18 de janeiro de 2017

O legado de bombardeamentos deixado por Obama

Exclusivo: O Presidente Obama brincou conosco ao dizer que ainda não sabia por que havia ganho o prêmio Nobel da paz em 2009, porém o seu recorde de empreender guerras não foi nenhuma piada para os milhares de pessoas que ficaram sob as bombas lançadas pelos EUA, diz Nicolas J S Davies.

por Nicolas J. S. Davies

Consortium News

Com o presidente Obama a deixar o cargo, grande parte do seu registo de política externa permanece protegido por uma falsa representação que tem sido a marca da sua Presidência. A persistência da imagem de Obama como um relutante fazedor de guerras e vencedor do Prêmio Nobel da Paz permitiu a Donald Trump e aos nomeados para o seu gabinete afirmarem que Obama havia enfraquecido as forças militares e sido menos agressivo no uso do poder militar dos EUA.

Nada poderia estar mais longe da verdade, estas asserções destinam-se claramente apenas a justificar gastos militares ainda mais extravagantes, ameaças e usos da força mais agressivos do que os perpetrados no âmbito da política de guerra do Sr. Obama, realizada de forma "disfarçada, tranquila e sem meios de comunicação a incomodarem".

A realidade é que Obama aumentou os gastos militares dos EUA acima de quaisquer outros após a Segunda Guerra Mundial, ultrapassando o recorde estabelecido pelo presidente George W. Bush. Com o orçamento militar assinado por Obama para 2017, foi estabelecido um gasto médio de 653,6 bilhões de dólares por ano, mais 18,7 bilhões que a média de Bush (valores em dólares de 2016).

Em termos históricos, após o ajuste da inflação, os gastos militares de Obama foram 56% maiores do que os de Clinton, 16% maiores que os de Reagan e 42% maiores que a média dos EUA durante a Guerra fria, quando tal era justificado por uma competição militar com um concorrente do mesmo nível, a União Soviética. Por outro lado, a Rússia gasta agora um décimo do que estão a gastar as forças militares dos EUA em produção de armas e guerras.

O que todo esse dinheiro pagou foi o oposto do que a maioria dos apoiadores de Obama pensava estar elegendo em 2008. Por detrás da imagem icônica de uma celebridade-em-chefe refinada e com fortes raízes na cultura urbana moderna, reside um contraste calculado entre a imagem e a realidade que tem violentado o país com experimentos neoliberais e "democracia manipulada" levados mais longe do que nunca e preparando-nos para uma antes impensável Presidência "pós-verdade" de Donald Trump.

O modelo Obama

A doutrina de Obama de guerras por procuração e encobertas foi modelada sobre o Programa Phoenix no Vietnã na década de 1960 e 1970 e guerras por procuração de Reagan na América Central na década de 1980. Isso envolveu uma enorme expansão das forças de operações especiais dos EUA, agora implantadas em 138 países, em comparação com "apenas" 60 quando Obama tomou posse.

Como disseram altas patentes militares ao Washington Post em junho de 2010, foi permitido à administração Obama, "coisas que o governo anterior não fez", "eles falam publicamente muito menos, mas estão a agir mais. Estão dispostos a ficar agressivos muito mais rapidamente".

Sempre que possível, as forças dos EUA têm recrutado e treinado forças alheias para combaterem e morrerem nas suas guerras por procuração, fossem esquadrões da morte xiítas do governo iraquiano, dissidentes da al-Qaeda na Líbia e a Síria (apoiando os projetos de "mudança de regime" nesses países) ou mercenários servindo as monarquias árabes e a aparentemente interminável carne para canhão da guerra no Afeganistão.

Obama aumentou dez vezes os ataques com drones reduzindo ainda mais as baixas dos EUA em relação ao número de estrangeiros mortos. Isso fomentou uma ilusão de paz e normalidade para os americanos ainda que o número de mortos causado pelas guerras dos EUA pós-9/11 certamente tenha ultrapassado os dois milhões.

Os alvos dessas guerras secretas e por procuração dos EUA não são só contra guerrilheiros ou "terroristas", mas também sobre "meios de apoio civil" à guerrilha com comida e fornecimentos, infraestruturas e toda a organização governamental e da sociedade civil em áreas que resistam ao seu domínio.

Como um oficial dos EUA no Iraque explicou à Newsweek em 2005, "a população sunita não está a pagar nenhum preço pelo apoio que dá aos terroristas. Do seu ponto de vista, é livre de custos. Nós temos que mudar esta equação".

Em décadas anteriores, as vítimas de operações similares na América Central incluíram o avô de uma jovem que eu conheci em Cotzal na Guatemala – foi decapitado por um esquadrão da morte do exército por dar comida para o Exército Guerrilheiro dos Pobres. A Igreja Católica considerou agora o padre Stanley Rother do Oklahoma, morto por um esquadrão da morte do exército guatemalteco em Santiago Atitlan em 1981, como mártir e candidato à santidade.

O sangrento Iraque

No Iraque, os destinos de tais operações incluíram centenas de universitários e outros profissionais e líderes da comunidade. Recentemente, ataques aéreos dos EUA mataram três professores universitários e suas famílias em suas casas na Universidade de Mossul. As vítimas incluíram o Dr. Mohamad Tybee Al-Layla (doutorado em Física no Texas), o altamente respeitado ex-reitor da Faculdade de Engenharia.

Em 2004, após o assassinato do Dr. Abdul-Latif Ali Al-Mayah em Bagdad, um oficial superior da polícia explicou quem o matou e por quê, ao jornalista britânico Stephen Grey: "O Dr. Abdul-Latif foi-se tornando mais popular porque falava com as pessoas na rua. Você não precisa olhar mais longe do que para o Conselho Governativo. Eles são políticos apoiados pelos americanos que chegaram ao Iraque do exílio com uma lista dos seus inimigos. Já vi essas listas. Eles estão matando as pessoas, uma a uma".

As sanguinárias guerras por procuração de Obama no Iraque e na Síria têm ficado cada vez mais fora de controle, as forças de operações especiais dos EUA no terreno e esquadrões da morte treinados pelos EUA têm sido cada vez mais apoiados pelas forças aéreas dos EUA e aliados. Há quatro anos, quando Obama inaugurou o seu segundo mandato, escrevi que os EUA e seus aliados haviam lançado 20 mil bombas e mísseis no seu primeiro mandato. No seu segundo mandato, foi lançado quatro vezes esse número, elevando o total durante a Presidência de Obama para mais de 100 mil bombas e mísseis, atingindo sete países, superando os 70 mil lançados em cinco países por George W. Bush.

Obama herdou uma campanha aérea maciça já em curso no Afeganistão, onde os EUA e seus aliados lançaram mais de 4 mil bombas e mísseis por ano durante seis anos entre 2007 e 2012. No total, as forças aéreas norte-americanas lançaram 26 mil bombas e mísseis no Afeganistão sob Obama, em comparação com 37 mil sob Bush, um total de 63 mil bombas e mísseis em 15 anos.

Mas a nova campanha de bombardeamentos norte-americanos no Iraque e na Síria, desde 2014 é muito mais pesada, com 65.730 ataques de bombas e mísseis em dois anos e meio. O Iraque foi agora golpeado com 74 mil bombas e mísseis, até mais que o Afeganistão: 29.200 no assalto "Choque e Pavor" ("Shock & Awe") de 2003; mais 3.900 antes da invasão e a ocupação dos EUA; e outros 41 mil no "Choque e Pavor II" desde 2014, incluindo o atual cerco e bombardeio de Mossul.

O total de Obama de 100 mil ataques aéreos inclui 24.700 bombas e mísseis lançados na Síria, 7.700 pela OTAN e seus aliados das monarquias árabes, bombardeamentos na Líbia em 2011, mais 496 ataques na Líbia em 2016 e pelo menos 547 ataques de drones no Paquistão, Iémen e Somália.

Uma política fracassada

Donald Trump e as suas escolhas para secretários de Estado e de Defesa, Rex Tillerson e Jim Mattis, respectivamente, dizem concretamente que a política de guerra de Obama falhou. Mas eles estão errados ao insistirem em que a resposta é gastar ainda mais em armas e usá-las de forma ainda mais agressiva.

O fracasso de Obama foi o resultado da sua fé cega no poder militar dos EUA e da sua transigência com generais e almirantes, com a CIA e conselheiros adeptos da guerra como a secretária de Estado Hillary Clinton e a embaixadora na ONU Samantha Power. Mas a guerra nunca foi uma resposta legítima ou eficaz ao terrorismo.

O uso indevido de força militar tem apenas propagado a violência e o caos em todo o mundo muçulmano e deu origem a uma mistura explosiva de desintegração política governada por milícias e senhores da guerra, uma vertiginosa proliferação de grupos armados com diferentes interesses e lealdades e, finalmente, mais represálias para o Ocidente.

A Arábia Saudita, Paquistão, Turquia, Israel, Qatar e outros "aliados" estão apenas demasiado ansiosos para explorar e redirecionar a agressão dos EUA contra seus próprios inimigos: Irão, Síria, Líbia e diferentes grupos étnicos, minorias e movimentos políticos no que foi, durante séculos, uma região do mundo diversificada e tolerante.

Os EUA tornaram-se um gigante cego tropeçando através de uma densa floresta de sombras e perigos invisíveis, aplicando golpes com a sua devastadora máquina de guerra, instigados pelos interesses próprios de seus aliados e das forças encobertas da própria burocracia dos seus serviços secretos que agitaram problemas, encenaram golpes de Estado e desencadearam guerras, país após país, durante setenta anos.

O único beneficiário consistente em toda essa morte, destruição e caos é o "complexo militar-industrial" contra o qual o presidente Eisenhower nos avisou no seu discurso de despedida em 1961 .

Em 2012, pesquisei e escrevi sobre como o CEO da General Dynamics, Lester Crown , e sua família de Chicago apoiou e financiou a carreira política de Barack Obama. Como fabricantes de submarinos da classe Virginia,destróieres Arleigh Burke e Zumwalt e navios de combate costeiro (todos estes programas aproveitados, revistos ou expandidos por Obama), bem como outros tipos de munições , o patrocínio da família Crown a Barack Obama provou ser um investimento lucrativo, desde a violência e caos no mundo muçulmano à nova guerra fria com a Rússia e ao "caso" do mar da China Meridional.

Agora Donald Trump nomeou um membro do Conselho de Administração da General Dynamics, o general James Mattis, o "Mad Dog", como secretário da Defesa, apesar de sua responsabilidade por suas regras de combate ilegais e continuados crimes de guerra no Iraque , em óbvio conflito de interesses com os milhões que ganhou na General Dynamics e as leis que de forma clara exigem o controlo civil das forças armadas.

A pergunta que se coloca é então: Quando aprenderemos a expressar a diferença entre belicistas corruptos como Obama e Mattis e líderes progressistas que nos permitam viver em paz com nossos vizinhos em todo o mundo, mesmo à custa dos lucros da General Dynamics'?

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