27 de janeiro de 2017

A fratura da esquerda Europeia

Os social-democratas vêem a sua influência diminuir na Europa, sob pressão da esquerda radical.

Philippe Bernard, Jerome Gautheret, Philippe Ricard e Jean-Pierre Stroobants


Líderes da esquerda europeia, incluindo François Hollande, Alexis Tsipras e o Primeiro-Ministro Português António Costa, na cúpula de países mediterrânicos da UE em Atenas em setembro de 2016. Ahan Mehmet/Anadolu Agência

Tradução / "A esquerda com credibilidade" versão Manuel Valls contra a "nova esquerda" versão Benoît Hamon. A guerra fratricida dentro do Partido Socialista francês, exacerbada antes do segundo turno da primária no domingo, 29 de janeiro, (da qual Hamon saiu vitorioso) está longe de ser uma exceção francesa. Espanha, Reino Unido, Holanda... Em todos esses países, essa queda de braço complica a vida da social-democracia europeia, a ponto de, às vezes, afastá-la do poder. Os social-democratas estão no comando de apenas nove países e acabam de perder a presidência do Parlamento de Estrasburgo, após Martin Schulz retornar à Alemanha.

"As diferenças estão muito claras na França por causa da proximidade da eleição presidencial, após o fracasso de François Hollande, mas existem em todos os países, de maneira mais ou menos acentuada", explica Christophe Sente, cientista político e professor da Universidade Livre de Bruxelas.

Um espectro ronda os partidos social-democratas europeus: a "Pasokização", uma referência ao colapso do partido socialista grego, PASOK, cuja votação passou de mais de 40% dos votos para apenas 5% na esteira do naufrágio da Grécia que abalou a Europa. A sigla do grupo de Papandreou foi suplantada nas urnas pelo Syriza, o partido do primeiro-ministro Alexis Tsipras, encarnação inédita de uma esquerda radical no poder.

Na Espanha, "uma nova forma de contestação"

"O ressurgimento de uma esquerda alternativa foi acelerado pela crise da união monetária, particularmente nos países mais atingidos”, estima Fabien Escalona, pesquisador da Sciences Po Grenoble. “Trata-se de uma nova forma de contestar a esquerda no poder, contestação que, nas décadas anteriores, foi representada pelos comunistas, e depois pelos ecologistas”. De acordo com o cientista político, os líderes de movimentos como Syriza, na Grécia, ou o Podemos, na Espanha, “defendem não apenas o fim das políticas de austeridade, mas também reivindicações políticas, como devolver a dignidade aos eleitores fustigados pela crise e restaurar a democracia, considerada demasiadamente inconstante."

A Espanha dá uma ideia das rupturas em curso, muitas vezes às custas da presença da esquerda no poder. Depois de meses de impasse, o conservador Mariano Rajoy foi mantido no comando de um governo minoritário, por causa da rivalidade entre os socialistas e o Podemos, movimento radical nascido da mobilização dos Indignados, no auge da crise do euro.

No fim de outubro de 2016, o PSOE apoiou a reeleição do chefe do governo PPE, em vez de se juntar a uma sigla jovem que pretende tomar seu lugar no mapa eleitoral. A recusa em se aliar com este rival esconde, na verdade, a luta entre os defensores de uma guinada à esquerda e aqueles que querem manter o partido no centro. A disputa tem dividido o partido, resultando na expulsão repentina de seu secretário-geral, Pedro Sanchez.

A batalha das esquerdas não afeta apenas os países mais fragilizados pelos reveses do euro. Na Holanda, o Partido do Trabalho escolheu um novo líder em dezembro, o ex-prefeito de Amsterdã e ministro do trabalho Lodewijk Asscher, o que deve impedir a derrota de sua legenda nas eleições parlamentares de março.

Uma parte do eleitorado tradicional da esquerda socialista se dividiu entre a esquerda radical e a legenda populista e xenófoba de Geert Wilders. Outra parte digere mal a participação em um governo que implementou a política de austeridade promovida pelo primeiro-ministro liberal Mark Rutte e aprovada pelo ministro das Finanças social-democrata Jeroen Dijsselbloem – uma das principais figuras, enquanto presidente do Eurogrupo, à frente do programa de austeridade defendido pela chanceler alemã, Angela Merkel, para superar a crise da dívida.

"Divisões explosivas"

Seriam as duas esquerdas "irreconciliáveis", como teorizou Manuel Valls, antes de apelar à união? "A oposição é artificial porque, no fim das contas, todos os candidatos da primária socialista francesa são social-democratas reformistas. Ninguém tem a intenção de retornar à estatização maciça da economia", acredita Henri Weber, ex-eurodeputado socialista e autor do livro “Elogio ao compromisso” (Plon, 2016). Para ele, o episódio representa uma fase de reconstrução ainda mais complicada, na França, porque a divisão vai além do Partido Socialista, considerando-se as candidaturas de Jean-Luc Mélenchon, apoiado pelos comunistas, e de Emmanuel Macron, mais ao centro.

“Estas divisões estão explosivas na França em vistas das eleições que se aproximam, mas muitas vezes resultaram em concessões”, estima Christophe Sente. “A ruptura entre a primeira e a segunda esquerda, social-estatistas e sociais-liberais, existe há muito tempo. Os primeiros não confiam no mercado, reservam um papel central ao estado e querem se distanciar das "restrições" europeias para recuperar margens de manobra orçamentárias. Os últimos aceitam as regras da economia de mercado para combater as desigualdades que ela gera, e cumprem mais ou menos a disciplina coletiva implementada pela união monetária.

Até hoje, no entanto, apenas as vertentes da esquerda portuguesa – socialistas, comunistas e esquerda radical antiausteridade – conseguiram entrar em acordo e derrubar um governo de direita. Na Alemanha, o SPD aceitou coalizões regionais, na cidade de Berlim, por exemplo, com o Die Linke ("A Esquerda"), que reúne radicais ocidentais e herdeiros dos comunistas da Alemanha oriental.

No nível federal, no entanto, esta opção está excluída: os social-democratas preferiram uma grande coalizão com os democratas cristãos de Angela Merkel, mesmo que esta aliança lhes traga poucos benefícios. Sem grande ilusão para as eleições parlamentares em setembro, o SPD tenta se renovar ao escalar o ex-presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz para enfrentar a chanceler.

Na Grã-Bretanha ", um impulso democrático freado"

Dentro do Partido Trabalhista britânico, no entanto, a vantagem está com os "esquerdistas", em detrimento dos defensores da "terceira via" de Tony Blair. Mas Jeremy Corbyn dirige um partido que vem perdendo espaço, incapaz de falar a uma só voz, especialmente sobre o Brexit. Sua capacidade de dar declarações contraditórias, sua fraqueza diante da primeira-ministra, Theresa May, e sua popularidade em queda desesperam muitos deputados trabalhistas, preocupados com suas chances de serem reeleitos.

Especialista em esquerdas europeias e professor da University College London, Philippe Marlière analisa:

"O impulso democrático que Jeremy Corbyn encarnava foi freado. Instintivamente, ele tentaria passar ideias originais sobre justiça social, defesa dos serviços públicos e direitos dos trabalhadores. Indeciso, sem traquejo com a mídia, incapaz de oferecer uma narrativa coerente, Corbyn perdeu, no entanto, a confiança dos parlamentares da esquerda moderada e agora se encolhe junto a seus poucos apoios fieis."

A Itália também cultiva sua particularidade. A derrota retumbante de Matteo Renzi, então primeiro-ministro, no referendo constitucional de 04 de dezembro, seguida de sua renúncia em favor de seu ex-chanceler Paolo Gentiloni, também evidenciou uma profunda divisão interna no Partido Democrata (PD), após várias figuras do partido fazerem campanha altamente virulenta pelo Não. A extrema esquerda permanece, entretanto, muito fraca, especialmente devido ao crescimento do inclassificável Movimento %u20B%u20B5 estrelas (30% das intenções de voto nas pesquisas), cuja linha antiausteridade e anti-euro exerce grande sedução à esquerda.

Nascido do duplo cataclismo que representaram a queda da União Soviética, fatal para o velho Partido Comunista Italiano (PCI), e a operação "mãos limpas", que varreu a democracia cristã, o Partido Democrata vê coexistir internamente duas tradições intelectuais difíceis de conciliar. A situação ficou ainda mais complexa desde que a correlação de forças entre os dois, inicialmente favorável ao PCI, foi revertida nos últimos anos.

"Nova esquerda radical"

No outono de 2016, no auge da campanha do referendo, o Partido Democrata parecia, aos olhos de muitos observadores, à beira de uma ruptura. Desde então, as tensões só se acalmaram na superfície. Elas continuam concentradas na figura de Matteo Renzi mas também em questões mais fundamentais, tais como a concepção das instituições e o papel dos organismos intermediários. A ponto de os partidários de uma linha mais à esquerda estarem tentados a deixar o PD para se lançar nas próximas eleições parlamentares. Como constata Fabien Escalona:

"A progressiva estruturação europeia destas formações, particularmente no Partido da Esquerda Europeia [rival do Grupo Socialista no Parlamento Europeu] corresponde ao surgimento de uma nova esquerda radical, cujas características não são idênticas às dos antigos partidos comunistas."

Para o cientista político, as formações de esquerda “clássicas”, que já foram ou são governo, enfrentam um dilema para chegar ao poder ou mantê-lo.

Por um lado, os eventuais parceiros de direita disponíveis à social-democracia "o confinam na defesa de um status quo em grande parte responsável pela crescente insatisfação do eleitorado em relação aos partidos no poder”. Além disso, "a social-democracia reluta em se aliar aos partidos de esquerda radical, temendo que sejam irresponsáveis, enquanto ela própria é incapaz de apontar uma alternativa para a gestão caótica da crise desde 2008". Uma atitude ambígua que lembra, em muitos aspectos, o estado de espírito da esquerda francesa.

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