10 de fevereiro de 2017

Caos no Brasil: mais por vir?

As tensões sociais e econômicas do país estão dando lugar a erupções de violência.

Jon Lee Anderson

The New Yorker

As tensões sociais e econômicas do Brasil estão dando lugar a erupções de violência, como uma série de assassinatos no estado de Vitória, após uma greve policial. Foto: Diego Herculano/AP

Tradução / As coisas não estão bem no Brasil. As tensões sociais e econômicas do país estão crescendo e parecem cada vez mais propensas a despontar em violência. Nos últimos seis dias, por exemplo, houve um frenesi de roubos, saques, revoltas, assaltos e assassinatos em Vitória, uma área metropolitana com dois milhões e a capital do estado do Espírito Santo, ao norte do Rio de Janeiro. A razão para o caos é a ausência de forças policiais, depois de terem entrado em greve no estado no último sábado exigindo aumento de salário. O sindicato de policiais disse que seus membros não recebem aumento há quatro anos. Membros das famílias dos policiais se uniram à greve criando barricadas humanas em volta das delegacias.

Os efeitos foram imediatos: na terça, aconteceram 52 assassinatos, e na quinta-feira a contagem de corpos subiu para mais de 100. (Em janeiro, apenas quatro assassinatos foram registrados em Vitória). O governo federal enviou 1200 tropas do exército bem como a força-tarefa especial da polícia, mas ainda não controlaram o caos – e a polícia ainda não voltou ao trabalho. O país está no limite, e há tensões de que uma greve policial similar possa ocorrer no Rio, onde centenas de policiais protestaram contra o orçamento do governo na preparação para as Olimpíadas ano passado.

Mesmo com a polícia trabalhando, e no melhor dos tempos, a aplicação da lei é algo relativo no Brasil. O país possui desequilíbrios econômicos dramáticos e sofre com altas taxas de violência. Os policiais brasileiros são frequentemente corruptos e violentos. Em muitas partes do país, a polícia opera gangues paramilitares que conduzem execuções e lucram com o crime organizado. A taxa de homicídio no país, que é cerca de 25 a cada 100.000, está entre as mais altas do mundo. (Em contraste, a taxa dos EUA é 4 a cada 100.000).

Nos últimos dois anos, os problemas endêmicos do país se exacerbaram com a mais profunda depressão no país desde os anos 30, causada por uma queda acentuada no preço global das commodities. A situação culminou depois de um inquérito judicial revelar que oficiais do governo estavam envolvidos em um esquema massivo de corrupção envolvendo a companhia estatal de petróleo, Petrobras, bem como corporações privadas, incluindo a empreiteira gigante Odebrecht. O inquérito chamado Lava Jato, levou à prisão de muitos executivos. Incluindo Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Enquanto isso, procedimentos de impeachment no parlamente brasileiro, levaram, no verão passado, à remoção da presidente Dilma Rousseff, à substituição do governo de centro-esquerda do PT para um de direita, e à instalação do presidente Michel Temer que também já foi acusado de corrupção.

Ao tomar posse, Temer e seus aliados moveram rapidamente para desfazer o legado de 13 anos do PT, de Roussef e de seu predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, que controlou o país nos anos em que era um dos principais exportadores de petróleo e commodities no apogeu do boom de consumo da China. O Brasil se tornou uma nação dos BRICS e um jogador global, em casa, um programa popular, o Bolsa Família, tirou 40 milhões de brasileiros da extrema pobreza. A maioria desses ganhos agora está em risco, com o governo de Temer instituindo medidas de austeridade e um congelamento de 20 anos em gastos sociais.

Com seu berço social se desfazendo, o Brasil tem todos os ingredientes para mais explosões. Mês passado, gangues tomaram temporariamente diversas prisões e batalharam entre si, resultando em massacres nos quais ao menos 100 pessoas foram mortas. Algumas foram executadas com decapitações ao estilo Estado Islâmico, enquanto outros tiveram seus corações arrancados. Houve ao menos duas revoltas massivas nas quais mais de 90 detentos escaparam; em 25 de janeiro, a BBC reportou que cerca de 40 ainda estavam foragidos. Em uma reviravolta moderna nesses eventos que estão se tornando familiares, prisioneiros tiraram fotos e videos de si mesmos enquanto realizavam as atrocidades. Prisioneiros que escaparam também postaram videos de si mesmos como foragidos.

A postura dos criminosos brasileiros pode sugerir um nível perturbador de impunidade que, no final, é a linha final ligando todas as crises brasileiras. Quanto à situação do Espírito Santo, o líder do exército brasileiro, General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, disse na quinta-feira que iria reforçar as tropas com paraquedistas, veículos blindados, e aviões militares. “A missão será cumprida”, ele tuítou. Mesmo com sua segurança triunfal, há certamente mais rebeliões por vir.

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