21 de dezembro de 2016

Um país se arrasta

Perspectiva do ano 2016. Hoje: Ucrânia. Acusações de corrupção arranham imagem. A Paz no Donbass ainda está longe.

Reinhard Lauterbach

Junge Welt

Cerimônia fúnebre para o comandante de milícias Arsen Pavlov ("Motorola") em Donetsk em 19 de outubro. Foto: Alexander Ermochenko/Reuters

Tradução / Segundo a maioria dos comentaristas russos, a Ucrânia de Maidán não sobreviveria até o fim da estação. O mesmo se dizia na Alemanha ao tempo da República de Weimar, ao vizinho ocidental e todos que não queriam aceitar a realidade da reunificação da Polônia. É possível que, no longo prazo, essa análise se mostre equivocada, mas ainda que se mantenha por enquanto a mesma terminologia, a realidade é que, depois de surgida da Euromaidán em 2013 e 2014, a Ucrânia política atual sobreviveu, sim, mais um outono. Continua a existir. Ainda que pouco se possa dizer a seu favor.

No plano militar, no Donbass mantém-se o estado de "Nem guerra, nem paz". Praticamente todos os dias há troca de tiros; a porção ucraniana acusa rotineiramente o Exército Popular do Donbass, que por sua vez acusa os ucranianos. Seja como for, não houve mudanças territoriais significativas. Na vila de Avdeevka, entre Donetsk e Gorlovka, por exemplo, durante semanas tropas de choque combateram tentando obter o controle de alguns prédios numa zona industrial. Nos últimos dias, voltaram a acontecer combates no front de Debaltsevo. Segundo os ucranianos, combatentes da República Popular de Lugansk (não reconhecida) tentavam conquistar, até agora sem êxito, a localidade de Svetlodarsk. Embora neguem, não é inverossímil que as tropas da República Popular de Lugansk tenham atacado ali: Svetlodarsk é a porta de entrada para uma linha de acesso a um entreposto importante para a distribuição de água no Donbass. E a parte ucraniana reiniciou ataques militares para evitar que a República Popular de Lugansk tenha acesso a água potável. Há algumas semanas, reduziu-se à metade a distribuição de água para outra represa controlada pela Ucrânia, supostamente por contas não quitadas. Portanto, estabelecer como fato consumado o objetivo, da República Popular de Luganski, de controlar a água, não seria descabido. Seja como for, os dois lados parecem ter munição suficiente para usar diariamente pelo menos algumas centenas de granadas. No caso das novas Repúblicas Populares, as consequências raramente implicam mais que danos materiais, porque as autoridades das novas repúblicas (não reconhecidas) já evacuaram os moradores de zonas fronteiriças e já os instalaram no interior do país. O espaço vital resulta suficiente, a população das Repúblicas Populares continua em torno de 1 milhão de pessoas a menos que as que ali viviam em 2014.

Apoio às repúblicas 

A opinião, distribuída pela parte ucraniana, de que a população das Repúblicas Populares estaria agora cansada de "separatismo" e desejaria voltar à Ucrânia, não é fato e é desejo do governo da Ucrânia, não dos cidadãos. Bem característico foi o tratamento que recebeu o funeral, em Donetsk, do comandante da milícia Arsen Pavlov, Motorola, assassinado no outono, por assaltantes desconhecidos. Os jornais e televisões em Kiev diziam, naquela manhã, entre piadas e risadas dos jornalistas de Kiev, que as repúblicas mobilizariam "várias centenas de funcionários e aposentados" para encenar o luto. Isso, só até que a manifestação tivesse crescido e se convertesse numa coluna compacta de 50 mil pessoas. As "análises" foram rapidamente desmentidas, embora não antes de os cidadãos residentes no Donbass terem sido declarados maus ucranianos, posto que choravam a morte de Pavlov.

A ideia segundo a qual para merecer passaporte ucraniano é preciso se provar digno chega a ser cômica. Pesquisas mostram que quase 2/3 dos ucranianos dariam imediatamente as costas ao país, e quanto mais depressa, melhor. Cerca de 4 milhões de ucranianos, 10% da população, já fizeram precisamente isso. Trabalham na União Europeia, a maioria na economia informal e clandestina, ou na Rússia, nesse caso, de modo geral, legalmente. Autoridades russas registraram no outono um grande aumento no número de pessoas procedentes da Ucrânia. Para o próximo ano, já se estudam medidas mais estritas para a permanência de imigrantes ucranianos na Rússia.

Na outra direção, só resta aos ucranianos a esperança de que a anunciada dispensa de visto para viagens seja afinal aprovada pela União Europeia. Fala-se agora de abril de 2017, mas dado que as autoridades europeias já várias vezes adiaram a decisão, deve-se tratar com cautela a nova previsão. Mesmo assim, além do mais, se a dispensa de visto para ucranianos não implicar qualquer direito associado de trabalhar dentro da UE, cerca de metade, segundo pesquisas recentes, dos ucranianos não têm interesse em viajar à "Europa". Significa que a divisão tradicional na Ucrânia, em blocos mais ou menos fortes, um "pró-ocidente" e outro "oriental", não sofreu qualquer mudança substancial. Apesar da guerra e da incansável propaganda nacionalista, que se manteve sem modificações nos meios de comunicação.

Ucranização forçada

Ao final do outono, produziram-se várias manifestações-relâmpago de canto, nas cidades da Ucrânia. De modo mais ou menos espontâneo, pessoas reuniam-se em estações de transporte urbano ou postos dos Correios, para cantar antigas canções folclóricas russas, canções populares soviéticas e, assim, protestar contra a ucranização forçada na vida pública. 545 filmes russos foram proibidos, desde filmes sobre a Crimeia, até filmes clássicos. Recentemente, aprovou-se uma lei segundo a qual 35% de toda a música emitida por rádios na Ucrânia sejam cantos "no idioma do Estado" – mesmo que sequer exista 'repertório' suficiente. Algumas emissoras emitem canções russas, traduzidas linha a linha ao idioma ucraniano.

E a política? O presidente Petro Poroshenko mantém-se no poder, apesar de crescentes acusações de corrupção. Segundo notícia publicada no Frankfurter Allgemeine Zeitung em novembro, Poroshenko estaria pagando salários ao pessoal que trabalha em seu canal de TV, com dinheiro clandestino. O presidente também se viu envolvido em duvidosas transações de compra e venda de terras na Reserva Natural de Kiev, segundo informou a Radio Liberty. Mais recentemente, um antigo deputado do parlamento ucraniano disse que o presidente serviu-se de empréstimos ocidentais para comprar votos no Parlamento. As agências de inteligência dos EUA o teriam interrogado com um detector de mentiras. Diferentes serviços econômicos informam que Poroshenko teria feito fortuna com doações aos militares, mediante empresas e bancos associados a ele. E que teria utilizado o próprio gabinete para expulsar concorrentes comerciais.

O "partido da guerra"

A evidência de que essas notícias tenham aparecido também nos meios de comunicação ocidentais é prova de que os padrinhos ocidentais de Poroshenko cansaram dele. Apesar disso, aos olhos ocidentais, o problema é que não há alternativa promissora a Poroshenko. Arseniy Yatseniuk (o "Yats" de Victoria "Fuck the EU" Nuland), bode expiatório das terríveis consequências sociais das "reformas" impulsionadas do gabinete do primeiro ministro, é extremamente impopular. Yulia Timoshenko poderia talvez vencer eleições antecipadas, mas o Ocidente a considera demasiadamente imprevisível, por causa de suas políticas populistas. A Rússia partilha implicitamente desse ponto de vista, e vê Poroshenko como mal menor. Oleg Tsarev, político ucraniano pró-Rússia, que vive exilado na Rússia, talvez manifestasse mais que apenas uma opinião pessoal, quando disse recentemente que a Ucrânia se desintegraria se Poroshenko fosse derrotado pelo "partido da guerra" do ministro do Interior Arsen Avakov e dos batalhões fascistas. O governo de Kiev, que nas eleições dos EUA apostou no cavalo errado, deve preparar-se para um longo período em que terá de sobreviver "no gelo".

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