30 de janeiro de 2017

Não é a OTAN, mas a esquerda que está "obsoleta"

por Manlio Dinucci


Tradução / Vozes influentes da esquerda europeia uniram-se no protesto anti-Trump "No Ban No Wall", a decorrer nos EUA, esquecendo-se do muro franco-britânico anti-migrantes de Calais e calando o fato de que na origem do êxodo de refugiados estão as guerras nas quais participaram os países europeus da NATO. Ignora-se o fato de que nos EUA a proibição impede a entrada de pessoas provenientes destes países – Iraque, Líbia, Síria, Somália, Sudão, Iêmen, Irã – contra os quais os Estados Unidos conduziram durante mais de 25 anos guerras abertas e secretas: pessoas às quais até o presente foram concedidos vistos de entrada fundamentalmente não por razões humanitárias, mas para formar nos EUA comunidades de imigrados (com base no modelo dos exilados anti-castristas) que servissem as estratégias estadunidenses de desestabilização dos seus países de origem. 

Os primeiros a serem bloqueados e a tentarem um tipo de ação (recurso coletivo) contra a proibição são um contratante (mercenário) e um intérprete iraquiano, que colaboraram por muito tempo com os ocupantes estadunidenses do seu próprio país.

Enquanto a atenção político-midiática europeia centra-se no que se passa além atlântico, perde-se de vista o que se passa na Europa. O quadro é desolador. O presidente Hollande, vendo a França ultrapassada pela Grã-Bretanha, que recupera o papel do aliado mais próximo dos EUA, escandaliza-se com o apoio de Trump ao Brexit pedindo que a União Europeia (ignorada por esta mesma França na sua política externa) faça ouvir a sua voz. Voz de fato inexistente, a de uma União Europeia em que 22 dos seus 28 membros fazem parte da OTAN, reconhecida pela UE como "fundamento da defesa coletiva", sob a direção do Comandante Supremo aliado na Europa nomeado pelo presidente dos Estados Unidos (portanto, agora por Donald Trump).

A chanceler Angela Merkel, no momento em que exprime seus "lamentos" acerca da política da Casa Branca para com os refugiados, na sua entrevista telefônica com Trump convida-o para o G-20 que se reunirá em Hamburgo no mês de Julho. "O presidente e a chanceler – informa a Casa Branca – concordam com a importância fundamental da OTAN para assegurar a paz e a estabilidade". 

A OTAN, portanto, não está "obsoleta" como havia dito Trump. Os dois governantes "reconhecem que nossa defesa requer investimentos militares apropriados".

Mais explícita, a primeira-ministra britânica Theresa May que, recebida por Trump, comprometeu-se a "encorajar meus colegas os líderes europeus a exararem o compromisso de despender 2% do PIB para a defesa, de modo a repartir o encargo mais igualitariamente". Segundo os dados oficiais de 2016, apenas cinco países da OTAN têm um nível de despesa para a "defesa" igual ou superior a 2% do PIB: Estados Unidos (3,6%), Grécia, Grã-Bretanha, Estônia e Polônia.

A Itália despende para a "defesa", segundo a OTAN, 1,1% do PIB, mas está em vias de fazer progressos: em 2016 ela aumentou sua despesa em mais de 10% em relação a 2015. De acordo com os dados oficiais da OTAN relativos a 2016, a despesa italiana para a "defesa" monta a 55 milhões de euros por dia. A despesa militar efetiva é na realidade muito mais elevada, uma vez que o orçamento da "defesa" não abrange o custo das missões militares no exterior, nem o de armamentos importantes, como os navios de guerra financiados com bilhões de euros pela Lei de estabilidade e pelo Ministério do Desenvolvimento Econômico. A Itália está em qualquer caso comprometida a elevar a despesa para a "defesa" a 2% do PIB, ou seja, a cerca de 100 milhões de euros por dia. De nada disto se ocupa a esquerda institucional, enquanto espera que Trump, num momento livre, telefone também a Gentiloni.

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