos três. Mas não têm oxigênio suficiente em nosso sistema político, mesmo com as velhas fundações começando a envergar e rachar. Quando Johnson começou a mostrar alguma força, e ameaçou estragar a festa do debate, foi descartado e ridicularizado por causa de erros gramaticais triviais e perguntas mal feitas – nada comparável à enorme e perigosa ignorância exibida diariamente por Trump e Clinton.

Assim, durante a maior parte do outono, esses candidatos alternativos fizeram campanhas pouco marcantes, que nunca chegaram a incomodar o sistema. Votar em qualquer um deles é validar o mesmo sistema que nega sua existência. No entanto, muitos de nós o fazem, escravos do sistema que nos prende.

Tanto a esquerda como a direita falaram de aspirações revolucionárias durante a campanha, mas era quase sempre retórica vazia. Os extremistas de Trump ameaçam organizar uma rebelião armada se Hillary ganhasse, mas provavelmente canalizariam sua raiva com alguns tiros em uma foto sua no campo de tiro local, antes de se recostar em suas poltronas reclináveis para assistir à Trump TV. O autodenominado revolucionário Sanders juntou-se à campanha de sua inimiga e se afastou de seus seguidores, tem troca da oferta de uma possível presidência do comitê de orçamento do Senado. Os democratas não têm nenhum plano de resistência em caso de vitória de Trump. É simplesmente inconcebível para eles.
Lembro-me da observação de Max Horkheimer sobre o destino dos verdadeiros revolucionários: "Uma carreira revolucionária não leva a banquetes e títulos honoríficos, pesquisa interessante e salários de professores. Leva à miséria, à desgraça, à ingratidão, à prisão e a uma viagem ao desconhecido, iluminada apenas por uma crença quase sobre-humana”.

Os revolucionários eleitorais deste ano parecem movidos pelo grande dia do pagamento, se não por seu próprio reality show. Bernie Sanders no "Dancing with the Stars"

- O Wikileaks divulgou um discurso de Bill Clinton aos poderosos do Partido Democrata em uma reunião para levantar fundos em Potomac. O conteúdo serve de lembrete afiado do quão nocivo ele é. Clinton desancou Bernie Sanders e a esquerda europeia, atacando violentamente Jeremy Corbyn e Alex Tsipras, classificados de fanáticos radicais, e chamando Corbyn de "um cara que pegaram na rua” e “a pessoa mais louca no recinto".

"Hillary diz que é preciso fazer uma campanha que fale com quem está em dificuldades, com os batalhadores e com os bem sucedidos. E temos que fazer isso juntos. Bernie diz: vá tirar dinheiro dos milionários. Isso soa bem porque há – para muita gente, se olharmos para o mundo – o Partido Trabalhista britânico descartou seu mais (inaudível) líder, David Miliband, porque estavam furiosos com ele por ter feito parte do governo Tony Blair na Guerra do Iraque. E eles foram mais para a esquerda e colocaram seu irmão como líder porque o movimento trabalhista britânico quis. Quando David Cameron o bateu nas eleições, chegaram à conclusão interessante de que haviam perdido porque não tinham ido o suficiente para a esquerda, e assim eles saíram e praticamente pegaram um cara na rua para ser o líder do Partido Trabalhista britânico, que vi na imprensa hoje que disse que era realmente um cidadão britânico e (inaudível) britânico real. (Riso.) 
Mas o que isso reflete – a mesma coisa aconteceu na eleição grega – quando as pessoas sentem que foram enganadas e não querem mais nada, só querem a pessoa mais louca na sala para representá-los."

Se Corbyn de alguma forma conseguir se tornar primeiro-ministro, esperemos que a equipe de Clinton ajude os conservadores a tramar um golpe.

- Bill está azedo porque a esquerda britânica finalmente expulsou a maioria dos Blairistas do Partido Trabalhista, e Bill vê Tony Blair e seus seguidores como seus protegidos europeus, os últimos entusiastas do desgastado Clintonismo.

- Os pobres desapareceram da campanha mais rápido do que a discussão sobre as mudanças climáticas. A pobreza é algo muito deprimente de encarar, imagino, outro problema intratável que não rende pontos em pesquisas feitas junto a alguns grupos demográficos. Deixe-os com seu destino Malthusiano.

- Há longas filas em muitos dos locais de votação esta manhã, incluindo em Manhattan, onde duas mulheres aliadas ao Femen interromperam brevemente a votação com um topless-protesto contra Trump. Mas como será que Trump veria o ato: repreensão ou tributo?

Certamente, há linhas mais longas de pessoas recusando-se a vergonha a votar pelos gostos de Michael Moore, Rudy Giuliani ou Lady Gaga. Onde estão as fotos dessas almas corajosas?

- A pesquisa do meio-dia mostra que 36% dos eleitores anseiam por um "líder forte". Falta descobrir Se anseiam por uma Dominatrix ou um Mussolini americano. De qualquer forma, provavelmente estão ferrados.

- Quer mais evidências de que Trump não quer realmente ser eleito? Dois dias antes da abertura da votação, ele vazou os nomes de seu gabinete: Reince Pribus para chefe de gabinete, Michael Flynn como secretário de defesa, o veterano do Goldman Sachs Michael Mnuchin para o Tesouro, Newt Gingrich para Secretário de Estado e Rudy Giuliani como procurador-geral. É o equivalente a isolar seu gabinete com aquela fita de cena do crime.

- Bernie Sanders passou a semana em campanha, seduzindo eleitores para Clinton. Muito do que Sanders diz agora é um repúdio desavergonhado a sua própria campanha, como por exemplo sua afirmação desonesta de que a Rainha do Fracking salvará o planeta combatendo bravamente as mudanças climáticas. Uma coisa é fazer campanha para Hillary contra Trump, outra é mentir tão descaradamente sobre seu histórico sombrio.

- Mas Sanders não está sozinho. Num artigo intimidador publicado no The Nation, Rebecca Solnit fez a estranha acusação de que os EUA nunca teriam ido à guerra contra o Iraque se Al Gore tivesse ganho a eleição na Flórida, em 2000. Talvez Solnit tenha esquecido que o Iraque foi bombardeado a cada três dias durante o governo Clinton/Gore, que pelo menos 500.000 crianças morreram sob seu impiedoso regime de sanções, que por duas vezes Clinton e Gore pressionaram, através de medidas do Congresso, por uma mudança de regime no Iraque, e que Al Gore e seu assessor para política externa Leon Fuerth estavam ambos ansiosos para derrubar Saddam em uma guerra. Há muito tempo penso que Gore teria invadido o Iraque mesmo sem o pretexto de 11 de Setembro.

- A campanha de Clinton custou mais que o dobro da campanha do Trump. De acordo com Madeleine Albright, valeu a pena. Mas os Tweets de meia-noite de Trump tiveram mais impacto político do que a propagando que Hollywood fez para Hillary. Trump compreendeu a nova mídia, tanto quanto Obama e Sanders, mas a campanha de Clinton permaneceu parada no modelo da década de 1990.

- A imprensa, como o resto do establishment, estava toda ao lado de Clinton. Ela conseguiu 57 apoios editoriais dos principais jornais, Gary Johnson obteve quatro e Trump apenas dois. Para dar uma ideia da influência da imprensa.

- Entre as redes a cabo, a Fox News mostrou-se a mais divertida e informativa durante a campanha. Se não foram exatamente "justos e equilibrados", seus âncoras eram pelo menos mais justos e equilibrados do que os da CNN e MSDNC. Eles discutiam abertamente os méritos de Trump, às vezes de maneira bem intensa. MSDNC e CNN eram pró-Clinton desde o início. A MSDNC até ajudou a apagar a campanha de Sanders.

- Trump não conseguiu sequer ganhar o apoio de sua própria direção partidária. Por exemplo, 73% dos legisladores estaduais democratas aprovavam Clinton, enquanto somente 5% por cento dos legisladores republicanos nos estados apoiavam Trump. Pouco importava. Ser endossado por esta elite tornou-se um estigma.

- A temperatura em Oregon City hoje aproximou-se de 21 graus, um recorde para esta data. Nenhuma pergunta nos debates sobre as alterações climáticas.

- A imaginação política do país está mais esgotada do que nunca. Vladimir Putin tornou-se o super bode expiatório para a guerra dos democratas contra sua própria base. Se Hillary perder, Putin será acusado até de manipular as máquinas de votação, junto com Ralph Nader e Julian Assange.

Hillary Clinton rejeitou completamente a política de classes, preferindo focar numa discreta segmentação demográfica dos eleitores, enviando mensagens codificadas através da cor e corte de seus terninhos às mulheres dos subúrbios da Filadélfia e aos corretores de seguros de Tallahassee. É uma política identitária, onde suas condições de trabalho são menos importantes do que seus hábitos e preferências de consumo. Não há uma mensagem unificadora em sua campanha. Em vez disso, milhares de mensagens, cada uma adaptada e segmentada individualmente como aqueles anúncios do Google e da Amazon. É a política do algoritmo.

Enquanto isso, os trabalhadores eleitores de Trump são tachados pelas elites liberais de neonazistas e autômatos semelhantes à Klu Klux Klan (KKK). Nas últimas semanas, a MSDNC dedicou grande atenção à imbecil tentativa de David Duke de pegar carona da onda de Trump. Duke está com menos de 5% entre os republicanos em sua corrida pelo Senado na Louisiana. E os eleitores de Trump que rejeitam as asneiras racistas de Duke? Como os democratas explicam? Nem sequer tentam. A classe baixa americana, tanto negra quanto branca, os marginalizados pela globalização e por um governo que só trabalha para enriquecer mais os ricos, são vistos pelo líder democrata como um grupo de pessoas "deploráveis" e "superpredadores".

Os democratas se renderam completamente à lógica do neoliberalismo, e as vítimas empobrecidas e pulverizadas de suas políticas devem ser culpadas por sua própria condição lamentável. Os pobres serão multados por serem pobres. Onde está o dividendo de longo prazo deste tipo cínico de política?

- O índice de ações da Cannabis é otimista sobre a perspectiva da legalização passar na Califórnia e em outros lugares hoje. Que haja um índice de ações da maconha é, em si, um sinal bem deprimente de como o capitalismo pode arruinar uma coisa boa rapidamente.

- Enfrentando um dos piores congressos da história, com um índice de aprovação de menos de 12%, os democratas parecem prontos a ganhar apenas um punhado de assentos na Câmara, talvez cinco. Naturalmente, isso podia ser exatamente o tipo de congresso que Hillary queria. Muito mais fácil ir atrás de subvenções fazendo acordo com Paul Ryan do que com Pelosi.

- Um exemplo: Trump está ganhando no condado de Vigo, Indiana, pisoteando a terra do velho socialista Eugene V. Debs, por 13%. Obama ganhou nesse condado por 1%, em 2008, um sinal claro do apelo das posições de Trump sobre o NAFTA e a política comercial industrial junto aos sindicatos e operários.

- Evan Bayh, um democrata neoliberal e lobista corporativo, foi esmagado em seu retorno a Indiana, onde tinha escanteado Baron Hill na disputa pelo palanque democrata. Bayh não vivia no estado havia anos e não soube lembrar o endereço de seu condomínio em Indianápolis. Já foi tarde.

- Em 2012, Obama ganhou o voto sindical em Ohio por 23 pontos. Trump e Clinton praticamente empataram.

- Às 9 horas, horário da costa leste, até o Minnesota informava que era "impossível adiantar o resultado". É um sinal sinistro. Trump está quebrando a banca nos estados vermelhos, enquanto Clinton tem dificuldades na Carolina do Norte, Virgínia, Flórida, Ohio, Wisconsin, Pensilvânia e Michigan.

- A campanha de Clinton pensava esta tarde que iria ganhar a Florida por 5%. Ganhe a Flórida, ganhe a eleição. Agora podem perder por 2%. Por quê? Uma razão: Clinton ganhou apenas entre 51% das mulheres na Flórida.

- Ela tinha a base, o dinheiro, a imprensa, a publicidade e as pesquisas. Isso não significou nada.

- Um dos principais números da noite? 69% do eleitorado tem raiva do governo federal. Sentem que o governo os decepcionou. Estão certos.

- Se Trump ganhar, os liberais não terão como entender os resultados. Estão além de sua concepção. Seus cérebros simplesmente derreterão.

- Dick Cheney disse uma vez que Reagan nos ensinou que os déficits não importam. Trump pode nos ensinar que ataques sexuais não importam. Naturalmente, nunca importaram politicamente nos EUA de verdade, em parte por causa da hipocrisia dos democratas no que diz respeito a JFK, Teddy Kennedy e Bill Clinton.

- Kaboom! Trump ganha em Ohio, seguido por vitórias vacilantes na Carolina do Norte, Iowa e, finalmente, na Flórida.

- Rachel Maddow está tentando desesperadamente responsabilizar os Verdes e os Libertários pela derrota de Hillary na Flórida. É uma acusação absurda. Libertários não votam nos democratas neoliberais e bélicos em nenhuma circunstância. Paul Krugman está apontando o dedo para Jill Stein, que obteve menos de 1% dos votos: "Jill Stein conseguiu fazer o papel de Ralph Nader. Sem ela, a Flórida poderia ter sido salva”. Bobagem. Hillary só pode culpar a si mesma. Apesar do grande comparecimento da população latina, Hillary só obteve 51% dos votos das mulheres na Flórida. Não há fraudes ou culpados.

- Se Trump finalmente ganhar o Michigan, Michael Moore implodirá ou explodirá?

- Nos anos 60 e 70, a legislação de Direitos Civis levou os brancos do sul ao campo republicano. Agora, 40 anos de políticas econômicas neoliberais fizeram com que os eleitores da classe trabalhadora abandonassem em massa o Partido Democrata. Basta ver como famílias de sindicalistas votaram: 47% em Clinton; 45% em Trump.

- Será um choque para os líderes tanto democratas quanto republicanos descobrir que há uma guerra de classes acontecendo na América. Que pena para a classe trabalhadora que Donald Trump é o líder da guerra.

- O teto de vidro está cada vez mais parecido com um caixão de vidro...

- Putin / Nader 2020?

- Uma perda enorme e amarga em Wisconsin com a derrota de Russ Feingold, provavelmente o democrata mais honrado concorrendo ao Senado. Esta derrota esmagadora, como tantas outras esta noite, pode ser atribuída à incompetência e à arrogância da liderança do Partido Democrata, que sacrificou o senado e a Câmara pelo ouro de tolo da campanha de Clinton.

- O Comitê Nacional Democrata manipulou suas primárias para assegurar a nomeação da única candidata que poderia perder para Trump. É de admirar que a mesma cúpula, inebriada por sua própria arrogância, tenha perdido também tantos assentos no Senado?

- O Comitê Nacional Democrata passou mais tempo conspirando para derrotar Bernie Sanders, do que para vencer os republicanos. Não absorveram nada da campanha de Sanders, dos problemas que tocavam seus seguidores: um sistema corrupto alimentado pelas corporações e pela guerra, uma classe trabalhadora humilhada e ridicularizada, a juventude americana esmagada pela dívida e sem perspectiva, os negros e os hispânicos tratados como curral eleitoral, prisioneiros de um partido que exige a sua lealdade sem dar nada em troca. A equipe de Clinton venceu Sanders, o recompensou e, em seguida, marchou cheia de arrogância em direção ao seu próprio fracasso.

- A própria Hillary Clinton mostrou uma marcante falta de coragem até o fim da campanha. Ela não pôde sequer se expressar contra a brutalização das populações tradicionais em Dakota do Norte defendendo suas águas e terrenos sagrados contra os mercenários das companhias de energia. Como alguém poderia acreditar que ela alguma vez lutaria por estas pessoas diante de seu silêncio a respeito das atrocidades em curso?

- Meu professor de história da American University, Allan Lichtman, desenvolveu uma fórmula de análise das eleições presidenciais que previu corretamente os resultados de todas as campanhas desde 1984. Em setembro, Lichtman publicou os números sobre Clinton e Trump e previu que Trump iria ganhar. Mesmo após a divulgação das fitas da Access Hollywood, Lichtman manteve sua previsão. Ele foi bastante ridicularizado. Mas Allan tinha razão, e todos aqueles pesquisadores e especialistas presunçosos estavam errados, terrível e loucamente errados.

- Seis estados votaram em Obama duas vezes e em Trump hoje: Flórida, Ohio, Iowa, Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Com base nesses resultados, é difícil argumentar, como alguns já estão fazendo, que o "racismo" foi o principal fator para a vitória de Trump.

- Hillary, cuja estratégia de campanha deu grande importância à conquista do voto das mulheres, perdeu entre as mulheres brancas por uma margem de 10 pontos: 53 a 43. Pense, por um momento, sobre esses 53% de votos das mulheres para Trump. É certo que Hillary fez a pior campanha desde Al Gore. Na verdade, foi pior do que Gore em quase todos os aspectos.

- Bernie poderia ter derrotado Trump? Se pudesse ser assegurando um jogo justo, claro. Mas não havia como Sanders levar as primárias Democratas. Wall Street precisava de um candidato em quem pudesse confiar – e era Hillary. O establishment temia a ameaça da esquerda mais do que a direita lunática. E, dessa vez, não viram o que estava por vir.

- Este resultado é o repúdio final ao neoliberalismo?

Deveria ser. Mas não aposte nisso.

Isso ainda cabe a nós fazer.

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