11 de janeiro de 2017

Trump, Rússia, e o retorno do bode expiatório, uma tradição americana atemporal

Nossa tendência bipartidária de culpar os outros por nossas próprias falhas será a causa do declínio americano.

Patrick Lawrence

The Nation

James Clapper, Diretor da Inteligência Nacional dos EUA, em Washington, em 26 de fevereiro de 2015, prestes a entregar a avaliação anual pelas agências de inteligência dos principais perigos que o país enfrenta. (AP Photo / dpa, J. Scott Applewhite)

Tradução / Agora que o relatório dos chefes de inteligência sobre a suposta intromissão russa nas eleições de 2016 está disponível de forma expurgada - e não temos motivos para supor que a versão classificada seja mais substancial do que o lixo tornado público na última sexta-feira - é hora de fazer a coisa mais difícil: dar um passo para trás e ter um olhar frio, duro para nós mesmos. O que encontramos, para colocar a minha conclusão em primeiro lugar, é que a maioria de nós vai fazer de tudo agora para evitar ter um olhar frio, duro para nós mesmos e onde nos encontramos.

Isso é comumente feito por meio do bode expiatório. O caso russo é extremo, mas não deve ser visto isoladamente.

É verdade que os americanos hoje são um povo dividido em muitos aspectos. Mas não exageremos, porque somos extraordinariamente unidos quando se trata de culpar terceiros pela nossa tendência de culpar os outros por nossas dificuldades, falhas e fracassos, dos quais há hoje grande sortimento – e são obra exclusivamente nossa. É tentador descrever a anatomia do atual surto de bode-expiatorismo conforme as paixões partidárias – que Partido abusa de quem –, mas não adianta nada, porque quase todo mundo labuta para escapar de fracassos que, todos eles, são nossos.

Donald Trump (com apoio de muitos Democratas) mete-se a exercitar uma sinofobia tediosamente reminiscente de contatos antigos, já velhos de mais de um século. Por outro lado, por todos os lados veem-se Democratas (com apoio de muitos Republicanos) vivendo de repetir que a Rússia ataca os próprios alicerces de nossa república.

As ofensas que Trump dirige à China – que interpreto como inconscientemente racistas – ainda não foram institucionalizadas, mas logo o serão. O relatório de inteligência divulgado na semana passada sobre a Rússia foi tão espantosamente farsesco – mas falso do que até os céticos mais durões poderiam ter previsto. E o mesmo se deve dizer das descobertas ainda mais falsas de que a Rússia possuiria material que comprometeria Trump. Mas nem por isso é hora para relaxar. A russofobia é política de Estado. Tão velha nos EUA que assim continuará, a menos que Trump consiga pôr um ponto final nesse projeto.

Russofobia, sinofobia, a sempre disponível islamofobia – o hábito de salvar-se pelo sacrifício alheio –, o vício do bode expiatório é tema sobre o qual vale a plena refletir como um dos tropos nacionais estabelecidos. E tem longa história. O que se pode aprender dele agora, quando reaparece já a caminho de ganhar peso extraordinário? O que nos diz sobre quem somos em 2017?

***

O relatório apresentado semana passada por James Clapper, Michael Rogers, John Brennan e James Comey é tão absolutamente sem substância que até o The New York Times já deu um primeiro meio passo para se desmentir e afastar-se dele. William Binney, um dos valorosos whistleblowers que temos a sorte de ter entre nós, pelos esforços que fazem para manter a sanidade das discussões, descreveu o tal relatório em poucas e claras palavras (numa entrevista ao temido RT): "O relatório informa que as agências de inteligência dos EUA desaprenderam toda a disciplina profissional para tudo que tenha a ver com obter e fornecer informação de inteligência. O relatório é piada."

É — um mau. Como alguns de nós já suspeitamos há muito tempo, as agências de inteligência traficam palpites e pressuposições – sempre interessadas, eu diria, politicamente convenientes. Mas houve quem examinasse detidamente o relatório, o que é louvável. São 25 páginas de conversa rigorosamente fiada, daquela que os enganadores e simuladores oficiais usam quando querem apresentar o nada, como se algo fosse. Chega-se à conclusão que Clapper, Brennan, Comey e Rogers se impuseram indevidamente sobre/contra o processo político nos EUA. Isso posto, fica-se a conjecturar por que conseguiram ganhar o controle sobre tanto tempo e tanta atenção de tantos norte-americanos – invadindo e ocupando muito comprometedoramente nosso espaço público como fizeram –, simplesmente para induzir mais um caso de semi-histeria familiar a todos que estudem história dos Estados Unidos. Melhor que ninguém esqueça, pelo menos, que a maioria não esqueça, que James Clapper cometeu crime de perjúrio quando, há quatro anos que se completam no próximo mês de março, negou que a Agência de Segurança Nacional mantivesse extensos programas para coletar dados. Por que tantos norte-americanos tão rapidamente se põem em perfeita disposição para acreditar num espião comprometido e, além do mais, criminoso? Boas perguntas, todas essas.

Há conclusões imediatas, de curto prazo, que se podem extrair do modo como tudo isso persiste. Adiante, três das minhas.

Primeiro, o bla-bla-blá sem fim sobre a Rússia ter dado a eleição a Trump é conversa fiada, que só se explica porque clintonitos estão precisados de psicoterapia. O frenesi de bode expiatorio russofóbico nos últimos dias do governo de Obama tem a ver com assunto muito diferente e mais sério: reflete o pânico disparado pela proposta trazida por Trump, de converter as relações com Moscou, da mais irracional hostilidade, em cooperação sóbria, equilibrada. O auge do paroxismo aí é medida de o quanto numerosos eleitores vivem em estado de dependência terminal de altíssimo grau de tensão belicista, precisados de viver sempre à beira da guerra com a Rússia. Agora, todos já sabemos: elementos dentro do Pentágono, a CIA, o aparato da segurança nacional, a burocracia da OTAN e empresas e empresários fornecedores da Defesa que partirão para tudo-ou-nada para impedir qualquer tipo de neo-détente que Trump possa ter em mente. Essa gente precisa de mundo hostil, e nos caberá viver nele até que número suficientemente grande de nós mesmos decidamos por outra via.

As implicações aqui, como deve ser claro para todos, são graves. Não é tempo para choradeiras adolescentes; temos de esperar que Trump não ceda e vença essa luta feroz, resultados que, hoje, não são favas contadas.

Em segundo lugar, o mau uso da inteligência nacional para objetivos políticos sempre foi evidente no mínimo desde que os irmãos Dulles, John Foster e Allen, dirigiram o Departamento de Estado e a CIA, respectivamente, nos anos Eisenhower. Embora o problema tenha piorado, como o comprovam a mentira de que haveria Armas de Destruição em Massa no Iraque, a traição e a perversão do que deve ser inteligência limpa acontece sempre que os informes são endereçados à Casa Branca. Mas que me lembre, nunca antes se viram tantas e tão completas mentiras produzidas e promovidas por funcionários da inteligência quantas se veem hoje. Os EUA estão na grave situação de ter de aprender o que significa para nosso governo eleito seguir adiante sem qualquer inteligência aproveitável, não comprometida, sobre o mundo além de nossas fronteiras. Não resta ninguém que ofereça ao presidente inteligência que preste, como Binney nos preveniu que aconteceria.

Por fim, o foco obcecado, irracional no relatório de inteligência, sobre RT, o conhecido canal russo de TV, traz mensagem salutar: o longevo monopólio do Ocidente sobre o que se podia chamar de "narrativa global" está em colapso. Leiam as passagens do relatório sobre isso: impossível não perceber o tom lamurioso, defensivo. Rejeitar o relatório, método e conclusões, é nesse contexto uma contribuição a favor de tendência positiva – positiva porque nos posicionamos melhor se sabemos como outros veem as coisas. Para anotar: RT é emissora financiada pelo estado, como o modelo da BBC, partilha com a BBC os problemas que em geral vêm associados à estrutura de propriedade. Os executivos da BBC insistem que a Beeb é emissora pública, não emissora estatal, mas é falsa distinção. Ano passado, por exemplo, o Serviço Mundial da BBC recebeu do Ministério da Defesa do Reino Unido uma parte não desprezível de seu orçamento.

Lição ainda maior, ainda mais assustadora, que extraio dos eventos da semana passada é a seguinte: as tarefas de nosso tempo são grandes demais para serem administradas para os encarregados de nos guiar. Já disse muitas vezes que declínio não é fatalidade. Declínio é escolha. Recusar-se a aceitar e preparar-se para cumprir as obrigações que o século 21 impõe é como escolher o declínio. E aí estamos nós, assistindo a esses que hoje escolhem o declínio, em nosso nome. Gente como James Clapper chegou muito perto de jogar os EUA por terra, ao longo da Guerra Fria. Agora, outra vez, lá estamos nós, quase no chão.

***

Há um século, um pregador milenarista, G.G. Rupert, que viajava de paróquia em paróquia para pregar no Meio Oeste, publicou um livro que intitulou The Yellow Peril [O perigo amarelo]. Autor estúpido e tese estúpida, Rupert não inventou a paranoia norte-americana sobre a invasão de hordas asiáticas (entre as quais ele pôs os russos). Mas foi quem lhe deu a demão de verniz 'bíblico' que a tornaria duradoura e resistente. O livro teve muitas edições e enriqueceu Rupert.

Pensei em Rupert de tempos em tempos quando vivi em Tóquio, ao tempo em que o Japão estava sendo destratado nos anos 1980, e novamente pensei em Rupert semana passada, quando Trump nomeou Robert Lighthizer para o cargo de seu Representante Comercial Especial, RCE. Lighthizer soma-se a uma equipe "de fóbicos que ocupa todo o setor comercial do novo governo, e é notório e duro odiador da Ásia há muitas décadas." Atacou ferozmente os japoneses como vice RCE nos anos Reagan; agora aponta as mesmas armas contra os chineses.

Ainda é cedo demais para dizer se o pessoal comercial de Trump meterá os pés pelas mãos nos contatos com os chineses, mas pode acontecer; e o estrago pode ser muito grande. Empresas norte-americanas acreditaram e meteram a cara no velho mito dos "Two billion armpits" [dois bilhões de sovacos], como foi apelidado o imenso imaginado mercado chinês, quando Deng Xiaoping abriu a China ao capital ocidental nos anos 1980. A China escalaria a escada do desenvolvimento com exportações enquanto o mercado doméstico amadurecia, e os EUA lá estariam para colher sua parte. As empresas americanas agora afundam aproximadamente US $ 75 bilhões por ano em investimentos fixos no continente.

Agora as relações econômicas trans-Pacífico causam problemas: Ruas Principais desertas, nas cidades dos EUA, fábricas ociosas, uma subclasse de trabalhadores qualificados reduzidos a "atirar caixas," como dizem nas empresas FedEx e UPS. Balança comercial desequilibrada ($366 bilhões em 2015) e a China proprietária de imensos $1,22 trilhões da dívida soberana dos EUA. E sim, é claro: esses problemas são culpa da China e a China deve corrigi-los.

Washington já tentou esse truque antes, sem qualquer resultado proveitoso, mas Washington não quer ou lembrar ou aprender. No início da Guerra Fria nos últimos anos 1940, o Japão foi substancialmente encorajado a atapetar com exportações seu caminho de volta à vida, vendendo tudo que pudesse a consumidores norte-americanos. Como sequência da determinação do governo Nixon em explorar a divisão sino-soviética, os EUA seguiram uma variante daquela mesma estratégia na China, agora com as empresas norte-americanas tomando fatia ainda maior do que tomaram durante os anos do "milagre" japonês do pós-guerra. Em todos esses casos, lá se foram algumas décadas antes de essas políticas – ambas impulsionadas pela geopolítica, não por economia confiável – começassem a dar frutos. Em cada caso, os Estados Unidos rapidamente se entregaram ao jogo da culpa.

Enquanto o presidente eleito se coloca quase corajosamente contra o bode expiatório dos russos, ele gira seu olhar para chocar os chineses. A preocupação fundamental entre aqueles que prestam atenção à política da Ásia é que Trump e seus profissionais não sabem ler o tempo no relógio da história.

As relações sino-americanas não têm, no momento, a mesma urgência que a relação com a Rússia. Mas isso poderia mudar. Na minha opinião, Trump não chegará precisamente a lugar nenhum enquanto persegue os chineses do ponto de vista econômico, simplesmente porque não há para onde ir: uma interdependência densa pode ser tocada nas margens, mas não pode ser fundamentalmente alterada. O perigo, simplesmente, é que as frustrações inevitáveis ​​do Team Trump fazem com que o atrito comercial se espalhe em questões de segurança que já são muito pesadas para ficarmos tranquilos.

Na minha opinião, o bode expiatório transpacífico de Trump é fácil de explicar. O extenso prejuízo causado pela nossa sujeição à economia neoliberal desde Jimmy Carter começou a seguir as modas da Escola de Chicago na década de 1970, agora atinge um ponto crítico e insustentável. Não tendo conseguido distinguir entre uma economia de mercado e uma sociedade de mercado, todos os remédios sérios para os males resultantes são agora rejeitados como "irrealistas". Não podemos, em suma, imaginar um futuro diferente do presente; Não podemos pensar de novo. E assim, sem pensar, pegamos outro país para usar como bode expiatório de problemas que os EUA produzimos para nós mesmos ao longo de muitos anos.

Não me lembro de outro momento em que tanto do que é carga nossa tenha sido tão levianamente jogado às costas de outros. A democracia norte-americana naufraga, a economia norte-americana naufraga cada vez mais rapidamente, sem encontrar jamais qualquer equilíbrio saudável. Eu não consigo imaginar por que alguém iria supor que não há um preço pesado a ser pago por vacilar a partir desses problemas, os nossos problemas caseiros.

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