11 de novembro de 2016

Trump, Brexit e o colapso da ordem liberal

John Wight

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Um dos aspectos mais confusos da eleição de Donald Trump como 45º presidente dos Estados Unidos é que no espaço de um ano – de fato menos de um ano – um homem com nenhuma experiência política destruiu duas das dinastias políticas mais enraizadas do país: Bush e Clinton.

Vamos pensar nisso por um momento, e colocar no contexto de alguém que quando apareceu pela primeira vez no palco político como candidato pelo Partido Republicano foi ridicularizado. Consequentemente, a mídia tradicional e os comentadores liberais para os quais a política é um clube exclusivo, a preservação de um grupo seleto de pessoas abençoadas que pertencem a esse clube por direito divino, acabaram de receber uma bela bofetada.

O sentimento de direito que emanou da campanha de Clinton durante essa eleição foi algo impressionante. Hillary Clinton emitiu a conduta de uma mulher que se aproxima da coroação ao invés de uma eleição, desdenhando não somente de Donald Trump mas também de seus apoiadores, que ela descreveu como “deploráveis”. Esse foi seu erro.

Independentemente das tentativas de pintá-la como alguém em sintonia com o sofrimento e dor dos milhões de norte-americanos que vêem seu assento no banquete da democracia dos EUA sendo negado há tempos, ela apareceu como a personificação de uma máquina política, uma candidata cuja credibilidade e caráter estavam manchados por Wall Street, grandes corporações, pelos Sauditas, George Soros, etc.

É por isso que não é tanto sobre Trump ter ganhado, mas sim sobre Clinton e sua campanha terem perdido. Aqui, o Partido Democrata só tem a si mesmo para culpar. Bernie Sanders ofereceu um desafio bem mais potente ao fenômeno Trump, porque ele não carregava a bagagem que Clinton trouxe consigo e porque – talvez o mais importante – ele representava um contrapeso ideológico bem mais acentuado para Trump.

Uma das consequências mais salientes da crise global econômica de 2008, que acabou sendo a pior crise do capitalismo desde 1930, foi o colapso do terreno político e, com ele, do domínio da ordem liberal.

Sobre isso, é o que Karl Marx opinou no Manifesto Comunista, “tudo o que é sólido derrete no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e um homem é levado a encarar com sobriedade suas reais condições de vida...”

A analogia que melhor descreve esse processo é um campo de batalha depois que a fumaça baixou para revelar a direita ideológica de um lado e sua contrapartida de esquerda no outro, prontos para irem à guerra pelo direito de moldar o futuro. E, o Brexit no Reino Unido, e agora a vitória eleitoral de Trump nos EUA, não nos deixam dúvidas, é uma luta que está sendo vencida pela direita.

Não quero sugerir que a luta está acabada. Ao contrário, a crise política, econômica, social e constitucional estimulada pelo Brexit prova que permanece uma distância ainda para que o assunto seja resolvido, enquanto a eleição de Trump irá aumentar uma forte oposição nas ruas, talvez até incitando um ressurgimento necessário da esquerda nos EUA, que, baseada no sucesso de Sanders, está muito viva.

Focando em Trump e nos baseando nas declarações que ele fez ao curso de sua campanha, é interessante observar que entre os lugares que podemos encontrar pessoas desapontadas com sua vitória são as sedes da OTAN em Bruxelas e do EI e Nusra na Síria. É a evidência da contradição que pousou no coração das prioridades e estratégias geopolíticas de Washington nos últimos anos.

Trump, em contraste, deixou tudo bem claro quando disse, “a Rússia está matando o EI. O Assad está matando o EI. Acho que seria uma boa ideia sermos amigos da Rússia”.

Tendo isso em vista, o teste real é o que ele faz ao invés do que ele diz, e é por isso que ainda é muito cedo para sermos complacentes em dar as boas vindas aos novos dias da relação de Washington com a Rússia ou com o resto do mundo. Trump também disse coisas duras sobre a China e o Irã durante sua campanha eleitoral, o que, levando em consideração o fato de que ao se tornar presidente ele se torna CEO de um império que não é mais sustentável, exige que exercitemos cautela ao invés de celebração nesse ponto.

Domesticamente, não vamos nos iludir. Trump deu atenção para o recrudescimento do nativismo, xenofobia e sentimento anti-imigrante ao redor dos EUA, quase da mesma maneira que o Brexit fez no Reino Unido. A conclusão lógica desse caminho são divisões sociais e a erosão da coesão social. As pessoas gostando ou não, a globalização abriu espaço para sociedades multiculturais no Oeste, com ambos constituindo dois lados da mesma moeda. Em outras palavras, as pessoas não podem querer aproveitar os benefícios do movimento livre do capital sem o movimento livre de pessoas.

E aqui chegamos ao coração da questão. Donald Trump e Brexit são sintomas da ascensão da anti-política em resposta à desigualdade massiva que devorou as sociedades norte-americana e inglesa nos últimos anos. Muita riqueza pertence à poucas pessoas, com o resultado de que as pessoas estão com raiva e não querem continuar a apoiar um status quo que é corrupto e comprometido com o apoio de uma elite corporativa e de interesses.

O mundo mudou, talvez totalmente.

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