15 de fevereiro de 2017

Flynn, Rússia e o mundo dos pensamentos conspiratórios

Melvin Goodman

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O ex-conselheiro nacional de segurança, Michael Flynn, tem uma reputação de pensamentos conspiratórios merecida. Presumivelmente, ele assumirá que a comunidade de inteligência dos EUA, incluindo a Agência Central de Inteligência (CIA), o Bureau Federal de Investigação (FBI) e o ex-diretor da Inteligência Nacional, conduziram uma campanha para forçar sua saída da administração Trump. Ironicamente, o Kremlin, que viveu historicamente em um mundo de pensamentos conspiratórios, vê a saída de Flynn como parte de uma campanha do establishment dos EUA para prevenir qualquer aprimoramento nas relações Rússia-EUA.

Nesse universo conspiratório, é importante reconhecer que Flynn era, provavelmente, o indivíduo menos qualificado e mais questionável nos 70 anos de história do Conselho Nacional de Segurança (NSC) a ser selecionado como o às do presidente para as políticas de segurança nacional. Seu comportamento durante a campanha presidencial não foi profissional e representou uma fonte de vergonha ao establishment militar e ao Partido Republicano. Sua aposentadoria do exército há muitos anos atrás foi esquematizada pela Casa Branca e pela Junta de Chefes de Gabinete por causa de sua administração falha frente à Agência de Defesa e Inteligência. Ele tinha uma reputação de polêmico, e muitos de seus pronunciamentos lá foram definidos como “Fatos do Flynn” por não terem embasamento em fatos reais.

As mentiras de Flynn ao vice-presidente Pence tornaram inevitável sua resignação. Donald Trump já estava impaciente com Flynn porque o general, que era pouco fundamentado em assuntos de geopolítica e geoeconomia, não conseguia dizer ao presidente as implicações internacionais de um dólar forte vs. fraco na economia global. O fato de Flynn não estar atento ou não se importar que suas conversas com o embaixador da Rússia, em Washington, seriam gravadas pelo FBI e pela NSA, não foi exatamente uma boa jogada para o profissional de inteligência de longa data. E o fato de que ele alegou não lembrar das conversas não é uma recomendação para nenhum alto comando da comunidade executiva, muito menos para o conselheiro mais próximo do presidente quando se trata de política estrangeira. A promoção incomum de Steve Bannon à NSC duas semanas atrás sugeriu que o presidente queria sua própria fonte para as manobras e maquinações de Flynn dentro do corpo executivo principal da política nacional de segurança.

O Kremlin terá seu próprio modo para decifrar esses desenvolvimentos bizarros e caóticos dentro de uma nova administração que parece não saber conduzir e conceituar a política estrangeira. No passado, líderes soviéticos interpretaram os maiores eventos na história dos EUA de um ponto de vista das implicações com as relações Moscou e Estados Unidos. O assassinato de John F. Kennedy foi interpretado como um esforço para silenciar um presidente que falou em favor do desanuviamento com a União Soviética e que havia concluído o Tratado Teste de Banimento Parcial.

O impeachment de Richard Nixon foi visto como um esforço para trancar o progresso do controle de armas e desarmamento. O pensamento duro inicial da administração George H. W. Bush foi visto como uma tentativa de reverter os ganhos entre Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan no final dos anos 1980.

Ironicamente, Gorbachev e o primeiro-ministro Eduard Shevardnadze tinham seus próprios problemas com o establishment soviético nos anos 80 quando trabalharam para aprimorar as relações com os EUA, incluindo a aceitação de várias medidas de controle de armas da Europa Central e várias areas do Terceiro Mundo. O “novo pensamento” de Gorbachev e Shevardnadze foi um desafio para o pensamento antigo dentro do Politburo, e líderes russos concluirão que o establishment yankee desafiou Donald Trump e Michael Flynn por seus interesses em reverter o declínio das relações Rússia-EUA. Flynn enganou o vice-presidente e a mídia tradicional, mas não é provável que suas conversas com o embaixador russo não tenham sido discutidas com o presidente Trump.

Podemos nunca saber se Trump e Flynn estavam realmente procurando uma grande barganha com a Rússia e Putin, mas certamente parece que o líder russo quer reverter a deterioração das relações bilaterais. Putin, presumivelmente, não está disposto a ir longe quanto Gorbachev e Shevardnadze em relação à acordos benéficos mútuos, mas ele certamente quer reverter a espiral. A ironia reinará de novo se for descoberto que a saída de Flynn levará a um declínio maior nas relações Rússia-EUA.

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