16 de fevereiro de 2017

Antes de Trump, a mídia adorava “fatos alternativos”

Ted Rall

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A maioria dos meios de comunicação está em guerra com Donald Trump, e com razão. Primeiro, os jornalistas deveriam sempre estar em guerra com os governos que acompanham. Jornalismo sem controvérsia não é jornalismo – é estenografia. Segundo, a recusa dos funcionários da administração Trump em fingir, pelo menos, estarem interessados na verdade, imortalizada pelo notável elogio de Kellyanne Conways aos “fatos alternativos”, exige um desprezo vigoroso.

Mas não esqueçamos uma verdade inconveniente. Antes de Trump, os cães de guarda da democracia eram, na sua maioria, cãezinhos de estimação, lambendo docilmente as mãos empapadas de sangue dos que os alimentavam: as elites políticas e econômicas da América.

A negligência dos meios de comunicação tem sido tão constante e tão generalizada que é difícil saber por onde começar. Pelas páginas de opinião e painéis de notícias por cabo que mostram onde ninguém, à esquerda de Hillary Clinton, é tolerado? Pelo abandono da cobertura dos acontecimentos locais? Pelas convulsões sociais e econômicas ignoradas, porque afetam apenas os pobres e a classe média a caminho da pobreza: o declínio do Rust Belt, as epidemias de anfetaminas e de ópio, a substituição de bons empregos por maus, as taxas falsificadas do desemprego e da inflação?

Os editores e produtores têm muitos pecados. Na minha opinião, contudo, as maiores mentiras são as de omissão, que deixam importantes fatos no desconhecimento do público durante anos e mesmo décadas, resultam em muitas mortes, e deixam os perpetradores fora do alcance da lei e da história.

A imprensa de referência, como o The New York Times, começou finalmente a revelar que o presidente mentiu quando ele, como sabemos, mentiu – em vez de usar alguma palavra ambígua como “errou” ou de fazer a contra citação de um político da oposição. Está, até, a usar a palavra “tortura” para descrever a tortura (em vez de “técnicas avançadas de interrogatório”). Mas isto é novo, e acontece apenas porque a imprensa é uma corporação liberal e Trump é a blogosfera disparatada mais à direita. Deem-lhes outro Obama e voltarão a dar o mesmo às pessoas.

O elevado número de vítimas da guerra mostra a dimensão assombrosa das falhas morais da imprensa que, dia após dia, se esquece de informar os seus leitores das verdades mais importantes que, normalmente, são suprimidas à partida.

Durante mais de uma década, os cidadãos americanos pagaram bom dinheiro por jornais que era suposto trazerem-lhes notícias do Vietnã. O que esses jornais nunca lhes disseram foi que a razão que Lyndon B. Johnson lhes deu para entrar na Guerra – o ataque aos barcos americanos no Golfo de Tonquim, em 1964 –, nunca aconteceu. Isto não é controverso; historiadores liberais e conservadores concordam que a guerra foi vendida com notícias falsas.

Imaginem se os meios de comunicação tivessem começado cada notícia sobre o Vietnã com uma referência, das do tipo da era Trump, à grande mentira de Jonhson? “Continuando um ataque não provocado ao Vietnã do Norte, os bombardeiros U.S. b-52 semeiam a morte em Hanói sem razão?”. Significativamente, menos de 58.000 americanos e dois milhões de vietnamitas devem ter morrido,

Depois da derrota dos Estados Unidos – que descreveram mais como uma retirada, do que como aquilo que realmente aconteceu – jornalistas e editores medrosos e preguiçosos sustentaram a mentira de que os veteranos regressados eram enxovalhados, insultados como “assassinos de crianças” e de forma geral destratados por hippies sujos que os esperavam nos aeroportos. Isso nunca aconteceu. Pelo contrário, o movimento contra a guerra apoiava os veteranos, providenciava-lhes clínicas e outras instalações para os ajudar. Acontece que, o mito do hippie que cuspia sobre os veteranos começou com o filme “Rambo”, de 1982, quando a personagem de Sylvester Stallone o refere – provavelmente como uma metáfora.

O governo talibã do Afeganistão não teve nada a ver com o 11/9, mas poucos americanos sabem disso. Mesmo os soldados para lá enviados para lutar, matar e morrer pensavam que estavam a vingar o ataque ao World Trade Center – e porque não? Graças aos fazedores de notícias falsas da era Bush, poucos dos melhores e mais informados americanos sabem que Ossama bin Laden já estava no Paquistão em 11 de setembro, que os talibãs se ofereceram para o prender e o entregar se os EUA apresentassem qualquer evidência da sua culpa, que a Al Qaeda tinha menos de 100 membros no Afeganistão (a grande maioria estava no Paquistão, assim como os infames campos de treinamento) e que não havia um único afegão entre os 19 sequestradores.

Ter-se-ia o Afeganistão tornado a maior guerra dos EUA se nas manchetes das notícias se lesse algo como “Bush promete perseguir Bin Laden e a Al Qaeda no país onde não estão e envia armas e dinheiro para o país onde estão”? Duvidoso.

Que os meios de comunicação falharam no seu trabalho durante o decorrer da Guerra do Iraque está bem documentado. Além disso, mesmo depois de as armas de destruição em massa não apareceram naquele país após o termos destruído, os meios de comunicação nunca usaram o padrão que agora aplicam a Trump, por exemplo: “Na continuação do injustificado assalto sobre iraquianos inocentes, os fuzileiros preparam-se para a batalha de Fallujah”. Falando sobre notícias falsas: mesmo que Saddam Hussein tivesse tido armas de destruição em massa, a falta de mísseis balísticos de longo alcance no Iraque significava que isso nunca poderia representar uma ameaça para os Estados Unidos.

Abundam os fatos alternativos no mandato Obama.

Obama lançou centenas de ataques de drones contra o Paquistão, Afeganistão, Somália, Iêmen e outros, que mataram milhares de pessoas. Estudos mostraram que 49 das 50 pessoas mortas eram inocentes e que a outra pertencia à guerrilha local, que odiava os seus próprios governantes; não eram jihadistas antiamericanos que teriam vindo para nos matar. Mas, história após história sobre assassinatos efetuados pelos drones, referiam-se às vítimas como “militantes” ou mesmo “terroristas”, sem um pingo de verdade. Se deixar o seu presidente matar pessoas, apenas por diversão, o mínimo que os meios de comunicação deveriam fazer, como fiscalizadores, era chamá-lo pelo que de fato é: “Presidente assassina mais 14 muçulmanos, por diversão”. Sabia que os militares chamam “squirters” [literalmente “esguichadores” ou “pistolas de água”] aos drones – por causa das suas cabeças, percebe...?

Nenhum comentário:

Postar um comentário