12 de fevereiro de 2017

Os senhores da Guerra de Israel dirigem o seu olhar para Gaza - de novo

Gaza grita, mas os belicistas não ouvem. Para eles, a Faixa é apenas uma oportunidade para avançar em suas carreiras.

Gideon Levy


Soldados israelenses participam de um exercício de guerra urbana, 8 de fevereiro de 2017. Amir Cohen / REUTERS.

“Venham, senhores da guerra… Eu posso ver através das vossas máscaras… Mentis e enganais pretendendo que uma guerra mundial possa ser ganha, querem que eu acredite, mas eu vejo através de vossos olhos, e eu vejo através do vosso cérebro. ... Vocês criaram o pior dos medos, o medo de trazer crianças ao mundo". (Bob Dylan, “Masters of War”).

Tradução / Já está. Os nossos senhores da guerra estão de volta. Chegam os belicistas. Não perdem uma oportunidade de pegar num microfone para proferir ameaças sobre a eclosão de uma nova guerra. E ainda assim ninguém lhes faz uma pergunta óbvia: por quê? para quê? O norte esta calmo, o sul também, relativamente.

Mas já passaram dois anos e meio desde a última guerra em Gaza, e o ADN israelita exige uma nova serie de chacinas. E os seus cargos respectivos - Ministro da Habitação e Ministro da Educação - são chatos para pessoas assim. Incentivar os alunos do ensino médio para abordar a matemática avançada ou construir novas habitações públicas é mortalmente aborrecido. Eles precisam de uma nova guerra, que lhes permite, quem sabe, alcançar os postos que desejam.

A Faixa de Gaza morre. Um relatório das Nações Unidas previu que até 2020 Gaza não será capaz de garantir a vida humana. Portanto, aos seus habitantes só lhes restam três anos. Gaza há muito tempo que se tornou uma gaiola imprópria para a vida. Mas quando não há disparos de Gaza contra Israel, ninguém está interessado no destino das pessoas por ali. Hamas para os seus tiros, mas bastou que algum rebelde disparasse dois foguetes desde la Banda para desencadear 19 (!) ataques aéreos israelitas e fazer sair dos seus buracos, todos os nossos belicistas.

Quando falou de Gaza, os olhos de Yoav Galant, Secretário de Estado da Habitação, iluminaram-se e o seu rosto pareceu recuperar a cor. "Acho que deveríamos estar preparados para a primavera", calcula esse senhor da guerra, que sonha em retornar a Gaza para continuar a matar, como fez durante a operação "Chumbo Fundido", há oito anos. Por quê na primavera? Não há necessidade de fazer a pergunta. Haverá certamente alguma razão que vocês desconhecem. Talvez porque Charles Aznavour cantou sobre o tema voltar na primavera.

Na semana passada Galant aproveitou todas as oportunidades mediáticas- excepto a cadeia de música clássica Kol Hamusica- para atiçar as chamas e empurrar para uma guerra. É verdade que ninguém teria o trabalho de entrevistar este aborrecido Ministro da Habitação -o que o seu colega de partido Moshe Kahlon, Ministro das Finanças, detesta também- se não for para falar sobre Gaza. Como não brilhou sobre o tema da construção, Galant um ex-militar, tentar voltar às destruições. O partido Likud espera-o.

O Ministério da Defesa é desejado também por Naftali Bennett, Ministro da Educação. Mas para o conseguir, há que atiçar as chamas. Dado que o relatório oficial sobre o fracasso na gestão de túneis do Hamas em Gaza não foi suficiente, Bennett também sonha com uma nova guerra. "A próxima sequência de guerra está próxima", disse ele, e esta é uma previsão que, em Israel, sempre acontece. Nem ocultou até que ponto tem pressa para voltar aos campos de morte de Shujaiyeh [massacre de civis em Julho de 2014] e reuniões confidenciais com oficiais do exército.

E ainda há, é claro, o actual Ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, que, mesmo no seu actual papel modero, não perderá a oportunidade. "Não pararemos até que o outro lado peça socorro " (gevalt palavra de origem Yiddish) declarou com arrogância. Houve novamente promessas vazias de uma vitória decisiva que nunca se realizará, e mesmo assim todo o mundo concorda em aceitar o argumento.

Mais uma vez todo mundo espera o próximo ano como se fosse um destino ditado pelo Todo-Poderoso, que não está por Gaza. Na verdade, Gaza pede gevalt. Mas nenhum dos belicistas a ouve. Gaza representa para eles uma oportunidade de subir suas carreiras, de mobilizar forças e conceituar uma guerra contra o inimigo que é nada mais do que um ataque contra uma população indefesa, "um exército de loucos." Gaza permitir-lhes-á manchetes mais uma vez, alcançar de novo a glória, voltar aos bons velhos tempos dos uniformes de combate. Caso contrário, não haveria nenhuma razão para lançar um novo ataque a Gaza.

A deterioração da situação poderia ser rápida. Basta um acordo com apenas algumas novas declarações de guerra, algumas respostas "desproporcionais" do exército israelita a cada fogo-de-artifício (foguete) ou rocket lançado a partir de Gaza, para que vamos para lá. Foi Israel mais do que Gaza quem provocou a guerra em 2008 e em 2014. O exército estava em Gaza antes que se conseguisse dizer "charutos e champanhe".

E não existe ninguém para gritar "pare" alguém que diga que aqueles que não querem uma guerra em Gaza devem deter o bloqueio, em vez de destruir a Banda pela terceira, quarta, quinta vez. Mas para o dizer haveria de ter coragem, uma qualidade que não existe entre os nossos senhores da guerra que, como expressam as palavras de Dylan nunca serão perdoados.

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