1 de dezembro de 2016

Como será a nossa sociedade nos próximos decênios?

Wolfgang Streeck 


Tradução / A minha imagem da sociedade do futuro – até o ponto em que sinto poder prover alguma – é desoladora. Pensando sobre sociedade da Europa Ocidental e da América do Norte – região do capitalismo “avançado” –, imagino a continuidade de uma longa tendência de declínio social, o qual já está em andamento há décadas: desigualdade crescente, estagnação econômica, aumento da insegurança, fragmentação política. Mais do que nunca na época moderna, “nós” perdemos o controle para onde caminha o nosso mundo. Saudamos ainda a nossa boa sorte de viver sob o comando de uma mão invisível útil que age sempre no momento certo, assim como a nossa capacidade de improvisar, a nossa resistência às pressões. Contudo, na verdade, não sabemos mais até que ponto tudo isto se sustentará.

As perspectivas são incertas. Na linguagem do sociólogo, o que vejo é o avançar de uma degeneração contínua da capacidade do consumismo hedonista, que tomou o lugar das antigas fontes coletivas de legitimidade, de unificar a nossa sociedade: seja por meio do fornecimento de integração social seja por nos proteger dos conflitos vindos da anomia. Eu não consigo ver como essas tendências podem ser contidas ou revertidas no futuro próximo. Eis que que todas elas têm relação com a rápida expansão da economia capitalista em uma escala global. Ou seja, as regras da política democrática, assim como das outras forças que se opuseram ao capitalismo no passado, não podem mais deter agora o célere desenvolvimento dessas tendências desagregadoras. A "globalização", como é eufemisticamente chamada, também acelerou enormemente a mercantilização das três mercadorias fictícias de Polanyi – trabalho, dinheiro e natureza.

Elas podem ser tratadas como meras mercadorias, pura e simplesmente como mercadorias, mas apenas sob o risco de uma catástrofe social. Estamos começando a ver os resultados: mercados de trabalho desregulados com sucesso; piora global das condições de trabalho; rápido avanço da degradação ambiental; a continuidade de uma sempre mais grave crise financeira.

No fulcro da podridão social que eu vejo avançando encontra-se a economia capitalista liberta de todo o controle. Eis que ela está agora rompendo o seu casamento forçado com a democracia – algo que se afigurara aparentemente como um fato consumado após a Segunda Guerra Mundial. O neoliberalismo emitiu já os documentos oficiais do divórcio de um casamento que parecia ter silenciado os pesadelos da primeira metade do século XX. No entanto, essa união começou já a se desagregar nos anos setenta deste mesmo século. Estamos em meio a um processo de desintegração que não se consegue ver o fim. A estagnação econômica tornou-se "secular", mesmo aos olhos dos economistas que são otimistas por profissão. Diante dela se fazem manobras monetárias cada vez 2 mais desesperadas, todas elas destinadas a manter viva a festa o maior tempo possível; delas resulta um endividamento crescente que cria uma ameaça constante de explosão imprevisível de novas bolhas, as quais podem surgir em lugares inesperados. É certo que a economia capitalista perdeu a capacidade para suportar a sociedade capitalista. Ao mesmo tempo, também se pode também dizer que essa sociedade perdeu a capacidade de sustentar a economia capitalista. Pois, a sobrevivência sempre precária do capitalismo dependeu sempre de forças anticapitalistas, as quais o mantiveram sob controle, protegendo-o de si mesmo: religião, conservadorismo, socialismo, anticomunismo, nacionalismo e democracia. Essas forças desapareceram ou se encontram criticamente enfraquecidas, talvez fatalmente, graças à modernização, globalização, consumismo, secularismo e energias semelhantes. Agora, o capitalismo passou a governar sozinho. E ele, assim, vem impor às pessoas uma ordem social substituta (Ersatz) que é altamente volátil e imprevisível. Esta exige que seus membros cuidem de si mesmos e que se esforcem bastante para enfrentar a incerteza sistêmica, improvisando correções de forma privada e formando expectativas com um mínimo de confiabilidade. O aumento da infraestrutura social selfmade, ou melhor, capital-made, que é então chamada "social network", induz a transformação das pessoas em máquinas para o lucro por grandes multinacionais.

A irresistível ascensão das desigualdades nos países que, no passado, tinham feito da igualdade um de seus objetivos éticos e políticos mais importantes, é apenas um aspecto da crescente ingovernabilidade do capitalismo global. A maior desigualdade está associada a um aumento do enriquecimento oligárquico, do roubo, do assetstripping (processo pelo qual um especulador compra uma empresa em estado falimentar com a intenção de vender os seus ativos separadamente, com lucro). Ela reflete a capacidade declinante da democracia para redistribuir oportunidades na vida social, protegendo a sociedade do poder esmagador do dinheiro. A própria sociedade oscila entre o fim do crescimento econômico robusto e a consequente intensificação dos conflitos redistributivos, vendo uma crescente heterogeneidade entre os cidadãos, assim como no interior da força de trabalho. Legitimada por uma ideologia meritocrática, impõe-se às pessoas um regime de concorrência cada vez intenso, no qual ganham aqueles que têm melhor alocação inicial de recursos. Cada vez mais tem-se um poder político menos capaz de equalizar as condições de partida, para não mencionar sua incapacidade crescente de garantir quaisquer resultados. A solidariedade e a coesão social continuarão a definhar, assim como, também, o impulso coletivo para a igualdade. Eis que a imigração incentivada irá produzir um suprimento ilimitado de trabalhadores dispostos a trabalhar por salários abaixo.

A ordem social que vigora atualmente está baseada em trabalhadores precários transformados em consumidores confiantes (Colin Crouch). Ela se encontra nesse estado devido também às pressões sociais continuamente geradas pela grande indústria de publicidade e entretenimento, aliada a um setor financeiro desproporcional. O que estamos vendo crescer é um consumismo desenfreado, devidamente disfarçado como expressão de liberdade individual – um hedonismo secular que captura a imaginação e restringe as energias morais, especialmente da geração mais jovem. A questão é saber 3 por quanto tempo tudo isso vai ser capaz de esconder a crescente fragilidade da vida social e econômica de um segmento importante da população, fazendo com que esqueça a lacuna entre as promessas do capitalismo e a realidade capitalista? Esgotadas todas as outras fontes de solidariedade social, trata-se de saber agora até quando a indústria cultural vai continuar a vender o consumismo como um modelo de vida satisfatória, mantendo assim a legitimidade do capitalismo avançado.

No futuro que prevejo a política dos países capitalistas avançados, enquanto efeito de tudo isso, tornar-se-á cada vez mais fragmentada. Será dada, portanto, continuidade à espiral descendente iniciada já há algum tempo. Os imigrantes, que em número crescente fornecerão à alta classe média serviços privados a preços acessíveis – em virtude da preferência geral, cada vez menos renunciável, por um modelo social orientado pelo mercado – serão excluídos formalmente e de fato dos direitos civis. As classes médias, encantadas por um individualismo meritocrático e acostumadas a pagar privadamente pela obtenção de serviços, perderão o interesse pela política. Como contrapartida, crescerá a dominação tecnocrática sobre a despesa pública por parte dos bancos centrais e das organizações supranacionais. Cada vez mais se imposição a austeridade e a consolidação orçamentária aos governos como forma de abrir espaço para o investimento privado e para reforçar a confiança dos mercados financeiros.

A participação política vai diminuir ainda mais entre as classes baixas, pois elas não terão mais nada a esperar da política pública – exceto, talvez, obter alguma participação nos passatempos escandalosamente vulgares providos aos ricos e aos poderosos. Excluídos da "sociedade do conhecimento”, a sua participação no consumismo será cada vez mais limitada. A cidadania democrática também lhes será denegada. À medida que o estado de bem-estar se torna menos generoso como resultado da diminuição do crescimento e da intensificação do conflito distributivo, os perdedores da globalização poderão, em alguns momentos, mobilizar-se politicamente. Porém, eles se aliaram provavelmente aos partidos xenófobos de direita. Pois estes continuarão a estimular uma reação irracional à competição por parte dos imigrantes, os quais estarão mais e mais dispostos a trabalhar por menos e a suportar condições mais duras de emprego. O declínio geral da participação política, a qual vem se arrastando há décadas, oferece aos partidos do tipo Frente Nacional, Democratas Suecos, Vlaams Belango, Movimento Wilders, a oportunidade de capturar uma parte significativa dos votos. Os partidos tradicionais de centro, em consequência, veem cada vez mais as suas chances eleitorais ficarem bastante reduzidas. Por isso, tenderão a se unirem contra esses partidos intrusos sob a bandeira do liberalismo e do neoliberalismo. Ora, tudo isso vai confirmar a impressão de que não há política alternativa. Assim, consumar-se-á a exclusão politicamente desestabilizadora de uma parte crescente do eleitorado.

A política da fragmentação no centro se manterá conectada à evolução das periferias do império capitalista. Os estados falidos e os conflitos insolúveis exigirão intervenções miliares por parte das nações capitalistas ricas. Estas atuaram cinicamente em nome da democracia, da construção das nações e dos direitos humanos, mas preservarão apenas uma oferta ilimitada de mão de obra barata, formada por 4 refugiados e imigrantes. Podemos ver, portanto, que a "política de integração" promovida pela sociedade decadente do centro não pode levar a qualquer lugar. Enquanto a primeira geração de imigrantes tende a ficar feliz pelo lugar ao sol obtido, os seus filhos estarão irremediavelmente prejudicados pela falta de capital social e cultural. Em consequência, estarão também excluídos de princípio do núcleo meritocrático da "sociedade do conhecimento", a qual está suplantando o estado social do pós-guerra. Incapazes de acender à classe média e a participar do consumismo capitalista, bem como da secularização hedonista – formas importantes atualmente de integração social –, alguns deles serão atraídos para a luta inglória contra os exércitos do centro. De qualquer modo, o mundo da periferia estará mesmo caindo aos pedaços. Desta forma, as guerras pós-coloniais – e, assim, os assassinatos seletivos da "guerra contra o terror" promovidos pelas forças especiais e pela tecnologia dos drones – vão continuar. Isto não impedirá que os países avançados continuem promovendo uma autoimagem de sociedade tolerante, pacífica, não violenta e igualitária. Ora, isto fortalecerá ainda mais a fragmentação política. Tudo isso será acompanhado pelo aumento da vigilância, pois a infraestrutura microeletrônica da nova sociedade facilita a espionagem feita pelas agências estatais.

Como imaginar a sociedade do futuro? O futuro ao qual faço referência é aquele dos próximos vinte ou trinta anos. Temo que esta será uma época de profunda confusão, desorientação crescente, desordem, sem que uma nova ordem qualquer apareça de imediato. Será uma época "do salve-se quem puder", não sem novas formas de violência, tanto dos Estados quanto dos insurgentes. Não faltarão também as imagens falaciosas do espetáculo produzido pela indústria cultural. Ocorrerá uma transição longa e dolorosa para algo que ainda se mostra imperceptível; ver-se-á o fim do capitalismo tal como nós o conhecemos e o começo de algo que ainda não conhecemos.

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