20 de novembro de 2016

Resenha de Saqueando a Grécia

Reflexões sobre o livro Looting Greece, por Kostas Pateras, membro da Seção de Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista da Grécia (KKE)

Kostas Pateras

Marxism Leninism Today


Looting Greece: A New Financial Imperialism Emerges [Saqueando a Grécia: Um novo Imperialialismo Financeiro Emerge] por Jack Rasmus. Atlanta, Georgia: Clarity Press, 2016. 312 pp.


Tradução / A prolongada crise capitalista na Grécia, as intensas lutas dos trabalhadores e do povo, as dramáticas negociações e contradições à volta da dívida grega (pela qual o povo grego não é responsável), o aparecimento do SYRIZA, tudo isso atraiu o interesse de analistas, comentadores e jornalistas, o que é natural, e, com certeza, dos trabalhadores comuns de todo o mundo.

Particularmente nos últimos dois anos, foi publicado um grande conjunto de livros que tentam analisar estes desenvolvimentos e apontar conclusões. Uma dessas tentativas é Looting Greece: A New Financial Imperialism Emerges, um recente livro de Jack Rasmus, professor de economia e política no St. Mary's College na Califórnia e colunista no Z Magazine e em counterpunch.

Através de um estudo da experiência grega, Rasmus afirma que estamos a lidar com uma nova espécie de “imperialismo”, significativamente diferente do imperialismo do passado. Sem dúvida, o livro contém uma grande quantidade de informação interessante sobre os sistemas bancário e financeiro dos EUA e da UE, assim como do curso das negociações da dívida grega.

Mas, numa observação mais próxima, tendo em conta a experiência inédita grega e uma quantidade de evidências, torna-se claro que este livro não consegue penetrar a essência dos acontecimentos. Uma cuidadosa leitura na perspetiva marxista identifica sérios problemas metodológicos que podem, independentemente da intenção, levar a uma desculpabilização de todo o sistema capitalista. Por isso, tentaremos contribuir para uma discussão mais alargada sobre a Grécia, focando-nos na discussão de alguns dos mais graves problemas de que, em nossa opinião, enferma este livro.

Para começar, teremos de sublinhar que, apesar de o livro estar repleto de estatísticas e informações, existem relativamente poucas referências e notas de rodapé. As referências que realmente existem têm fundamentalmente origem em fontes de língua inglesa. Isto tem significado, porque, infelizmente, existem sérias imprecisões quanto à situação política na Grécia. Devemos sublinhar alguns exemplos. Nas páginas 108, 115 e 116, o autor refere-se à questão Stravos Dimas, mas apresentando-o como indicado pela Nova Democracia para o parlamento como sucessor de A. Samaras (i.é, como Primeiro-ministro).

De fato, a ND propôs que Dimas fosse eleito para o parlamento como próximo Presidente da República. E devemos ter a noção de que isto é uma significativa imprecisão, porque o Primeiro-ministro é o chefe do governo na Grécia e o Presidente tem um papel institucional mais simbólico, de acordo com a Constituição. Além disso, em várias momentos (páginas 133, 146) sugere-se que o governo do SYRIZA-ANEL, entre outras coisas, aumentou o salário mínimo no primeiro dia da sua governação. Mas isto não tem correspondência com a realidade. O que realmente aconteceu foi umas vagas promessas de que isso aconteceria em 2016, se as condições o permitissem.

Contudo, são os problemas metodológicos da abordagem do dr. Rasmus os mais sérios e podem ser agrupados nas seguintes categorias: natureza da crise, situação internacional, o papel de cada classe na sociedade grega, a alteração da cena política e o SYRIZA e as questões relacionadas com o imperialismo/soberania. Gostaríamos de iniciar uma discussão mais geral dos assuntos mencionados, uma vez que pensamos serem cruciais para a compreensão, quer da trajetória dos acontecimentos na Grécia quer, na verdade, dos acontecimentos mundiais.

A natureza da crise 

O autor do livro apresenta a dívida estatal grega, e especialmente as formas de lidar com ela, expressa nos três memorandos, como sendo os principais fatores que levaram à prolongada crise. Contudo, será isto verdade? Na prática, esta posição enfatiza as questões secundárias relativas à reprodução do capital e confunde as consequências da crise com as suas causas. Vê os sintomas mas não a doença. 

A crise econômica na Grécia manifestou-se no quadro da crise econômica global simultânea que começou em 2007-2008 nos EUA e se estendeu depois à UE, à Rússia, ao Japão, etc., após um longo período de desenvolvimento capitalista que levou à agudização de todas as contradições do sistema explorador. Este fenômeno provocou distúrbios no funcionamento do sistema e na incapacidade de gerir as contradições que se expressaram na eclosão da crise econômica. Esta crise levou objetivamente à destruição de forças produtivas (força de trabalho, capital sob forma de dinheiro, mercadorias e instalações fixas).

É importante sublinhar que houve altos níveis de crescimento capitalista na Grécia, acima da taxa média da zona euro, durante cerca de 20 anos antes do início da crise. O PIB aumentou a uma taxa de 3% ao ano.

A riqueza produzida pelos trabalhadores multiplicou-se neste período. Mas foi a oligarquia financeira que ganhou com este processo, aumentando os seus lucros 28 vezes e acumulando uma grande massa de capital com a intensificação da taxa de exploração da classe operária, o aumento da mais-valia e do trabalho não pago.

Por outro lado, foram implementadas duras medidas antipopulares desde princípios dos anos 90, deterioraram-se as condições de vida da classe operária e das camadas populares e o desemprego situou-se em altos níveis, mesmo no período de crescimento capitalista.

Naturalmente, uma saída da crise a favor do capital pressupõe a destruição de forças produtivas, sobretudo a força de trabalho. Sem dúvida, uma seção do capital será destruída, seja pelo encerramento de empresas, seja pela fusão com outras companhias (centralização), para recomeçar um novo ciclo de reprodução alargada de capital.

A característica específica da crise econômica da Grécia é a combinação da profundidade com a duração muito prolongada (nos últimos 20 anos, a Argentina e o Brasil tiveram crises semelhantes, mas de menor duração, enquanto o Japão foi palco de uma longa crise, que levou ao prolongamento da estagnação e da qual ainda não saiu).

Na sua essência, a fase de crise na economia capitalista da Grécia, coisa inevitável no ciclo da reprodução alargada da economia capitalista, agravou-se com os problemas do desenvolvimento desigual no contexto da moeda única/zona euro, problemas que se manifestaram na agudização de problemas fiscais que vinham de trás (uma grande dívida do Estado na percentagem do PIB).

Também teve a ver com problemas já existentes na economia capitalista da Grécia, que não se prendem com erros no “modelo produtivo” que foi implementado, mas com questões de assimetria em termos de desenvolvimento da economia capitalista (p. ex., um grande e poderoso setor de marinha mercante, um setor industrial relativamente pequeno, especialmente na produção de máquinas). Esta desigualdade também caracteriza outras economias capitalistas, consoante a sua posição na pirâmide imperialista. O capitalismo monopolista na Grécia desenvolveu-se significativamente nos últimos 30 anos, independentemente dos retrocessos provocados pela recente crise. 

Tudo isto resultou no agravamento das condições do crédito nos “mercados de capitais” e nas posições negociais com as instituições da zona euro, da UE e do FMI (credores diretos da Grécia). Daqui resultou a necessidade de recapitalização dos bancos. A dívida é o resultado da intervenção do Estado capitalista no ciclo econômico, intervenção que tem como objetivo facilitar a reprodução alargada do capital social, usando fundos do Estado sob várias formas para reforçar o capital e a sua capacidade de investir.

Os vários governos burgueses gregos procuraram resolver os problemas da crise através da aceleração de “reformas” (p. ex., os três memorandos e as respetivas leis da sua aplicação), visando uma mais rápida concentração e centralização de capital, a liberalização dos mercados, a diminuição do preço da força de trabalho, através de uma maior redução dos salários e a revogação dos contratos coletivos de trabalho e a redução dos gastos públicos, que levou a sérios cortes nos salários e pensões de uma grande parte dos funcionários públicos e ao agravamento das suas condições de trabalho.

Dimensões internacionais

Na nossa opinião, o autor subestima e ignora algumas características importantes da dimensão internacional dos acontecimentos na Grécia.

Primeiro, devemos compreender a UE como uma aliança imperialista entre Estados, que promove os interesses dos monopólios europeus, definida pelo desenvolvimento desigual e pelas contradições no seio da burguesia e do capitalismo. Se isto está claro, daqui decorre que a zona euro não é simplesmente uma união monetária, antes faz parte deste quadro específico e, por conseguinte, os seus problemas não podem ser mitigados através de qualquer forma de união bancária a nível europeu ou por mecanismos de encorajamento de uma cooperação mais próxima dos bancos europeus.

Também se deveria compreender que as medidas que estão a ser aplicadas na Grécia são diretivas mais vastas da UE para todos os Estados-membros, independentemente de terem ou não assinado qualquer memorando. Tais medidas foram e estão a ser aplicadas no conjunto da UE. A crise na Grécia forneceu simplesmente a oportunidade para estas medidas a favor do capital serem tomadas (i. é, as medidas contidas nos três memorandos) num tempo mais curto. 

Quaisquer negociações levadas a cabo pelo governo grego (de qualquer tipo) para aliviar as atuais políticas restritivas, deveriam ser completamente correlacionadas com a luta mais geral entre setores do capital quanto ao futuro da zona euro e da UE e dela dependentes. Esta luta intensificou-se após a crise internacional global de 2009. Os pressupostos para a intensificação desta crise são as dificuldades da estabilização (salvaguarda) da recuperação da zona euro e as significativas desigualdades que se podem observar no seu centro (isto é, entre a Alemanha de um lado e a França e a Itália do outro. É a Alemanha que está a reforçar a sua posição de vantagem sobre estes dois países). 

É neste terreno objetivo que a França e a Itália estão a pressionar, no sentido do alívio da política monetária e fiscal e a assumir mais encargos com a gestão dos problemas dos Estados endividados da zona euro (através do Banco Central Europeu). O governo dos Estados Unidos apoia este caminho, pois está preocupado com o perigo da desestabilização da economia capitalista internacional e também quer reduzir a hegemonia da Alemanha na Europa. 

Porém, a concorrência interimperialista não se limita à simples questão da mudança da gestão econômica na zona euro. Devem ter-se em conta duas importantes contradições do sistema imperialista internacional e as relações entre elas, para se compreender hoje a trajetória dos confrontos no interior da UE:


  1. A contradição entre o campo Euro-Atlântico e o eixo China-Rússia, que se manifesta bastante intensamente nas regiões adjacentes da Grécia (vejam-se a Ucrânia, a Síria, etc.).
  2. A luta entre os EUA e a Alemanha para a hegemonia na Europa.

Dito isto, não se devia passar por cima do fato de todos os países capitalistas, independentemente das suas diferenças sobre a gestão da crise, concordarem com o imperativo político de restringir os direitos e conquistas da classe operária, diminuir os salários e atacar as relações de trabalho estáveis.

As classes na sociedade grega

Apesar de o autor se referir várias vezes à classe operária, a proprietários de barcos, etc., a Grécia não é referida como sendo um país capitalista como qualquer outro, isto é, como tendo uma estrutura de classes específica. Isto é especialmente visível na subestimação da posição e do papel da burguesia grega, o que tem óbvias consequências em termos da análise das políticas dos vários governos. A burguesia grega existe e tem uma estratégia, faz claras escolhas de classe e não é apenas uma presa das ambições de alguns poderes imperialistas estrangeiros (p. ex., o governo alemão).

Devemos também sublinhar que, enquanto se verificou uma redução na produção capitalista na Grécia no seu conjunto, há setores que se mantiveram estáveis e ainda outros que fortaleceram a sua posição (turismo, navegação). É de realçar que a “resistência” do governo do SYRIZA-ANEL ao terceiro memorando estava em grande medida relacionada com a imposição de impostos nos três mais dinâmicos setores do capital grego: a indústria farmacêutica, o turismo e a marinha mercante. Não devemos especialmente ignorar a força do capital dos proprietários dos navios mercantes (a frota grega da marinha mercante é a maior do mundo[1]), com supremacia na concorrência com relevantes setores do capital da Holanda, da Alemanha, etc.[2]. Também não se pode esquecer que uma significativa quantidade de capitais gregos está concentrada em bancos estrangeiros e empresas off-shore, à espera das condições favoráveis para reinvestir com o máximo lucro possível.

A burguesia nacional tem uma estratégia e, baseada na situação objetiva, ajusta/prioriza os fins principais que a linha negocial e as políticas econômicas do novo governo procuram servir. Essas prioridades são:


  1. a aquisição de fundos e empréstimos de Estado, para que a economia da Grécia pudesse superar a crise capitalista de forma rápida e estável. A Federação Helênica de Empresários, por exemplo, apoia a continuação da Grécia na zona euro e realça a importância dos financiamentos da UE (os novos Fundos Estruturais e de Investimentos, etc.).
  2. A realização de investimentos importantes que contribuam para promover o país, como o centro do transporte de energia e mercadorias de uma vasta região.
  3. A reconstrução da produção capitalista que mude também a atual estrutura da economia, para reforçar a orientação exportadora e a produção de novos bens e serviços mais inovadores e competitivos. Assim, dá-se prioridade à atração de investimentos para extração de hidorcarbonetos, logística, energia renovável, turismo especializado, setor alimentar (com orientação exportadora). Está a ser dada prioridade a setores da economia que funcionem como poderosos motores de crescimento capitalista, em conjunto com outras medidas para reforçar a marinha mercante.
  4. A promoção de medidas de “reestruturação”, que garantam o poder do trabalho barato e novas áreas de investimento rentável de capital (p. ex., relações de trabalho flexíveis, a abolição da natureza social do setor segurador, liberalização dos mercados, privatizações).
  5. A modernização da estrutura do financiamento e infraestruturas do Estado burguês, para contribuir mais efetivamente para os objetivos da classe dominante (p. ex., a melhoria da capacidade do controle fiscal do Estado). 
A promoção global destes objetivos, para relançar a competitividade dos grupos monopolistas nacionais, exigem que o país continue no quadro Euro-atlântico das alianças imperialistas.
A negociação da flexibilização das políticas monetária e fiscal restritivas da zona euro, o reforço das relações bilaterais com a Rússia e com a China, a participação ativa nos planos dos Estados Unidos e de Israel (vejam-se as várias iniciativas do governo do SYRIZA-ANEL) não põem em causa os compromissos básicos que decorrem da participação do país (e, de fato, de qualquer país) na UE e na OTAN.

Pelo contrário, a participação da Grécia na UE é, em grande medida, uma pré-condição para a implementação dos planos de investimentos específicos da China e da Rússia, no que se refere aos transportes de mercadorias e energia para o mercado europeu.

Naturalmente, o acordo com o acima mencionado quadro estratégico não nega a concorrência e as diferenças que existem entre setores do capital monopolista nacional, quanto à atribuição de prioridades nas relações do país com as várias alianças imperialistas.

A reforma da cena política e o SYRIZA 

Na nossa opinião, o livro falha a interpretação dos desenvolvimentos políticos na Grécia, na sua globalidade e complexidade. Por exemplo, apesar de todas as críticas ao SYRIZA, especialmente no que se refere ao rumo das negociações, não evidencia a sua natureza real. E isto acontece porque o dr. Rasmus não avalia completa e objetivamente a via pela qual a crise capitalista leva à reforma do sistema plítico burguês e o aparecimento do SYRIZA como parte desse processo. 

Na verdade, esta reforma ocorreu no auge da crise económica e das suas consequências. Este processo assumiu duas características básicas, em 2012 (mais propriamente durante as duas eleições): a) o reagrupamento da social-democracia (cujo prestígio entre as camadas populares tinha sido muito abalado devido à sua longa participação nos governos antitrabalhadores) através de um novo veículo político, o SYRIZA; e b) o aparecimento do Aurora Dourada, um partido nazi-fascista, como força parlamentar. Nestas condições, o SYRIZA passou de um pequeno partido oportunista a veículo do novo processo socialdemocrata, acelerado pela “deserção” de algumas secções do PASOK, no verão de 2012. É significativo o facto de 1/3 dos mais altos funcionários do SYRIZA terem feito a sua carreira no PASOK. 

Há uma tentativa em curso, hoje, para captar o apoio do povo aos planos antipopulares da burguesia, especialmente depois do aparecimento do SYRIZA como o maior partido parlamentar e a implementação da coligação governamental com o ANEL (um pequeno partido de direita com posições populistas e nacionalistas). Pretenderam utilizar as esperanças populares (ou, pelo menos, a sua tolerância) com o “primeiro governo de esquerda” que prometeu levar a cabo duras negociações com a zona euro. Mesmo depois de ter aceitado os termos e condições antipopulares do 3º memorando, o SYRIZA apresenta-se como um lutador por medidas compensatórias favoráveis ao povo. Houve também um esforço para disseminar a ideia de que o SYRIZA é diferente da corrente neoliberal burguesa, porque não deixa tudo entregue à arbitrariedade dos mercados, e defende o papel do Estado que, supostamente, é capaz combinar a promoção da competitividade, o empreendedorismo, a reconstrução da produção com a gestão das consequências da “crise humanitária”, isto é, com a pobreza extrema e a indigência. 

Este é o quadro no qual as políticas, as manobras e os recuos do SYRIZA devem ser avaliados – não como erros, mas como escolhas de classe. 

De fato, está claro que nesta fase um partido social-democrata pode fazer melhor o trabalho sujo do capital do que outros partidos burgueses. Poderíamos acrescentar aqui que é necessário que no estrangeiro se compreenda melhor que o SYRIZA, na sua essência, continua as políticas antipopulares dos anteriores governos da liberal ND e do social-democrata PASOK, isto é, as mudanças negativas nas relações de trabalho, os baixos salários, as dramáticas reduçãos das pensões, os cortes na saúde e na educação, o uso da repressão contra as manifestações de trabalhadores, o comprometimento do país nos planos da NATO para a região, o aprofundamento das relações militares, econômicas e políticas com Israel, etc. E isto já acontecia antes da assinatura do terceiro memorando.

Questões acerca do imperialismo e da soberania 

Nos últimos capítulos do livro, o Drº Rasmus desenvolve uma abordagem teórica, referindo a existência de “protetorados” econômicos, problemas relacionados com a soberania dos Estados, a um novo imperialismo que usa os mecanismos financeiros para saquear nações inteiras. Mas, ao fazê-lo, não atribui a verdadeira importância à análise inovadora de Lênin – o imperialismo é o capitalismo numa era histórica que começou nos finais do século XIX e inícios do século XX, que pode ser resumido como o estado monopolista do capitalismo com cinco características econômicas básicas (que são descritas no seu trabalho com o mesmo nome).

Claramente, em todos os períodos históricos, alguns dos mais poderosos Estados capitalistas destacam-se. Contudo, dão-se constantes mudanças nas relações de forças entre eles devido ao desenvolvimento desigual, o que intensifica os antagonismos no sistema imperialista.

Hoje existem cerca de 200 entidades estatais separadas. Formou-se uma rede de relações de interdependência desiguais entre todos os Estados capitalistas no sistema imperialista. Esta correlação de forças entre os Estados capitalistas encontra-se num contínuo fluxo. Poderosos Estados credores desde o século XX tornaram-se em Estados devedores (veja-se as grandes dívidas de Estado dos EUA, França e Itália hoje) enquanto a China é hoje um Estado credor. A alteração de poder na relação da Inglaterra com a Índia do século XX para o século XXI é o exemplo mais característico.
Portanto, a formação da “aristocracia operária” não se resume a uma mão cheia de poderosos Estados capitalistas. A expansão e o aprofundamento das relações de produção capitalistas no sistema imperialista contemporâneo cria o potencial de emergência de uma “aristocracia operária” na maioria dos Estados capitalistas.

Consequentemente, a fratura da unidade da classe operária e a penetração da ideologia pequeno-burguesa no movimento operário adquire uma natureza mais geral na nossa época. Além disso, a própria burguesia escolhe o caminho de ceder direitos soberanos, etc., por exemplo, no contexto de uma aliança imperialista, como a UE ou a NATO, ou mesmo no contexto das relações entre Estados, para assegurar os interesses de classe mais gerais, para encontrar pilares em que se apoie para perpetuar o seu domínio. Portanto, daqui decorre que os problemas da “soberania” têm uma raiz de classe e a sua resolução relaciona-se com a eliminação das suas causas, isto é, o derrubamento do poder burguês.

A complexidade do funcionamento da economia capitalista de hoje não pode ser compreendida de modo global e correto se nos limitamos ao papel e à importância dos Estados no topo da pirâmide imperialista.

Falar apenas de “colônias”, “protetorados”, “centro-periferia” revela uma compreensão mecanicista e unilateral da questão da dependência, leva ao branqueamento das burguesias de muitos países e à questão do desenvolvimento de um capitalismo justo utópico, fora do quadro do imperialismo. Ao assumir uma perspetiva não classista do desenvolvimento, o autor, no fundo, propõe a saída da zona euro e até da UE para retomar o “crescimento” econômico. Mas de que tipo de crescimento estamos a falar e quem vai beneficiar com ele? Como atrás dissemos, os setores do turismo e da marinha mercante tiveram um crescimento significativo nos anos mais recentes, apesar da crise. Mas isso foi crescimento para os capitalistas e não para os trabalhadores destes setores, que estão a viver pela primeira vez a experiência de todas as medidas antitrabalhadores: cortes nos salários, abolição dos direitos fundamentais, flexibilidade, intensificação dos ritmos de trabalho, subemprego e desemprego.

O autor também desvaloriza a importância da luta dos trabalhadores e do povo nos anos mais recentes que, apesar da sua fraqueza e da sua insuficiência, foi capaz de impedir e atrasar a implementação das medidas. Estamos a falar de lutas multifacetadas que não pararam: dezenas de greves gerais e centenas de outra greves setoriais e nos locais de trabalho, manifestações, bloqueios de estradas pelos agricultores, ocupação de edifícios governamentais e de empresas, manifestações com os comunistas na linha da frente. 

O aparecimento da PAME e o desenvolvimento da sua atividade, o surgimento de novas formações de classe de pequenos e médios produtores agrícolas e de trabalhadores por conta própria e a formação de um quadro de reivindicações comuns representam um grande fortalecimento do movimento popular. 

A crise econômica demonstrou muito claramente a profundidade das contradições e dificuldades do capitalismo. Clarificou o facto de que o próprio crescimento capitalista prepara o terreno para as crises, a destruição das forças produtivas e o crescimento de mais elevados níveis de desemprego, mas também da expansão dos fenômenos de miséria e de pobreza, da degradação contínua das necessidades da população, da prostituição, das drogas, etc. E leva também a uma renovada intensificação da intimidação por parte do patronato e do Estado, à agudização do desenvolvimento desigual e ao desencadeamento de guerras. 

O desenvolvimento e a significativa experiência de duras lutas de classe neste período mostrou ainda mais claramente a questão do reagrupamento do movimento operário, a necessidade de fortalecimento da linha de luta antimonopolista e anticapitalista e, ao mesmo tempo, o aumento do nível de organização e das lutas para reforçar a luta conjunta e a aliança com os agricultores pobres e médios e os trabalhadores por conta própria contra os monopólios, para formar uma Aliança Popular numa base social, que contenha a proposta política da luta pelo poder dos trabalhadores e do povo. 

Deste ponto de vista, a falta de referências neste livro a esta experiência acumulada, no mínimo, levanta algumas questões e preocupações. 

Por fim, mas não menos importante, neste quadro, alguém que queira estudar a realidade grega não pode ignorar, independentemente do grau de acordo ou desacordo com o KKE, a sua atividade e a seriedade do trabalho científico e teórico[3] levado a cabo por si nos últimos anos, largamente aceite como sendo um dos fatores que inspiram e impulsionam as lutas organizadas pela classe operária e as camadas populares. 

Muitas outras questões e matérias controversas são abordadas neste livro, mas limitamo-nos à discussão de algumas delas, que pensamos serem de maior importância geral para a luta dos trabalhadores da Grécia e de outros países. A discussão vai certamente continuar e, deste ponto de vista, esperamos contribuir para a clarificação de questões e abordagens para o desenvolvimento de um quadro metodológico que possa dotar o movimento operário de outros países da compreensão e da utilização da experiência e das lições que decorrem da experiência grega.

Notas:

1. Hellas: Shipping Fleet’s Tonnage up by 22% as Greeks’ Share of World’s Fleet Rises to 19.63%

2. PETROFIN RESEARCH © – Estatísticas da frota grega de outubro de 2015, baseada em dados de setembro de 2015.

DWT [capacidade de carga], Tonelagem média por navio DWT, e o número de navios gregos são mostrados numa escala de base 100 para o ano 2001. Os números atuais também estão marcados por ano.

I. O número total dos navios mercantes gregos subiu 202 unidades, de 4707 para 4909.

II. A tonelagem também subiu para 24 675 319. Tonelagem total: 328 254 495 toneladas DWT, um aumento de 7, 52%.

3. As teses do XIX Congresso do Partido constituem um bom exemplo das análises detalhadas do KKE, no que respeita quer à economia, quer à estrutura social e às tendências políticas da Grécia e de âmbito internacional. http://interold.kke.gr/News/news2013/2013-03-05-thesis.html.

III. A idade também diminuiu de novo, de 13,26 para 12,73 em 2014, 14,05 em 2013 e 14,7 em 2012.

IV. Usando um abaixamento de 20 000 DWT, a idade média da frota grega caiu de 9,14 para 8,71 anos em 2014 e 9,83 em 2013.

V. A grande frota de carga (mais de 20 000 toneladas de capacidade de carga) aumentou uns significativos 163 navios, a sua idade baixou para 8,6 anos, a tonelagem subiu para 19,5 DWT e perdeu 6 companhias.

VI. A grande frota de petroleiros (navios de mais de 20 000 toneladas DWT) mostra um pequeno aumento na tonelagem, 220,751 toneladas DWT e um muito pequeno aumento em número de unidades, apenas 1. Contabiliza-se menos 1 companhia, mas houve uma diminuição na idade, o que mostra um esforço de renovação da frota.

VII. A grande frota de contentores (navios de mais de 20 000 toneladas DWT) é ainda um pouco mais jovem, apesar de este ser um setor que mostra uma lenta taxa de renovação. Aumentou umas significativas 2,9 toneladas DWT e é ainda um dos poucos setores que mostram um aumento do número de companhias em 4 unidades.

VIII. No que se refere ao setor LPG [gás de petróleo liquefeito], (mais de 20 000 toneladas DWT) o número cresceu 3 unidades e a capacidade de carga subiu ligeiramente, 128 813 toneladas DWT, e a sua idade também subiu para 13,7.

IX. A frota de LNG [gás natural liquefeito] expandiu-se significativamente, com um aumento de 24 navios a acrescentar à anterior grande frota de 50 unidades.

X. A frota grega continua a expandir-se de modo ainda mais consolidado, ao mesmo tempo que diminui o número de companhias.


TABLE 1 Year200120022003200420052006200720082009201020112012201320142015
Number of vessels in the Greek-based, Greek-owned fleet411041424085418439704164434645454763465547144577457347074909
Change from previous year32-5799-214194182199218-10859-137-4134202
Petrofin Research © October 2015

TABLE 2 YEARDWTAVERAGE AGEAVERAGE VESSEL DWT
2001150,978,56521.4136,734
2002166,931,74820.5840,302
2003171,448,13320.5141,970
2004184,288,91720.1244,046
2005176,411,75019.944,436
2006194,486,45519.1446,707
2007208,001,15918.747,860
2008222,368,33118.448,926
2009237,288,21617.649,820
2010242,802,09216.452,160
2011256,174,04115.9254,343
2012263,635,42014.757,600
2013281,467,98314.05561,550
2014303,579,17613.25264,495
2015328,254,49512.72966,868

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