14 de dezembro de 2016

Libertando Aleppo

À medida que as forças pró-governo recapturam Aleppo de aprestos radicais, há esperança de que alguma aparência de normalidade possa retornar à cidade devastada pela guerra. É também um momento oportuno para revisitar a narrativa ocidental sobre a crise

Sanjay Kapoor

Hard News

Tradução / Observando através do prisma da história foi, sem dúvida, um blitzkrieg. Em alguns dias, o distrito oriental de Aleppo, que estava sob a ocupação de uma miríades de radicais islâmicos, derreteu como uma vela com a enorme pressão montada pela coalizão conjunta entre Exército Árabe Sírio, força aérea russa e milícias do Hezbollah.

O sucesso veio em grandes passos: a área da ocupação pelas tropas leais a Bashar al-Assad aumentou de 68% para 85% em uma semana e, ao fim, para 98%. É neste ponto que a mídia ocidental, após romancear a resistência dos islâmicos radicais – incluindo Abu Sakkar, que posou em frente as câmeras comendo as vísceras de um soldado sírio –, começou a exigir que as forças ocidentais deveriam entrar para parar o “genocídio” de 200 mil pessoas presas no enclave sob o controle dos milicianos. Os russos, atacados na Assembléia Geral da ONU pela embaixadora americana Samantha Power pela crueldade com que teriam matado crianças, concordou com o cessar-fogo e uma saída controlada dos rebeldes para Idlib e outras áreas.

A vitória é muito relevante para o presidente sírio Bashar al-Assad, cujo controle agora estende-se por todas as grandes cidades da Síria, exceto Idlib. Aleppo também é significativa por ser a capital comercial do país, metodicamente devastada pelas milicias ao desmontarem as fábricas e a infraestrutura e transportaram a pilhagem para a vizinha Turquia. Apesar de metade da cidade ter sempre permanecido sob controle do governo, o retorno dela toda ao controle das forças pró-Assad permite que o governo comece a pensar na possibilidade de reconstruir o país, uma vez que a guerra termine.

No entanto, é improvável que a paz se restabeleça em breve, se a recaptura da cidade histórica de Palmyra do ISIS se consolidar. Há vastos interesses globais e regionais que não querem ver a estabilidade neste país até que seus interesses geoestratégicos sejam alcançados. A queda de Aleppo e a recaptura subsequente de Palmyra são manifestações sérias da disputa de influência que está ocorrendo na Síria, entre o Ocidente, a Rússia e o Irã. O que realmente agrava o conflito é a manifestação desesperada das forças apoiadas pelos EUA e seus aliados para derrubar Assad ou fazer algo militarmente dramático que impeça o novo presidente americano de mudar o cenário no Oriente Médio. O presidente recém eleito dos EUA, Donald Trump, é considerado próximo ao Vladimir Putin e culpou sua concorrente e ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, por ser responsável por grande parte pelo que está acontecendo no Oriente Médio. Espera-se que, nos círculos árabes e iranianos, que Trump mude a forma como os EUA vem conduzindo a política internacional nesta região. Isso pode reduzir a influência americana. Ainda mais importante é o fato de que Rússia e Irã tenham aniquilado as milícias fundamentalistas, sustentadas durante muito tempo pelos governos da Arábia Saudita, do Qatar, além dos britânicos e turcos. De fato, ao longo dos anos, tem havido tanta documentação sobre a cumplicidade desses países, sustentando essa ocupação terrível, que a mídia ocidental preocupa-se apenas em influenciar a opinião da ONU e outros organismos multilaterais. O que esta mídia recusa-se a reconhecer é que o exército sírio estava tentando recapturar e libertar uma cidade que fazia parte de seu próprio país e havia sido ocupada por fundamentalistas, mercenários e o pior tipo de descontentes de diferentes partes do mundo. Através de seus comentários agressivos e reportagens distorcidas, buscaram dar legitimidade a forças destrutivas.

A mídia ocidental, incluindo venerável The Guardian, sequer relatou a alegria incontida que o povo de Aleppo exibiu após a libertação do controle dos jihadistas, que exigiam até que os homens usassem barbas e mulheres vestissem véus. A maneira como a verdade era distorcida rotineiramente deveria ser assunto de investigação. O que não se relatou durante todos esses anos foi que o povo de Aleppo – em grande parte uma comunidade mercantil, não tinha nada a ver com a rebelião. Quando fui a Aleppo em 2011, alguns meses depois da rebelião confusa em Deraa, testemunhei um apoio maciço ao presidente Assad. Naquela época, a cidade era vista como sua fortaleza. As pessoas diziam que se Damasco se tornasse hostil ao presidente, ele poderia se refugiar em Aleppo. Falavam com repugnância sobre as pessoas que estavam tentando provocar conflitos e culpavam o Qatar, os sauditas e os turcos por incentivar a divisão do país. Muito em Aleppo foi destruído durante estes quatro anos. Será preciso uma paz duradoura e bilhões de dólares para reconstruir tudo. É improvável que o velho al-Madina — o mercado aberto de treze quilômetros –, queimado por militantes insanos, ou as antigas casas otomanas, voltem a existir. O que provavelmente poderia sobreviver a esta guerra suja, porém, é a cidade que, apesar de estar carbonizada e danificada, ainda carrega orgulho frente à devastação da guerra.

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