27 de janeiro de 2017

Presidente Trump: capitalismo nacionalista, uma alternativa à globalização

por James Petras


Introdução

Tradução / Durante seu discurso inaugural, o Presidente Trump esboçou, de forma clara e contundente, as diretrizes político-econômicas estratégicas que levará a cabo nos próximos quatro anos. Jornalistas, editorialistas, acadêmicos e especialistas anti-Trump, que aparecem no Financial Times, New York Times, Washington Post e Wall Street Journal repetidamente distorceram e mentiram sobre o programa do presidente, bem como a sua crítica das políticas existentes e passadas.

Começaremos por discutir seriamente a crítica do Presidente Trump à economia política contemporânea e procederemos a elaborar suas alternativas e suas fraquezas.

Crítica do presidente Trump sobre a classe dominante

A peça central da crítica de Trump contra a elite hoje governante tem a ver com o impacto negativo da globalização sobre a produção, o comércio e os desequilíbrios fiscais e sobre o mercado de trabalho nos EUA. Trump cita a evidência de que o capitalismo industrial norte-americano mudou drasticamente o locus dos próprios investimentos, inovações e lucros para outros países, como exemplo dos efeitos negativos da globalização. Por duas décadas, muitos políticos e especialistas em geral choram a perda de empregos bem remunerados e de indústrias locais estáveis, como parte de sua retórica de campanha ou em reuniões públicas e comícios, mas nenhum deles tomou qualquer ação efetiva contra esses aspectos mais danosos da globalização. Trump denunciou-os como "muito papo e e pouca ação", prometendo pôr fim aos discursos vazios e implementar grandes mudanças.

O presidente Trump tomou como alvos os importadores que trazem produtos baratos de fabricantes do outro lado do mundo para o mercado norte-americano, minando o poder de produtores e trabalhadores norte-americanos. Sua estratégia econômica de priorizar indústrias norte-americanas é crítica implícita à conversão de capital produtivo em capital financeiro e especulativo que se viu, sob a cobertura e proteção dos quatro governos anteriores. O discurso de posse, em que atacou as elites por terem abandonado o "cinturão da ferrugem" por Wall Street, faz eco à sua promessa à classe trabalhadora: "Ouçam essas palavras! Vocês nunca mais serão ignorados". As próprias palavras de Trump retratam a classe dominante como 'porcos no cocho' (Financial Times, 23/01/2017, p.11)" (Financial Times, 1/23/2017, p. 11).

Crítica político-econômica de Trump

O presidente Trump enfatiza negociações de mercado com parceiros e adversários por todo o planeta. Criticou repetidas vezes a promoção de 'livres mercados' e militarismo agressivo comandada pelas mídia-empresas e por políticos pessoalmente interessados, que para ele estariam minando a capacidade dos EUA para negociar acordos proveitosos.

A política de imigração do presidente Trump está intimamente ligada à sua política estratégica de "America First", para o trabalho. Fluxos massivos de trabalho imigrado têm sido usados para comprimir os salários dentro dos EUA, cancelar direitos trabalhistas e empregos estáveis. Viu-se esse fenômeno, primeiro, na indústria de embalagem de carne, depois na indústria têxtil, de criação de aves e da construção. A proposta de Trump é limitar a imigração, para possibilitar que os trabalhadores consigam fazer diferença na disputa entre trabalho e capital, e para reforçar o poder do trabalho organizado para negociar salários, condições de trabalho e benefícios. A crítica que Trump construiu contra a imigração em massa é baseada no fato de que há trabalhadores norte-americanos qualificados para trabalhar nos mesmos setores, se os salários subirem e se melhorarem as condições de trabalho, de modo que o trabalho daqueles norte-americanos possa prover vida digna e padrões estáveis de vida para as suas famílias.

Crítica política de Trump

Trump denuncia acordos comerciais que levariam a déficits gigantes, e conclui que os negociadores norte-americanos até agora são rematados fracassos. Diz que presidentes anteriores dos EUA assinaram acordos multilaterais para garantir alianças militares e proteger bases militares, em vez de negociarem acordos comerciais orientados para criar empregos. Prometeu que seu governo mudará essa equação: Quer rasgar ou renegociar todos os acordos econômicos desfavoráveis, ao mesmo tempo em que reduz os compromissos militares e cobra fatia maior dos aliados da OTAN, induzidos a pagar, eles mesmos, pelos próprios orçamentos da Defesa. Imediatamente depois da posse, Trump cancelou a Parceria Trans-Pacífico (TPP) e convocou uma reunião com Canadá e México para renegociar o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA).

A agenda de Trump mostrou planos para projetos de infraestrutura no valor de centenas de bilhões de dólares, incluindo os controversos oleodutos e gasodutos do Canadá ao Golfo nos EUA. É claro que esses gasodutos e oleodutos violam tratados existentes com populações autóctones e ameaçam o equilíbrio ecológico. Mas ao priorizar o uso de material de construção fabricado nos EUA e ao insistir em que seja contratada mão de obra norte-americana, essas políticas controversas formarão uma base para desenvolver empregos norte-americanos mais bem remunerados.

Essa ênfase em investimentos e empregos nos EUA é ruptura total com o governo anterior, quando o presidente Obama só pensou em fazer guerras e mais guerras no Oriente Médio, e em aumentar o déficit público e o déficit comercial.

O discurso de posse fez promessa muito clara: "A carnificina norte-americana termina aqui e termina agora!". Essa promessa ressoou profundamente com um vasto setor da classe trabalhadora e foi feita diante de um público constituído dos principais arquitetos de quatro décadas de globalização que só fez destruir empregos. "Carnificina" apareceu naquela frase com duplo significado: o massacre interno, que resultou de Obama e outros governos terem destruído todos os empregos dos cidadãos norte-americanos e levado à ruína e bancarrota incontáveis comunidades rurais, pequenas cidades e comunidades urbanas. Essa carnificina doméstica foi a outra face da mesma moeda das políticas de Obama e governos que o antecederam, de levar guerras – e disseminar a carnificina por três continentes. Os últimos 15 anos de lideranças políticas nos EUA foram anos de disseminar a carnificina, também, de uma geração de norte-americanos, empurrados para um surto epidêmico de dependência química (hoje, relacionada principalmente à prescrição não controlada de opiáceos sintéticos), que já matou centenas de milhares de norte-americanos sobretudo jovens e destruiu a vida de milhões. Trump prometeu que finalmente se empenharia a pôr fim a essa "carnificina". Infelizmente ainda não pôs rédea na chamada 'Big Pharma' e na comunidade do pessoal médico responsável por disseminar a dependência química até os cantos mais profundos dos devastados EUA rurais. Trump criticou políticos eleitos de governos que o precederam por autorizarem gigantescos subsídios militares a 'aliados". Mas fez questão de deixar claro que essa crítica não incluía políticas de solidariedade militar dos EUA e não desqualificaria sua promessa de 'reforçar velhas alianças' (OTAN).

Verdades e mentiras: jornalistas de lixo e militaristas de sofá

Entre o exemplo mais escandaloso da histeria dos meios de comunicação sobre a Nova Economia de Trump está a série sistemática e vitriólica de fabricações projetadas para obscurecer a sombria realidade nacional que Trump prometeu abordar. Vamos discutir e comparar as contas publicadas por "jornalistas de lixo (JL)" e apresentar uma versão mais precisa da situação.

Respeitáveis JLs do Financial Times dizem que Trump quer 'destruir o comércio mundial'. De fato, Trump expôs repetidas vezes sua intenção de ampliar o comércio internacional. O projeto de Trump é aumentar o comércio mundial dos EUA de dentro para fora, não de fora para dentro. Quer renegociar os termos de acordos multilaterais e bilaterais, para garantir maior reciprocidade com parceiros comerciais. No governo Obama, os EUA foram mais agressivos na imposição de tarifas comerciais que qualquer outro país da Organização de Comércio e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Jornalistas de lixo rotulam Trump como "protecionista", confundindo suas política para reindustrializar a economia, com autarquismo. Trump promoverá exportações e importações, ao mesmo tempo em que ampliará o papel dos EUA como produtor e exportador. Os EUA serão mais seletivos no que importam. Trump favorecerá o crescimento de manufaturas para exportação e aumentará as importações de matéria prima e tecnologias avançadas, ao tempo em que reduz a importação de automóveis, aço e produtos de consumo doméstico.

A oposição de Trump à 'globalização' tem sido atacada pelos jornalistas de lixo do Washington Post como grave ameaça contra 'a ordem econômica do pós-Segunda Guerra Mundial'. De fato, vastas mudanças já tornaram obsoleta aquela velha ordem, e esforços para mantê-la viva têm levado a crises, a guerras e a mais desastres e falências. Trump reconheceu o estado de obsolescência da velha ordem econômica e decidiu que é necessário mudar.

A velha ordem mundial obsoleta e a duvidosa Nova Economia

No final da Segunda Guerra Mundial, a maior parte da Europa Ocidental e o Japão recorreram a políticas industriais e monetárias "protecionistas" altamente restritivas para reconstruir as suas economias. Somente depois de um período de recuperação prolongada, a Alemanha e o Japão liberalizaram cuidadosamente e seletivamente suas políticas econômicas.

Nas últimas décadas, a Rússia foi drasticamente transformada de uma poderosa economia coletivista para uma oligarquia vassalo-gangster capitalista e, mais recentemente, para uma economia mista reconstituída e um estado central forte. A China foi transformada de uma economia coletivista, isolada do comércio mundial, para a segunda economia mais poderosa do mundo, deslocando os EUA como o maior parceiro comercial da Ásia e da América Latina.

Depois de controlar 50% do comércio mundial, a participação dos EUA é agora inferior a 20%. Este declínio deve-se em parte ao desmantelamento da sua economia industrial quando os seus fabricantes deslocaram as suas fábricas para o estrangeiro.

Apesar da transformação da ordem mundial, os recentes presidentes americanos não reconheceram a necessidade de reorganizar a economia política americana. Em vez de reconhecer, adaptar e aceitar mudanças no poder e nas relações de mercado, procuraram intensificar os padrões anteriores de dominação através da guerra, da intervenção militar e sangrenta e destrutivas "mudanças de regime" - devastando, ao invés de criar mercados para os bens dos EUA. Ao invés de reconhecer o imenso poder econômico da China e buscar renegociar acordos de comércio e cooperação, eles estupidamente excluíram a China de pactos comerciais regionais e internacionais, até o ponto de intimidar grosseiramente seus parceiros comerciais asiáticos menores e lançaram uma política de cerco e provocação militar nos Mares do Sul da China. Embora Trump reconheça essas mudanças e a necessidade de renegociar os laços econômicos, seus membros nomeados buscam estender as políticas militaristas de confronto de Obama.

Sob as administrações anteriores, Washington ignorou a ressurreição, a recuperação e o crescimento da Rússia como potência regional e mundial. Quando a realidade finalmente se enraizou, os governos anteriores dos EUA aumentaram sua intromissão entre os ex-aliados da União Soviética e montaram bases militares e exercícios de guerra nas fronteiras da Rússia. Em vez de aprofundar o comércio e o investimento com a Rússia, Washington gastou bilhões em sanções e gastos militares - especialmente fomentando o violento regime golpista na Ucrânia. As políticas de Obama que promovem a tomada violenta do poder na Ucrânia, na Síria e na Líbia foram motivadas pelo seu desejo de derrubar governos amigos da Rússia - devastando esses países e, finalmente, fortalecendo a vontade da Rússia de consolidar e defender suas fronteiras e formar novas alianças estratégicas.

No início de sua campanha, Trump reconheceu as novas realidades mundiais e propôs mudar a substância, símbolos, retórica e relações com adversários e aliados - somando-se a uma Nova Economia.

Primeiro e sobretudo, Trump considerou as guerras desastrosas no Oriente Médio e reconheceu os limites do poder militar dos EUA: os EUA não podem engajar-se em várias guerras infindáveis de conquista e ocupação no Oriente Médio, Norte da África e Ásia, sem pagar altíssimo custo doméstico.

Segundo, Trump viu que a Rússia absolutamente não é ameaça militar estratégica aos EUA. Além do mais, o governo russo sob comando de Vladimir Putin estava querendo cooperar com os EUA para derrotar o inimigo de todos – o ISIS e suas redes terroristas. A Rússia estava também interessada em reabrir seus mercados a investidores norte-americanos, os quais também estavam ansiosos para voltar para lá, depois de anos de sanções impostas por Obama-Clinton-Kerry. Trump, o realista, oferece acabar com as sanções e restaurar relações favoráveis ao mercado.

Terceiro, é claro para Trump que as guerras dos EUA no Oriente Médio implicam gastos monstro e benefício mínimo para a economia dos EUA. O que Trump quer é aumentar relações de mercado com as potências econômicas e militares regionais, como Turquia, Israel e as monarquias do Golfo. Trump não tem qualquer interesse na Palestina, no Iêmen, Síria ou nos curdos – que não oferecem nem investimento nem oportunidades de negócios. Ignora o enorme potencial regional econômico e militar do Irã... Mas propôs renegociar o recente acordo de seis países com o Irã, porque tem interesse em melhorar a parte dos EUA na barganha. Sua campanha retórica muito hostil contra Teerã pode ter o objetivo de acalmar Israel e a poderosa 5ª Coluna de "Israel em primeiro lugar" que é ativíssima nos EUA. Com certeza, surgiu aí um conflito com os discursos de "América em primeiro lugar". Temos de esperar para ver se Donald Trump manterá um 'show' de submissão ao projeto sionista, ao mesmo tempo em que avança para incluir o Irã como parte de sua agenda para o mercado regional.

Os Jornalistas do Lixo alegam que Trump adotou uma nova postura belicosa em relação à China e ameaça lançar uma "agenda protecionista", que acabará por empurrar os países transpacíficos para perto de Pequim. Pelo contrário, Trump parece ter a intenção de renegociar e aumentar o comércio através de acordos bilaterais

O mais provável é que Trump mantenha, mas sem expandir, o encercamento militar em torno das fronteiras marítimas da China, que ameaçam rotas marítimas vitais para os EUA. Mesmo assim, e diferente de Obama, Trump renegociará relações econômicas e comerciais com Pequim – vendo a China como grande potência econômica, não como país em desenvolvimento dedicada a proteger sua 'indústria nascente'. O realismo de Trump reflete a nova ordem econômica: a China é potência econômica mundial madura, altamente competitiva, que já ultrapassou os EUA em vários fronts da concorrência, e sem abrir mão dos subsídios e incentivos do próprio estado herdados da fase econômica anterior. Isso levou a desequilíbrios significativos.

Trump, o realista, reconhece que a China oferece grandes oportunidades para comércio e investimento, se os EUA puderem assegurar acordos reciprocamente interessantes, que levem a um equilíbrio mais favorável da balança comercial.

Trump não quer lançar uma 'guerra comercial' contra a China, mas ele tem de restaurar os EUA como grande nação 'exportadora', como condição indispensável para poder implementar sua agenda econômica doméstica. As negociações com os chineses serão muito difíceis, porque a elite importadora norte-americana opõe-se à agenda de Trump e está aliada a classe governante em Pequim, que é formidavelmente orientada para exportar.

Além disso, como a elite bancária de Wall Street está implorando a Pequim para entrar nos mercados financeiros da China, o setor financeiro é um aliado involuntário e instável às políticas pró-industriais de Trump.

Conclusão

Trump não é 'protecionista', nem se opõe ao 'livre comércio'. Essas 'acusações' que lhe fazem os Jornalistas de Lixo não têm qualquer base na realidade. Trump não se opõe às políticas de imperialismo econômico dos EUA no exterior. Mas Trump é um homem realista de mercado, que vê que a conquista militar é caríssima e, no contexto do mundo contemporâneo, proposição econômica que já se comprovou fracassada para os EUA. Ele vê que os EUA têm de afastar-se de uma economia predominantemente financeira e de importação, para se aproximar de ser economia de manufatura e exportação.

Trump vê a Rússia como potencial parceira econômica e aliada militar para pôr fim às guerras na Síria, no Iraque, no Afeganistão e na Ucrânia e, especialmente, para derrotar a ameaça terrorista do ISIS. E vê a China como poderosa concorrente econômica, que até hoje se tem beneficiado dos antiquados privilégios comerciais, e quer renegociar pactos comerciais alinhados com o atual real jogo do poder econômico.

Trump é um capitalista-nacionalista, um imperialista de mercado e um político realista, que está disposto a atropelar os direitos das mulheres, a legislação sobre mudanças climáticas, os tratados indígenas e os direitos dos imigrantes. Suas nomeações para o gabinete e seus colegas republicanos no Congresso são motivados por uma ideologia militarista mais próxima da doutrina Obama-Clinton do que pela nova agenda "América Primeiro". Ele cercou seu gabinete com imperialistas militares, expansionistas territoriais e fanáticos delirantes.

Quem vai vencer a curto ou a longo prazo ainda está para ser confirmado. O que é claro é que os liberais, partidários do Partido Democrata e defensores dos bandidos de rua camisas negras do pequeno Mussolini estarão ao lado do imperialistas e encontrarão muitos aliados dentro e em torno do regime Trump.

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