11 de novembro de 2016

Observações de uma cúmplice

por Svetlana Aleksiévitch

Svetlana Aleksiévitch. O fim do homem soviético. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Companhia das Letras

Nós nos despedimos da época soviética. Daquela nossa antiga vida. Venho tentando ouvir com franqueza todos os participantes do drama socialista.

O comunismo tinha um plano insano: refazer o “velho homem”, o antigo Adão. E conseguiu... Talvez tenha sido a única coisa que conseguiram fazer. Depois de setenta e tantos anos, no laboratório do marxismo‑leninismo, cultivaram uma espécie peculiar, o homo sovieticus. Uns o consideram um personagem trágico, outros o chamam de sovok.

Tenho impressão de que conheço essa pessoa muito bem, estou junto dela, vivi ao lado dela por muitos anos. Ela sou eu. São meus conhecidos, meus amigos, meus pais. Durante anos, viajei por toda a antiga União Soviética – porque o homo sovieticus não é apenas o russo, mas também o bielorrusso, o turcomeno, o ucraniano, o cazaque... Agora vivemos em países diferentes, falamos línguas diferentes, mas somos inconfundíveis. Dá para reconhecer de cara! Somos todos pessoas do socialismo, semelhantes e não semelhantes às demais: temos nosso vocabulário, nossa noção de bem e de mal, de heróis e de mártires. Temos uma relação particular com a morte. Nos relatos que colho são recorrentes palavras que ferem os ouvidos: “atirar”, “fuzilar”, “liquidar”, “passar em armas”, ou ainda as variantes soviéticas para desaparecimento, como “detenção”, “dez anos sem direito a correspondência”, “emigração”. Quanto pode valer a vida se nos lembrarmos de que há pouco tempo milhões morreram? Estamos cheios de ódio e preconceitos. Tudo vem de lá, de onde havia o gulag e a terrível guerra. A coletivização, a expropriação dos kulaks, a migração dos povos...

Isso era o socialismo, e era essa a nossa vida. Na época, pouco falávamos sobre ela. Agora que o mundo mudou irreversivelmente, todos passaram a se interessar por aquela vida – não importa como ela era, era a nossa vida. Eu escrevo, procuro nos grãozinhos e nas migalhas a história do socialismo “doméstico”, do socialismo “interior”. De como ele vivia na alma. Sempre senti atração por esse pequeno espaço: o ser humano... Um ser humano. Na verdade, é lá que tudo acontece.


Por que no livro há tantos relatos de suicídios, e não de pessoas soviéticas normais, com biografias soviéticas normais? No final das contas, as pessoas se matam por amor, por medo da velhice, ou sem muito motivo, por curiosidade, para decifrar o segredo da morte... Busquei aquelas pessoas que se apegaram com todas as forças ao ideal, absorveram esse ideal de tal forma que não podiam se desprender dele: o Estado tornou‑se seu universo, substituiu tudo nelas, até a própria vida. Elas não conseguiram abandonar a Grande História, dar adeus a ela, ser felizes de outra maneira. Mergulhar, perder‑se numa existência à parte, como acontece hoje em dia, quando o pequeno se tornou grande. O ser humano quer apenas viver, sem um grande ideal – coisa que nunca aconteceu na vida russa, tampouco na literatura russa. Somos um povo bélico. Ou guerreávamos ou nos preparávamos para a guerra. Nunca vivemos de outra maneira. Daí decorre uma psicologia bélica. Mesmo durante a paz, tudo na vida era próprio da guerra. O tambor batia, a bandeira esvoaçava, o coração saltava do peito... A pessoa não percebia sua escravidão, até amava essa escravidão. Eu também me lembro: depois da escola, a classe inteira se organizava para desbravar terras virgens, desprezávamos os que se recusavam a ir, chorávamos e lamentávamos que a revolução, a guerra civil, tudo tivesse acontecido antes de nós. Ao olhar para trás, será que éramos nós mesmos? Era mesmo eu? Lembrava-me de mim junto a meus heróis. Um deles disse: “Só um soviético pode entender um soviético.” Éramos pessoas com uma única memória comunista. Vizinhos de memória.


Meu pai lembrava que passara a acreditar no comunismo depois do voo de Gagárin. Nós fomos os primeiros! Nós podemos tudo! E foi assim que ele e a minha mãe nos educaram. Eu era uma outubrista, usava uma medalhinha com um menino de cabelo encaracolado; era uma pioneira, uma komsomolka. A decepção veio depois.

Após a perestroika, todos esperavam a abertura dos arquivos. E eles foram abertos. Ficamos sabendo da história que tinham escondido de nós...

“Devemos arrastar conosco 90 milhões dos 100 que povoam a Rússia Soviética. Com os demais é impossível falar: é preciso destruí‑los.” (Zinóviev, 1918.) 
“Enforcar (enforcar impreterivelmente, para que o povo veja) pelo menos mil kulaks inveterados, dos mais ricos... tomar‑lhes o pão, designar reféns... Fazer de tal forma que num raio de 100 verstas o povo veja e estremeça...” (Lênin, 1918.) 
“Moscou está morrendo de fome.” (professor N.G. Kuznetsov a Trótski) 
“Isso não é fome. Quando Tito tomou Jerusalém, as mães judias comeram seus filhos. Quando eu fizer as mães comerem os filhos, aí você pode me dizer: ‘Estamos morrendo de fome.’” (Trótski, 1919.)

As pessoas liam os jornais e as revistas e ficavam caladas. Um horror irremediável desabou sobre elas. Como viver com isso? Muitos encararam a verdade como a um inimigo. E a liberdade também. “Não conhecemos nosso país. Não sabemos como pensa a maioria das pessoas; nós as vemos, encontramos com elas todos os dias, mas o que elas pensam, o que querem, nós não sabemos. Mas precisamos tomar coragem para estudá‑las. Logo saberemos tudo. E ficaremos horrorizados”, disse um conhecido meu, com quem eu sempre conversava na cozinha de casa. Discuti com ele. Isso foi em 1991... Tempos felizes! Acreditávamos que no dia seguinte, exatamente no dia seguinte, começaria a liberdade. Começaria do nada, a partir dos nossos desejos.

Dos Contos de Kolimá de Varlam Chalámov: “Fui um participante da grande batalha perdida pela renovação real da vida.” Isso foi escrito por um homem que passou dezessete anos nos campos stalinistas. A nostalgia pelo ideal permaneceu… Eu dividiria os soviéticos em quatro gerações: a de Stálin, a de Khruschóv, a de Brêjniev e a de Gorbatchóv. Sou dessa última. Para nós, foi mais fácil aceitar o colapso do ideal comunista, já que não tínhamos vivido a época em que o ideal era jovem, forte, com a magia daquele romantismo funesto e de esperanças utópicas ainda não dissipadas. Crescemos na época dos anciãos do Krémlin. Em tempos vegetarianos, de jejum. O grande sangue do comunismo já fora esquecido. O entusiasmo causou estragos, mas resguardou o conhecimento de que a utopia não pode se transformar em vida.

Na primeira guerra da Tchetchênia, conheci, numa estação de trem em Moscou, uma mulher que vinha dos arredores de Tambov. Estava indo para a Tchetchênia, buscar o filho da guerra: “Não quero que ele morra. Não quero que ele mate.” O Estado já não possuía a alma dela. Ela era uma mulher livre. Havia poucas pessoas assim. As que se irritavam com a liberdade eram mais numerosas: “Comprei três jornais, e em cada um tinha uma verdade. Onde é que está a verdade real? Antes você lia o Pravda[5] de manhã e ficava sabendo tudo. Entendia tudo.” Demoravam para sair dessa anestesia. Se eu começasse a falar de arrependimento, ouvia: “E vou me arrepender do quê?” Cada um se sentia vítima, mas não cúmplice. Um dizia “também fui preso”; outro, “lutei na guerra”; um terceiro, “ergui minha cidade dos escombros, carreguei tijolo dia e noite”. Isso era totalmente inesperado: todos estavam ébrios com a liberdade, mas não preparados para ela. Onde estava a liberdade? Só na cozinha, onde continuavam xingando o governo, como de costume. Xingavam Iéltsin e Gorbatchóv. Iéltsin por ter traído a Rússia. E Gorbatchóv? Gorbatchóv por ter traído tudo. Todo o século XX. Para nós, agora, será como é para os outros. Para todos. Pensávamos que dessa vez daria certo. 

A Rússia mudou, e odiou a si mesma por ter mudado. “O mongol imóvel”, escreveu Karl Marx sobre a Rússia.


A civilização soviética... Tenho pressa de gravar seus rastros. Rostos conhecidos. Não pergunto sobre o socialismo, mas sobre amor, ciúme, infância, velhice. Sobre música, danças, penteados. Sobre os milhares de detalhes de uma vida que vai desaparecendo. Essa é a única maneira de enquadrar a catástrofe no contorno do cotidiano e tentar contar alguma coisa. Compreender alguma coisa. Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.


Já perdi meu pai. E não posso mais concluir uma das conversas que tivemos. Ele disse que morrer na guerra era mais fácil para seus contemporâneos do que para aqueles meninos inexperientes que estavam morrendo na Tchetchênia. Nos anos 40, eles saíram de um inferno para outro. Antes da guerra, meu pai estudava em Minsk, no Instituto de Jornalismo. Ele lembrava que, quando voltavam das férias, era comum não encontrar um professor conhecido sequer, todos tinham sido presos. Eles não entendiam o que estava acontecendo, mas sentiam medo. Sentiam medo, como na guerra.

Meu pai e eu tínhamos poucas conversas francas. Ele tinha pena de mim. E eu, eu tinha pena dele? Não sei responder. Éramos implacáveis com nossos pais. Achávamos que a liberdade era uma coisa muito simples. Não passou muito tempo, e nós nos curvamos sob o seu fardo, porque ninguém nos ensinou o que era a liberdade. Só nos ensinaram a morrer por ela.

Aí está ela, a liberdade! Foi por ela que esperamos? Estávamos dispostos a morrer por nossos ideais. Travar uma luta. Mas então começou uma vida “tchekhoviana”. Sem história. Ruíram todos os valores, exceto os valores da vida. Da vida em geral. Novos sonhos: construir uma casa, comprar um bom carro, plantar uma groselheira... A liberdade acabou sendo a reabilitação da pequena burguesia, geralmente espezinhada na vida russa. A liberdade de Sua Majestade, o Consumo. Da grandeza das trevas. Das trevas dos desejos, dos instintos, da vida secreta, de que só tínhamos uma vaga noção. Ao longo da história sobrevivemos, mas não vivemos. E agora aquela experiência de guerra já não era necessária, era preciso esquecê‑la. Milhares de novas emoções, de situações, de reações... Num átimo, tudo ficou diferente: placas, coisas, dinheiro, bandeira... E o próprio ser humano. Ele se tornou mais colorido, mais particular, o monólito voou pelos ares e a vida se dissipou em pequenas ilhas, em átomos, em células. Como se lê no Dal:[4] liberdade e vontade... vontade e espaço... liberdade e vastidão. O grande mal tornou‑se uma lenda distante, um romance político detetivesco. Ninguém falava mais do ideal, falavam de crédito, porcentagens, câmbio; não ganhavam mais dinheiro, agora “faziam”, “lucravam”. Será que por muito tempo? “A mentira do dinheiro na alma russa é inextirpável”, escreveu Tsvetáieva. Era como se os heróis de Ostróvski e de Saltykov‑Shchedrin tivessem ganhado vida e flanassem pelas ruas.

Eu perguntava a todos com quem me encontrava: “O que é a liberdade?” Pais e filhos respondiam de maneiras diversas. Nascidos na União Soviética e nascidos depois da União Soviética são seres de planetas diferentes. Para os pais, liberdade é ausência do medo; são os três dias de agosto em que a tentativa de golpe foi vencida; é poder escolher entre 100 tipos de kolbassá[5] e não entre dez; é não ser chicoteado (embora não saibamos de geração que não tenha sido chicoteada); o russo não entende a liberdade, ele precisa do cossaco e do açoite. Para os filhos: liberdade é amor; liberdade interna é o valor absoluto; é não ter medo de seus desejos; ter muito dinheiro, porque então se terá tudo; conseguir viver de modo a não pensar na liberdade. Liberdade é o normal.


Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”

Viajávamos pela região de Smolensk. Em uma cidadezinha, paramos perto de um mercado. Que rostos familiares (eu mesma cresci em cidade pequena), que rostos bonitos e bons – e que vida humilhante e miserável ao redor. Começamos a falar da vida. “Você está perguntando de liberdade? É só passar no mercado: tem a vodca que você quiser, Standard, Gorbatchóv, Pútinka, kolbassá aos montes, queijo, peixe. Tem banana. Quem precisa de mais liberdade? Isso aqui é o bastante.”

“E terra, vocês receberam terra?”

“E quem é que vai dar duro nela? Quem quiser pode pegar. Aqui só um tal Vaska Krutoi pegou. Ele tem um filho de 8 anos, que fica puxando o arado do lado do pai. Se você for trabalhar com ele, enquanto ele não te roubar, não descansa. É um fascista!”

Em “A lenda do Grande Inquisidor”, de Dostoiévski, há um debate sobre a liberdade. Sobre sua trilha difícil, penosa, trágica... “Para que conhecer esse maldito bem e mal, quando isso custa tão caro?” O tempo todo o ser humano deve escolher: a liberdade ou o bem‑estar e a ordem na vida; a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. E a maioria das pessoas escolhe o segundo caminho.

O Grande Inquisidor diz a Cristo, que voltou à Terra:

Por que vieste para nos atormentar? Pois vieste para nos atormentar, e Tu mesmo o sabes. 
Por tanto respeitar o homem, agiste como se deixasses de ter piedade dele, porque dele exigiste dele... Respeitando‑o menos, menos exigirias dele, e isto seria mais próximo do amor, pois mais leve seria seu fardo. Ele é fraco e vil... Em que pode ser culpada uma alma fraca, que não tem forças para conter dádivas tão tremendas? 
Não há tarefa mais incessante e torturante para o homem do que, tendo se tornado livre, encontrar depressa alguém diante de quem possa curvar‑se... e a quem possa repassar depressa aquela mesma dádiva da liberdade com que essa criatura infeliz nasce...

Nos anos 90, sim, éramos felizes, mas já não podemos retornar àquela ingenuidade. Pensávamos que a escolha havia sido feita, que o comunismo perdera de maneira irreversível. Mas estava tudo apenas começando...

Vinte anos se passaram... “Não nos assustem com o socialismo”, dizem os filhos aos pais. 

Conversei com um conhecido meu, professor universitário: 

No fim dos anos 90, os alunos riam quando eu relembrava a União Soviética; eles tinham certeza de que um novo futuro se abria diante deles. Agora o quadro é diferente... Os alunos já descobriram, já sentiram na pele o que é o capitalismo: desigualdade, pobreza, riqueza descarada; eles já viram bem de perto a vida dos pais, para quem não sobrou nada da pilhagem do país. E eles adotaram uma postura radical. Sonham com a própria revolução. Usam camisetas vermelhas com retratos de Lênin e Che Guevara.


Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin. Metade dos jovens de 19 a 30 anos considera Stálin “um grande político”. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas do que Hitler, um novo culto a Stálin?! Tudo que é soviético voltou à moda. Por exemplo, os cafés “soviéticos”, com nomes soviéticos e comida soviética. Doces “soviéticos” e kolbassá “soviética”, com o cheiro e o gosto da nossa infância. E, claro, a vodca “soviética”. Na televisão, dezenas de programas, e na internet dezenas de sites de nostalgia “soviética”. Passeios turísticos a campos stalinistas – Solovkí, Magadan. O anúncio diz que, para uma sensação plena, distribuem macacão e picareta. Mostram os barracões restaurados. E no fim organizam uma pescaria...


Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da “mão de ferro”, do “caminho peculiar da Rússia”... Restituíram o hino soviético, existe um Komsomol, agora chamado Náchi, existe o partido do poder, que copia o partido comunista. O presidente tem o mesmo poder do secretário‑geral. Absoluto. Em vez do marxismo‑leninismo, a Igreja Ortodoxa...

Antes da Revolução de 1917, Aleksandr Grin escreveu: “E o futuro parece que deixou de estar em seu lugar.” Cem anos se passaram, e mais uma vez o futuro não está em seu lugar. Chegou a época do second‑hand.

***

Barricadas são um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha. Lá, a visão fica prejudicada, as pupilas se fecham, o mundo perde as cores. O mundo se torna preto e branco. Já não se distingue um ser humano, vê-se apenas um ponto preto: um alvo. Passei a vida toda nas barricadas – gostaria de sair de lá. Aprender a ter alegria com a vida. Recuperar minha visão. Mas dezenas de milhares de pessoas saem de novo às ruas. De mãos dadas. Levam fitas brancas nos casacos. Um símbolo de renascimento. De luz. Eu também estou com eles.

Encontrei jovens vestindo camisetas com a foice e o martelo e o retrato de Lênin. Será que eles sabem o que é o comunismo?

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